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October 20, 2006

A moda da resiliencia nas organizações


img139/3347/b3a809b829kk7.jpgOs meios empresariais e organizacionais brasileiros possuem o costume de importar e emprestar várias noções vindas de outros lugares e áreas para justificar suas práticas. Dentro das noções contemporâneas mais em voga, a da vez é a "resiliência" [pesquisa de livros sobre esse assunto]. 

Resiliência é um termo provindo das ciências exatas, e diz respeito à capacidade de um elemento que sofre influência externa retornar ao estado inicial. Antes de comentarmos a "noção" de resiliência nas organizações, entretanto, é necessário chamar a atenção primeiramente dois aspectos: o que quer dizer a palavra "noção", e em que sentido a noção de resiliência "justifica" certas práticas empresariais.

Em primeiro lugar, quando pautamos debates científicos, a palavra "noção" é contraposta à de "conceito". Uma noção é uma idéia geral sobre determinado assunto, um conhecimento elementar sem rigor conceitual ou científico. Temos noção, por exemplo, de calor e de frio, quando somos submetidos a determinadas condições climáticas; temos noção de "velocidade" quando observamos que o carro em que estamos se desloca mais "rápido". Já um conceito é um modo de relação entre dois ou mais termos que adquire estatuto de definição rigorosa e/ou científica. Não supõe uma idéia geral, mas uma definição, ou em outras palavras, um delineamento das variáveis (que são outros conceitos ou medidas) que compõem o conceito. Assim, temos noção de velocidade quando observamos que nos movimentamos rápido. Mas o conceito de velocidade supõe o deslocamento de um móvel por uma distância S em um tempo T, por exemplo. A razão entre a distância percorrida e o tempo poderá permitir formular o conceito de "velocidade média". Concluindo, o que difere uma noção de um conceito é seu caráter de rigor e cientificidade, para além das opiniões, das impressões, das idéias gerais, e enfim, das ‘noções’.

A "noção" de resiliência é uma noção (e não um conceito) por não poder ter, em contexto organizacional, fundamento científico. Até hoje, entre os estudiosos das empresas, há dificuldade em transformar práticas empresariais em conceitos científicos. Para que uma prática empresarial se transforme em ‘científica’, não basta ser repetível, ou estabelecida por meio de receitas práticas. Há todo um debate que envolve primeiramente o que seria uma ciência organizacional, que relação ela teria com as ciências humanas, que tipo de ciência ela seria, e que universo de questões éticas envolveria. As práticas organizacionais implicam o homem como um "recurso",  um instrumento a serviço de objetivos que ultrapassam a própria esfera humana (a competição, o lucro, e assim por diante). O debate ético, frente a essas práticas, salta aos olhos, e permanece até mesmo quando supomos que o homem deixou de ser um "recurso humano" para tornar-se "pessoa gerida".

Nisso, dizer que a noção de resiliência no universo das empresas é primeiramente um "conceito", e "científico", é uma questão muito séria: primeiramente, simplesmente importar um conceito de uma ciência tão estranha à organização como a física não garante nenhuma cientificidade; em segundo lugar, não é o campo da ciência que requer ou cria essa noção, mas sim um fundo prático, de uma prática não científica. Um empregador que busca medir a resiliência humana não está interessado em ciência, mas em funcionários ‘resilientes’ para as tarefas que ele oferece. Isso tem consequências graves: Se o físico testa um material a partir de um universo da pesquisa científica para medir sua "resiliência", o profissional das organizações não parte de interesses científicos para encontrar pessoas "resilientes". O que está em jogo não é a pesquisa científica, mas um meio de encontrar profissionais melhores para certos fins (o lucro maior com o menor número de funcionários, a realização de metas a curto prazo, a imposição de um regime de trabalho severo com menores despesas, e assim por diante). Sem, porém, justificar de onde essa prática de encontrar profissionais ‘resilientes’ encontra seu fundamento.

Um profissional resiliente, segundo os entusiastas dessa noção, é aquele que se adequa a condições adversas de trabalho, e tem condições de retornar a um estado ‘normal’ com rapidez. Sabendo, entretanto, que a resiliência não é um conceito científico, nem encontra na ciência sua justificação, de que maneira justificar as práticas que visam recrutar ‘resilientes’? Para se responder a essa pergunta, basta olhar o contexto ao redor: escassez de emprego, baixa dos salários, aumento da competitividade, maximização do lucro com um mínimo de investimento, eliminação de direitos trabalhistas, excedente de desempregados para pressionar condições de trabalho desprivilegiadas, e assim por diante.

A noção de resiliência é utilizada em outros domínios, por exemplo, em seres humanos expostos a situações de guerra ou  intempéries extremas. Mas em seu uso "empresarial", o que cria e garante essa noção não é nem um interesse científico, nem a preocupação por seres humanos que desenvolvem mecanismos para enfrentar condições insuportáveis. No caso das empresas, infelizmente, o que está em jogo não é a libertação do homem, mas a necessidade de torná-lo um instrumento eficaz da exploração de outros homens.

A imagem “http://www.cartoonstock.com/lowres/cza0572l.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

6 Comments »

  1. Neuzi Says

    Oi guri, adorei seu post!! Sabe como eu defino esse uso da resiliência no mundo do trabalho? Como a capacidade do sujeito em ser um bom saco de pancadas e se deixar submeter passivamente aos mais diversos tipos de espremedores de vitalidade existentes no mercado.

    Made on November 18, 2006 @ 2:10 pm

  2. Marcela Weber Says

    A sua abordagem qto a Resiliência é bem interessante, e leva realmente a
    questionamentos qto ao comportamento de alguns gestores, mas por estudar este
    termo a algum tempo e ser uma recém formada em Administração Hospitalar
    com nota máxima em minha monografia, cujo tema, tinha foco no profissional
    resiliente, tenho que discordar, pois na empresa que trabalho buscamos profissionais
    de excelência e resilientes sim, não para superar os desafios de trabalho, mas sim
    capaz de se recuperar de situações desagradáveis e mto rotineiras na área de saúde,
    meras pessoas não conseguiriam lidar com esse dia-a-dia.

    Made on April 30, 2007 @ 8:54 pm

  3. Educação Empreendedora - Carlos Says

    É engraçado, nunca havia pensado nisso, mas a resiliência é o oposto da inovação, e portanto do espírito empreendedor.

    Quanto aos pesquisadores que querem “tornar homens instrumentos”, não se preocupe, quem estuda administração sabe que essa abordagem “taylorista” já falhou. O risco está nas mãos de quem não estuda.
    Abs.
    Carlos

    Re: Mas aí te pergunto, Carlos: será q as novas tecnologias do mundo organizacional, com a noção de gestão de pessoas, não levam também a uma noção de homem-instrumento, porém em termos diferentes do fordismo e taylorismo?
    abração, e bem-vindo ao blog!

    Made on June 29, 2007 @ 2:27 pm

  4. Educação Empreendedora - Carlos Says

    Ok, acho até que podemos falar em “homem instrumento”, se você está considerando o Homem como “peça” do sistema produtivo… E também não gosto dessa idéia de “homem resiliente” tá mais para homem bigorna, que você bate bastante e o bichinho não reclama..

    Agora não vejo mal em buscar um funcionário que seja flexível, mas que saiba retornar as rotinas quando as situações de tensão “somem”… Não me parece diferente de buscar um funcionário que saiba inovar ou mesmo que saiba finanças, ou seja, não sei porque essa característica é diferente quando se trata para alguns de “achar a peça certa para a empresa”, idéia que fundamenta os recursos humanos de milhares de empresas. Poucas são as que procuram talentos, mesmo que não precisem dele naquele momento.

    Quanto ao uso do termo, é comum o intercâmbio de conceitos entre as ciências, (por exemplo o termo benchmark vem da agricultura), o que é inofensivo contanto que ninguém faça paralelos tortos. (como por exemplo: a resiliência dos metais desaparece quando esses são aquecidos, então vamos ligar o ar condicionado no máximo para que nosso funcionários continuem resiliêntes)…

    Re: Carlos,
    Compreendo, e até a piadinha do final ficou boa, (rsss)
    Mas o que parece interessante, nisso tudo, é como que atualmente, com a noção de resiliência, frases como
    “Agora não vejo mal em buscar um funcionário que seja flexível, mas que saiba retornar as rotinas quando as situações de tensão “somem”" mudam de significado. No tempo do taylorismo, se o homem era um meio para o fim da cadeia produtiva, havia uma separação radical entre vida (traços subjetivos) e trabalho (traços objetivos). O homem tem sua jornada na linha de produção, e depois retorna para casa, para a “vida”. Agora, tudo muda, sendo valores subjetivos (”flexibilidade”, “dinamismo”, “criatividade”…) essenciais para o trabalho. Daí a questão do ‘homem-instrumento’ ter mudado de estatuto. Daí também ter surgido esse curioso tema da “resiliencia”.

    Made on June 30, 2007 @ 9:03 pm

  5. Carlos Says

    Tem razão …

    Acho que você devia ler essa história sobre motivação em empresas. Tem tudo haver com os tais “novos tempos”.

    Bj

    Made on July 4, 2007 @ 1:08 am

  6. JORGE G . Says

    Ser resiliente até quando?
    se algumas empresas não lhe dão recursos favoráveis para uma boa administração.
    e ainda somos cobrados extremamente.

    Made on July 22, 2009 @ 7:15 pm

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