September 6, 2006
Networking e indicação
Os meios empresariais e organizacionais brasileiros tem o hábito de recorrer frequentemente a termos e receitas estrangeiras para justificar várias de suas práticas. Desde os programas de qualidade, até as receitas gerenciais japonesas, passando por iniciais de termos exógenos para caracterizar receitas comportamentais, e assim por diante.
Um desses termos é o networking. Networking quer dizer "rede de trabalho", de "contatos", ou de "relações de trabalho". Implica dizer que um indivíduo não deve ter apenas competência ou habilidade em seu ofício; para ser um profissional bem sucedido, é indispensável a constituição de uma rede de contatos, organizações, e pessoas que estejam cientes das capacidades e das possibilidades a serem empreendidas. Quanto maior a ‘rede de trabalho’ de uma pessoa, maiores as probabilidades dela ser requerida em um emprego, ou empreendimento.
Curioso chamar a atenção sobre como certas noções, importadas ao meio social brasileiro, são submetidas às próprias dinâmicas de nossa sociedade. Com o ‘networking‘ não é diferente. Essa noção ‘importada’ convive, e mesmo se mescla, com outras noções, na prática e no cotidiano das relações de emprego. Por exemplo, as noções de ‘indicação’, do ‘jeitinho‘, da rede de influências, de afinidades, de privilégios, e de interesses ‘políticos’, que se confundem (aqui) com a própria noção de ‘networking‘. No Brasil, não basta ter boa competência e vários contatos para que a probabilidade de obter um emprego ou novos empreendimentos aumente. Caso parássemos descrevendo apenas essas condições, já teríamos o networking. Mas por nossas terras, deve haver algo mais. É necessário que a relação com esses ‘contatos’ de preferência ultrapasse o nível da competência. Não é raro conhecermos casos em que profissionais muito competentes foram deixados de lado para a contratação de outros, "indicados" por contatos de raiz afetiva, política ou que possibilite privilégios de ordem privada ao contratante.
Em suma, os analistas da questão do trabalho no Brasil não podem resumir a questão do emprego (e do desemprego) a receitas de comportamento, a partir das quais a noção de ‘networking‘ é um dos ingredientes. O desemprego não depende simplesmente do desempenho ou das características individuais do desempregado, mas de um conjunto de relações econômicas, culturais e sociais que resultam nesses índices. A noção de ‘rede de trabalho’, ao menos do modo como é aplicada no Brasil, deve ser analisada tal como se dá, no contexto brasileiro, e não simplesmente a partir de recomendações das revistas da moda. Caso contrário, o desemprego é reduzido meramente à incompetência do desempregado, e os analistas do desemprego não se tornam nada mais do que agentes difusores de um preconceito.






1 Comment »
_Maga Says —
Concordo plenamente com tudo que disseste.
Já teci esse comentário por aqui, mas realmente o problema do desemprego é mais que uma questão de competencias e habilidades: ele é estrutural. Não tem emprego para todo mundo!!!
Isso me deixa devera triste… e mais triste ainda quando percebo preconceitos com relação ‘a situação do desempregado.
Um abraço
Made on September 6, 2006 @ 4:17 am
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