April 6, 2006
Nota sobre a tradução de “A Conversa Infinita”, de Maurice Blanchot
Nós, brasileiros, somos neófitos em Maurice Blanchot (pesquisa de preços dos livros de Blanchot no Buscapé). Muitos de nós nos interessamos por essa figura via outros pensadores, especialmente filósofos. Na Universidade, os "críticos literários" o desconhecem e muitos não o estudam, por supostamente se tratar de um "marginal", "desocupado" de questões de gente como Bakhtin e outros. Mas, felizmente, várias traduções desse difícil autor - situado de modo feliz bem longe das querelas de autoria da crítica literária - são agora lançadas em português.
Gostaria de fazer um breve apontamento sobre a tradução de "A Conversa Infinita", publicada pela Editora Escuta. A princípio, para dizer o seguinte: diante de um autor difícil como Blanchot, uma boa tradução é essencial, para que certos equívocos não se ocasionem. Se a leitura de um autor de peso como Blanchot é difícil, a dificuldade não pode se agravar por problemas de tradução. E, nesse livro que aparenta ser belo (a nós, neófitos brasileiros), algumas dificuldades se impõem logo de início. Para dar um primeiro exemplo, o uso indiscriminado, no primeiro capítulo, das palavras "busca", "procura" e "pesquisa": dizem elas a mesma coisa? Traduzem elas uma mesma palavra (chercher? rechercher?)?
O mesmo ocorre no segundo capítulo: Blanchot afirma lá que a pergunta coloca em questão o próprio Ser, e assim cada possibilidade de interrogação advinda da linguagem propõe uma abertura radical, como o fazem o "is" ou o "ist" de "is the sky blue?" e "Ist der Himmel blau?". O "é" propõe uma abertura inicial nas línguas alemã e inglesa que não é imediatamente visível no francês ("Le ciel est-il bleu?"), ou por consequência no português ("O céu é azul?"). Mas a tradução ao português constrange esse raciocínio, traduzindo "Le ciel est-il bleu?" por "Seria o céu azul?" (p. 44), quando poderia provavelmente traduzir a frase como "O céu é azul?". Caso assim procedecem, os tradutores concordariam com uma outra frase anterior (p. 43): "O céu é azul, o céu é azul? Sim", expressão-fonte do raciocínio de Blanchot, que uma página depois os tradutores transformam em "O céu é azul, seria o céu azul?", expressão diametralmente diferente da primeira.
Talvez essas observações provêm de uma leitura não muito precisa dessa valiosa tradução. De todo modo, são algumas indicações para problematizá-la (e esperamos, de saída, estar errados…). Embora encontramos algumas questões em certas passagens do livro, isso não descarta toda a importância da tradução, que tanto do ponto de vista literário quanto filosófico, parece conservar belíssimas passagens.









Daniel Says —
Meu caro, não conheço a tradução de ‘L´entretien infini’ o suficiente para lhe dizer o que acho (costumo usar o original em meus trabalhos); O erro que você apontou é de fato significativo e faz pensar se outras partes do texto também contem algum equivoco do tipo. Mas o texto de Blanchot não se presta à tantas dificuldades de tradução. Não há muitas ‘torceduras’ de sintaxe. É um texto simples, na maioria das vezes.
Foi um prazer procurar esse tópico de novo para te responder (tive que fuçar nas tags um bocado). Na verdade, foi procurando por ‘blanchot’ no google que achei teu blog, pra mim um dos melhores da internet brasileira, tanto em conteúdo como em estilo. Diversos temas aqui discutidos me dizem respeito, especialmente no que tange à filosofia. A coincidência na seleção que vc faz às vezes me impressiona.
Assim que terminar a tradução te envio pra gente ver se começa uma discussão…
abraço
D.B.C.
RE: Olá Daniel,
Obrigado pela resposta!
Quanto à tradução de EI, caso se comprove tal suspeita, é uma pena ver tudo isso já circulando no mercado editorial. Apenas obscurece o autor e o acesso à obra, ocasionando confusões em pesquisas, ou pelo menos para os leitores interessados.
Aguardamos a tradução, que será divulgada por aqui. Parabéns pela iniciativa (e qualquer outra referência ou interlocução também será muito bem-vinda!).
Abraços,
Made on May 25, 2009 @ 3:21 pm