November 30, 2006

O amor romântico é como um traje

O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

In Livro do Desassossego, Bernardo Soares (semi heterónimo de Fernando Pessoa) [pesquisa de livros] (ressonância com o Absorto)

November 29, 2006

Mídia, Al Jazeera, e jornalismo brasileiro

Uma das coisas mais legais propiciadas pela internet é a descentralização da informação. Depois que existe a internet, quem apenas assiste ao Jornal Nacional e/ou lê a Veja é, digamos, deficitário de informação. Ou ainda acreditamos que em qualquer noticiário os dados são mostrados com uma transparência que se confunde com a própria realidade? Não, entre o fato mostrado e o fato ocorrido há um hiato, preenchido pelas linhas editoriais de cada mídia.

Portanto, melhor informado está aquele que acessa o maior número possível de mídias, e busca daí retirar suas conclusões.

Mas isso, via de regra, já se sabe. Gostaria de chamar a atenção a outra coisa, dentro desse contexto: a rede árabe de TV Al Jazeera criou um novo canal de notícias, e em inglês. Seus primeiros momentos estão sendo elogiados por muita gente, pelo rigor e seriedade do jornalismo, e por recrutar bons jornalistas do próprio ocidente. A vantagem de existir canais como esses (e a TeleSur, que é tão próxima, e quase nunca ouvimos falar por aqui) é nítida: não é mais um grande e único feixe de mídia (como a Globo, e suas fontes exclusivamente norte-americanas e inglesas) que rege a notícia. Em linhas tortuosas, a tão propagada e pouco praticada "democracia" adquire contornos inusitados (soube que há uma certa resistência para exibir a AlJazeera no país mais ‘democrático’ do mundo, por quê será?).

Documentário 

Já comentamos aqui a respeito de um documentário muito bom, intitulado Control Room, sobre a questão da mídia na guerra do Iraque. Vale muito a pena assistir.  

Globo x Porto de Paranaguá

Sobre o debate Globo x Porto de Paranaguá, esse artigo da Carta Capital publicado no Observatório é muito bom: faz uma boa varredura da cobertura da Globo sobre o porto, nos últimos meses. 

Rinhas do Jornalismo Brasileiro

Não compreendo certas rinhas do jornalismo brasileiro. O que era para ser público, um debate público sobre idéias, a refutação pública de idéias que consideram ou não um bom futuro para o Brasil, acaba sendo richa pessoal, privada. Tais jornalistas  acabam se tornando coronéis da informação, quase como esses políticos regionais que fazem as coligações mais engraçadas. Todo mundo sabe que, no fim das contas, tais coligações não servem para nada. Do mesmo modo, esses jornalistas, geralmente famosos, esquecem a esfera pública, e passam a compor um jogo de forças meramente pessoal, privado. O debate pelas idéias se torna um debate com ofensas pessoais. E - o que é pior - esses senhores conseguem ainda uma multidão de acólitos. Acólitos que esquecem o jogo das idéias, e partem para a disputa dos coronéis da "razão". No fim das contas, nem no debate público, nem nas idéias, as coisas andam. Tudo fica carnavalesco, privado, cheio de jeitinho, combativo, e tudo o mais. Coisas de Brasil.

November 28, 2006

Peter Brown

Encontrei por acaso algumas referências ao historiador inglês Peter Brown. Vocês conhecem? Trata-se de um pesquisador de história dos primeiros séculos do ocidente, notadamente a ascenção do Cristianismo, o declínio do Império Romano, e relações entre paganismo e o cristianismo nascente [bibliografia, e pesquisa de preços de seus livros].

Dentre seus livros, Brown fez uma biografia de Santo Agostinho 1 2 (disponível também em português). Um trecho de seu livro pode ser encontrado por aqui (pelo menos algo se aproveita dos servidores da Veja, rsss). Outro livro que chama a atenção, e que também é editado em português, é A Ascenção do Cristianismo no Ocidente. Pano pra manga, para teólogos, historiadores, filósofos, curiosos de plantão, leigos, fiéis, e afins ;)

November 27, 2006

“E a beleza se fez mármore”…

Esse post é descaradamente copirateado desse outro aqui. Não conhecia ainda esse escultor, Giovanni Lorenzo Bernini. Prejuízo para mim. Notemos os detalhes, da obra desse artista do século XVI, que deveria ser considerado um verdadeiro gênio (não coloquei o link sobre o "gênio" por acaso). A obra em questão, O rapto de Perséfone.

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clique para ver em detalhes

   

PS: Criamos uma galeria para as imagens do Catatau nesse endereço

November 25, 2006

Feira de livros e coisas de São Paulo

img139/7571/32shw4.jpgConheci essa semana algumas coisas muito interessantes: em primeiro lugar, alguns pedaços da capital de São Paulo; dentro de São Paulo, a USP, e no campus, uma feira de livros que ainda não consegui selecionar uma boa palavra para caracterizar. Para ter uma idéia, estavam presentes mais de 100 editoras, e todos os livros tinham pelo menos 50% de desconto! (!!!!!). emoticon Só posso dizer que encontrei por lá coisa que não encontrava em lugar algum, e com preços de babar. De modo previsível (como comentamos nesse post), a Forense Universitária não participou.

Passando pelos estandes, outro detalhe é o de como boa parte dos autores, organizadores, editores ou tradutores de vários daqueles livros são professores ou pesquisadores da própria USP. Você vê uma série de livros organizados em português; caminhando alguns minutos, poderia até mesmo encontrar os próprios organizadores…

Conheço muito pouco São Paulo, mas tudo por lá, em bom ou mau sentido, parece ser grande, exagerado, por demais. Um verdadeiro catatau para se ver e visitar…

Morrer ou viver por idéias

Estava lendo no O´Connors O´pinions a respeito de Stephan Zweig. Segundo o blog, Zweig é um escritor austríaco [pesquisa de seus livros], que após fugir da Alemanha cometeu suicídio em 1942 no Brasil, acreditando que a vitória dos nazistas era iminente. Esse autor é também conhecido por formular uma idéia que permaneceu até hoje: a do Brasil como "país do futuro" (título de um de seus livros).

Zweig morreu por uma idéia, ou pela ameaça de que suas idéias fossem massacradas por outras idéias. Ainda existem pessoas que pensam que a teoria é algo diferente da prática - ou que a prática não agencia em si mesma teoria, e a teoria não agencia em si mesma práticas possíveis, ou mesmo, coexistentes, mesmo que contraditórias -, mas o caso de Zweig é o de uma morte onde tal diferença não existia.

As relações entre teoria e prática podem ser pensadas de várias formas. Obviamente, dependendo do contexto e dos parâmetros em que nos colocamos. A oposição entre teoria e prática, tal como hoje  tendemos a vê-la, é fruto de uma sociedade tecnicista e instrumentalista, que grosso modo nega o ‘pensamento’ em função do ‘fazer’. Pouco se percebe que, se existe essa oposição, é por ela mesma ter sido colocada, criada, estabelecida, por uma série de critérios táticos. Se o pensamento contraria a prática (ou vice-versa), há uma função nisso. Não chegamos a tais conclusões, mas partimos de tais princípios.

Mas, dentro de tudo isso, é curioso chamar a atenção sobre a relação entre esse conjunto (teoria x prática) e a vida. Um grande filósofo brasileiro disse, certa vez, que não morreria por idéias. Não faria como outros pensadores que, diante da inquisição, não negaram suas idéias, e foram sacrificados por isso. No caso de Zweig, bastaria esperar alguns anos, e o motivo de sua morte não teria sentido algum.

Não morrer por idéias, entretanto, não implica que não se deva viver por elas. Tal filósofo brasileiro, muito provavelmente, não fez essa afirmação como que buscando dizer que pouco importam as idéias, como se fossem apenas ofício, e portanto algo dispensável. O recuo dito por esse filósofo talvez tenha o mesmo significado que uma passagem de Henri Laborit: o desvio das grandes ‘rotas’ impostas às pequenas embarcações pode nos levar a paisagens inusitadas; tais paisagens não implicam, necessariamente, uma fuga das idéias, mas podem, por si mesmas, agenciar a essas idéias novas potências.

November 23, 2006

a leitura é uma forma servil de sonhar

Depois de ler isso a vontade mesmo é de pegar a mochila e não fazer mais essa separação cruel entre as palavras e as coisas a fazer…

Deixei para trás o hábito de ler. Já nada leio a não ser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros técnicos relacionados com o que porventura estudo e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
O género definido de literatura quase o abandonei. Poderia lê-lo para aprender ou por gosto. Mas nada tenho a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é do género que pode ser substituído com proveito pelo que me pode proporcionar directamente o contacto com a natureza e a observação da vida.
Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare já não me pode ensinar a ser subtil, nem Milton a ser completo. O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance tais que me permitem assumir qualquer emoção que deseje e penetrar à vontade em qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo, não há livro que valha.

Isto não significa que eu tenha sacudido a tirania da arte literária. Aceito-a apenas sujeita a mim próprio.
Há um livro de que ando sempre acompanhado - «As Aventuras de Pickwick». Li várias vezes os livros de Mr. W. W. Jacobs. O declínio do romance policial fechou para sempre uma das minhas portas de acesso à literatura moderna.
Deixei de me interessar por pessoas que são apenas inteligentes - Wells, Chesterton, Shaw. As ideias desta gente são das que ocorrem a muitos que não são escritores; a construção das suas obras é inteiramente um valor negativo.
Tempo houve em que eu lia apenas pela utilidade da leitura, mas agora compreendo que há pouquíssimos livros úteis, mesmo os que versam assuntos técnicos que me possam interessar.
Todos os meus livros são de consulta. Leio Shakespeare apenas em relação com o «Problema de Shakespeare»; o resto já o sei.
Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar com os meus próprios sonhos?
- Fernando Pessoa, in ‘Notas Autobiográficas e de Autognose’ [pesquisa de preços da edição impressa]

 

November 22, 2006

Roberto Machado, a Tragédia, e a filosofia

Uma das questões mais apreciadas pelo filósofo Roberto Machado [pesquisa de preços de seus livros] é a da Tragédia. Desde sua tese de doutorado, Ciência e Saber, passando por Zaratustra - Tragédia Nietzscheana, e  Foucault, a filosofia e a literatura, Machado lança agora O Nascimento do Trágico - De Schiller a Nietzsche. 

Sobre seu novo livro, sua trajetória, e uma discussão sobre a filosofia brasileira, Machado deu essa entrevista a uma revista da Unisinus, e essa outra, à Folha.  

Vale a pena conferir também a revista Cult desse mês, especial sobre Gilles Deleuze. Para não sair do "tema" do post, Roberto Machado também escreveu lá um artigo sobre o filósofo francês.

Ainda no contexto "filosofia", comprei hoje Escritos sobre a Medicina, de Georges Canguilhem [pesquisa de preços de todos os seus livros]. Trata-se de um livrinho de 88 páginas, editado pela Forense Universitária. Tirando o fato de que o livro é excelente, o preço é abusivo: 20 reais!!!! Isso é preço para um livrinho? Gostaria de saber onde é que os diretores dessa editora pensam que moramos. Pois até na gringolândia os livros estão mais em conta do que isso.

November 20, 2006

As Ilhas Míticas do Atlântico e a América fantástica

link: /as-ilhas-miticas-do-atlantico/

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O Rui Martins está criando uma série de posts de história com informações sobre cartas marítimas anteriores a Colombo. Dentre uma ou outra, menções ao que poderia ser a América, muito antes de sua "descoberta" formal. Muito interessante conferir!

A descoberta da América numa expedição do filho de Eric, Leif, e a existência de uma série de outras viagens que se lhe sucederam, incluindo a colonização liderada por Thorfinn Karlsefni do Labrador, tinham como objectivo explorar as águas próximas a Groenlândia. Discute-se qual o extremo sul dessas expedições, sendo geralmente aceite que não teriam ultrapassado o Sul da Nova Inglaterra. (…)

Aliás, ao olhar do homem europeu a América sempre foi situada entre o misterioso e o fantástico. Há pouco mencionamos um texto de Pero de Magalhães caracterizando o "Brasil" entre o sacro e o profano: chamaríamos essas terras pelo nome vulgar, o de um pau que se parece com o braseiro ("pau-brasil") e é mero produto a ser extraído e exportado, ou o nome correto daqui deveria ser Santa Cruz? Ficamos com o vulgar, o desvalido, o mundano (o carnavalesco?), ou tornamos essas terras algo digno de um Projeto (para Pero de Magalhães, um projeto sacro)? Problemas sobre o Brasil que se colocavam já no século XVI…

O mesmo Pero de Magalhães descreve um outro monstro (postaremos sobre ele depois), mencionado por Jean Marcel Carvalho França num ensaio que também é sobre o papel fantástico da América. Vale a pena ler, e garimpar as referências…

De sereias a monstros, de riquezas infinitas a bizarrices em geral, a América, desde muito cedo, talvez desde os tempos em que o próprio nome América, cunhado em 1507, se colou à terra, tornou-se, aos olhos do europeu, o abrigo de todos os possíveis -dos positivos e dos negativos. Foi, por certo, essa América das infinitas possibilidades que impulsionou o sonho jesuíta de encontrar no Novo Mundo um enorme e manso rebanho de almas a converter, um rebanho que somente aguardava o ímpeto missionário dos discípulos de Loyola para criar o reino de Deus na terra.

História dos Monstros

Encontrei um livro muito interessante, intitulado Histoire des Monstres depuis l´antiquité jusqu´a nos jours (link ruim de abrir!), de um certo Dr. Ernest Martin. A publicação, de 1880, não parece destoar de uma série de preconceitos eurocêntricos e retrospectivos (a temática da ‘descoberta’, do ‘progresso’, da ‘humanização’ do ‘monstro’, da ‘objetividade’ do ‘homem’, e assim por diante). Mas Martin reúne material muito precioso nesse livro, especialmente para quem busca compreender como surgiu noções como a de ‘normalidade’.

Além da temática histórica, o livro é bom para encontrar material sobre várias épocas. Já na Introdução,img375/2731/05ul6.jpg Martin menciona a ‘descoberta’ de Étienne Geoffroy Saint-Hilaire de um monstro embalsamado no antigo Egito, em 1826. O ‘monstro’ foi encontrado numa tumba de Hermópolis para ‘animais sagrados’, junto com um amuleto que representava um macaco. No fim das contas, tratava-se de um ser humano, "nascido de mulher", porém sem cérebro (um "acéfalo", conclui Martin); o tratamento do ‘monstro’ no antigo Egito carregava uma série de significados sacros, diversos dos de outros animais (papel simbólico e radicalmente diferente de tudo o que podemos imaginar!); e enfim, ‘descobria-se’ que, no mesmo movimento, para uma determinada cultura um indivíduo teria origem bestial, e ao mesmo tempo, estatuto sacro. Algo mais irredutível às nossas crenças?

Mas Martin não é Borges. Portanto, temos aqui um livro muito interessante de um autor do século XIX sobre a história da monstruosidade, recheado de referências.