April 21, 2006

Hakim Bey: Sedução dos Zumbis Cibernéticos

link: descartavel.com

(Para Konrad e Marie)

Para começar, ajudaria se pudéssemos falar sobre redes no lugar de A Rede (net). Apenas os mais extrópicos crentes nA Net ainda sonham com ela como solução final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber-soteriologia, mas aceitam a Rede como ferramenta (ou arma) viável. Eles concordariam que outras redes devem ser configuradas e mantidas simultaneamente com "a" Rede - de outra maneira, ela se torna apenas outro meio de alienação, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer maneira mais total em sua hipnose.

As outras redes obviamente incluem - primeira e principalmente - padrões de convívio e comunicatividade. Empresto este termo da frenologia do século XIX - aparentemente existe um calombo de comunicatividade em algum lugar no crânio - mas eu o uso para significar algo como o "diálogo" de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o convívio implica presença física, a comunicatividade pode também incluir outras mídias. Mas - como o hermetismo nos ensina - o ato positivo do significado comunicativo, seja cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado simbolicamente (por texto, imagem, etc.), é sempre confrontado por sua negatividade. Nem toda a "comunicação" comunica, mapa não é território, e assim vai. "Programas interativos" não têm o menor sentido entre seres vivos, mas, de fato, nenhum meio é privilegiado ou completamente aberto. Como Blake poderia dizer, cada meio tem a sua forma e o seu espectro.

O que precisamos, então, é uma "análise espectral" Blakeana da Net. Uma "análise Fourierista" também poderia ser útil (não Fourier o matemático, mas Fourier o Socialista Utópico). Mas estes filósofos eram verdadeiros hermeticistas, enquanto nós podemos apenas colar alguns cacos sobre o que quer que seja.

A questão implícita: - a Net vai além do propósito de comunicatividade, e pode ser usada como ferramenta para "maximizar o potencial para emergir" de situações de convívio? Ou existe um "efeito contraproducente paradoxal" (como Ilich diria)? Em outras palavras: a sociologia das instituições (e.g. educação, medicina) chega à rigidez monopolística e começa a produzir o oposto do efeito pretendido (a educação estupidifica, a medicina faz adoecer). A mídia também pode ser analisada desta maneira. A mídia de massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de enclausuramento total pela imagem - uma crise da êxtase da imagem - e de completo desaparecimento da comunicatividade. O que se considerava que tornava a Net tão singular eram os seus padrões "de-muitos-para-muitos", tendo como implicação a possibilidade de uma democracia popular eletrônica. A Net é uma instituição, pelo menos no sentido lato da palavra. Ela serve ao seu propósito "original", ou há um efeito contraproducente paradoxal?

Outro padrão original dentro da Net é a sua descentralidade (sua herança "militar"); isto lançou a Net numa espécie de guerra com os governos. A Net "cruza fronteiras" como um vírus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades com, digamos, as corporações transnacionais ("zaibatsus") - e com o próprio Capital nômade. O "nomadismo" tem sua própria forma e espectro. Como a Nação Islâmica dos Cinco Porcento coloca, "nem todo irmão é um irmão". A molecularidade é uma tática que pode ser usada contra e a favor da nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que a Inteligência Global paga bem por sua informação; - certamente a Net já está completamente penetrada pela vigilância… cada bit de um email é um cartão postal para Deus.

Os nossos exemplos favoritos do uso imaginativo e insurreicionário da Net - o Caso McCalúnia, o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas - provam que a estrutura descentralizada de muitos-para-muitos tem potencial de verdade [o McDonalds ganhou a batalha mas parece estar perdendo a guerra - as franquias caíram em 50%!]. Ludditas que negam isto simplesmente estão se fazendo parecer desinformados - e muito mal dispostos na direção das boas causas. Os Ludditas originais não eram quebradores de máquina indiscriminados - eles tencionavam defender seus teares manuais e o trabalho em casa contra a mecanização e centralização nas fábricas. Tudo depende da situação, e a tecnologia é apenas um fator numa situação complexa e superestimada. Exatamente o que é que precisa ser esmagado?

O Capital Global abraça abertamente a Net por que a Net parece ter a mesma estrutura do Capital Global. Ele anuncia a Net como O Futuro Agora, e protege os cidadãos virtuais desses governos velhos e maus. Afinal, a Net é mesmo o paradigma de um Mercado Livre, não? O sonho de um Libertário. Mas secretamente o Capital Global [perdoem pela falácia patética - puxa, eu não consigo parar de reificar o Capital…]… secretamente, o Capital Global deve estar doente de preocupação.

Bilhões de dólares de investimento foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: - há um efeito de penumbra, mas o planeta está negro. Talvez um buraco negro. Afinal, Hawking provou que mesmo buracos negros produzem uma quantidade mínima de energia - alguns milhões de pratas, talvez. Mas essencialmente não há dinheiro circulando na Net, nem dinheiro saindo dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma "feira livre" até certo ponto (possivelmente bem mais do que já age) - mas falhou em se desenvolver como um Grande Mercado. A WWW não parece estar ajudando muito neste ponto. A "Realidade Virtual" começa a se parecer com mais um futuro perdido. IntraNets, transmissão personalizada de dados e "televisão interativa" são as estratégias propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que resta da Net. O e-cash não parece estar dando conta.

Enquanto isso, a Net toma o aspecto não apenas de uma feira livre sem corpo, mas também de uma favela psíquica. Avatares predatórios - desinformacionistas - dados sobre trabalho escravo nas prisões americanas - cyber-estupro (violação do corpo de dados) - vigilância invisível - ondas de pânico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) - invasões massivas de privacidade - propaganda - todo tipo de poluição psíquica. Sem mencionar a possibilidade de lavagem cerebral biônica, sídrome do túnel carpal, e a sinistra presença em cinza e verde das próprias máquinas, como nos cenários dos velhos filmes de ficção científica (o futuro como design pobre).

De fato, como Gibson previu, a Net já está virtualmente assombrada. Cemitérios na web para cyber-mascotes mortos - obituários falsos - Tim Leary ainda mandando mensagens pessoais - mestres ascensos do "Heaven’s Gate" - sem mencionar a já vasta arqueologia da própria Net, os níveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, páginas da web abandonadas. De fato, como alguém disse na última conferência da NETTIME em Liubliana, a Net já se tornou um tipo de ruína romântica. E aqui, no nível mais "espectral" da nossa análise, repentinamente a Net começa a parecer… interessante de novo. Uma pitada de horror gótico. A sedução dos Zumbis Cibernéticos. Fin-de-millenium, flores de estufa, láudano.

Enfim.

Vivemos num país em que 1% da população controla metade do dinheiro - num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, não a produção de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um país com a maior população carcerária per capita do mundo, onde "segurança" é a única indústria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra às drogas e ao meio-ambiente é concebida como a última função válida do governo; - um mundo de ecocídio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de populações indígenas, bioengenharia, trabalho forçado - um mundo construído na afirmação de que o lucro máximo para 500 empresas é o melhor plano para toda a humanidade - um mundo em que a imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as relações humanas.

Em vez de resmungar clichês liberais sobre tudo isto - ou levantar a perturbadora questão da "ética" - permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano (um ponto de vista que ainda acho útil depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro aliança como outros indivíduos (numa "união de independentes") que partilham de minhas metas. Para os Stirnerianos de esquerda, a tática favorita sempre foi a Greve Geral (o mito Soreliano). Em resposta ao Capital Global nós precisamos de uma nova versão deste mito que possa incluir estruturas sindicalistas mas não se limitar a elas. O velho inimigo dos anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguranças no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais são os zaibatsus e bancos (o maior erro na história revolucionária foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). Num futuro muito próximo haverá uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indivíduos e grupos orgânicos contra as corporações e "o poder do dinheiro" (i.e., o próprio dinheiro). De preferência uma guerra pacífica, como uma grande Greve Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber é: o que a InterNet pode fazer por nós?

Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicação. Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspiratórios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspiração realmente bem-sucedida não deixa rastro em papel, como a Revolução Líbia de 1969 (mas na época, os grampos telefônicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poderíamos ter certeza que o que vimos na Net era informação e não desinformação? Especialmente se nossa organização existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu não quero banir assombrações da minha cabeça apenas para encontrá-las de novo na tela. Luta de rua virtual, ruínas virtuais. Não parece uma proposição vantajosa.

Mais perturbador para nós seria a qualidade "gnóstica" da Net, sua tendência à exclusão do corpo, sua promessa de transcendência tecnológica da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido pela Net", o movimento geral é rumo à atomização - "caído sozinho em frente à tela". O "movimento" hoje presta muita atenção à mídia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de nós. A Net como substituto ao convívio e à comunicatividade. A Net como uma má religião. Parte do transe midiático. A comoditização da diferença.

À parte a crítica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nós poderíamos também lançar uma análise de uma posição Fourierista. Aqui no lugar de indivíduos nós consideraríamos a "série", o grupo básico Passional sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falanstério, ou Série completa de Séries (mínimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixão sendo a única força viável de coesão social (de fato, nesta base nós poderíamos considerar uma "síntese" de Stirner e Fourier, na aparência polarmente opostos). Para Fourier, a Paixão é por definição incorporada; todo o "networking" é mantido via presença física (apesar dele permitir pombos-correio para comunicação entre Falanstérios).

Como um místico dos números, Fourier bem que poderia gostar do computador - na verdade ele inventou o "namoro por computador", de certa maneira - mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separação física (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o único pecado era almoçar sozinho). Convívio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. "Atração Passional" funciona por que cada um tem Paixões diferentes: a diferença já é "luxo". O corpo de dados, o corpo na tela, é apenas metaforicamente um corpo. O espaço entre nós - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, zodíacos de luz brilhante (novas cores!), profusões de frutas e flores, os aromas da cozinha gastrosófica - e finalmente o espaço deve ser fechado, curado.

Outra crítica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que não foi. Ambos eram de Bezançon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressivo" quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federação. Para ele "governo" era meramente uma questão de administração da produção e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramentas úteis sob estas condições. Mas proudhon assim como Marx sem dúvida modificariam sua visão otimista da tecnologia se fossem consultados hoje da sua opinião: - a máquina como poluição social, a própria tecnologia (e por implicação o Trabalho) como alienação. Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libertários, anarquistas Verdes, etc. - descendentes legítimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. Não seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta crítica da tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e até Baudrillard (até qele ter caído exausto) torna claro que a imagem total - "a mídia" - tem um papel central nesta crítica. Proudhon questionaria a Net quanto a justiça, e quanto a presença.

Mas eu preferiria focar mais estritamente na questão da imagem. Aqui nós poderíamos retornar a Blake como nosso "martelo filosófico" (Nietzsche queria realmente dar a entender uma espécie de diapasão), uma vez que estamos falando do ídolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodução da imagem. Nós estamos, como Giordano Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nós precisamos ou de uma dose saudável de iconoclastia, ou então (ou também) um tipo mais sutil de senso crítico hermético, uma liberação da imagem pela imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um esmagador-de-ídolos quanto simultaneamente um hermetista que usava imagens para a libertação, tanto política quanto espiritual. Hermetistas entendem que o "hieróglifo", a imagem/texto ou comunicação mediada (simbólica), tem um efeito "mágico", ultrapassando a consciência racional linear e influenciando profundamente a psiquê. É por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu próprio sistema ou então ser escravo do sistema de outros. A autonomia da imaginação é um alto valor para o hermetismo - e a crítica da imagem é a defesa da imaginação. A tela é um aspecto da imagem que não pode escapar desta "análise espectral" - a mídia como "moedores satânicos".

Parece que não há mesmo como fugir da tecnologia ou da alienação. A própria techné é prótese da consciência, e portanto inseparável da condição humana (linguagem inclusa aqui como techné). A Tecnologia como a fusão óbvia de techné e linguagem (a ratio ou "razão" da techné) tem sido simplesmente uma categoria da existência humana desde pelo menos o Paleolítico. Mas - podemos perguntar até que ponto o próprio coração foi substituído por um órgão artificial? Até que ponto uma determinada tecnologia "surta" e começa a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pudéssemos alcançar um consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnológico, ou o maquinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma consideração. A techné deve servir ao ser humano, não definir o ser humano.

Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciência, mas apenas na condição de que não será a mesma consciência. Suspeitamos que a consciência racional, maquínica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania - ou "monopólio. Não há nada de errado com a razão (na verdade nós poderíamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razão deve dividir o espaço com outras formas de consciência: consciência psicotrópica, ou consciência xamânica (que não tem nada a ver com "religião" como é usualmente definida) - bioconsciência, o discernimento sistêmico do ideal hermético da terra viva - consciência étnica ou cultural, modos diferentes de ver - povos indígenas - ou os Celtas - ou o Islã - consciências de "identidade" de todos os tipos - e consciências de trans-identidade. Uma variedade de consciências parece ser o único campo possível para a nossa ética.

Então, e quanto a consciência da InterNet? Ela tem seus aspectos não-lineares, não tem? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", não há um lugar para a Net no banquete?

No fim nós devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" é impossível aqui - iria feder a ideologia. Sim e não.

Mas - "Entre o Sim e o Não, estrelas caem do céu e cabeças voam do pescoço", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filósofo Aristotélico Averöes.

Uma imagem adequada para uma ruína romântica…

Hakim Bey NYC 18 de agosto, 1997

Como encher linguiça com estilo

Estive pensando nos últimos dias num modo eficaz de se encher linguiça. Em outras palavras, em descobrir como certas pessoas desenvolvem boas formas de poder enrolar todo mundo, passar um belo papo, e convencer a todos que conhecem alguma coisa e que todos podem, portanto, confiar em sua competência, especialmente profissional. Para isso, andei pesquisando algumas fontes preciosas de informação: programas de televisão (como os da Angélica e o da Adriane Galisteu), o Orkut, e algumas lembranças de figuras que enrolam linguiça com estilo. 

1 - Empregue suas emoções de modo instrumental: primeiramente, seja gentil: sorria bastante, às vezes em volume bem alto, conte piadas, e não deixe variar seu olhar para com as outras pessoas. Até aí, tudo bem, são características de pessoas gentis, não enxedoras de linguiça. Mas para encher linguiça e ser bem sucedido é necessário que esse tipo de ação seja instrumental, que lhe conduza a uma posição de douto quando na verdade você é um ignaro ignorante. Pessoas que poderiam lhe compreender mal podem imediatamente mudar a posição, simplesmente por você ser assertivo (instrumentalmente assertivo) para com elas.

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April 20, 2006

(…)

 

Un escritor, o todo hombre, debe pensar que cuanto le ocurre es un instrumento; todas las cosas le han sido dadas para un fin y esto tiene que ser más fuerte en el caso de un artista.
Todo lo que le pasa, incluso las humillaciones, los bochornos, las desventuras, todo eso le ha sido dado como arcilla, como material para su arte; tiene que aprovecharlo. Por eso yo hablé en un poema del antiguo alimento de los héroes: la humillación, la desdicha, la discordia. Esas cosas nos fueron dadas para que las transmutemos, para que hagamos de la miserable circunstancia de nuestra vida, cosas eternas o que aspiren a serlo.

Jorge Luís Borges - «La ceguera», en Siete noches, op. cit., pág. 285, ou nessa referência.

Catatal…

Gosto dos blogs que ‘relampejam’ acontecimentos até mesmo em seus comentários. Um caso muito feliz é o blog curitibano de Thadeu Wojciechowski (como se pronuncia?? emoticon ), o "polaco da barreirinha" ("Barreirinha" é um bairro de Curitiba). Em um de seus posts com um poema sobre a "leitura", Thadeu aparece numa foto em que está cercado de livros. Dentre eles, o Catatau, de Paulo Leminski. Perguntei a ele como andam as leituras do Catatau, e gostei muito da resposta:

Adoro ler o Catatau, abro em qualquer página e me deixo levar. Gosto de relembrar as histórias que o Paulo me contou sobre cada parte do livro. Uma vez ficamos eu, ele e o Walmor tarde, noite, madrugada e parte da manhã, conversando, bebendo, cantando e compondo. O Leminski estava muito inspirado e rimos a noite toda. O Leminski também gostava de abrir o livro a bel prazer e ler em voz alta. Ele se divertia muito com isso e alternava a leitura com adendos maravilhosos e engraçados.
Ele se doava todo em cada detalhe. Por isso às vezes choro, às vezes rio, quando me lembro dele. Foi um mestre, estrela de primeira grandeza. Generoso, magnânimo e beatífico. Como só um grande poeta consegue ser.

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April 18, 2006

“Movimento de Apoio”, religião, ciência, psicólogos pouco esclarecidos, e “terapia reparativa”

Quem frequenta a comunidade de psicologia do orkut vê várias coisas inusitadas. Mas algumas, dentre todas, superam as expectativas. Uma psicóloga chamada Rosângela Justino (auto-declarada "psicóloga missionária"), teria participado de um desses programas populares da televisão brasileira e divulgado que conhece técnicas de "cura" da homossexualidade. Justino é coordenadora de uma certa ABRACEH ("Associação de Apoio ao Ser Humano e a Família"), entidade de cunho manifestamente evangélico que se preocupa com questões de infância e sexualidade. 

A questão da sexualidade na ABRACEH, entretanto, não é compatível com as abordagens que os psicólogos exercem cotidianamente. Como pode ser visto numa comunidade do orkut chamada "Movimento de Apoio", coordenada por Justino. O "Movimento" serve para quem "gostaria de apoiar pessoas que voluntariamente desejam deixar a homossexualidade", para pessoas que já a "deixaram", e para outros que desejariam "deixar" "transtornos" e "disfunções sexuais" como essas. Curiosamente, aparece ali um termo pretensamente científico, o de "homossexualidade ego-distônica". Em um dos tópicos da comunidade, Rosângela Justino ajuda a definir o que é, segundo ela, esse caráter ego-distônico: as pessoas não são, segundo ela, homossexuais; elas "estão", e o fato de "estarem" implica consequentemente a possibilidade de "cura". A deixa é a de que haveriam certas pessoas cuja condição sexual traria sofrimento, e consequentemente buscariam algum tipo de tratamento. Talvez, para ela, existam casos de homossexualidade "ego-sintônica", mas a declaração manifesta é de que tal condição é um "transtorno" ou "disfunção sexual", e que pode ser curado, por não ser parte constituinte da subjetividade.

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April 17, 2006

“O mundo dá voltas, meu caro”

Já fazem vários anos que, ao publicar o ensaio "Você sabe com quem está falando?", o antropólogo Roberto Da Matta (pesquise preços de livros de Da Matta no Buscapé) ensejou uma série de discussões a respeito do uso da autoridade no cotidiano brasileiro. O "Você sabe com quem está falando?", na descrição de Da Matta, tinha uma função bem precisa: o detentor de alguma espécie de autoridade, frente a qualquer acontecimento cotidiano, poderia, com essa expressão, coibir outras pessoas a cederem a seus interesses. Nada mais nada menos do que a conhecida "carteirada".

Aliás, o abuso de autoridade ou de alguma posição de prestígio não é novidade no Brasil. Pelo contrário, o constitui. Caso fosse feita uma massiva pesquisa sobre questões, por exemplo, de abuso moral no trabalho, com certeza os resultados seriam gritantes. O mesmo ocorreria caso fossem feitas pesquisas a respeito de como o "jeitinho" brasileiro se adequa às novas políticas do trabalho, relacionadas à recapagem da noção de "recursos humanos", em sua substituição pela de "gestão de pessoas". Mas isso são considerações sobre possíveis pesquisas, que aguardamos ansiosamente que um dia se efetivem.

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April 16, 2006

Feliz Páscoa!

 
 

 Solar do Rosário - Curitiba - 2006

April 15, 2006

Philippe Pache - Fotografias

Outra bela indicação do Absorto.

link: philippepache.com 

 

Goya: El Bobalicón (1820)

Goya: El Bobalicón (1820)

"A loucura tornou-se, no homem, a possibilidade de abolir o homem e o mundo - e mesmo essas imagens que recusam o mundo e deformam o homem. Ela é, bem abaixo do sonho, bem abaixo do pesadelo da bestialidade, o último recurso: o fim e o começo de tudo. Não que ela seja uma promessa, como no lirismo alemão, mas porque ela é o equívoco do caos e do apocalipse: o Idiota que grita e torce os ombros para escapar ao nada que o aprisiona é o nascimento do primeiro homem e seu primeiro movimento na direção da liberdade, ou o último sobressalto do último moribundo?" (FOUCAULT, M. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 1995)

A argumentação de Foucault sobre Goya em História da Loucura é muito interessante; entretanto, deixa recair algumas dúvidas: o Idiota referido acima, é o Bobalicón de 1820, ou outro? E os apelos a questões nietzscheanas, tais como a do "último homem", estão aqui presentes em que sentido?

April 14, 2006

Os 300 de Esparta

Conheci a história dos 300 de Esparta por acaso. Tudo começou no Yonos, onde encontrei, de passagem, a poesia de Constantine Cavafy (Konstantinus Kavafis). O poema em questão era Ithaca. Foi paixão à primeira vista. Desde então, tenho tentado até arriscar algumas traduções/traições de Kavafis, aqui no Catatau.

Lendo um pouco mais Cavafy, encontrei a bela Thermopylae, e logo depois, uma tradução ao português:

Honra àqueles que Termópilas fixaram
em suas vidas para as defender.
Que, jamais se furtado à obrigação,
foram justos e retos nos seus atos,
mas condoídos, também, e compassivos;
generosos, quando ricos; quando pobres,
generosos ainda com seu pouco,
socorrendo a quem pudessem; proclamando
sempre a verdade, embora sem nutrir
ódio algum por aqueles que mentissem.

E de mais honra serão merecedores
se previram (como tantos o fizeram)
que Efialte finalmente há de surgir,
e que os medas finalmente passarão.

- Constantine Cavafy (tradução de José Paulo Paes - Poemas, ed. Nova Fronteira). Outra tradução, confira aqui

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