April 18, 2006
“Movimento de Apoio”, religião, ciência, psicólogos pouco esclarecidos, e “terapia reparativa”
Quem frequenta a comunidade de psicologia do orkut vê várias coisas inusitadas. Mas algumas, dentre todas, superam as expectativas. Uma psicóloga chamada Rosângela Justino (auto-declarada "psicóloga missionária"), teria participado de um desses programas populares da televisão brasileira e divulgado que conhece técnicas de "cura" da homossexualidade. Justino é coordenadora de uma certa ABRACEH ("Associação de Apoio ao Ser Humano e a Família"), entidade de cunho manifestamente evangélico que se preocupa com questões de infância e sexualidade.
A questão da sexualidade na ABRACEH, entretanto, não é compatível com as abordagens que os psicólogos exercem cotidianamente. Como pode ser visto numa comunidade do orkut chamada "Movimento de Apoio", coordenada por Justino. O "Movimento" serve para quem "gostaria de apoiar pessoas que voluntariamente desejam deixar a homossexualidade", para pessoas que já a "deixaram", e para outros que desejariam "deixar" "transtornos" e "disfunções sexuais" como essas. Curiosamente, aparece ali um termo pretensamente científico, o de "homossexualidade ego-distônica". Em um dos tópicos da comunidade, Rosângela Justino ajuda a definir o que é, segundo ela, esse caráter ego-distônico: as pessoas não são, segundo ela, homossexuais; elas "estão", e o fato de "estarem" implica consequentemente a possibilidade de "cura". A deixa é a de que haveriam certas pessoas cuja condição sexual traria sofrimento, e consequentemente buscariam algum tipo de tratamento. Talvez, para ela, existam casos de homossexualidade "ego-sintônica", mas a declaração manifesta é de que tal condição é um "transtorno" ou "disfunção sexual", e que pode ser curado, por não ser parte constituinte da subjetividade.
Poderia-se aí cogitar sobre a velha discussão entre correntes psicológicas estruturalistas e funcionalistas. A identidade sexual é algo estrutural, constituinte, e portanto, não-destacável da formação da subjetividade, ou, pelo contrário, pode-se alterar os comportamentos ditos "sexuais" como é possível tratar um viciado em drogas? As experiências pregressas de qualquer indivíduo implicam-se de que forma em seu desenvolvimento posterior? São absolutamente marcantes, cuja experiência posterior torna-se uma recorrência indefinida ao passado, ou a idade adulta tem relativa autonomia e plasticidade frente aos determinantes das experiências infantis? Trocando em miúdos, e trazendo à presente discussão: um homossexual poderia deixar de ser homossexual (caso se suponha, como o faz Justino, que a homossexualidade é uma doença)? Vejamos que, aí, as questões se multiplicam. Primeiramente, a questão de um comportamento homossexual é diferente da questão da formação de uma identidade homossexual. E as discussões, aí, são tanto não resolvidas quanto diversas são as respostas sobre a formação da subjetividade humana.
Mas voltemos à posição da ABRACEH: mesmo que, em aparência, ela e seus fellow´s pretendam encarar a questão da homossexualidade sob os moldes de alguma discussão científica sobre a formação da subjetividade humana, em absoluto não é isso que ocorre. Enfatizemos essa expressão: em absoluto. Pois a posição de Justino é absolutamente alheia a qualquer debate que poderia ser encaixado numa discussão de psicologia que consideramos atualmente com o estatuto de científica. Primeiramente porque, para ela, a homossexualidade é um transtorno, ou mesmo, uma disfunção. Trocando em miúdos: a discussão já parte de um pré-conceito, de um juízo já enunciado, a partir do qual tudo o que se segue deve simplesmente amoldar-se. Um debate de psicologia evolutiva digno de ser chamado de "debate" não põe de saída em sua pauta de discussões a sexualidade sob os moldes de um caráter disfuncional ou doentio. Quando Freud, no início do século XX, caracterizava uma criança como "polimorfo-perversa", não estava enunciando um preconceito: estava dizendo que o modo pelo qual o enfant se relaciona com o mundo não perpassa uma relação eminentemente "genital", "secundária", "adulta". Daí o caráter "perverso", que nada tem a ver com algum problema de desenvolvimento infantil, mas sim, com o próprio curso do desenvolvimento da criança. Tanto que Freud não é conhecido por acentuar a divisão entre o normal e o anormal, mas sim por desfazer a própria noção de "normalidade". Sob outras inspirações, pode-se afirmar que a psicologia evolutiva contemporânea, do mesmo modo, não parte de um mero princípio patológico da sexualidade na constituição da subjetividade. A homossexualidade, segundo ela, não constitui um desvio que deve ser contido ou "curado", mas um aspecto tão contextualizado no desenvolvimento psicológico humano quanto qualquer outro. Não se trata, aqui, do desenvolvimento de uma disfunção ou de um transtorno, mas de uma análise lúcida que valoriza na constituição da sexualidade todos os aspectos do desenvolvimento (históricos, sociológicos, biológicos, psicológicos…). Portanto, as diferentes discussões epistemológicas contemporâneas em psicologia não partem do juízo inicial e diretor de que a homossexualidade é uma psicopatologia.
Em segundo lugar, as considerações da ABRACEH mencionam um estudo individual de Robert Spitzer sobre uma terapia de "reorientação" sexual. Spitzer havia feito um estudo em que entrevistava por telefone cerca de 200 "ex-gays", prioritariamente cristãos, e assiduamente participantes de suas igrejas. O mesmo estudo constata que quase não ocorreram mudanças efetivas no desejo sexual da absoluta maioria dos entrevistados, como declarou logo depois o próprio Spitzer. A pesquisa - datada de 2003 - foi muito contestada por questões de falta de rigor metodológico. Algo a ser notado: tal espécie de pesquisa, em si mesma, não diz respeito a que tipo de abordagem deve ser feita, ou se deve ser desenvolvida qualquer uma, de natureza "reorientativa"; não pressupõe em si mesma qualquer técnica específica ou intervenção religiosa, seja por terapia ou por grupos de apoio; diz respeito, apenas, à "pergunta cientificamente interessante [sobre] se pode haver alguma mudança na orientação", como afirmou o próprio Spitzer, reconhecendo como cientista que sua resposta foi ineficiente, e que a motivação de sua pesquisa não é nem pró, nem contra a homossexualidade. Algo mais: um estudo sério em relação a tal tipo de questão não deve requerir apenas sujeitos de pesquisa submetidos às mesmas condições ou tratamentos; deve pressupor que, se reversível, tal condição deve haver sem a interferência prévia de técnicas externas, pois caso contrário a pesquisa poderia ser tão tendenciosa quanto as que se faziam no século XIX com introspeccionistas treinados.
Em terceiro lugar, o discurso da ABRACEH sobre a homossexualidade não pode legitimar-se num caráter científico pela própria posição que - novamente de princípio, de saída - adota. Poder-se-ia evocar aqui as relações entre psicologia e religião; mas o presente debate não se enquadra nesse contexto: não é a religião que é chamada a deslindar-se em seus determinantes psicológicos; pelo contrário, a própria psicologia é requerida para servir interesses religiosos, quando se sustenta aqui que a homossexualidade seja "deixada". Se, notadamente Freud e Jung interpretam caracteres religiosos para analisá-los diante de uma teoria psicológica já dada, no caso em questão ocorre o contrário: é a própria prática que se sustenta em princípios religiosos; não há teoria alguma que sirva de fundo. Importante chamar a atenção: uma prática, que pretende ter o estatuto de científica (pois alicerçada na atuação de um profissional de psicologia), enquadra-se não nas discussões correntes, e legitimadas cientificamente, sobre a sexualidade; ela encontra seu embasamento em princípios religiosos, provavelmente a partir da posição de um psicólogo que se coloca lado a lado com caracteres evangélicos. Nesse contexto, é em âmbito religioso, e não nos fundamentos de uma discussão epistemológica, que se pode encontrar o "fundo" das práticas que buscam fazer com que certas pessoas "deixem" a homossexualidade. Consequentemente, tratam-se de práticas que podem eventualmente empregar técnicas ditas científicas, mas cujo fundo não o é.
Isso tudo é absolutamente importante para se compreender o contexto desse tipo de "terapia" que busca fazer com que seus pacientes "deixem" a homossexualidade. Sigamos o que foi acima expresso: primeiramente, mesmo que não se fale em doença, mas de sofrimento psíquico, a valorização feita pela ABRACEH da homossexualidade é notadamente negativa. O fundo dessa negatividade não se dá em nenhuma teoria psicológica, nem nos manuais estatísticos de transtornos mentais, nem na aplicação de uma técnica; no caso da ABRACEH são as técnicas que, por sua vez, devem sua própria existência a esse caráter negativo (que, como vimos, trata de uma ligação muito provável entre práticas psicológicas e o intuito de realizar uma psicologia de motivações evangélicas - caso isso exista). Quando um psicólogo recebe em seu consultório um paciente que sofre por questões relativas à sua condição sexual, não julga de saída quais opções são ou não sadias, ou, em outras palavras, quais opções devem ser valorizadas negativamente ou não: a homossexualidade não é questão a ser deixada, mesmo que os preconceitos sociais decorrentes tragam sofrimento ao paciente. Como consequência, criar espécies de "grupos de apoio", especificamente aos que buscam "deixar" a homossexualidade, não é tarefa legítima de um psicólogo, sob pena de lançar mão de um preconceito manifesto. Seja qual for a linha de trabalho de um psicoterapeuta, de saída ele já sabe que não pode partir de valorizações negativas, sob pena de sacrificar todo o processo terapêutico. Mesmo que um paciente apresente comportamentos homossexuais, mas não corresponda a uma "estrutura", ou à constituição de uma "identidade" relacionada a tal condição, não cabe ao terapeuta ter oferecido, de saída e sem qualquer crítica prévia, a palavra "deixar". Torna-se não mais um psicólogo (nesse contexto, um profissional de ’saúde mental’ que oferece psicoterapia e orientação), mas talvez uma espécie de agente que apenas emprega técnicas psicológicas, para servir mascaradamente a propósitos, por exemplo, religiosos.
O que aqui foi dito torna necessário fazer duas últimas considerações: (1) mesmo que nos coloquemos em qualquer horizonte de um debate contemporâneo sobre a homossexualidade, seja tal condição mutável ou imutável, seja detentora de uma essência ou de um padrão comportamental, seja questão estrutural ou funcional, a questão do "comportamento" ou da "identidade" sexual deixa um ponto pacífico: independente da perspectiva teórica adotada, a questão da escolha sexual não implica nem em "disfunções", nem em "transtornos", nem na necessidade de uma "cura". (2) Uma discussão religiosa da sexualidade se dá em outro nível, isto é, dentro de um debate religioso. Quando vamos ao médico, não pedimos a ele que ignore a teoria da evolução - e, portanto, toda a medicina moderna - em nome do criacionismo; e, quando vamos à Igreja, não pedimos ao Padre uma explicação científica de nossa própria fé.
Em tempo:
Abaixo, constam algumas buscas temáticas de livros (pelo sistema Buscapé de comparação de preços), que podem tangenciar esse debate:
- Desenvolvimento psicológico
- Estudos sobre homossexualidade
- Desenvolvimento emocional
- Desenvolvimento sexual
- Psicologia e religião
- Religião e ciência
Alguns links:
Entrevista com Rosangela Justino - onde é mencionado um estudo de Robert Spitzer
Sobre Robert Spitzer e seu estudo:
Cientista da ‘conversão de gays’ diz apoiar direitos de homossexuais
Para psicólogos, pesquisa sobre ‘coversão de gays’ é limitada
Estudo sobre ‘conversão de gays’ causa polêmica nos EUA
Therapeutically Incorrect - Atheist psychiatrist argues that gays can change
http://www.narth.com/docs/evidencefound.html
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10 Comments »
_Maga Says —
Parabéns pelo texto!
É uma pena que quem precise ler isso, provavelmente não vai le-lo. Usa-se o “slogan” ‘ciência’ para vender uma ideia que fere em muitos sentidos os presupostos da ciência. Isso é pessimo para os ciêntistas que trabalham sério e é pior ainda para os individuos que compram uma visão enviesada de mundo, acreditando que eles precisam mudar porque são desviantes ou algo assim.
Obrigada pela reflexão bem construida que trouxeste pra nós.
Assino embaixo - posso? - de tudo que disseste.
Um abraço Marcela Ortolan
Made on April 18, 2006 @ 4:26 am
Johnnie Says —
Brilhante texto. Pena que eu também concorde com a Marcela Ortolan, muitos dos “seguidores” de rozangela justino não possuem capacidade de discernimento e não apreenderão sequer 1% do seu texto. Vivem no mito da caverna!!!
Também assino embaixo, Posso? Abçs. Johnnie
Made on April 18, 2006 @ 1:26 pm
Cleo Says —
Haja parabéns, hein !!!
Mas o fato é q o texto está mesmo muito bem construído e como já disseram, infelizmente não vai ser lido por aqueles q precisam se informar melhorar sobre o preconceito q a dita “psicologa” propala. Obrigada pela oportunidade,
Cleo
Made on April 18, 2006 @ 2:45 pm
Leandro Says —
Pelo jeito isto não é um texto, é um abaixo-assinado! hehehe
Inclua meu nome aí.
Falando em ciência e religião, Pilatos perguntou a Jesus:
- O que é a verdade?
Parece que Jesus não respondeu a ele essa pergunta.
Bem, acho que a confusão acima explicitada tem relação sobre que verdade está sendo discutida.
Made on April 18, 2006 @ 4:32 pm
Johnnie Says —
Acho que no “Psicólogos pouco esclarecidos” você pegou leve!
Abçs.
Made on April 21, 2006 @ 10:16 pm
Johnnie Says —
Olha, tenho dedicado um bom tempo das minhas horas (são valiosas viu) a estudar as posições das pessoas da comunidade de rozangela justino. O que tenho a concluir é até óbvio, “eles” sustentam a “reversão” da homossexualidade em heterossexualidade em função de suas leituras e interpretações da Bíblia! Tanto é que toda e qualquer discussão que tem por objetivo levantar os pressupostos científicos de tal abordagem (”terapia reparativa”) fica sem respostas. O interessante, indo para o lado que eles querem, é que a bíblia possibilita outras leituras, que não vou me estender por aqui, por fugir da sua proposta.
Abçs. Johnnie!
Made on April 24, 2006 @ 9:54 pm
claudio Says —
O que acho uma pena é que vocês não pesam nos fatos, ou seja, a vida de quem, de fato, mudou a orientação sexual. Sou um caso desses (e nem conheço a Rozângela) e fico p…. com os extremos nesse debate. Vamos conversar, vamos ver o que que há… ninguém precisa “vencer” essa discussão, basta ouvir, analisar, interpretar e, se possível, concluir. Meu e-mail está à disposição: claudiomultifocal@yahoo.com.br
Re: a posição do texto acima parte da própria preocupação com os fatos, Cláudio. Por isso o cuidado em traçar uma prática do psicólogo que respeite aos princípios da psicologia, e não recaia em pré-conceitos religiosos, não é mesmo?
O espaço está aberto para discussão, com toda certeza!
um abraço,
Made on March 22, 2007 @ 5:50 pm
claudio Says —
Estão inclusos nos princípios da psicologia a ajuda a quem sofre? Se for o caso, o que dizer do cara que procura um profissional em busca de uma “saída” da homossexualidade e ouve algo como “você precisa se aceitar”. Que é isso?! O cara quer ajudar para sair, parar, abandonar esses desejos e ouve que “isso é genético”!!! Sinceramente, acho que a psicologia se tornou a religião de muitos e, como tal, está cheia de pré-conceitos. É uma pena. Tem gente sofrendo horrores e não tem onde procurar ajuda, a não ser na religião, seja ela a psicologia ou outra qualquer.
Re: Cláudio, talvez uma leitura atenta do texto acima possa auxiliar nessa tua questão. A princípio, a resposta perpassa a própria definição desse sofrimento: qual é o fundo dele? Em absoluto, trata-se do preconceito moral, e da discriminação social. Via de regra, o homossexualismo traz ’sofrimento’ não por ser uma doença, mas por ser objeto de preconceito. É nesse sentido que a ação do psicólogo não é preconceituosa, e o homossexualismo não pode ser considerado doença. A ação do psi não descarta (ou não deve descartar) o sofrimento psíquico vindo do paciente. Um bom psicólogo também não afirma - nem nega, e esse é o ponto - a condição homossexual. O que ocorre é que há uma grande confusão em relação a todas essas questões, vindas do público leigo, e até mesmo de alguns psicólogos. Abordagens como a de Justino são absolutamente equivocadas, nesse sentido, por partirem estas sim, e não as dos psicólogos, ou as de um bom psicólogo - de um preconceito.
Made on April 3, 2007 @ 4:16 pm
Yuri Says —
Se vc acha que considerar a homosexualidade como um transtorno é pré-conceito eu nem vou ler seu texto até o fim. Pesquise mais a respeito da homosexualidade pra ver se não é um transtorno. Me prove que não seja!! A psicologia é muito boa, mas é uma pena que ela esteja tão impregnada de pré-conceitos. Sorte que nos EUA por ser uma sociedade que tem como um de seus maiores direitos a liberdade de expressão estão surgindo muitas pessoas inclusive psicólogos e psiquiatras que admitem a homosexualidade como um transtorno e têm curado mtas pessoas que não tinha mais esperanças para suas vidas. Reveja os seus (pré)conceitos!
Re: Caro Yuri, se você pede para que argumentemos sobre em que sentido a HS não é um transtorno, mas se recusa a ler o texto, não há muito o que fazer, não é mesmo? A argumentação está toda no texto…
Made on April 22, 2007 @ 4:33 am
JC Says —
Aparentemente, aqueles que se sentem ofendidos pelo texto não percebem algo que é básico, em ciência: alegações exigem provas. Onde estão as provas de que a homossexualidade é um estado patológico? Sofrimento por preconceito tem correlação com a homossexualidade assim como o preconceito racial tem correlação com afro-brasileiros, p.ex. Daí sugerir que esse sofrimento é inerente à sua condição, seria também uma (descabida) justificativa para um “terapia de conversão dos afro-brasileiros”.
Então, onde se encontram provas de que a homossexualidade é uma condição patológica (falo de ciência e não religião)? Hmmm….acho que ninguém vai responder a isso…
Made on May 19, 2007 @ 4:50 pm
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