March 22, 2006
Sobre as injustiças cotidianas e o jeitinho brasileiro
É muito curioso chamar a atenção a algo que acontece cada vez com mais frequência em nossas vidas: os constrangimentos diários e cotidianos a que somos impostos toda vez que se trata de recebermos algo que deveria ser chamado de ‘nosso direito’. Ocorre em todo lugar: nas filas de recebimento de algum bem (aposentadoria, saúde, inscrições para escolas…), nas reclamações por telefone de serviços de grandes companhias, no recebimento de troco e na conferência de preços (corriqueiramente maior que o da tabela) nos caixas de grandes supermercados, e mesmo em nossa falta de informação ao poder iniciar um processo jurídico quando somos injustiçados.
Desafio haver algum leitor que nunca tenha sido constrangido a não receber alguns centavos de troco no supermercado, ou alguém que não tenha ao menos uma vez (e uma vez é pouco) constatado que o preço de um produto passado no caixa é maior que o preço do em tabela. Convido o leitor a imaginar o quanto, por dia, um supermercado recebe a mais por cada desses míseros centavos que cada consumidor deixa por lá.
Desafio também qualquer pessoa que não tenha ao menos uma vez (e uma vez aqui também é pouco) sido estrangulada pela demora no atendimento de "telemarketing" ou por constrangimentos burocráticos decorrentes a setores de atendimento compartimentados ("ah, essa reclamação não procede; essa outra, deve ser lá no outro departamento…"). Ligando a um desses serviços, muitas vezes temos a impressão de que, mesmo estando certos, estamos errados, ou de que não há meio algum de poder efetivamente reclamar, e ser atendido.
Isso para não dizer quando temos direito (caso se possa chamar assim) a alguma coisa. Aí aparecem as filas, os entremeios burocráticos, as tentativas de se relacionar bem com os deliberadores do serviço (ai de quem tratar mal ou simplesmente não tratá-los com simpatia), os jeitinhos mil que qualquer brasileiro conhece. Aliás, o Brasil é tanto o país do ‘jeitinho’ que o próprio jeitinho existe e só pode existir com as injustiças que cotidianamente nos constrangem. Se o jeitinho é a marca do Brasil, é porque o Brasil é essencialmente um país injusto, e só a contravenção (em maior ou menor grau) pode conferir a um brasileiro alçar algo mais do que a injustiça a que é toda hora constrangido.
Fico pensando, sobre isso, em duas supostas saídas: a primeira seria todo brasileiro, quando ‘injustiçado’ (na maior ou menor injustiça), promover algum ato processual, seja jurídico, seja por advertência formal ou informal: teríamos um país que explode pelas próprias injustiças que faz surgir. Uma segunda saída me faz pensar em Blanchot falando sobre Sade: certas pessoas são tão desfavorecidas pela lei que só poderiam empreender algum ato efetivo (e verdadeiramente chamado de ‘ação’) por via do crime e da contra-lei. As únicas pessoas dignas de serem chamadas de ‘formidáveis’ seriam aquelas (sem distinção de riqueza ou pobreza) que explodem a lei e se sobrepõem ao povaredo. Teríamos aí igualmente uma sociedade explodida pela própria mentira que se criou a si mesma por meio de uma ‘lei’.
Curioso chamar a atenção sobre que, tanto numa quanto noutra alternativa, a ’saída’ (haveria alguma?) implicaria uma mudança radical do Brasil-jeitinho, que é ao mesmo tempo Brasil-injustiça cotidiana, e em todos os níveis de sua existência.






6 Comments »
pen Says —
é, essa é uma situação séria, pois no nosso cotidiano descaso realimentamos esses monstros…
Made on March 22, 2006 @ 5:17 pm
pen Says —
inflamada com esse teu texto hoje EXIGI todos os meus centavos (e daqui pra frente será assim!). já teria perdido 6 centavos, só hoje. imagina… 365 dias por ano, ou a metade desses dias, muito dinheiro, já chega os impostos, etc.
Made on March 23, 2006 @ 4:15 am
Antonio Cesar da Silva Says —
Quando tive a intençao de me desfazer dos serviços da Telemar, liguei para o SAC. Me atendeu primeiro uma moça que me passou para um rapaz que tanto me encheu a paciência que que protelei o meu pedido. Passados dois meses a mesma situação, o mesmo rapaz e, deixei pra lá. Até que num determinado dia, após alguns minutos treinando a frase “não quero”, consegui finalmente tirar a Telemar do meu pé.
Made on March 23, 2006 @ 11:58 am
popaula Says —
é um dos fundamentos da fortuna. o rico briga por uns centavos
que faltam enquanto o pobre, por orgulho e para não passar
atestado de pobreza, fica quieto e não reclama.
e tem aquela do mendigo: se ele consegue amealhar 2 reais
por hora em moedinhas, oito horas por dia, no fim do mes
ele faturou 480 reais..
Made on April 1, 2006 @ 2:44 am
Administrator Says —
Boa analogia, popaula
Valeu também pela visita, apareça por aqui, puxe um banco, e continuemos a tertúlia
um abraço,
Made on April 2, 2006 @ 8:57 pm
roberto Says —
estas situações são muito chatas, mas acho que não significam o ejitinho brasileiro, que é caracterizado pela inteligência afetiva em algumas situações específicas, como explica a autora do livro A Filsofia do Jeito. Devemos combater estes abusos, sem confundí-los com outra coisa que é o nosso jeitinho!
Re: Não conheço o livro, mas qual seria o limite entre o jeitinho e a malandragem? Não seria tênue demais? Questão muito interessante, essa
Made on May 12, 2007 @ 2:57 am
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