October 6, 2006

A mídia entre formas e conteúdos

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imagem daqui

Um post do Biscoito sugeriu uma idéia interessante: certas vezes a imprensa se interessa exclusivamente pela forma; outras, pelo conteúdo.

No escândalo do mensalão, toda atenção foi dada ao conteúdo: Roberto Jefferson, então deputado, estava envolvido em denúncias junto aos Correios. Essa foi a "forma". Mas inexplicavelmente ignorada pelos holofotes da mídia após o conteúdo das denúncias de Jefferson. Após as denúncias, tudo ocorreu como se não houvesse mais corrupção nos Correios. Tudo passou a girar em volta do "mensalão" (termo criado por Jefferson).

Durante a apuração dos escândalos do mensalão, prendeu-se um distinto Sr. com 100 mil dólares na cueca. Junto a esse distinto Sr., outro político foi detido carregando nada menos do que 10 milhões de reais em malas, por aeroportos. Carregar 10 mi em malas não é tão engraçado quanto 100 mil na cueca. Mas perguntemos qual das notícias ainda reverberam em nossas memórias, e são consideradas ainda pelos holofotes da mídia. Certos conteúdos pareceriam mais importantes a serem mostrados e lembrados do que outros.

Finalmente - poderíamos dizer -, teriam aparecido também as denúncias sobre superfaturamento na venda de ambulâncias. Os cabeças do esquema, pai e filho Vedoim. Sob a forma da busca de cooperar com a justiça, o conteúdo das denúncias dos Vedoim foi direcionado a uma lista enorme de figuras. Os holofotes da mídia, novamente, voltaram-se aos conteúdos (muito embora sem todo o afinco de quando se tratava do mensalão).

Mas eis que, inexplicavelmente, ocorre outra guinada: se o conteúdo das denúncias dos Vedoim é válido (ou ao menos, passível de apuração, caso contrário não haveria máfia das sanguessugas), a partir de um certo dossier, tão misteriosa quanto inexplicavelmente, ele perde toda a validade. Vender dossier no Brasil não é crime. Crime pode ser configurado pela procedência ilegal do dinheiro, ou pela responsabilidade de divulgar informações falsas. Ora, a mídia agora ignorou o conteúdo (que pode sugerir um escândalo gigantesco envolvendo José Serra), e voltou-se à forma! Não se considera mais o que pode implicar o dossier, mas exclusivamente a forma pela qual foi obtido. Qualquer criança em idade pré-escolar poderia perguntar: se saiu tão caro, em quê consiste seu preço?

E a história ainda não terminou: o conteúdo do dossier foi esquecido; os mistérios da forma pela qual foi comprado ainda estão sendo resolvidos. Mas, novamente, os holofotes desconsideram certas formas, e apontam conteúdos: na ocasião do vazamento ilegal das fotos do dinheiro envolvido na compra do dossier, desconsiderou-se qualquer atitude ilegal do delegado Edmilson Pereira Bruno. Bruno foi o responsável pelo vazamento. Mostrou-se o conteúdo (as fotos), ignoraram-se as formas (o vazamento ilegal das informações).

Pulga atrás da orelha: Que tipo de economia de informação permite à imprensa tanta oscilação entre formas e conteúdos?  

1 Comment »

  1. Cassio Augusto Says

    Cara… como sempre um excelente texto… e o que é melhor… o outro lado da notícia… é por isso que adoro os Blogs…

    ah!!! pelo visto vc entende um pouco do Foulcalt… tem como me passar algo sobre a essëncia de seu pensamento>>> vlw!!!

    Made on October 8, 2006 @ 12:13 am

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