October 13, 2006

Jesus Cristo e a Psicologia

 

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imagem daqui 

Várias pessoas "leigas" em psicologia enunciam uma pergunta frequente: que relações haveriam entre psicologia e religião? Jesus Cristo seria um psicólogo? Um psicólogo basta para sanar problemas, ou ir à Igreja seria mais eficaz? Enfim, como já saiu um best-seller por aí, Jesus seria o "maior psicólogo que já existiu" [pesquisa de preços desse livro]?     

Primeira coisa a se notar: as relações entre psicologia e religião devem ser as mesmas que as entre ciência e fé. Ninguém contesta, por exemplo, que certos tipos de problemas competem ao médico, e só a ele, medicar. Algum ente próximo a nós pode, em certo momento, ficar doente. Rezamos por esse ente, mas nem por isso deixamos de levá-lo ao médico. O mesmo deve ocorrer com o psicólogo: quando temos alguém com quadro de sofrimento psíquico, é ao psicólogo que deve ser encaminhado. Isso não exclui a oração dos fiéis. Mas apenas a oração não garantirá melhora alguma.

Tive certa vez que enfrentar uma situação: uma pessoa do lugar onde eu trabalhava me procurou para conversar. Explicou que tomava um remédio pesado, contra um transtorno mental, mas que após entrar numa igreja evangélica os pastores garantiram que ela não precisaria mais tomar o remédio, pois a própria igreja garantiria o milagre. Ela deixou de tomar o remédio, desde então, e participou fervorosamente dos cultos. Mas percebeu que os sintomas de seu transtorno estavam retornando, cada vez mais intensamente. E ela perguntou: não teria a igreja operado um milagre? Ou o quê faltaria para ela ser curada? Como ela não era uma paciente, mas apenas uma colega de trabalho, expliquei brevemente que a noção de milagre não implica meramente participar fervorosamente de uma igreja (e esse tipo de igreja acaba criando um halaká que, teologicamente, o próprio Jesus criticava). E, como ela estava propensa a acreditar mais em argumentos ‘religiosos’, expliquei aquela frase de Cristo sobre "dar a César o que é de César", ou em outras palavras, tratar cada assunto em seu devido contexto. Ela poderia muito bem tomar o remédio, e rezar na igreja, sem prejuízo algum para qualquer das partes.

O caso dessa mulher deixa claro uma coisa: há uma mistura, feita por determinadas correntes religiosas, entre religião e psicologia. Como se a psicologia fosse secundária, e subsumida a interesses religiosos. Ou, em outras palavras, como se o psicólogo fosse uma espécie de agente religioso que ignoraria a própria ciência, ou a poria explicitamente a serviço da reliigão.

Certas religiões chegam, mesmo, a levar essa mistura a práticas errôneas, mal fundamentadas, e anti-éticas. Anteriormente comentamos a respeito de uma psicóloga que enfrenta processo pelo Conselho Regional de Psicologia por prometer uma terapia que ajuda a "deixar" a homossexualidade. O que essa psicóloga - que se auto-intitula "psicóloga evangélica" - faz, quando propõe isso? Subjuga a ciência à fé, mistura psicologia e religião, e ainda faz com que o psicólogo seja uma espécie de subalterno de propósitos religiosos bem específicos. Isso, por si só, contraria qualquer ideal de ciência (uma ciência se propõe sempre como livre de crenças), e mesmo é um preconceito contra outras religiões. Se um psicólogo é um cientista, mas está subjugado a interesses de um tipo de fé, logo está desconsiderando todas as outras fés, não é mesmo?

Basta citar novamente o exemplo do médico: um médico que pratica o culto evangélico não deixa de ser evangélico por ser médico. Mas sua prática médica não se torna, por isso, evangélica. Em outras palavras, a ciência médica moderna é apoiada em uma série de postulados contrários aos postulados religiosos. Por exemplo, a teoria da evolução - base de muitos postulados da medicina -, é radicalmente contrária ao "criacionismo", defendido por alguns evangélicos. Mas nem por isso um médico, que apóia sua prática em princípios evolucionistas, deixará a medicina de lado para tornar-se um "médico evangélico". Porque com o psicólogo deveria ser diferente?

Em âmbito teórico, existem várias relações entre psicologia e religião. Jung [pesquisa de livros], por exemplo, analisa todas as manifestações humanas - as religiosas em destaque - sob a noção de "arquétipo": as religiões, tradições, e cultos do homem durante toda a história fariam parte de uma espécie de conjunto de possibilidades inatas do homem, que poderiam ou não se desenvolver numa cultura. Por exemplo, certas culturas desenvolvem religião monoteísta, e outras, politeísta. O papel de Deus em algumas culturas é dominador, e em outras, bem-feitor; e assim por diante. Cada "papel" significaria uma espécie de virtualidade desenvolvida no homem em uma dada cultura.

O mesmo ocorre com Freud [pesquisa de livros]: quando analisa religiões e/ou o que se chamava em sua época de "sociedades primitivas", o resultado é parecido: uma religião expressa certas características psicológicas do homem, que são compartilhadas por integrantes de uma sociedade.

Tanto o caso de Freud como de Jung servem para mostrar uma idéia trivial: aqui, existe uma relação entre psicologia e religião; mas, como é feita por cientistas, a psicologia não se submete a caracteres religiosos. O psicólogo não é um agente pastoral disfarçado. A religião, por sua vez, torna-se objeto de uma análise psicológica. Notemos que tanto o papel do religioso, quanto do cientista, permanecem resguardados. E esse tipo de posição é a posição legítima do psicólogo (caso o leitor encontre outra posição, ela deve ser denunciada).

Outra questão interessante seria a histórica: seria Jesus o "maior psicólogo que já existiu"? Isso depende do postulado que aceitamos. Caso aceitemos que Jesus se resumia a curar doentes mentais; caso aceitemos que havia na época um problema médico que exigia a presença de psicólogos para analisar conceitos de "doença mental"; e caso os psicólogos de hoje em dia nada mais fazem do que uma religião mal feita, então poderíamos dizer que Jesus era o "maior psicólogo". Mas teólogo algum (pelo menos alguém sério e rigoroso) aceitaria tais premissas. Sem contar a infinidade de termos da Bíblia que expressam tanto a questão da mente, quanto da loucura: pneuma, nous, ruah, halal, shagha`, mania, e assim por diante. Aquele que pressuporia um Jesus preocupado com doenças mentais deveria prová-lo mostrando isso por uma análise teológica bem rigorosa: recorrendo aos originais, separando os dados históricos dos termos teológicos, relacionando cada termo com as épocas, e assim por diante. Repetindo, ninguém com um mínimo conhecimento de Bíblia se interessaria em provar tal frase. É muito mais fácil e coerente optar pela idéia de que Ele estava lá para fundar uma religião do que para montar um consultório…



4 Comments »

  1. leandro Says

    Muito bom o texto, catatau!

    O que falta é realmente é aprofundamento. Na ciência e na fé. Para discernir um do outros, como diz aquela oração dos Alcoólicos Anônimos.

    O melhor livro que li a respeito foi “Orar depois de Freud”, você chegou a lê-lo?

    Faz o caminho inverso da lógica atual. Ao invés de adaptar a psicologia à religião (como todo mundo tem feito), faz um boa discussão da psicologia na religião, em especial na oração, e aponta o quanto é infantil e distante do modo de Jesus a oração da maioria.

    Re: ô guri, lembra que foi vc quem me emprestou esse livro? ;) Com certeza é muito bom, tinha esquecido de mencioná-lo. Bom, o mais interessante no livro é o modo como ele aponta à necessidade de uma espécie de ‘fé adulta’ do cristão: crescemos, temos outras exigências e modos de pensar, mas muitas vezes ainda agimos em termos de religião como se fôssemos crianças, e precisamente nesse ponto a religião deixa de ser interessante. Outra coisa interessante dessa ‘fé adulta’ é saber discernir fé, de ciência, como vc mesmo disse, e como muita gente acaba se enganando… E o legal é que nesse livro é do ponto de vista da fé (e não da ciência) que ele exige essa separação!

    Made on October 14, 2006 @ 12:18 pm

  2. Denise D. Says

    Creio o grande equívoco fica inscrito quando se quer abordar questões psíquicas a partir de dogmas e crenças de determinadas correntes religiosas. Religiosidade não necessariamente é igual a religião, essa é uma questão que ainda atravessa a prática de muitos profissionais de saúde, incluindo os psicólogos clínicos. Devemos tratar toda e qualquer crença dentro do que ela é- fé, não passível de contestação, é uma resposta a determinada angústia e sentimento de desamparo. Já a ciência, via de regra, é a capacidade de formular novas questões a partir de suas descobertas.

    Made on October 18, 2006 @ 2:38 am

  3. Amanda Says

    Então ja que estamos falando de psicologia ligado a religião como esse livro nos faz… eu queria ler um livro que falasse so de da ciencia e da psicologia deixando um pouco de lado a religião para saber ate que ponto aceitarmos o que dizem…..

    Made on February 24, 2008 @ 3:56 am

  4. Catatau Says

    Amanda,

    TODA a literatura de psicologia de inspirações científicas pode te ajudar nesse ponto. Se você busca algo introdutório, existe farta bibliografia no mercado. Ainda, no texto acima tem algumas referências, você leu o texto com atenção?

    Inclusive o texto sustenta que, tanto teologicamente, quanto ‘cientificamente’, não há confluência possível entre religião e psicologia.

    Made on February 24, 2008 @ 2:29 pm

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