March 10, 2006

BibliOdyssey e os espelhos

"Caso pareça que sei tudo, então os espelhos estão funcionando".

Michel Foucault, ao escrever sobre Flaubert, em 1964 ("As Tentações de Santo Antão") chamava a atenção do livro de Flaubert sobre o anacoreta ser totalmente ancorado no saber bibliográfico. Tudo no livro está apoiado na mudez e na erudição da poeira das bibliotecas; mas isso não garante que o que Flaubert mostra - às vezes sob a forma do teatro, outras vezes por outros estilos - tenha alguma relação com algum fato efetivo. As Tentações seriam, assim, um livro totalmente feito a partir de outras obras, mas uma obra que nada deve às representações da realidade, à fidelidade aos outros livros, e assim por diante. Um livro que, colocando obras umas na frente das outras, gera um espaço de puro saber (a palavra é de Foucault), sem referências à realidade.

Curioso jogo de disposição de obras, umas na frente das outras, que Foucault enfoca por muitas vezes. É assim, para ele, em Sade, em Blanchot, em Borges, e em vários outros. Esse jogo, em que uma obra simplesmente não diz nada além do espaço que ela mesma abre, jogo essencialmente transgressivo, por não se direcionar à realidade, mas muito dizer por sobre ela, é um jogo de espelhos, em que o autor anula a si mesmo, ao mesmo tempo instrumento de soberania da linguagem, e nada.

Talvez seja nessa direção que o BibliOdyssey caminha, junto ao Giornale Nuovo. São blogs que mostram que há pensamento para além da pedagogia dos papers, há pensamento sem autoria, sem autoridade, e com implicações como a da apresentação da BibliOdyssey. Quando o autor cria um jogo de espelhos, é como se ele soubesse tudo. Mas isso pouco importa, pois efetivamente, esses espelhos tem algo a dizer.

tags: foucault flaubert literatura poesia arte moderna blog weblog



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