April 30, 2006
“Ok. Agora eu sei onde estou”


Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira -
círios dourados, cálidos e vivos.
Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.
Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.
Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.
In Konstantinos Kaváfis - Poemas (Trad. de José Paulo Paes). RJ, Nova Fronteira, 1990.
Fui ontem ao Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, conhecer uma exposição bastante divulgada: "Para Nunca Esquecer - Negras Memórias, Memórias de Negros". O chamariz atrai, uma exposição em pleno Paraná (estado bastante recente), mostrando memória e material histórico relativos à questão da escravidão.
A exposição apresentava uma série de gravuras em alta resolução, copiadas de uma série de pintores consagrados. Esporadicamente, um ou outro objeto remanescente, e, por fim, exposições de vários artistas que relacionam sua arte com a questão do afro-brasileiro. Tema e motivos maravilhosos, não fosse um detalhe crucial: a grande maioria dos motivos expostos não continha qualquer tipo de legenda, indicando autor, procedência, época, estilo… Quem vai lá ansioso para encontrar informações sobre a história brasileira fica simplesmente perdido, em meio a um emaranhado de imagens e esculturas justapostas, mas carentes de identificação. Realmente, uma pena. Ficou tudo meio estereotipado, como se a questão do estatuto histórico do afro-brasileiro fosse algo meio auto-evidente, e sem grandes detalhes a comentar. O espectador merecia mais.
Já a exposição foto-videográfica "A história ambiental do Paraná de Reinhard Maack" impressiona. Para quem gosta de fazer trilhas no Paraná, emociona. Embora organizada de modo um tanto disperso (em vários andares), a exposição traz fotos de várias expedições, material videográfico cheio de referências, objetos e pertences de Maack. Saber que Maack foi um dos primeiros a subir o Pico Paraná, e acompanhar a descoberta de que há pelo menos "11 morros mais altos que o Marumbi", é uma informação deliciosa. Como ver fotos tão bem elaboradas a partir de arquivos dos idos de 1920/30.
Tento fazer páginas web desde 1999. Nesse período, fiquei vários anos sem computador, e perdi todo o início das linguagens ‘dinâmicas’, e dos blogs. Até hoje tento me adaptar a essa perda. Mas tamanha foi a surpresa hoje quando, através de um post do Dialogica, encontrei uma espécie de projeto que busca arquivar toda a web, desde seu início.
Convenhamos, toda a internet, arquivada? Não acreditei, até fazer uma busca. O nome do projeto é "Internet Archive Wayback Machine". O resultado encontrado foi uma série de layouts que eu havia feito para o site "O Estrangeiro", desde 2000! Acessei alguns modelos, e consegui até mesmo salvar algumas figuras dessa pré-história do site oestrangeiro. Ou mesmo, acompanhar um pouco da evolução do site informarte.net (especialmente seu extinto ‘baile de máscaras‘).
Onde isso dará, não tenho a mínima idéia. O projeto servirá "às gerações futuras", como consta no site. Alguém tem idéia de onde vamos parar?
Saindo fora do contexto desse post, um pouco da saudade do Baile de Máscaras:
Este deveria ser um livro. Impresso. Se editado, encontrável, por um tempo efêmero, em algumas livrarias. Alojado, depois, nos balaios de ofertas dos sebos, que são, por si só, grandes balaios de ofertas de palavras-entulhos.
Entretanto, entre o início e o fim da sua escritura, num momento que nem a memória guarda, e em certos não-lugares virtualizados (a grande rede, o grande delírio e a grande possessão do corpo), o livro material, de gelo virou água… e passou a escorrer em mim e nele mesmo, desvirtuando tudo.
Já, de cara, arrebentou com a noção de continuidade. Posso, hoje, voltar a trabalhar nele, o sempre inacabado, de qualquer ponto. Posso deixá-lo em suspenso, e nunca mais fabricá-lo. Posso ir extraindo, aos poucos, todas as ligações que ele tem e que vão se revelando para mim como graças que ele me faz, como jogos de alegria que ele me propõe, e colocá-las aqui, à mostra. Posso tudo. Hoje, posso até o impossível. Por ter aprendido a ser realista.
Isto, que era um livro, e que hoje é um hipertexto, é mais que um hipertexto. É uma experiência de ser e de se expressar. Tu aqui, que me lês, precisas ficar avisado. Hoje ele tem, nas suas camadas, certas matérias, certas pedras, certas conchas, certos líquidos. Amanhã, porque a terra gira, a lua processa fases, a maré muda, a montanha outona, todo o registrado pode desaparecer, dando lugar a outras matérias, a outras pedras, a outras conchas e a outros líquidos.
Portanto, atenção! Os fluxos do desejo dominam aqui… traçam a rota, inventam as bússolas e as ampulhetas. Tudo é mutável. E eu sigo os fluxos.
Não esperes de mim linearidade nem fidelidade ao já feito. Somos, essa água e eu, incapturáveis!
Em um post anterior, do outro blog que deu ‘origem’ ao Catatau, fiz uma breve apresentação sobre o novo livro de Negri e Hardt sobre o Império, intitulado "Multidão". Como se pode ver, por exemplo, em "Pensar e viver de outro modo", Negri teve boas interlocuções com Guattari no período em que esteve preso. Mas e Hardt? Este, parece à primeira vista desconhecido. Entretanto, há trabalhos muito interessantes desse norte-americano, que dizem diretamente respeito aos "campos" da autonomia, e a reflexões importantíssimas sobre os modos de pensar que se articulam a esses campos.
Há um weblog chamado "devires" que cita uma frase muito interessante de Deleuze em sua apresentação: "Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver". Ora, não se trata apenas de dizer que as práticas se traduzem em teorias, ou que sobre qualquer fato há uma aproximação possível do pensamento, mas sim que há certos planos em que pensamentos e ações são possíveis - não havendo, pois, tradução entre esses dois termos, mas essencialmente entrecruzamentos, engendramentos, "agenciamentos". É desse modo que textos ditos mais "teóricos" podem ajudar a compreender "práticas" de autonomia, mesmo sabendo, de antemão, que tais textos e tais práticas cindem - ao menos, esse é o projeto - a divisão entre teoria e prática.
Quando você começar sua viagem a Ítaca,
deseja que a estrada seja longa,
cheia de aventura, plena de conhecimento.
Os Lestrigonianos e os Ciclopes,
O odioso Poseidon - não os tema:
Você nunca os encontrará em seu caminho,
se seus pensamentos permanecerem elevados, se uma fina
emoção tocar seu espírito e seu corpo.
Os Lestrigonianos e os Ciclopes,
O feroz Poseidon você nunca irá encontrar,
se você não os carregar junto à tua alma,
se tua alma não os dispor acima de ti.
Peça para que a estrada seja longa.
Que as manhãs de verão sejam muitas, quando,
com cada prazer, com cada alegria,
você entrará em portos vistos pela primeira vez;
pare em mercados fenícios,
e adquira fina mercadoria,
âmbares e ébanos, pérolas e corais,
e perfumes voluptuosos de toda espécie
tão voluptuosos quanto você conseguir;
visite muitas cidades Egípcias,
para aprender e aprender com os sábios.
Sempre tenha Ítaca em sua mente.
Chegar lá é seu último destino.
Mas não aprece a viagem, contudo.
É melhor deixá-la perdurar por muitos anos;
e ancorar na ilha quando você estiver velho,
rico com tudo o que ganhou no caminho,
sem esperar que Ítaca lhe ofereça riquezas.
Ítaca deu a você uma linda viagem.
Sem ela você poderia ter nunca saído a caminho.
Nada mais ela tem a lhe dar.
E se você encontrá-la pobre, Ítaca não o decepcionou.
Sábio como há se tornado, com muita experiência,
você já terá compreendido o que Ítaca significa.
tradução/traição: a partir das versões de um excelente site, e de: KAVAFIS, C. Cien Poemas. Traducción del griego al castellano: Miguel Castillo Didier (chileno). Selección: Doris Jiménez y Ernesto Carmona. Biblioteca Virtual BEAT 57.
Compare também preços de livros de Kavafis, clicando aqui (via site Buscapé). No mesmo link, há o curioso lançamento de um livro intitulado Reflexões sobre Poesia e Ética. Provavelmente, é outra publicação póstuma, já que Kavafis nada publicou em vida.
Curioso pela figura de Duns Scotus e seu conceito de "ecceidade" (Deleuze teria lido Scotus…), fiz uma breve busca na rede. Algumas informações parecem bastante interessantes:
- Curioso o fato de Scotus ter sido franciscano, e beatificado em 1993 pelo Papa João Paulo II em 1993. João XXIII teria recomendado aos jovens estudantes de teologia a leitura de Scotus, principalmente a respeito de seu argumento sobre a imaculação de Maria;
- Argumento de Maria imaculada: se apenas a Cruz traria a redenção dos pecados, como se poderia supor que Maria era imaculada? A reposta de Scotus é interessante: Maria necessitava de Redenção como todos os homens, mas através dos méritos da crucificação de Jesus, Maria teria sido concebida sem a mancha do pecado original.
- Há um grupo de pesquisa holandês sobre John Scotus, no endereço dunsscotus.nl.
- Há também algumas obras on-line: "A Treatise on God as First Principle", e vários outros textos.
link: darkwing.uoregon.edu/~kohl/ (em inglês)
link: etext.virginia.edu/japanese/basho (em japonês)
link: tclt.org.uk (edição bilíngue inglês/japonês, em .pdf)