November 23, 2006

a leitura é uma forma servil de sonhar

Depois de ler isso a vontade mesmo é de pegar a mochila e não fazer mais essa separação cruel entre as palavras e as coisas a fazer…

Deixei para trás o hábito de ler. Já nada leio a não ser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros técnicos relacionados com o que porventura estudo e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
O género definido de literatura quase o abandonei. Poderia lê-lo para aprender ou por gosto. Mas nada tenho a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é do género que pode ser substituído com proveito pelo que me pode proporcionar directamente o contacto com a natureza e a observação da vida.
Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare já não me pode ensinar a ser subtil, nem Milton a ser completo. O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance tais que me permitem assumir qualquer emoção que deseje e penetrar à vontade em qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo, não há livro que valha.

Isto não significa que eu tenha sacudido a tirania da arte literária. Aceito-a apenas sujeita a mim próprio.
Há um livro de que ando sempre acompanhado - «As Aventuras de Pickwick». Li várias vezes os livros de Mr. W. W. Jacobs. O declínio do romance policial fechou para sempre uma das minhas portas de acesso à literatura moderna.
Deixei de me interessar por pessoas que são apenas inteligentes - Wells, Chesterton, Shaw. As ideias desta gente são das que ocorrem a muitos que não são escritores; a construção das suas obras é inteiramente um valor negativo.
Tempo houve em que eu lia apenas pela utilidade da leitura, mas agora compreendo que há pouquíssimos livros úteis, mesmo os que versam assuntos técnicos que me possam interessar.
Todos os meus livros são de consulta. Leio Shakespeare apenas em relação com o «Problema de Shakespeare»; o resto já o sei.
Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar com os meus próprios sonhos?
- Fernando Pessoa, in ‘Notas Autobiográficas e de Autognose’ [pesquisa de preços da edição impressa]

 

6 Comments »

  1. leandro Says

    Muito bom este post!

    É por isso que não dá para ler durante as verdadeiras viagens… O livro não cabe na mochila!

    Made on November 23, 2006 @ 2:03 am

  2. Ricardo Says

    F.P. era uma personalidade complexa, e o conteúdo desses escritos mostra isso bem. Suas afirmações o colocam num plano inacessível (”nada tenho a aprender”, “Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária” etc.) mas ao mesmo tempo sintetizam reflexões ordinárias, que poderiam ser feitas por qualquer outra pessoa - até porque a erudição está presente nas palavras do Pessoa, mas ele próprio atribui pouca ou nenhuma importância a ela.

    “A leitura é uma forma servil de sonhar”. Muito boa frase, mas seu sentido (a meu ver) não aparecerá enquanto não for complementada com essa idéia: “Quanto àquilo por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo, não há livro que valha”.

    Re: Oi Ricardo,
    Muito legal o q vc chamou a atenção. Especialmente pq o caráter da escrita se coloca em um âmbito novo, muitas vezes ignorado pelos tais ‘críticos literários’. O que você chamou a atenção, e o q parece que Pessoa quis dizer, é que há um compromisso ético na escrita que não se resume às características meramente formais, psicológicas, e afins. Há um compromisso ético com a escrita, que não se reduz à ‘vida’ do autor, mas que não deixa de falar em Vida, não é mesmo?
    um abraço,

    Made on November 23, 2006 @ 4:54 am

  3. czarina Says

    como meu intelecto não tem a mesma flexibilidade que o dele, acho que ainda posso sonhar sonhos alheios…

    Made on November 25, 2006 @ 12:37 pm

  4. Filipe Says

    Esses ditos de Pessoa custam não só nossa reflexão acerca do ler, mas também, acerca do escrever. Se “A leitura é uma forma servil de sonhar” escrever, então, seria o que para Pessoa..? Uma forma soberana de aprisionar..?
    A fala do autor é realmente intrigante..

    Re: Oi Filipe,
    Eu não tinha pensado a respeito disso… boa sacada! Gostaria de saber o que você acha a respeito, mais ou menos na linha do que o Ricardo mencionou, e que abre espaço a uma reflexão ética sobre a escrita. Parece-me que sim, por um lado, a escrita abre essa possibilidade que você disse, dentro da frase do Pessoa. Mas por outro, se a leitura - ou a relação com as letras - é apenas daquilo “por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo”, talvez a escrita também possa ser pensada por aí, ao menos nessa faceta de Pessoa. O que você acha?
    um abraço,

    Made on November 26, 2006 @ 10:02 pm

  5. Filipe Says

    De fato, amigo Catatau, não me ocorreu pensar por esse viés. Ao que me parece, sua proposta é mais inteligente. E a própria frase do Pessoa nos confirma isso, quando ele diz “por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo”. A escrita também recorre a esse esforço, senão bem mais que a própria leitura. Escrever requer um desgaste incontável para consigo mesmo.
    Sem querer referenciar uma poesia de “quintal”, mas já referenciando, a um tempo escrevi um poema, que agora ao ler seu post, me deveria envergonhar. Ele diz assim:

    Criticar um poeta, o seu poema,

    É criticar um bêbado, sua cachaça..

    Mal dizer o que alimenta,

    A embriagues de quem desgraça.

    É tirar de quem peleja,

    Uma vida sóbria, sem graça..

    O direito que seja,

    De viver à luz da farsa.

    Aqui podemos comprovar o que Pessoa questiona: “Se tenho de sonhar, porque não sonhar com os meus próprios sonhos?”. No poema que escrevi, a escrita é para o poeta uma fuga, e não o “falar em Vida” que vc relatou acima. Na concepção de Pessoa, sem dúvida esse poema seria algo não ético. O “triste” é que a modernida produz esses “poetas” negativos. Seria uma influência capitalista direcionando o “como” e o “que” escrever..? Nossa subjetividade clama pela consumação de um território.. mas o território fornecido é o do consumo.. Seria também a poesia moderna mais um objeto de troca..?

    Sei que desviei o assunto, mas é um questionamento que me percorre a um bom tempo. Sem ressentimento se não quiser opinar.
    Grande abraço

    Re: Oi Filipe,
    Talvez, à luz do que venha a ser a palavra “farsa”, o poema pode ou não ser conforme tais idéias de Pessoa. No fim das contas, o poeta cria um ‘mundo’, ou faz deixar em suspenso tudo aquilo que possa se remeter a ‘o’ mundo. Daí a questão de ‘tornar-se completo’, relacionada à escrita, poder trilhar caminhos que a maioria da crítica nem considera, não é mesmo?
    Parece que a modernidade, com suas críticas literárias, tende em muitas de suas vertentes reduzir a crítica a determinantes psicológicos, sociais, e assim por diante. Mas parece haver uma autonomia da escrita, ou mesmo um caráter ético, que não se reduz a isso…
    Filipe, fique à vontade para fazer ótimos comentarios como esse sempre!
    abração!

    Made on November 27, 2006 @ 6:16 pm

  6. Mauricio Carvalho Says

    Não acredito que você não sabe o resto da frase…….

    “Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?”
    Fernando Pessoa

    Leia isso e intrerprete.. na moral.

    Re: Caro amigo, se algo falta, o que acha de fazer a sua contribuição? Será muito bem-vinda…

    Made on May 3, 2007 @ 4:16 pm

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