November 3, 2009

Entre o meritocrata e o tecnocrata, o mundo é dos espertos

Na edição de Veja da semana, a revista entrevistou Paulo Renato de Souza, ex-ministro da educação do governo FHC e secretário da educação do governo Serra.

O título da entrevista na edição on-line dá o tom: "Contra o corporativismo: O secretário da Educação de São Paulo diz que sem meritocracia não haverá avanços na sala de aula - e que os sindicatos são um entrave para o bom ensino".

O que parece interessante é a idéia que Paulo Renato pretende fazer passar por debaixo do tapete: a "meritocracia", contra o "corporativismo" dos professores brasileiros.

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October 30, 2009

A era “pós-teórica”

Na era da informação, muitos asseguram que as "teorias" se "dissolvem".

Ontem Fabiano Angelico, do Transparencia Brasil, vinculou um interessante texto sobre como nossa época se definiria pelo abandono das "teorias" em nome de um caráter imediato e imperativo da "prática" (como se isso não fosse uma baita teoria), dado vivermos na era da informação e a teoria ser um índice de ausência de informação:

In the absence of data, you theorise. In an abundance, you just need to do the maths. And, because of all those super-efficient search engines, we share more and more data. Data dissolves ideology.

Two further books exemplify this: David MacKay’s Sustainable Energy—Without the Hot Air and Stewart Brand’s Whole Earth Discipline are rigorous responses to the challenge of climate change. Both work from data rather than theory, and offer systems of management rather than ideologies. Both are number-rich and theory-light, and urge action—now. In MacKay’s words: “We have to stop saying ‘No’ and start saying ‘Yes’.” In Brand’s: “We are as gods and have to get good at it.” [Brian Eno, The Post-Theoretical Age]

Esqueçamos a denúncia das ideologias, as tentativas de diagnóstico, as abstrações. A informação está toda ela aí, não há ocultação ou privilégio, e sim excesso. Por isso ela "dissolve a ideologia". A tarefa, portanto,  não é mais "teórica" ou "ideológica", não é mais uma tentativa de olhar através dos acontecimentos para tentar decifrar sua trama, mas sim organizá-los segundo suas regularidades. Não há mais "opacidade" e um olhar tentando transpassá-la, não há mais necessidade disso; agora, tudo seria "transparente". Não perguntemos mais como a vida deve ser ou não vivida, basta geri-la.

Isso é interessantíssimo. Pois, dentro de tantas modas de inserir a pequena palavrinha "pós" antes de quase tudo, talvez Eno encontrou uma palavra finalmente apropriada: era "pós-teórica". 

Da linguagem corporativa ao marketing e às relações cotidianas, enfim até no ensino, tudo repete o imperativo: Just do it. Just Go. Nem os movimentos "teóricos" do século XX, denunciando uma crescente tecnização do homem, foram suficientes para conter o tal imperativo (que o leitor desculpe nosso pequeno deslize teorizante nesta frase, prometemos que foi somente essa!).

Imperativo tornado tão evidente, tão óbvio, que olha ele expresso por um grande player em pleno governo George W Bush, diagnosticando - ops, quer dizer, prescrevendo - toda a nossa época, em um clássico artigo publicado no NYT em 2004:

The aide said that guys like me were "in what we call the reality-based community," which he defined as people who "believe that solutions emerge from your judicious study of discernible reality." … "That’s not the way the world really works anymore," he continued. "We’re an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you’re studying that reality—judiciously, as you will—we’ll act again, creating other new realities, which you can study too, and that’s how things will sort out. We’re history’s actors…and you, all of you, will be left to just study what we do."

"O mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade - judiciosamente, como queiram -, agimos novamente, criando outras novas realidades, que vocês podem estudar também, e aí está como as coisas serão. Somos os atores da história… e vocês, todos vocês, apenas ficarão estudando o que nós fazemos".

October 28, 2009

O Fim do Geocities (1994-2009)

O serviço de hospedagem gratuita de sites do Yahoo, chamado Geocities, foi apagado ontem, dia 26/10/2009.
 
O que parece uma notícia banal é, na verdade, um marco na história da internet. Criado em 1994, o GeoCities foi a primeira plataforma realmente "popular" de divusão de conteúdo, bem antes dos blogues.
 
Antes do nascimento de ferramentas como o Google, o Geocities organizava seus conteúdos em "cidades", com longos endereços temáticos, divididos em sub-temas e aí no número de cada site (ex.: http://www.geocities.com/TheTropics/Cabana/8434/superind.html - antigo endereço do fabuloso quadrinho "Supermanietzsche")
 
Primeiramente autônomo, o endereço foi incorporado ao Yahoo!. Mas a incorporação não trouxe ampliações ao serviço, praticamente inalterado enquanto evoluia o resto da Rede. O Geocities permaneceu com os mesmos recursos dos anos 90 enquanto surgiam os blogues, as plataformas dinâmicas, as comunidades virtuais e os endereços curtos.
 
Perdeu usuários. E mesmo as pequenas alterações (primeiramente o endereço encurtado para o nome de usuário; depois um frame de publicidade no lado direito da tela, e uma plataforma limitada de blogs) não acompanharam a Rede.
 
O Geocities é importante porque nessa plataforma vimos pela primeira vez um fenômeno relativamente corriqueiro hoje em dia: pessoas comuns despontando como difusoras de informação e do que a informação pode ocasionar. Indivíduos comuns com privilégios relativos e temporários diante da "grande mídia".
 
Com uma diferença: a novidade dessa mídia, nos anos 90, conferia a essas pessoas um estatuto estranho, não evidente, dificilmente enquadrável. Não foram poucos os textos de jornal ou revista se reportando a esses tipos de site com certo ar de desconfiança, reprovação ou reserva, ao mesmo tempo em que se admitia haver ali um fato novo e informações efetivas e pertinentes.
 
Tal "estranheza", na época, era de muitos modos festejada. Criou-se literatura em novos formatos, e muito se explorou sobre as possibilidades do hipertexto e suas relações com a "realidade". Essa passagem do hipertexto à realidade - e não da realidade ao hipertexto, preocupação de todo movimento posterior até hoje - trazia importantes questões, sobre possíveis contribuições da Rede para a emancipação das pessoas.
 
Como dizia a autora do informarte.net, abria-se a possibilidade de verdadeiros bailes de máscaras, com tudo o que um "baile de máscaras" significa: um grande encontro aberto, onde os indivíduos deixam mediações autoritárias ou personalizantes de lado para construir algo em comum.
 
No auge do Geocities, despontava esse tipo de questão.

October 25, 2009

Teoria e Prática em responsabilidade social

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do Malvados (clique para ampliar)

Um self made man, familiar ao ambiente corporativo, prestava entrevista para elucidar o "conceito" (não seria noção?) de "responsabilidade social". Ostentando a figura retórica do "homem prático" (não esses teóricos infames, perdidos em conjecturas e abstrações, sem resultados práticos na realidade), ele inicia comparando "responsabilidade social" das empresas com "filantropia".

Filantropia - segundo nosso self made man - se resume a uma benfeitoria localizada: a empresa pode sustentar uma posição de socialmente responsável quando, no fim das contas, faz pequenos benefícios, como uma doação, uma melhoria externa ou algo do gênero.

Já "responsabilidade social" seria algo mais amplo, englobando toda a empresa. Ou melhor, não apenas a empresa, mas o ambiente circundante, de uma forma não apenas episódica (isso é filantropia), mas arraigada na própria missão da organização. Uma empresa com responsabilidade social, diz nosso entrevistado, não faz apenas atos responsáveis, mas carrega a "responsabilidade" no seio de suas práticas cotidianas, do atendimento do cliente ao serviço, passando pelos produtos e projetos extra-corporativos. (Talvez o entrevistado não saiba que, antes do nascimento dos discursos corporativos e das "ciências" da administração, existiam muitas "gestões" (é como se chama hoje) de práticas filantrópicas, muitas vezes confundidas com o que ele mesmo chama de "responsabilidade social"; talvez ele também desconheça que tal universalismo da "responsabilidade social" talvez nasceu de outro, filantrópico, muito bem localizado. Mas isso é outro assunto! ;))

O entrevistado admite - no costumeiro tom en passant quando se trata disso - que o fim de qualquer empresa é o lucro puro e simples, e não a filantropia ou a sociedade. Mas rapidamente complementa: tanto melhor se, junto ao fim da empresa, que é o lucro, somarmos em seus meios isso que chamamos de responsabilidade social. O resultado é bem prático e visível: fins lucrativos unidos a meios sociais beneficia todo mundo, não é mesmo?

Mas, no fim das contas, como saber se uma empresa é socialmente responsável? Como garantir a efetividade de tal responsabilidade, pergunta a repórter? 

Ora, diz nosso herói, a responsabilidade de uma empresa se mede por seus resultados. Sob que critérios? O próprio consumidor. Em tempos como esses, uma empresa sem responsabilidade social efetiva não sobrevive ao consumidor consciente. Ciente do que faz a empresa fabricante do produto que consome, o consumidor rapidamente trocará de empresa, quando souber de qualquer irregularidade, qualquer "irresponsabilidade".

Dado isso, a repórter não perguntou, por exemplo, a que se deve o sucesso dos produtos chineses, se o consumidor é consciente e sua consciência regulará naturalmente o mercado conforme as "responsabilidades". Mas isso não vem ao caso. O curioso, realmente curioso, é em primeiro lugar essa crença imediata de que os fins do lucro empresarial e seus meios "responsáveis" se casam como duas almas gêmeas, e em segundo lugar como o critério da "responsabilidade social" passa rapidamente da missão da empresa para  fora dela, na regulação do consumidor. Como se rapidamente o tema da empresa responsável do século XXI resvalasse naquele outro, do fim do século XVIII, do indivíduo livre cujas decisões aglomeradas criariam uma grande mão invisível, chamada agora de "consumo consciente".

Mas quê? Faço perguntas demais e abstraio muito; diante de tanta abstração, certamente deveria mudar de paradigma.

October 20, 2009

O Google e o monopólio do conhecimento

Temos idéia da dimensão de uma única empresa digitalizar e controlar o acesso de boa parte do acervo mundial?

Alguns dias atrás comentamos a notícia de que a Biblioteca Nacional da França disponibilizará parte de seu acervo no Google Books. Lá, colocamos a seguinte pergunta: será a Biblioteca Universal uma biblioteca universal e privada?

Quem acessa o google books sabe que não se digitalizam livros apenas por idealismo ou filantropia. Se assim fosse, todos seriam naturalmente completos e gratuitos - e sem links para as livrarias.

Nisso podemos ter idéia da dimensão de uma única empresa digitalizar e controlar o acesso de boa parte do acervo mundial.

Com a popularização de leitores eletrônicos de ebooks, cada dia a perspectiva de explorar tal acesso é maior. Pierre Levy divulgou material, dias atrás, sobre a possibilidade do Google concorrer com a Amazon, criando uma mega livraria.

Hoje, Levy divulgou outro link, com considerações sobre um possível monopólio do conhecimento. O mecanismo parece ser o mesmo do caso da BNF: com suporte financeiro, o Google desponta como referência de peso, obrigando os concorrentes a rever as próprias dinâmicas.

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Nesse contexto, essa notícia parece interessante.

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E mais dois links: "The Googlisation of Everything" (esse texto é interessante dentro do comentário do Marcus) e Institute for the Future of the Book

October 17, 2009

Novas relações entre política e mídia?

Diversas vezes chamamos a atenção aos estudos de Venicio de Lima, sobre as relações entre mídia e política no Brasil e no mundo. Lima estuda tanto a cobertura quanto a relação da cobertura com os mandatários das empresas de comunicação, notadamente as privadas.

Por vezes seus estudos lembram alguns de "semiótica", por exemplo focados nas histórias em quadrinhos ou nas relações entre cor e som no cinema. Lima, por sua vez, analisa a "montagem" tática das informações na edição de um jornal, por exemplo (pelo menos é  parte do procedimento de Mídia: Crise política e poder no Brasil, [preços, Cultura]).

Nesse contexto é interessante o pequeno texto "A mídia como partido político", de onde cito um trecho sobre a briga Obama x Fox News:

Os grandes grupos privados de mídia – como a News Corporation, de Murdoch – seus sócios e aliados em todo o planeta, por óbvio, vão continuar reiterando cotidianamente suas acusações de não democráticos, autoritários e/ou totalitários a esses governos.

Já não seria, todavia, a hora de se questionar – séria e responsavelmente – o discurso de que a grande mídia privada seria a mediadora neutra, desinteressada, imparcial e objetiva do interesse público nas sociedades democráticas? Como sustentar esse discurso diante de todas as evidencias em contrário, inclusive de partidarização, aqui e alhures?

O que está em jogo? Um fator novo, nas relações entre mídia e política: o governo Obama, reconhecendo a tendência editorial da Fox News, passa a encarar a emissora como uma fonte de oposição deliberada. "Encara" não sob o formato dos governos ditatoriais (que simplesmente eliminam os opositores), mas dentro do debate, forçando a emissora a assumir suas tendências.

"Qundo o presidente fala à Fox, já sabe que não falará à imprensa, propriamente dita" – ela [Anita Dunn, Diretora de Comunicações de Obama] explicou. – "O presidente já sabe que estará como num debate com o partido da oposição"

Como se o mito da neutralidade da mídia se colocasse em questão não por seus estudiosos, mas no próprio debate midiático. Ou em outras palavras, como se agora uma mídia devesse assumir suas tendências (sempre encaradas de modo geral como "neutras", ou com certa intenção de neutralidade), para manter sua credibilidade.

October 15, 2009

A Culpa é da Filosofia

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Uma grande catedrática, de certa ciência humana bem exata, começa seu artigo:

"A Disciplina X se iniciou quando diversos xizólogos, em uma década do século XX, começaram a se articular em torno do problema X.  O primeiro a enunciá-lo foi Charles Xeese, em seu famoso texto fundador. Como já enunciava Xeese (19X0), o problema X não é um problema, e sim o problema de que tudo se resume ao problema, e não à prevenção. Assim, em torno da prevenção, que é o problema, o Instituto Nacional dos Xizólogos organizou uma comissão informal, depois tornada braço formal do Instituto, para elaborar novos caminhos de estudo e intervenção.

"Segundo a Organização Mundial da Xaúde, X significa o problema da prevenção xizonal relativo à xizologia.

"Entretanto, a área de atuação da Disciplina X está ainda em seus momentos de pioneirismo. Disciplina inter, ou até transdisciplinar que é (ela reune todas as ciências, físicas, químicas, biológicas, psicológicas, sociológicas e doxológicas), a Disciplina X busca agora integrar as diversas áreas de conhecimento para a formação de uma prática coesa.

"Há ainda muito a fazer. Essa ausência de definição do que vem a ser a Disciplina X é mais um efeito histórico, encontrado nos diferentes zeith geist (sic) da Xizologia.  Os espíritos das diferentes épocas rechearam, muitas vezes, a Xizologia de preconceitos. Veja-se, por exemplo, o nascimento de nossa Xizologia datar do século XIX. Apesar de grandes evoluções do conhecimento ocorridas então, e ainda atuais, o século XIX era machista, considerava a mulher como um ser inferior.

"Por isso a Disciplina X, apesar de ser uma das áreas mais modernas da Xizologia, enfrenta ainda conflitos teóricos das mais diversas ordens. Esse excesso de teoria (não seriam resquícios de filosofia?) ainda atrapalha a correta enunciação do problema X, quando livre de teorias e preconceitos será aquilo que já é, não sendo: uma ciência experimental, transparente aos fatos."

Peraí, minha filha: quer dizer que um dia um grupo de pessoas enxerga um problema, decide construir uma disciplina, postula de saída que essa disciplina é uma ciência, cata uma noção jurídica para unificar seu caráter científico, e depois diz que sua falta de definição e cientificidade é um problema de preconceitos históricos e "teóricos"? emoticon

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Aliás, como discutíamos lá nos jurássicos idos de 2007, é muito curioso notar quando a teoria na prática "é outra", e quando "não é". Em um antigo texto, Marcio Pimenta se queixava a respeito de como seus colegas economistas eram "teóricos" demais, não conheciam a "realidade".

Mas "teoria" e "realidade", para os economistas, tem uma conotação totalmente diferente do texto acima, da catedrática. A queixa do Pimenta era bem precisa: economista teórico é o economista formado conforme as exigências do mercado. E o que o economista aprende sobre o "mercado" e a "teoria" não corresponde à realidade prática, pois esta contém problemas concretos não previstos pelas exigências mercadológicas. Pobreza e problemas sociais, por exemplo.

Situação totalmente oposta à da catedrática acima: mais do que glorificar a teoria (como o mainstream econômico denunciado por Pimenta), ela a denuncia, define-a como "preconceituosa", fruto das contingências históricas. Logo, a teoria deve se descartar em nome de uma prática tão transparente a ponto de afastar todos os pre-conceitos (mesmo que nunca se coloque em questão se a própria prática é preconceituosa). 

No caso do problema evocado por Pimenta, a teoria é perfeitamente valorizada e aplicável quando conforme ao mercado, não importando suas consequências efetivas. Já no caso da catedrática, a teoria não pode ser aplicável, pois se é aplicável não é teoria. Para os economistas, a teoria é positiva, conforme às exigências do mercado; para os xizólogos, negativa. Mesmo se o pressuposto "se é aplicável não é teoria" for uma baita teoria.

Em outras palavras: algo parece dizer que, nos dois contextos, não é a aplicabilidade de uma teoria o fator responsável por medir seu valor.

October 14, 2009

“Tática de guerra política”

 
imagem daqui
 
Na mesma semana em que o governo de Obama acusa a Fox News de ser um braço do partido republicano (se não é um braço, não se pode negar sua aprovação incondicional às políticas do governo Bush, especialmente as belicistas), o Brasil discute sobre uma provável CPI do MST.
 
Anteriormente descartada por falta de assinaturas, há quem almeja agora, depois do caso da Cutrale, reativar a idéia.
 
Em outras ocasiões, este blog já fez uma crítica muito precisa ao Movimento: suas ações, muitas vezes, não consideram os efeitos, as consequências, especialmente as midiáticas. Não no sentido de que as ações são desastradas ou inconsequentes, mas em outro bem preciso: mesmo quando age conforme seus princípios o MST é criticado duramente pela imprensa.
 
Para isso, basta ver o simples exemplo de uma passeata em qualquer capital. Qual é a cobertura? Certamente, não a que trata de uma passeata pela reforma agrária, reivindicações e afins. A manchete é quase invariável: "Passeata do MST atrapalha o trânsito na cidade". Como se não existisse mediação possível, apenas a manifestação de um corpo estranho, de repente invadindo a cidade.
 
Ou senão veja-se, em um contexto bem diferente das passeatas, o caso da Cutrale: o MST ocupou a fazenda com o intuito de denunciar os cartéis da laranja, a concentração das terras, e especialmente o fato da fazenda não ser da Cutrale, mas da União. Coisa totalmente diversa das imagens apresentadas: um trator derrubando o laranjal como em um ato de vandalismo contra a propriedade privada.
 
É certo que a imprensa não deu ênfase em nenhum dos pontos manifestados pelo MST. Inclusive, é certo que todo o laranjal derrubado não equivale a 1% da fazenda. Mas o recado mediático foi bem preciso, e estrategicamente oportuno para reativar o movimento dos ruralistas pela CPI do MST, contra o MST.
 
Fique claro o ponto em questão: não se ofereceu um canal de discussão, apenas a via da desqualificação (somada ao problema acima, do cuidado estratégico para com a cobertura negativa - o MST parece às vezes não se ater ao fato de que, diante da imprensa, pisa em ovos).
 
O Dep. Dr. Rosinha (PT-PR) chamou a atenção precisamente a essa via da desqualificação hoje, em seu twitter. Entrevistado no Jornal da Globo junto ao Dep. Onix Lorenzoni (DEM/RS), reclamou do fato da edição começar e terminar com as falas de Lorenzoni, totalmente afim aos motivos contra o MST:
A edição de ontem do "Pinga-fogo", do Jornal da Globo, foi criminosa. Deu + tempo ao dep. do DEM, q abriu e fechou o quadro. () a Globo cortou o q falei em defesa do MST, sobre a CPI da Terra de 2005, as mortes no campo. Lamentável. (…) Na gravação com o repórter Heraldo Pereira, eu havia sido o último a falar. A edição fez parecer q ambos concordávamos! (…) além do desequilíbrio e parcialidade pró-ruralistas, o Jornal da Globo ainda me idenficou como do PT-SP (…) A emissora da família Marinho não perdeu o costume de 1989 (debate LulaxCollor). Edita conforme lhe convém. ()
Também pudera: o Dr. Rosinha declarou a defesa de uma investigação das autoridades para apurar os acontecimentos da fazenda, especialmente os relativos ao teor da denúncia do MST. Aproveitando o gancho, a edição converteu as palavras de Rosinha, tornando-as totalmente afins à fala de Lorenzoni: declarando o contrário, ele defendia a criminalização dos atos do MST. O recado foi claro: parecia que os deputados, totalmente contrários, falavam a mesma coisa (!). Basta conferir o vídeo.
 
Não por acaso, o "repórter" Heraldo Pereira definiu muito bem a situação: "tática de guerra política" (sic).
 
 

October 12, 2009

O governo de fato do Afeganistão

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O enviado especial da ONU ao Afeganistão, Kai Eide, afirmou hoje que houve uma "fraude generalizada" nas eleições presidenciais de 20 de agosto, embora não tenha determinado seu alcance.

Em entrevista coletiva em Cabul, o chefe da missão da ONU no Afeganistão (Unama) admitiu que o processo eleitoral foi "difícil, com muitos problemas".

"O alcance desta fraude está sendo analisado agora. Não há forma de saber neste momento que nível de fraude houve. Só posso dizer que foi uma fraude generalizada", declarou.

O diplomata norueguês afirmou que "qualquer dado concreto" que apresentasse agora sobre o impacto da fraude no resultado eleitoral seria "pura especulação", já que, nos últimos dias, a Comissão Eleitoral começou a fazer uma recontagem parcial dos votos por causa das denúncias de irregularidades.

Os resultados provisórios, anunciados em setembro, deram ao atual presidente, Hamid Karzai, uma vitória folgada. Mas a nova apuração deve resolver as irregularidades em mais de 10% dos colégios eleitorais.

A missão de observadores da UE enviada para acompanhar a eleição afegã anunciou no mês passado a identificação de 1,5 milhão de votos "suspeitos", dos quais 1,1 milhão favoreceriam Karzai. EFE

"It´s all about Oil", dizia Robert Fisk em A Grande Guerra pela Civilização (preços). Ou também ele se referia ao curioso voto "étnico" dos afegãos, que não parte das mesmas premissas de uma sociedade democrática de maiorias. Ou talvez parta, mais no sentido das "maiorias" do que da "democracia".

Em agosto já se desconfiava das articulações de Karzai com outras forças políticas (e militares) afegãs, para compor um esquema maciço de fraude. Pelo visto, concretizado.

Karzai foi reeleito. Mas estranhos mesmo são os diferentes pesos e medidas conferidos às fraudes, reeleições e governos, de fato e de direito. Durante 2009, certamente vimos diferentes valores atribuídos às discussões sobre a reeleição na Colômbia e em Honduras, de um lado, e no Irã e Afeganistão, de outro.

Tem-se por aí o hábito irrefletido de tomar imediatamente partido, segundo crenças estereotipadas e relativizadas. Como se pensar fosse um problema. Especialmente quando se fala em legalidade, é indispensável pensar, e se perguntar onde pesos e medidas foram diferentes.

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Nesse contexto, está imperdível o blog de Steve McCurry.

October 5, 2009

Vientosur - Milonga de andar lejos


Ahora comienza un duro, una inexorable viaje en busca de la posibilidad más lejana