December 15, 2006

Sobre a amizade

Estava com outro post no "gatilho", mas como os leitores blogueiros sabem, geralmente escrevemos sobre coisas que nos afetam. E ultimamente um tema que tem ‘me’ afetado bastante é a amizade. Resolvi trocar aquele texto por esse outro, simplesmente por estar passando uma ‘fase’ muito interessante: aquele tipo de fase em que vários amigos que sempre consideramos dos ‘bons amigos’, dos ‘melhores’, mudam de vida. Até aí tudo bem, todos mudam de vida, mas nesse caso ocorre algo estranho nessa mudança de vida, pois os ‘amigos’, sem mais nem menos, deixam de ser seus amigos, deixam de procurá-lo, de buscar meios de convivência, e enfim, de fazer contatos. Obviamente, existem aqueles amigos que são sempre amigos: não importa se passamos anos sem vê-los, a amizade continua sempre a mesma. Mas tem certos amigos que, ao mudar de vida ou de algum tipo de regime de circunstâncias, esquecem o círculo em que viviam, e simplesmente cessam a convivência amistosa.

O texto abaixo é mais ou menos uma tentativa de escrever sobre como a questão da amizade é atualmente afetada por certo tipo de relações sociais, econômicas, e de trabalho. Escrevi esse texto em 8 de setembro de 2003, 23:35h, em outro blog. Boa parte das opiniões, já nem compartilho mais. Inclusive boa parte do que implica a tese central. Mas fica o registro.

 Lá vai ;)

En el tabaco, en el café, en el vino,
al borde de la noche se levantan
como esas voces que a lo lejos cantan
sin que se sepa qué, por el camino.

Livianamente hermanos del destino,
dióscuros, sombras pálidas, me espantan
las moscas de los hábitos, me aguantan
que siga a flote entre tanto remolino.

Los muertos hablan más pero al oído,
y los vivos son mano tibia y techo,
suma de lo ganado y lo perdido.

Así un día en la barca de la sombra,
de tanta ausencia abrigará mi pecho
esta antigua ternura que los nombra.

Julio Cortázar (Los Amigos)


Uma das transformações mais interessantes dos últimos anos, nesse advento de ’sociedades de controle’, ocorre numa esfera muitas vezes esquecida, mas sempre presente: a esfera da amizade.

Atualmente parece não haver amizade que se separe do processo do trabalho. Isso não é novidade, mas a novidade é precisamente seu novo estatuto. Alguns anos atrás, ser ‘amigo’ se relacionava a um modo de vida no qual o trabalho era separado do lazer: nas estruturas piramidais de hierarquia, nos horários fixos e delimitados, nas funções compartimentadas, no trabalho setorizado. O ‘amigo’ morava em tal lugar, trabalhava em tal departamento, ou logo ao lado, e na hora de lazer (que não era uma hora imersa de trabalho e Capital, e sim uma hora especial), estava ele lá, sem pretensões do trabalho além dos comentários impressionados sobre alguma eventual situação. Às vezes ocorriam mudanças, e se o amigo era transferido a outro lugar ou função permanecia aquele saudosismo, mesmo que em algum tempo arranjássemos outros amigos. Poderiam haver problemas, mas o amigo verdadeiro era ‘aquele’ amigo, sabíamos onde estava, e que a relação de amizade era uma relação de amizade. O amigo tinha e ocupava verdadeiramente um lugar, com todas as vantagens e desvantagens que ‘ter um lugar’ pode possuir.

Mas como tudo muda, parecem ter mudado também tais relações; atualmente os ‘amigos’ são mais descartáveis; aquele que trabalha junto a mim, na maior parte das vezes tem comigo uma relação estratégica. Hoje em dia tudo é estratégico, tudo é como nas empresas. Como sou ‘parceiro’, sou parceiro da empresa, e de tudo o que há nela; caso isso não seja a mim proveitoso (pelo menos em teoria, e ao menos em casos ideais teria-se a escolha de ser ou não uma situação proveitosa), descarto, desconecto. Agora, se isso me ajudar a crescer, lá estou eu, alimentando todo esse gás com meu comportamento ‘dinâmico’. O mesmo acontece com a empresa; agencia-se com o que é de seu proveito, consome esse gás, e imediatamente quando um componente não produz, descarta e pega outro no grande excedente.

Além desse caráter ‘conectivo’ (pelo menos no discurso das empresas), o trabalho hoje em dia está muito ligado à subjetividade. Não basta hoje apenas trabalhar, realizar tarefas com o corpo. O próprio trabalho (e o próprio capital) está vinculado lá dentro de mim, com o que eu sou, como penso, como me comporto, e como quero que o mundo seja. Se possuo determinados pensamentos sobre mim, o mundo e as outras pessoas, posso não ter o ‘perfil’ adequado para ser um bom trabalhador; mas caso eu seja ‘dinâmico’, ‘empreendedor’, ‘criativo’ e com ‘competência interpessoal’, e possua um bom ‘marketing pessoal’, talvez aí eu seja uma pessoa daquelas requeridas para o trabalho. E, sendo assim, irei para a empresa, onde encontrarei pessoas também ‘assim’, talvez até amigos.

Entretanto, mesmo com todas essas características, poderia me perguntar ainda sobre como são esses amigos. Se o modo de trabalho penetra cada vez mais na subjetividade, não estaria também penetrando nas relações de amizade? Como seria então esse amigo ligado ao trabalho? Bom, em tempos de escassez, esse amigo será conectado a mim exatamente enquanto me for útil; caso não mais seja útil, faço outra conexão, e ele outra, e assim por diante.

Outro aspecto um tanto estranho ocorre também no trabalho em equipe: os colegas de equipe, enquanto colegas, manifestam um certo respeito mútuo; mas por baixo, parece haver uma surda competição que a tudo anima. O próprio colega, aí, além de ser colega, é alguém que pode puxar meu tapete, ao mesmo tempo em que em alguma oportunidade posso ter a chance de puxar o seu. Há também aquele outro tipo de relação, dos ‘amigos’ que começam a trabalhar juntos, e, quando um vê, o outro já o atirou na cova, junto aos leões, apenas para provar essa tese de que a ‘amizade’, hoje em dia, não passa de oportunismo e de um jogo de conexões. Ou aqueles que ficam amigos, e logo depois um trai o outro, ou aqueles que só se tornam amigos numa amizade já fadada a uma vitória (e uma derrota), típico de big brother. A partir daí, os tipos se multiplicam, mas duas coisas permanecem: ou a amizade atualmente só se define numa relação indelével de surda competição - daquele sorriso civilizado, mas sobretudo bárbaro -, ou definitivamente isso que se chama ‘amizade’ hoje não é mais amizade.

Mas o quê, entretanto, é a amizade? Se não existe, onde ela estaria? Se existe, como existe e onde existe, não saberia dizê-lo. Saberia dizer, apenas, que isso que hoje em dia se chama de ‘relação amistosa’ sob as relações descritas acima, é algo viciado e podre. É pleno de tristeza não poder ter um sorriso pleno. Quanto a essa tristeza, somente se pode dizer que imperativamente modos de alegria devem ser encontrados e produzidos. Não precisa ser a velha amizade, aquela do lugar definido e certo; não precisa deixar a relação de conectar/desconectar de lado (mas não precisa também deixar essa relação como a única e como a necessária); pode-se, muitas vezes, encontrar o melhor amigo no ardiloso inimigo. Novos modos de amizade precisam ser encontrados, com o critério de que quando se dá um sorriso, afirmativamente se dê um sorriso. Pode ser difícil hoje em dia encontrar algo que seja um amigo, mas nesses tempos em que tudo invade a própria subjetividade, em que tudo parece tão próximo como que quase sufocando, novos modos de amizade são grandes aliados para novos modos de existência. São como amigos.

8 Comments »

  1. junior Says

    Rapaz, eu tenho “amigos” assim.
    São gente boa, mas somem e aparecem conforme a conveniencia, todos eles herdados de trabalhos anteriores, muito estranho. Um belo texto, vou guardar pra ler mais vezes e refletir mais.
    Abração

    Made on December 15, 2006 @ 12:09 am

  2. Everton Says

    Ao ler o texto pensei imediatamente na “associação de únicos” de Max Stirner.
    Acho o texto muito “atual” em relação a alguns aspectos, a questão da amizade é um deles. Me parece uma forma interessante de pensar outras amizades, que podem conectar-se e desconectar-se a qualquer momento e que escapem a essa tristeza das amizades na sociedade de controle. E também o Francisco Ortega, quando diz que as amizades devem ser, antes de tudo, éticas e políticas, voltadas para o fora e não mais uma amizade baseada em intimidades e na descoberta de um Eu, de uma interioridade.

    Re: Olá Everton,
    Hmmm, muito interessante tua indicação, especialmente do Ortega. E desses âmbitos éticos e políticos da amizade: deixam as querelas privadas de lado, e abrem espaço para um espaço de criação intersubjetivo… como uma boa amizade deve ser, não é mesmo?
    Quanto à idéia das conexões/desconexões, não saberia dizer sobre seu caráter positivo. Talvez seja uma espécie de alternativa, frente às próprias conexões/desconexões de nossa atualidade. Mas quem sabe as boas e duráveis amizades não sirvam muito bem como meio de ir contra tudo isso, todo esse jogo em que somos arrastados por essas (des)conexões?
    um abraço,

    Made on December 15, 2006 @ 1:41 am

  3. Kyra Says

    Ah, eu tô passando por essas doideras de “ex amigos” aih..rs
    Dizem que todo mundo muda, mas a gente nunca espera que o nosso amigo, akele ali q senta do nosso lado, ou mesmo oq está distante, mude…
    Ah…isso me entristece, mas fazer oq? Vou sempre estar aki por eles!
    Abraços

    Made on December 15, 2006 @ 1:47 am

  4. Cássio Augusto Says

    Então… é complicado falar de amizades… leu meu texto sobre isso???

    Re: Yep, Inclusive eu iria começar a falar sobre amizade na antiguidade, mas acabei desistindo. Fica p a próxima!
    abração,

    Made on December 15, 2006 @ 11:23 am

  5. Rui Martins Says

    é bem verdade… por vezes dou comigo a pensar se hoje, em ue a maioria dos nossos “amigos” são de facto conhecidos do local de Trabalho, teremos mesmo amigos, ou apenas “aliados estratégicos”… Quanto mais acredito nisto, mais me viro para a família “de sangue” e mais vejo como relativistas e “interesseiras” as relações com colegas e sócios de trabalho…

    É a perfídia e hipocrisia da Vida Moderna?

    Re: Provavelmente, Rui, essa busca dos vínculos mais duráveis - quando a família ainda pode ser um vínculo durável -, em muitos momentos pode servir de reação ao próprio movimento de sermos ‘jogados’ de um lado para o outro, sem vínculos efetivos, e com ligações meramente ‘pragmáticas’ - cujo pragmatismo nem ao menos responde por motivos que provém de nós mesmos…

    Made on December 15, 2006 @ 5:43 pm

  6. Bruna Says

    Amigo, amigo mesmo não depende de distância. Nem de circunstâncias, né? Mas é complicado , de vez em quando ploft … tomo cada tombaço com amizades.

    Bjos

    Made on December 15, 2006 @ 5:52 pm

  7. Francisco Fuchs Says

    Opa, gostei do espaço. Um abraço.

    Made on December 16, 2006 @ 4:06 pm

  8. anderson Says

    Incrivel, escrevi esses dias algo sobre amizade e por acaso o titulo é igual ao teu.
    Muito bom falar sobre amizade.
    abraço

    Made on February 5, 2007 @ 12:25 pm

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