November 16, 2006
Marketing, midia, e um manancial imperdivel.
Tentarei postar em novo formato, meio a partir da observação de alguns leitores, meio como chutômetro, ok? A idéia toda é que todos os dias um monte de informações aparecem, e é meio difícil tabular tudo em um mesmo post. Tentemos fazer isso abaixo:
Mídia "livre" e mídia "justa"
Num evento com magistrados, realizado ontem em Curitiba, Roberto Irineu Marinho foi homenageado como jornalista. Relembrou uma frase de Marcio Thomás Bastos: "a imprensa deve ser livre e não justa". E complementou: “Na história de nossas empresas tomamos no entanto voluntária muito seriamente a intenção de, ao sermos livres, sermos justos”.
Ora, como espectador, sou levado a pensar:
- se a imprensa pode ser livre, e não justa, e se a Globo é livre e justa, no momento atual do Brasil as críticas à "justiça" da imprensa feitas pelos governantes não procedem, não é mesmo?
- logo, há uma certa legitimidade incontestável da imprensa, mesmo que não haja consenso quanto à sua "justiça". Afinal de contas, se a imprensa é por definição ‘livre’, mas pode ou não ser ‘justa’, a noção de justiça pode ser relativizada, e deliberadamente relativizada. E o rigor, necessário a todo jornalista, cede lugar a um jogo de forças. A imprensa deixa de ser veiculadora de notícias de modo rigoroso, para tornar-se um campo de batalha pelas idéias.
- mas se é assim, posso derrubar o mito da "verdade" e "neutralidade" alardeado em alto e bom tom por figuras como William Bonner, já que a imprensa pode ser "livre", e não "justa"; o caráter de justiça é posto em parênteses, de todo modo…
- essa separação entre liberdade e justiça não deixa de lembrar a própria constituição do povo brasileiro. Somos um país livre; seríamos justos?
Coisas de Marketing
O Inagaki mencionou um blog muito interessante, que tem como objetivo último apenas a publicidade de um carro. No blog, posts desde 1971, feitos por alguém muito instruído e criativo, e bem amarrados com todos os momentos históricos do Brasil, e até mesmo da internet. De início, reconheçamos: idéia genial. Mas, para quê? Não para a vida do blogueiro (fora o salário que deve receber), não para a divulgação de idéias interessantes, mas… para a publicidade de um carro.
Idéias muito boas dentro de seus contextos, essas dos publicitários e marketeiros: "marketing viral", "de guerrilha", e afins. Constroem-se mistérios, são espalhados boatos, criados blogs, tudo para atiçar o interesse de certo tipo de consumidor.
Curioso notar como há uma nova forma de campanhas publicitárias, cada vez mais presente. A propaganda não se mostra mais num espaço que poderia ser separado de nossa vida; pelo contrário, cada vez mais se adentra nela, perto de tudo aquilo que é positivo, produtivo, valorável. Anteriormente sabíamos quando terminava a ‘realidade’, e começava a ‘propaganda’: bastava ouvir a vinheta da TV, ou passar pelos outdoors na rua. Mas agora tudo se aproxima daquele episódio de Futurama, em que comerciais são oferecidos até mesmo nos sonhos.
Para além dos entusiasmos, lembro-me de um texto de Deleuze, sobre o que ele chama de "Sociedades de Controle". Vale muito a pena ler, bem como acompanhar autores contemporâneos que são próximos dessa noção: Paolo Virno, Maurizio Lazzarato, Toni Negri, Michael Hardt, Giuseppe Cocco… Fica a dica, e abaixo uma citação desse texto, de Deleuze:
Mas atualmente o capitalismo não é mais dirigido para a produção, relegada com frequência à periferia do Terceiro Mundo, mesmo sob as formas complexas do têxtil, da metalurgia ou do petróleo. É um capitalismo de sobre-produção. Não compra mais matéria-prima e já não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações. Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar à empresa. A família, a escola, o exército, a fábrica não são mais espaços analógicos distintos que convergem para um proprietário, Estado ou potência privada, mas são agora figuras cifradas, deformáveis e transformáveis, de uma mesma empresa que só tem gerentes. Até a arte abandonou os espaços fechados para entrar nos circuitos abertos do banco. As conquistas de mercado se fazem por tomada de controle e não mais por formação de disciplina, por fixação de cotações mais do que por redução de custos, por transformação do produto mais do que por especialização da produção. A corrupção ganha aí uma nova potência. O serviço de vendas tornou-se o centro ou a "alma" da empresa. Informam-nos que as empresas têm uma alma, o que é efetivamente a notícia mais terrificante do mundo. O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente dos nossos senhores. O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. (…)
Será que já se pode apreender esboços dessas formas por vir, capazes de combater as alegrias do marketing? Muitos jovens pedem estranhamente para serem "motivados", e solicitam novos estágios e formação permanente; cabe a eles descobrir a que estão sendo levados a servir, assim como seus antecessores descobriram, não sem dor, a finalidade das disciplinas. Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira.
A Mídia é Neutra?
Artigo de Mino Carta, sobre o apoio declarado - e fundamentado, explicitado, arguido, enfim, sincero, sem os áridos mitos da ‘imparcialidade’ - ao PT, nas eleições de 2002 e 2006:
A mídia cuidou, desde sempre, dos interesses dos privilegiados, por ser ela própria do privilégio, enquanto, impavidamente, alegava suprema imparcialidade. CartaCapital faz suas escolhas com absoluta nitidez em respeito aos seus leitores. E se preferiu Lula, em 2002 e neste ano, não foi em nome de um escancarado petismo, e sim por razões claramente expostas.
Do governo do presidente Lula, durante o primeiro mandato, fomos críticos pontuais, das políticas e das decisões a nosso ver contrárias aos interesses do País. Não foram poucas as críticas, muitas vezes contundentes. Quanto a mim, nunca militei no PT, embora, desde os tempos do Jornal da República, tenha apoiado a idéia de um autêntico partido de esquerda, capaz de juntar à sua sombra a maioria finalmente consciente da cidadania e da sua capacidade de pressão. [artigo completo…]
A papagaiada em ação
Certos blogueiros - que se auto-denominam "escritores" - não perdem a chance de ficar calados. Obviamente, não citarei o nome de um deles, que - graças aos Céus! - muito provavelmente não lê um blog "dessa laia". Mas o Uaipod conseguiu caracterizar bem a espécie desses "escritores" a que me refiro: não passam de papagaiada.
Cooperação sem mando
link: 4shared.com
Trata-se de um grande manancial, cheio de ebooks, em que qualquer pessoa pode acessar e contribuir. Tudo grátis. Idéia genial!





Paulo Morais Says —
Valeu, catatau! Obrigado pelo link e, como diria seu primeiro “homenageado” deste post, a gente se vê por aqui. Abraço!
Made on November 16, 2006 @ 4:13 pm
Alcinéa Cavalcante Says —
Dá um bom debate.
Depois eu volto.
Made on November 17, 2006 @ 2:59 am
Alex Says —
A questão “mídia justa x mídia livre” rende pano pra manga.
De um lado, falar que a mídia “é mais livre do que justa” significa afastar possíveis arbitrariedades cometidas contra órgãos de imprensa, a pretexto de se buscar “justiça”. Por outro, o ideal de justiça passa a ser deliberadamente relativizado. Liberdade, aqui, é sinônimo de justiça. Resta saber se o que é bom para a mídia é bom para o povo…
Made on November 17, 2006 @ 4:54 am
Administrator Says —
Oi Alex e Alcinéa,
Opa, creio que se esboça uma discussão interessante… especialmente a declaração de Roberto Marinho Filho ser 1 dia depois de uma crítica de Lula à imprensa, e na Venezuela. Que manga fabricaremos com esse pano?
Made on November 17, 2006 @ 2:12 pm