September 2, 2010

A política despolitizada


O Fabio Campana publicou um informe, meio notícia e meio nota de apoio, sobre a intenção do candidato a governador do Paraná Beto Richa (PSDB) "despolitizar" os pedágios.

Vê-se o tom:

Beto voltou a afirmar que, ao assumir o governo, vai despolitizar a questão do pedágio, que no Paraná já foi alvo de ações eleitoreiras em duas ocasiões e nunca foi resolvido

Muito impressionado, este blog fez dois comentários. Em primeiro lugar, manifestando a surpresa: quer dizer que uma ação eleitoreira e política pretende se identificar como a-política, acusando outras ações eleitoreiras e políticas?

No segundo comentário, perguntamos a ele o que significava tal ato "despolítico". O comentário não foi aprovado. Se Campana endossa o ataque à "política" do ex-governador Roberto Requião (PMDB) acusando-a de antagônica aos pedágios, deveria justificar tal ataque e o uso de "despolítico". Requião nunca negaria que cometeu um ato "político". E ainda valorizaria a palavra.

No limite, qual ato político se classifica como "despolitizado"? É curioso um jornalista aparentemente endossar a tese simplesmente vinculando o informe, vetando ainda comentários questionadores.

Embora o post de Campana não admita, simples concordâncias assim ocultam propósitos bem políticos. Outros pretensos "administradores públicos" negam o próprio papel político em nome de discursos tecnocráticos duvidosos. Alguns meses atrás lá estava Paulo Renato, aliado nacional de Richa, querendo "despolitizar" a educação. A tecnocracia é sim um tipo de política, e bem peculiar.

Não por acaso, Renato Janine Ribeiro acabou de lançar um livro com um curioso título: Política - Para não ser idiota. O título indiretamente faz chacota de comentários como o de Richa no blog do Campana. Se não fazemos política, o que somos?

"Idiota", parece provocar o título, resvala do senso comum ao antigo uso grego. "Política para não ser idiota": ação pública para afastar aqueles que buscam apenas ganhos privados. A política visa os outros; o des-político, o "idiota", visa a si mesmo (isto é, a um conjunto de interesses que servem a certa particularidade).

August 30, 2010

Os “direitos” de cópia invadindo a ciência


A depender de muitos organismos dominantes da internet, dentro de alguns anos deveríamos dar adeus às tradicionais imagens do pesquisador: aquele homem bondoso, trabalhador de laboratório ou enterrado em bibliotecas, contribuindo para o conhecimento humano.

Tais organismos, como o Jstor e o Springerlink, ganham dinheiro cobrando do usuário o acesso de artigos científicos. Aquela imagem do pesquisador bonzinho deveria, assim, ceder lugar a alguma outra (talvez aquela do executivo de sucesso que representa mais o primado do interesse bem pago e menos o do conhecimento altruísta)

Imagine o leitor precisando acessar 10 artigos para uma pesquisa. Os preços variam: 20, 30, 35 dólares… cada um! Gasto idiota (=submetido a interesses particulares) tanto para o bolso pessoal quanto para o emprego de verbas públicas, visto que tudo deveria ser indiscutivelmente gratuito.

Isso gera um efeito muito curioso, semelhante ao de algumas empresas burocráticas que trocaram a máquina de escrever pelo computador apenas para "dificultar" o trabalho de configurar a impressora e buscar o papel. No caso de empresas como o Springerlink, requisitar um pequeno artigo de poucas páginas implica vários e vários formulários com tempo de resposta de 10 dias úteis, contratos de cláusulas gigantescas e ameaçadoras (se pelo menos protegessem o autor…), links minimalistas e labirínticos, sem considerar o preço.

Nesse sentido, não foi por acaso a ação impetrada contra Horacio Potel. Curiosamente, multiplicadores do livre conhecimento começam, depois de 15 anos de abertura da WEB, a se tornar perigosos na visão dessa gente.

Tempos atrás apareceu um debate sobre autores que recusam conceder direitos de cópia a esses sites pagos. Se eles cobram, deveriam pagar ao autor, não é mesmo?

Não é à toa também o debate sobre o Google conceder privilégios a um único meio, o Verizon. Ou mesmo o medo de bibliotecas como a BNF diante da soberania - e fechamento - de boa parte dos conteúdos do Google Books

Por isso trabalhos semelhantes ao de Potel nunca foram tão necessários. ;)

August 27, 2010

O mapa do aquecimento


O Um Instante publicou um post muito interessante sobre aquecimento global. Conforme um jornal polonês chamado Gazeta Wyborcza (baseado nesse organismo), vivemos as mais altas temperaturas desde 1880.
 
O jornal inclusive divulgou um mapa das áreas que mais aqueceram (reproduzido abaixo). De algum modo, fenômenos como o quente verão do norte e o igualmente quente inverno no sul não seriam simples coincidência:
 
Photobucket Pictures, Images and Photos
 
Ao período climático anômalo, ressalta o Um Instante, deram o nome de Antropoceno, devido obviamente à interferência humana. E o blog  português faz, nesse sentido, uma formulação muito interessante:
Até aqui nenhuma novidade além daquilo que a cada verão se confirma e a todos preocupam, inclusive a dificuldade em barrar o ritmo de aquecimento já que a interferência humana tende a aumentar mesmo que a contragosto de todos.
O aquecimento global é como o trânsito às 6:30 da tarde: cada vez pior, mais reclamado e insuportável - mas cada reclamante não abre mão de, todo dia e zelosamente, estar ali com seu carro.

August 25, 2010

De Ulisses a Macbeth


Para os despertos há um mundo único e comum; entre os adormecidos, porém, cada um se dirige ao seu próprio mundo (B 89)

A Odisséia não é a epopéia das auroras por acaso. Nas muitas auroras espelham-se homens que despertam. Ulisses e Telêmaco não despertam da mesma maneira. Impelido pelo desejo de conhecer, Ulisses acorda para um mundo imenso, variado, perigoso. Para sobreviver, requerem-se dele decisões originais. A experiência não lhe assegura êxitos futuros. Situações imprevistas solicitam opções unauditas. O grande mundo, o comum de todos, desdobra-se em muitos mundos. A variedade não rompe a unidade.

Telêmaco progride na descoberta do mundo e de si mesmo, de si através do mundo. A viagem que empreende na construção de si não é menos arriscada que as aventuras do pai que tarda em retornar. Por se encontrar em posição eminente, muitas vidas estão subordinadas a resoluções dele. Outro teria sido o retorno de Ulisses, se Telêmaco não tivesse agido como agiu. Como Ulisses, Telêmaco atua no mundo comum a todos em benefício seu e da coletividade. Jovem ainda, vemo-lo despertar. 

São esses os despertos? Os adormecidos procedem em vigília como se estivessem dormindo, isto é, vivem em mundos só deles à maneira do que se passa em sonho. Como adormecidos vivem os pretendentes de Penélope, alheios ao bem-estar de quem quer que seja. 

No teatro de Shakespeare desfilam heróis adormecidos em mundos privados. Não é sem motivo que Macbeth perpetra o mais hediondo dos crimes à noite, encerrado dentro do seu próprio palácio. Perdida a sensatez, interesses só dele repelem honra, justiça, paz. 

Ulisses e Telêmaco,  batendo-se pela família e pela pátria, ainda não representam o homem desperto de Heráclito. Estão em vias de despertar. A unidade entrevista por Ulisses, expressa na presença universal dos mesmos deuses, esta é a vigília de Heráclito. Ele a define como Discurso, único e esquivo, presente e inabarcável. Sendo maior que as visões mais abrangentes, surpreende mesmo os mais lúcidos. No sistema de Heráclito não há como despertar da ignorância sem a luz do Discurso universal que propicia a passagem do particular (to idion) ao geral (to koinon).

Ulisses começa a despertar. E quem terá despertado de todo? Os olhos abrem-se quando passamos a tratar outros como iguais, quando promovemos troca de palavras, de objetos, de pessoas, de idéias. A proximidade dos que discorrem difere da presença meramente espacial, da adição numérica. Os poços enfrasam-se em encontros fortuitos, em projetos comuns. O espaço que nos é comum não nos foi dado, a cada gesto de aproximação. Há espaço comum quando a diferença não provoca indiferença.

A bela passagem faz parte do livro Heráclito e seu (dis)curso, de Donaldo Schüler.

August 23, 2010

Cabos eleitorais na internet


Em época de eleição, todo mundo vê e sabe que os cabos eleitorais estão por todo lado.
 
Uma novidade, entretanto, é sua presença nos blogs e no twitter. Não há candidato sem cabos eleitorais nesses instrumentos.
 
E como eles operam? É muito curioso, por exemplo, ver o twitter reproduzindo, copiando, simulando a mesma linguagem empregada nos chavões eleitoreiros, nas faixas de rua, enfim nas antigas práticas politiqueiras do Brasil.
 
Pergunta trivial: quanto ganham? É legítima tal atuação, fazer campanha em sites da internet?
 
Por exemplo, faz isso o @_Betowitter, um twitter ligado ao candidato Beto Richa, do PSDB do Paraná. Qualquer leitor constata lá a presença de um cabo eleitoral, pelos motivos seguintes: a página existe exclusivamente para a campanha, todo o conteúdo opera voltado ao candidato, não há discussões, apenas motes e chavões eleitorais, com palavras de ordem e fórmulas de rápida (?) memorização (?).
 
Perguntamos ao _betowitter quanto ele recebe para fazer campanha. A primeira resposta foi: "um estado melhor!" E apertando um pouco mais, vem a pérola, digna de um "novo Paraná" (sic):
 Perguntei quanto @_Betowitter ganha para fazer campanha para Beto Richa.Resposta digna da campanha http://twitter.com/_Betowitter/status/21849434370
 
Todo mundo sabe que um cabo eleitoral recebe fazendo campanha. Mas… e quando se trata da internet e o cabo eleitoral nega (ou não esclarece ou responde desse modo), como isso deve ser lido?
***
 
E talvez alguns leitores se lembrem de antigas discussões entre Idelber Avelar  e alguém que deveria ser José Agripino.
 
Primeiramente, utilizavam o próprio twitter do político para responder em nome de Agripino. Depois, um dos escritores, auto declarado "filósofo", confessou tratar-se de cinco escritores, na verdade assessores do político. Com as críticas, geraram outro twitter chamado "equipe Agripino".
 
E essa equipe? Em que consiste? Quais são suas atribuições? E o twitter, enquadra-se em que tipo de atribuição?
 
Seria interessante ler a resposta, ainda mais sabendo que o mesmo endereço que servia a assessores hoje faz campanha para o candidato.

August 19, 2010

As diferenças que somem e as que aparecem



Greeting the “Arctic Highlanders” (Inughuit) in Greenland (detail), from John Ross, A Voyage of Discovery, 1819.

O César Schirmer divulgou uma reportagem muito interessante, sobre a pesquisa de um antropólogo para documentar uma cultura com pouco tempo de vida: dentro de 10 ou 15 anos, os últimos esquimós Inughuit abandonarão o Ártico por problemas decorrentes às mudanças climáticas.

No outro lado do mundo, dias atrás o fotógrafo amador Jan Reurink chamou discretamente a atenção sobre o desaparecimento dos nômades no Tibet. O governo chinês se interessa em gradativamente assentar esses nômades, fazendo avançar o papel do Estado e todas as medidas populacionais a ele inerentes (saneamento, educação, saúde, moradia, exploração econômica dos recursos, etc.).

De um lado, as mudanças climáticas dificultam a existência de antigos ritos e culturas peculiares. De outro, o avanço sócio-econômico desaloja (ou melhor: aloja, e isso é o mais interessante) culturas irredutíveis.

August 16, 2010

Elogio a Cristiane Yared


Com o passar dos anos, um tema é cada vez mais comum na mídia: a opinião dos especialistas. Hoje, para lavar as mãos ou passear em uma calçada, para se comportar no trânsito ou na entrevista de emprego, para tudo buscamos "especialistas". E o termo é genérico mesmo: "os especialistas dizem…"

Se "os especialistas dizem", logo isso tem um efeito imediato de verdade. Enfim são especialistas, consultados por fontes confiáveis de informação. Suas prescrições possuem o efeito imediato de cada espectador analisar a própria conduta, e nessa análise perceber o que corresponde ou não a certas condutas normais para determinadas situações.

Os "especialistas" são muito requisitados em situações-limite: tragédias, desastres naturais e fatalidades se apresentam como os  temas corriqueiros. E não é raro ver, nas prescrições para esse tipo de temática, práticas relativamente comuns: o vitimado por uma fatalidade (ou o familiar) deve buscar atendimento especializado (médico, psicológico), grupos de apoio, auxílio da família, eventualmente suporte religioso; valores muito trabalhados são a aceitação (fatalidades são naturais e passíveis de acontecer a todo homem), a resignação, o retorno à vida normal e anterior à fatalidade - ou também a convivência normal ou a tentativa dela com uma fatalidade que nunca se esquecerá -, e assim por diante. Em jogo está a tentativa da vítima retornar à vida normal sem cicatrizes, ou pelo menos com um menor número ou visibilidade delas.

Enfim, qualquer vitimado sabe que as marcas do evento traumático foram profundas, e o grande desafio é conviver com elas.

Nesse sentido Cristiane Yared nos traz uma situação exemplar. A mãe de Gilmar Rafael Yared, morto em um acidente de carro envolvendo o ex-deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho (que dirigia alcoolizado, com a carteira cassada e numa velocidade superior a 170 km/h), certamente se deparou com todas as questões acima. Mas em seu caso há algo mais, evidente pela própria fatalidade.

Os especialistas muitas vezes recomendam (como se vê acima) práticas e valores individualizantes e psicologizantes para o vitimado lidar com a própria dor. O esquema é semelhante ao do desastre natural: uma natureza muito superior à ação humana evoca antigos valores como o da resignação (o que fazer contra um desabamento ou um furacão?). Mas tais práticas e valores não foram suficientes ou pelo menos não serviram de linha mestra na relação de Yared com sua dor. Para ela foi necessário algo mais, pois o simples trabalho  sobre si mesma e diante da própria dor não garantiria a atenuação dela.

Desde o acidente com o filho, assombrada pela ameaça de impunidade e mesmo com as informações controversas e contraditórias sobre dados bem objetivos (amostras de sangue, exames periciais, enfim um certo emprego duvidoso de dados oriundos de nossos curiosos especialistas), Cristiane Yared se moveu publicamente. Diversas vezes manifestou seu luto, e - o que é aqui importante - o reforçou buscando não o desvincular da situação traumática.

Desvincular o próprio luto da situação traumática é uma linha mestra em diversas práticas de expertise. Um vitimado por vulcão pode condenar a ordem (ou caos) universal, mas sabe que um dia deverá se resignar a essa ordem e aprender que seu choro e luto são elementos individuais, psicológicos, imaginários, mas por definição infinitamente menores frente aos acontecimentos cósmicos. Um motorista estressado e orientado por especialistas também aprenderá a relaxar no interior de seu carro com paliativos à escolha. Recomenda-se ao morador temeroso de assaltos a compra de medidas individuais de segurança. Em todos os casos, encara-se a ação individual como desvinculada da "ordem" "natural". Nada posso fazer contra uma ordem que me ultrapassa; portanto devo me abster dessa ordem, separar minha ação dela, ter ciência de que minha ação visa apenas a minha pessoa, e portanto a ação é valorizada positivamente apenas nas vias em que é absolutamente visível, evidente e recomendável agir. Tudo o mais é grosso modo imaginação, vã pretensão, pensamento mágico.

Pelo menos no que diz respeito às relações humanas, vê-se bem onde Yared solapa o esquema. Seria apenas mais um caso entre outros se, depois do acidente, a família da vítima se recolhesse no jogo de aguardar pacientemente os resultados do julgamento enquanto  lida privadamente com o luto. As controvérsias sobre possíveis adiamentos em resultados e exames, as discrepâncias nas análises periciais (encomendadas pela família ou pela justiça), a visibilidade do caso e o indubitável agravante do ex-deputado assumir o risco de dirigir embriagado em tais circunstâncias, isso nunca atingiria tal repercussão caso a família não se movesse. Nada disso ocorreria, como testemunham tantos outros casos já esquecidos e por esquecer.

Cristiane Yared trabalha seu luto com a família, as orações e os amigos. Como qualquer vítima de fatalidade, ela sabe que o evento traumático traz marcas para a vida inteira. Mas seu modo de lidar com a dor implica não separar a ação individual de seu horizonte social, não recolher a ação no âmbito simplesmente privado. Há ocasiões em que se pode agir contra as injustiças ou fatalidades sofridas, mesmo quando o raio dessa ação não é imediatamente visível. O importante, nos ensina Yared, é nessas situações não confinarmos a possibilidade da ação em um drama privado, mesmo quando todos nos incitam a fazê-lo.

August 12, 2010

O “drama” dos candidatos


Se eu fosse um daqueles chamados "psicólogos existenciais" (livros), seria muito tentador analisar a campanha eleitoral que começa a se desenhar.
 
Isso porque, ligando a TV ou o rádio, é fácil comparar o relato, a cobertura midiática, aos "dramas existenciais" dos pacientes desses psicólogos.
 
Na "terapia existencial", um paciente chega ao psicoterapeuta e começa a falar sobre si, sua vida, sua relação com os outros. Na medida que o relato avança no setting terapêutico, o discurso do paciente começa a compor uma série de conjuntos ou complexos temáticos, mais ou menos hierarquizados e relacionados entre si, até a narrativa formar, cada vez mais, um drama existencial global, enfim, algo da alçada do "mundo" que o paciente abre diante de si e de suas atitudes.
 
Diante dessa unidade, composta de todas as outras narrativas, o terapeuta consegue enxergar como o paciente "vive" (ou não vive) seu "drama", como ele "escreve" ou não a própria história (ou, em sua própria história, como ele deixa paradoxalmente de vivê-la), e assim por diante.
 
Um "drama" existencial pode denotar em sua narrativa os caracteres do conflito, do abandono, da alienação, ou mesmo fatores como a harmonia, a plenitude, a realização (em algo próximo ao que se chama de "cura").
 
Pois bem, para algum psicólogo existencial o horário eleitoral, os debates e as entrevistas poderiam ser lidos igual a esses diversos temas que compoem os universos de seus pacientes. No caso, não se trata do drama individual dos candidatos, mas do drama "midiático", o da relação entre os candidatos e os jornalistas, esse drama que sai não da boca de um paciente, mas dos fones e tela do rádio e da TV.
 
E assim ele veria como, especialmente nos regimes narrativos mais difundidos, alguns candidatos são apresentados como vivendo o mais puro conflito e contradição, enquanto outros, diante dos jornalistas, vivem a mais terna harmonia, aconchego, receptividade, quase igual à relação entre mãe e bebê. Outros são ouvidos, mas seu drama - não o do candidato, mas o "midiático", vale repetir - parece emanar mais uma tagarelice vazia de conteúdo. E outros, ainda, têm o discurso desqualificado antes de começar a falar. Sem contar os candidatos simplesmente ausentes.
 
O psicólogo poderia perguntar: qual seria a relação entre o que sai da boca de cada um desses candidatos e o que sai dos fones e telas do rádio e da TV? Certamente até o candidato ausente fala, mas ao mesmo tempo, é como se não falasse.
 
E aí se interpõe uma curiosa questão: em certo sentido o que um candidato mostra diz mais respeito à relação desses fones e telas com ele, do que puramente o conteúdo, digamos, "dramático", de seu programa de governo.

August 10, 2010

Uma última gota “da gota”


O que define um transporte público ruim? Primeiramente, sua inexistência: ausência de ônibus/metrôs, atrasos, demora e mal distribuição das linhas.

Em segundo lugar, a má qualidade dos veículos: falta de limpeza, apoios engordurados e ensebados, mal cheiro, veículos antigos e mal conservados, buracos na lataria, peças soltas, secas, rígidas, cortantes.

Em terceiro lugar, a má qualidade do atendimento: gargalhadas do motorista enquanto pilota em alta velocidade ao lado de outro ônibus da mesma empresa, direção perigosa e imprudente, alta velocidade, terminais com má conservação, infrações de trânsito.

Quarto lugar: a existência de transporte alternativo, mais ou menos irregular e muitas vezes no limiar da irregularidade. E convivendo com ela, o mal salário dos motoristas regulares, a eliminação de cobradores, o enxugamento do quadro de pessoal.

E finalmente, o marasmo dos usuários. O motorista furou sinal, ultrapassou pela direita, fez curva fechada em alta velocidade, quase causou acidente, e qual é a reação dos usuários? Alguns entreolhares tímidos, com uma espécie de sorriso que parece passar o recado de "estou bem, eu aguento".

Cabra macho não reclama, não é mesmo? Ou quando reclama, é para arrebentar.

Algo deve ter ocorrido para que os moradores de Laranjeiras, perto de Aracaju, reagissem assim: queimaram três ônibus, acusando a má qualidade do serviço.

Pode-se imaginar a cena: o ônibus quebrou, alguns indignados saltaram e começaram a depreda; outros se encorajaram, o levante ganhou força e enfim queimaram os veículos.

Curiosamente, a má qualidade não é exclusiva de Laranjeiras, Aracaju, ou vários outros lugares do Brasil, inclusive cidades consideradas "modelo". Então, por que a revolta aqui, e não nos outros lugares? E o que explica essa revolta agora?

É difícil de compreender os motivos. Mas não deixa de saltar aos olhos o modo como se reage: primeiramente, uma passividade conivente, um marasmo existencial, certo alheiamento diante de tudo o que deveria fazer parte cotidiana do cotidiano (uma redundância interessante). E em segundo lugar, o extravasamento, uma espécie de linchamento do serviço público, certo tipo de "troco".

Já era assim antes. E salvo ações bem específicas, nada garante que o incêndio trará, aqui ou lá, melhorias radicais. Nesse sentido, a resposta da prefeitura de Laranjeiras é impagável (e tão universal quanto), subtraindo a própria responsabilidade. Estão ali todos os elementos: se a prefeitura licitou (se licitou), ela agora declara não ser de sua competência, mas do Estado, a fiscalização dos problemas; mesmo assim, ela ousa declarar que "mantém a mesma posição de cobrar e exigir dos representantes da empresa um melhor atendimento à população" (sic!). "Manter a mesma posição": só resta saber se isso foi uma confissão ou uma declaração infeliz.

Não são curiosas essas relações mantidas com o próprio cotidiano, bem como essas reações extravasadas? E por outro lado, não são incríveis as respostas da dita esfera "pública"? É como se não fizéssemos parte do que se chama de "público", e afinal se há por aí algo de público, certamente não se aplica (ou melhor, aplica-se sim, "olha aí ó") a esse ônibus velho, sujo, caro, demorado, cheio de gente e oferecido goela abaixo.

Mas há mais: esse tipo de constatação se faz tantas vezes quanto é preciso para torná-la mais um clichê, um desabafo tolo a mais. E assim conseguimos reforçar o mesmo regime de atitudes que pensávamos, agorinha, denunciar.

August 8, 2010

Depois da missão


 

No recente seriado da HBO, intitulado The Pacific, um personagemdo exército norte-americano dizia ao outro, enquanto esperavam os japoneses: "Penso que, se estou aqui, é para que outros mais, muitos outros, não morram".

Esse tipo de narrativa, bem próximo a filmes com Tom Hanks e Spielberg (eles ajudaram a produzir a série), também se encontra em muitos outros filmes. Em Falcão Negro em Perigo, um personagem justificava sua participação na guerra simplesmente pela presença dos companheiros. E em The Hurt Locker o "mocinho" larga a esposa para tarefa semelhante.

Se a mera presença dos colegas justifica a guerra do mesmo modo como, por exemplo, justificaria permanecer em um bar, isso é deveras controverso. Bem como é controverso afirmar que qualquer guerra justifica minha estadia lá para que outros mais não morram.

Mas esse tipo de justificação pulula em temas de guerra hoje em dia, sem entretanto conviver com as mesmas figuras de antigamente. É curioso constatar a frequência de figuras semelhantes aos homens das fotos acima, caracterizadas com motivos de morte.

O Big Picture e outros blogs do tipo já exporam diversas vezes as tatuagens e trejeitos de soldados: não são mais espécies de personagens de Tom Hanks escrevendo cartas nostálgicas para casa, mas modernos garotos com notebooks, blogs e adornos (tatuagens, colares, etc.) ligados a música pesada.

Pelo menos em certo sentido, não se pode julgar o soldado pela indumentária. Do outro lado desse universo metaleiro, há também integrantes das mais diversas seitas norte-americanas, não raramente ligadas a uma espécie de protestantismo neopentecostal de ultra-direita. Um blog desse segundo tipo de combatente (hoje inativo) já chegou a afirmar: “it’s not my job to die for my country and beliefs… it’s to make those bastards die for theirs!" ("não é meu trabalho morrer por meu país e crenças… é fazer esses bastardos morrerem pelos seus!".

Humanitarian mission gift por The U.S. Army  Survey strategy por The U.S. Army

Entre os dois extremos, talvez se possam multiplicar os tipos. Deve haver um tipo de militar para cada tipo de pessoa, e nesse sentido inúmeras justificativas para as duas guerras. Só é difícil encontrar, em todas essas tribos, uma justificativa boa. Ainda mais vendo como se comportam os superiores desses soldados. No caso WikiLeaks, eles se comportam de modo nitidamente oposto aos oficiais "humanistas-libertários" de The Pacific. Basta ver a mais nova proibição imposta aos soldados: eles não podem mais acessar o Wikileaks!

 The orders seem to be the most far-reaching effort by the Pentagon in its ongoing effort to stop the release of classified information. The military is telling the troops they cannot even view what is publicly available, even though the WikiLeaks documents are on hundreds of websites.

(…) "[Department of the Navy] personnel should not access the WikiLeaks website to view or download the publicized classified information. Doing so would introduce potentially classified information on unclassified networks." (…)

Independente da perspectiva ou crença do soldado, só parece faltar o mesmo que falta em muitos filmes: em meio a tanto efeito visual, falta argumento.