June 6, 2006
Sebastian Brant - Stultifera Navis
Das Narrenschiff (veja também aqui, e edição completa aqui), também conhecido com o nome latino de Stultifera Navis (edição de 1497), é um livro escrito por Sebastian Brant em 1494. Trata-se de um extenso poema que faz o inventário de 110 vícios morais e pretensões mundanas da época, tais como barulho dentro da igreja, casório por dinheiro, arrogância, etc. As descrições de Brant reunem-se no tema de um grande cortejo de loucos: todos são embarcados numa nau que navegará até a mítica "Narragônia", ilha em que seriam reunidos todos os vícios.
O cortejo dos vícios ilustrado por Brant começa precisamente com o da erudição. A primeira gravura, Von ungenutzten Büchern (dos livros inúteis, acima), expõe um sábio circundado de livros lendo atentamente em seu gabinete. Junto ao sábio, um chapéu de guizos mostra a loucura da vã sabedoria. As gravuras seguintes ("Dos bons conselheiros", "Da avareza", "Das maneiras modernas", etc.) continuam o tema do homem que, ao fiar-se nos vícios e peculiaridades do mundo, "veste" o chapéu do bobo.
Pelo tema de uma sátira dos vícios morais, a Nau dos Loucos tornou-se na época um livro "popular". A rápida tradução ao latim de 1497, e outras posteriores, comprova isso. Um dos motivos da popularidade é o tom cômico das gravuras. A maior parte delas, supõe-se que sejam feitas por Albrecht Dürer.
Contemporaneamente, a Nau dos Loucos adquiriu relativa visibilidade a partir de um autor célebre que expõe tal questão: Michel Foucault. Segundo Foucault, no capítulo I de História da Loucura, a Nau dos Loucos é uma mesma imagem que serve a duas experiências diversas da loucura: uma, expressa por exemplo em Bosch, Brueghel, Schonghauer e Durer, Foucault chama de "experiência trágica". A experiência trágica da loucura diz respeito à abertura do sábio às figuras da alteridade, que aparecem sob a forma de uma "invasão" de figuras do "outro mundo", "nesse" e de modo "chão". Há um conteúdo misterioso, uma sobredeterminação, um excedente de sentidos, na linguagem do louco. Tal tema da "invasão" da loucura mostra que ela possui saber - um saber do próprio mundo -, expresso em um conhecimento esotérico que diz respeito à verdade do próprio homem. Bosch, por exemplo, expressa tanto em sua Nau dos Loucos, quanto em As Tentações de Santo Antão, o mesmo tema: o sábio abre-se à loucura, conversa com ela, inclina-lhe o ouvido.
Já em Brant e Erasmo, a função da loucura é diversa, segundo Foucault. Não é mais "trágica", mas "crítica": a loucura não é sabedoria, mas irrisão; não demonstra nenhum ensinamento, mas é precisamente o oposto do ensinamento. A Nau de Brant trata de uma sátira moral, não a favor da loucura, mas contra ela: os poemas mostram pretensões inúteis, falsas, vãs, errôneas, vagas, e o ensinamento figura não sob algum segredo que possa ser contado pela loucura, mas na ironia daquele que não se deixa enganar. Esse é o conteúdo "pedagógico" das gravuras, que pode ser visto já na primeira, sobre o sábio. Conforme Foucault, esse elemento "crítico" da loucura prevalecerá sobre o "trágico", na história, em certo sentido abrindo o espaço em que serão tornadas possíveis as experiências modernas da loucura.
Crédito das imagens: "Copyright © 2002 by the University Libraries, University of Houston. All Rights Reserved."
Technorati tags: foucault, história, poesia, livros








5 Comments »
claricelerman Says —
great post..
lendo aos poucos
bjos
Made on June 8, 2006 @ 2:10 pm
Leandro Says —
Muito bom, Pitu!
Esclarecida a ilustração do banner superior do blog. Nada mais apropriado.
Made on June 8, 2006 @ 7:53 pm
Administrator Says —
E olha q esse post deu um trabalhão! Ainda falta esclarecer as letras de fundo do banner superior, hehehe
Espero fazer isso em outro post
abração!
Made on June 8, 2006 @ 8:08 pm
MC Says —
Grande post!
Made on June 9, 2006 @ 8:13 pm
gian Says —
legal
Made on April 18, 2007 @ 4:42 pm
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