June 29, 2006
Superando o Turismo
ousamos entender a viagem como um ato de reciprocidade mais que de alienação. Em outras palavras, nós não desejamos meramente evitar as negatividades do turismo, mas ainda mais atingir a viagem positiva, que visualizamos como uma relação produtiva e mutuamente aperfeiçoadora entre eu e outro, hóspede e anfitrião - uma forma de sinergia inter-cultural em que o todo excede a soma das partes.
Nós gostaríamos de saber se a viagem pode ser realizada de acordo com uma economia secreta de baraka, de acordo com a qual não apenas o templo mas também os peregrinos tenham "bençãos" a aspergir (…)
Estive lendo o texto "Superando o Turismo" (veja abaixo), de Hakim Bey (pesquise edições impressas e preços). Este, parecendo ser um Bey tupiniquim. Salvo algumas passagens, nada como ler Hakim Bey, seja ele quem quer que seja. Mas como sempre, Bey impressiona.
O texto trata da emergência do turista como figura "cultural". O turista viaja a terras estranhas, e busca ver pontos de vista exóticos, registrando tudo numa câmera. É em direção à diferença que o turista sempre segue. Porém - chama a atenção Bey -, de um modo peculiar: a relação do turista com a diferença que visita resume-se ao consumo ("o turista consome a diferença"), sem que haja alguma relação efetiva e real com ela, e, enfim, essa relação é uma falsa relação.
Segundo Bey, quando um turista visita e consome seu objeto (o turismo), não ocorrem transformações efetivas em seus modos de vida e sensibilidade, como ocorre, ao contrário, com o peregrino. Do mesmo modo, o que o turista consome é tudo da ordem do objeto: mesmo a subjetividade daqueles seres que vivem nos lugares visitados são objetos. Entre o turista e a diferença, há uma barreira, que apenas se reforça em seus múltiplos elementos: a câmera, o consumo, uma relação não autêntica e não construidora de uma experiência verdadeira com os nativos do lugar, e, enfim, o turismo configurando-se como uma espécie de abordagem em que o turista nada vê além de "exotismos éticos de consumo descartável", como já dizia Peter Pelbart.
Superar a figura do turista seria, assim, superar todo esse universo de relações. Ter uma relação com o lugar ao redor que não perpasse o consumo, que não seja de ordem plenamente do objeto, e que transforme radicalmente o indivíduo que visita novas terras. O turista que visita novos lugares leva consigo toda a cidade: seus trejeitos, seus equipamentos, seus costumes (que pouco se sensibilizam aos costumes do lugar), enfim, todo um modo de subjetividade que não se inclina à diferença. O verdadeiro andarilho, nesse sentido, é aquele que deixa para trás o turismo, a cidade, o consumo, e, enfim, a si mesmo, construindo uma relação com o mundo que constitua uma experiência efetiva, e transformadora.
Para encontrar o texto de Hakim Bey, clique nesse link. Aliás, há muitos outros textos bem interessantes por ali para serem explorados!






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