October 18, 2006

Estamira e o Trocadilo

img391/8496/2031at5.jpgNão percam Estamira (blog do filme), filme-documentário de Marcos Prado. Não há muito a dizer, além de que o filme é excelente. Trata da história de uma mulher idosa que sofre de distúrbios mentais, e trabalha em um lixão do Rio de Janeiro. O documentário tem sido aclamado pela crítica, e elogiado por vários profissionais de política e saúde mental.                                     

Gostaria de fazer apenas alguns apontamentos. Primeiramente, o de como é interessante a atitude do espectador ao ver o filme. Estamira não é uma história daquelas que nos faz ir ao cinema e voltar, sem compromisso algum. O próprio espectador está envolvido no filme, é seu cúmplice. É a contra-parte da própria existência e discurso da personagem principal ("vocês precisam da Estamira", diz ela). A existência de modos de vida como os nossos fazem parte (mantém, e são a contra-parte) da existência de modos de vida como o de Estamira.

O espectador pode ser tentado a fazer uma interpretação psicológica de Estamira. A veria como um personagem com características e sofrimentos: uma biografia recheada de intrigas pessoais, de incompreensão, determinantes individuais, de mecanismos… E assim, novamente, teríamos a postura do espectador que não se compromete com o filme. Mas seria assim? Um delírio seria apenas um drama individual, teatral, e psicológico? Não haveria algo mais? Não deixam de saltar aos olhos considerações como as de Deleuze. Segundo ele, um delírio não é apenas um drama teatral ou psicológico. Encerrar certas vozes no descrédito é, como na frase de Dostoievski, isolar nosso vizinho para nos conformarmos com nosso próprio bom senso. Isolando Estamira na narrativa do personagem, voltamos para casa como confortáveis consumidores de cinema, que presenciaram apenas mais uma história. Mas seria apenas isso? Quando se dá voz ao delírio, ou quando se consideram efetivas as palavras de alguém cuja palavra é de partida desvalorizada, os resultados podem ser interessantíssimos, como na seguinte passagem de Deleuze:

Nosso segundo tema é que o delírio, que é muito ligado ao desejo, desejar é delirar, de certa forma, mas se olhar um delírio, qualquer que seja ele, se olhar de perto, se ouvir o delírio que for, não tem nada a ver com o que a psicanálise reteve dele, ou seja, não se delira sobre seu pai e sua mãe, delira-se sobre algo bem diferente, é aí que está o segredo do delírio, delira-se sobre o mundo inteiro, delira-se sobre a história, a geografia, as tribos, os desertos, os povos (…) O delírio é geográfico-político. E a psicanálise reduz isso a determinações familiares. Posso dizer, sinto isso, mesmo depois de tantos anos, depois de O anti-Édipo, digo: a psicanálise nunca entendeu nada do fenômeno do delírio. Delira-se o mundo, e não sua pequena família. Por isso que… Tudo isso se mistura. Eu dizia: a literatura não é um caso privado de alguém, é a mesma coisa, o delírio não é sobre o pai e a mãe. (O Abecedário de Gilles Deleuze)

Em outras palavras, o delírio de Estamira, caso não considerado apenas no nível de uma história individual, não é meramente o discurso de um doente. Ou melhor, talvez encerrar o discurso na doença seja descaracterizar o momento do discurso em sentido estético, ético e político. Sentido estético: caso a linguagem seja resumida a determinações psicológicas, não há sentido algum envolvido no filme, e a própria arte é reduzida a determinantes psicológicos; ético: caso a linguagem exaltada seja desprovida de valor e sentido (ou tenha seu sentido inteiro determinado), não compromete nada do espectador; político: uma linguagem descomprometida não diz respeito à manutenção ou possível mudança de modos de vida.

O debate sobre se há sentido ou não no discurso de Estamira está, de início, fadado a essa decisão inicial. Caso seja apenas um drama tomado em esfera psicológica, podemos no máximo nos emocionar com tal vida. [spoilers] Mas, se tomarmos a linguagem do filme em outras instâncias, algumas questões saltam aos olhos. Um exemplo é a recusa de Estamira de Deus e do "trocadilo". O quê é Deus, segundo Estamira? É aquele que, na existência, permite toda espécie de "trocadilhos": permite o mau parecer bom, o feio parecer belo, o homem explorar o próprio homem, e assim por diante (não existe "homem inocente", mas "esperto ao contrário"). Daí Estamira ser enfática ao afirmar: "sou ruim, mas não perversa". Ser "perversa" implica utilizar "trocadilos", modos de vida misturados, mesclados, "copiados" (na escola aprende-se apenas a "copiar"), em que o liame entre um ato moral e a imoralidade é tênue e desfeito. Os homens não "compreenderiam" a "Deus", por viverem modos de vida nos quais o limite da moralidade é facilmente revertido, sendo a própria "existência" de "Deus" resultado desses "trocadilos". "Que Deus é esse? Que Deus é esse, que só fala de guerra e não sei o quê? Não é ele que é o próprio trocadilo?"

Para além do ensinamento ético, a linguagem de Marcos Prado conduz a determinantes políticos: a voz de Estamira é a voz do lixão do Gramacho, de seus integrantes, de seu cotidiano de excluídos e doentes mentais. "Sua" existência é "necessária" para "nós", ou para "nossa existência". É lá que Estamira fixou território depois de alguns anos entre a loucura e a desolação; nesse lugar, é expresso o "descuido" do homem, que aos "trocadilhos" descarta as coisas, enquanto paradoxalmente não as possui (caso as possuísse, teria mais cuidado, e não haveriam tantos lixões); enfim, é de lá que o "cuidado" de Estamira ("ruim", mas não "perversa") pode extrair ingredientes de uma comida "melhor que a do restaurante".

Marcos Prado produz um belo filme. Não testemunhamos o discurso de um louco, mas palavras que dizem respeito essencialmente a nós mesmos. 

cinema brasileiro estamira marcos prado

4 Comments »

  1. Adriana Says

    Gostei muito do seu texto. Este documentário é mesmo excelente!
    Aviso aos que moram em Curitiba: o filme Estamira será apresentado no dia 08/12/06 na PUC-PR, Auditório Alceu Amoroso Lima – Bloco de Humanas, das 9h às 12h. A apresentação e discussão do filme fazem parte do “Fórum Permanente de Reintegração Social em Saúde Mental” da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba.
    - Telefones para maiores informações e inscrições: 3271- 5780 ou 3271-5826 ou pelo email: ipad@pucpr.br. Inscrições até o dia 06/12/06.

    Made on November 26, 2006 @ 4:11 pm

  2. Marcio Arese Says

    O que podemos falar sobre o textículo de Gilles Deleuze sobre o delírio ? Somente que ele parece não ter entendido bem a psicanálise, pelo menos o que esta entendeu sobre o delírio.
    É curioso notar como esse pensamento filosófico é citado como base em muitas clínicas anti-psicanalíticas ao mesmo tempo em que é raro encontrarmos seus seguidores trabalhando diretamente com a psicose. Dificilmente ouvirão uma resposta convincente ao perguntar-lhes a sua versão para o que seja um surto, ou o que seria uma direção para o tratamento da psicose ou sua estabilização.
    Se a psicanálise é um delírio, bem, parece ser, no entanto, um delírio mais amarrado do que o do Sr. Deleuze. A “desterritorialização” só parece ser um caminho para aqueles que não sofrem dela os efeitos radicais.

    RE: Interessante trazer esse tipo de questionamento, Marcio!
    Penso que Deleuze e Guattari são muito bem esclarecidos a respeito dessa crítica. Mas penso também, até hoje, que há um certo problema de passar a esquizoanálise à clínica. Dentro de alguns anos, talvez, será resolvido ;)
    Mas em relação ao teu questionamento, talvez a posição do Deleuze seja deliberadamente contra a redução da doença a níveis individuais. Há um certo Freud que D&G apreciam, que é aquele do inconsciente como um caldeiraõ fervilhante de instintos, totalmente aberto à fabricação do real. O que eles não apreciam é a individualização, a familiarização, enfim, o fechar o inconsciente a um indivíduo que teve uma infância, e é esmagado por uma animalidade e uma cultura.
    O caminho vai mais ou menos por aí, nesses autores. Você os leu? O que você acha?
    um abraço,

    Made on August 15, 2007 @ 10:20 pm

  3. lulu Says

    Muito interessante. Dá quase um alívio perceber que hpa olhares que sabem que estética, ética e política não se separam, nunca, e que os espectadores - nós - estamos sim sempre enredados naquilo que vimos e transformamos nós também nossos objetos. A Estamira é tão arrebatadora, e tão sábia e poética que de fato dá um certo receio louvar a esquizofrenia através dela, mas você aponta um caminho interessante que parece resolver essa questão ética.
    Putsgrilo digo eu,
    adorei isso daqui por aqui.

    RE: Legal encontrar gente que também assistiu, Lulu! E de fato, não se pode assistir Estamira sem lançar algum juízo. Que sejam juízos sobre nós mesmos!
    abração,

    Made on September 13, 2007 @ 1:01 pm

  4. Julia Casagrande Says

    Oi chamo julia sou estudante de Jornalismo e estou precisando de sua ajuda!!! gostaria que me adicionasse juliacasagrande23@hotmail.com

    Made on November 24, 2007 @ 3:02 pm

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