December 19, 2006
“Se é por falta de atitude…”
"Se é por falta de atitude…" É assim que terminamos o último post, sugerindo como é engraçado um mesmo país conter manifestações truculentas sobre futebol, e nenhuma manifestação sobre política. Mas talvez esse "nenhuma" seja uma expressão equivocada. Como já comentamos no post sobre a Copa, e como o último supõe, não falta atitude no Brasil; ela já está toda aí, cotidianamente efetivada. Vemos ela na paixão pelo futebol, por exemplo, e nas reações truculentas das brigas de torcidas.
Há também um quê de atitude na aparente ausência de atitude do povo frente aos políticos. E frente à nossa própria crítica tagarela, porém sob muitos aspectos inefetiva. Antigamente, palavras contestatórias poderiam ocasionar a morte de quem as proferisse. Deveríamos desconfiar um pouco de nossa tagarelice cotidiana. O problema todo é quantificar e analisar funcionalmente toda essa "atitude", o que ela implica, o que produz, e o que se engendra com ela.
Nisso, gostaria de chamar a atenção a uma notícia e a um texto. A notícia é da agressão anônima de uma mulher indignada ao Deputado ACM Neto. Em meio à notícia do aumento de 93% (91%?) do salário dos deputados, a jovem senhora ‘presenteou’ o deputado com aquilo que é até mesmo chavão estereotipado da conduta dos políticos: uma facada nas costas. Curioso o desdobramento da notícia: a indignação da mulher foi dissolvida em "desequilíbrio psicológico", "contradições", e enfim na perda de sua liberdade. Não se trata de cogitar se o deputado ‘merecia’ ou não a facada, ou se o que a mulher fez é contra direitos individuais. Em certo sentido, gostaria de chamar a atenção de que se trata de um gesto emblemático (mas ao contrário de muitos "cidadãos" abastados, ela aguardará o julgamento no presídio feminino de Salvador). Seria a facada - justificada como reação ao aumento dos deputados - absolutamente destituída do âmbito político?
Quanto ao texto, colo abaixo o artigo "Lula é muitos", de Toni Negri e Giuseppe Cocco [pesquisa de preços de seus livros]. Acho muito interessante a posição de Cocco e Negri sobre o papel e a ação de Lula no Brasil. Na mesma linha de raciocínio deles, outros autores chegam a conclusões bem diversas. Mas gostaria muito de ler algo mais consistente a respeito, já que no artigo da Folha as idéias são bem gerais. Em síntese, eles sustentam que o papel de Lula é alternativo tanto às opções liberais, quanto às desenvolvimentistas. Sem contar que a posição entusiasta é bem singular diante dos outros analistas.
Lula é muitos
ANTONIO NEGRI e GIUSEPPE COCCO
O governo Lula é o mais democrático pelo fato de ser não só representante dos movimentos mas também, em parte, sua expressão
LOGO NO início da crise política de 2005, uma rede chamada Universidade Nômade lançou um "manifesto pela radicalização democrática e contra a desestabilização do governo Lula". O manifesto difundiu-se rizomaticamente pela internet, com a adesão de milhares de intelectuais e militantes (Folha de S.Paulo, 28/8/05), que participaram de um movimento horizontal de mobilização democrática que não parou de crescer, enfraquecendo a capacidade de manipulação da grande mídia.
O conteúdo do manifesto continua atual. Nele, lembra-se que a radicalidade de um governo não depende unicamente de sua determinação interna, mas, sobretudo, da pressão social que renova continuamente sua legitimidade. A "corrupção", por sua vez, é fruto do próprio mecanismo de representação: a redução da potência dos muitos ao poder de poucos (sobretudo quando a mediação se dá em condições "imperfeitas" -e, no caso do Brasil, "imperfeitas" é um eufemismo) é sempre produtiva de distorções do processo democrático.
Para avançar no terreno da transformação social, é necessária uma maior mobilização democrática, ou seja, mais representação, mas também, e sobretudo, mais participação. Nesse nível, o governo Lula é o mais democrático e o mais ético pelo simples fato de ser não apenas "representante" dos movimentos mas também, em parte, sua expressão.
Nessa base, o movimento pela radicalização democrática lançou a palavra de ordem "Lula é muitos". De fato, Lula foge ao controle dos poderes fortes da elite cínica e racista não porque é carismático, mas porque expressa a capacidade de se comunicar com os muitos enquanto muitos, sem reduzi-los a um conjunto representável pela "opinião pública" (que, no Brasil, é o resultado de uma mistificação totalitária).Lula não é decisionista! Pelo contrário, suas hesitações -cinicamente criticadas pela elite- fazem dele um chefe de Estado, no nível interno, atravessado pelos desejos dos muitos, e, no nível externo, particularmente aberto à construção de uma política da interdependência. Lula conseguiu inovar democraticamente e abrir a tesoura das obrigações internas e externas por meio de sua política externa e de suas políticas sociais. Sua inovação desloca os dois lados do discurso conservador: o -neoliberal- apologético do mercado e o -"crítico"- do desenvolvimentismo nacionalista.
O operário metalúrgico continua a marcha da liberdade que começou quando migrou do Nordeste para São Paulo. Sua política externa é pós-nacional e pós-soberana. É capaz de evitar a Alca e a hegemonia européia abrindo-se à interdependência (sul-americana e Sul-Sul), e não se fechando na procura de uma independência que necessariamente acabaria nas atrozes ambigüidades do nacionalismo identitário.
Sua política social (Bolsa Família, valorização do salário mínimo, microcrédito, reforma universitária, política de cotas) é pós-industrial. Capaz de indicar horizontes fortes de luta -ao mesmo tempo- contra a herança neo-escravagista da fome e da miséria e contra as conseqüências da modernização industrial.
A elite treme. O que lhe aparecia como um monstro é, na realidade, o anjo da multidão dos "sem", e, dessa vez, sua eleição não foi homologada por nenhum "satisfecit" prévio do establishment. A vitória de Lula é tão potente que à grande mídia não resta senão tentar dar vida a um cadáver, ou seja, à alternativa entre crescimento e estabilidade monetária.
Mas, a partir da reeleição de Lula, é possível pensar um nítido deslocamento com relação às duas abordagens: uma nova, mais intensa distribuição de renda (renda monetária e serviços de cidadania: acesso à universidade, à saúde, aos transportes etc.) deve ser a base do crescimento, de um crescimento sustentável e "integrador", porque sua dinâmica se articula com a mobilização radicalmente democrática da sociedade e, nessa exata medida, a uma guinada ética.
A elite mantém a pressão. Ela visa precisamente pautar "a posteriori" seu governo por um novo leque de constrangimentos, mesmo que, agora, se chamem "horizonte de crescimento". Para isso a elite pode contar, paradoxalmente, com o ideologismo economicista de uma suposta "esquerda", cuja imaginação se reduz a um impossível sonho neokeynesiano (chamado "pleno emprego").
É a capacidade de ver a política social como política de investimento que permitirá a Lula continuar a ser "muitos", a não ser que a coalizão dos interesses de sempre o deixe com "poucos"… cabelos brancos!
ANTONIO NEGRI , 73, filósofo italiano, é professor titular aposentado da Universidade de Pádua (Itália) e professor de filosofia do Colégio Internacional de Paris (França). Entre outras obras, escreveu, em parceria com Michael Hardt, os livros "Império" e "Multidão". GIUSEPPE COCCO , 50, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com Antonio Negri, o livro "Glob(AL): Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada".















5 Comments »
leandro Says —
A melhor respota a um post é um outro post:
http://oleandros.blogspot.com/2006/12/paralisia-e-mobilizao.html
Hoje às 16h no Guaíra é a diplomação dos deputados paranaeses. E vou lá. Vamos?
Made on December 19, 2006 @ 3:33 am
Bernardo Ururahy Says —
A respeito do episódio do ACM Neto, a abordagem da imprensa é, como de sempre, a do senso comum: a relação entre termos é interna a eles: a causa do ataque é o desequilíbrio da moça. É de fato muito mais difícil buscar que forças externas agenciam o ato. Já com relação ao Lula, me parece que o interessante do texto do Negri e do Cocco - que eu não conhecia - é justamente o fato de pensarem um acontecimento político (no caso, a reeleição) a partir dos vetores externos que o colocam como possibilidade.
Tudo isso ainda é, para mim, um pouco incerto e gostaria também de ter contato com reflexões mais consistentes.
Abraços
Made on December 19, 2006 @ 5:48 am
junior Says —
Não creio que assumissem a facada por indignação, já pensou se a moda pega?
Quanto ao artigo dos estrangeiros, são pontos de vista interessantes, que a mim vão perdendo legitimidade a cada vez que no texto, me chamam de elite isso ou elite aquilo, o que me parece bem hipócrita. Eu faço criticas enormes ao governo lula e não sou elite nada.
Made on December 19, 2006 @ 11:47 am
RFelipe Says —
sobre a facada…
Amigos(as), pois é… fiquei pensativo: No primeiro momento, quando soube da notícia, li no site da folha que um dos motivos que levou a moça a desferir o golpe foi a sua indignação com relação ao anúncio recente da intenção de aumento salarial dos parlamentares (justificativa que dá margem a entusiasmos coletivos). Aliás, sendo este um dos motivos, fico aqui a pensar sobre quem desferiu a facada primeiro, se foi ela, ou se foram eles, pois a facada do legislativo pode rasgar os bolsos dos “cidadãos” e os cofres públicos, de maneira assaz perversa.
Depois surgiram outras justificativas, associadas, tal como o desequilíbrio da moça.(justificativa individual e depreciativa)
No jornal Nacional da Globo foi mencionado outro motivo, algo referente à pensão da moça (mais uma justificativa Individual), e a notícia foi dada rapidamente, mais veloz do que o brilho de um relâmpago.
A meu ver, lembrando o filósofo do martelo,longe da Verdade, trago à tona minha singela desconfiança… a escolha de como apresentar as informações sempre me deixa com a pulga atrás da orelha. Mas para além disso, as análises dos mass media no mais das vezes são individualizantes, pois não querem fomentar outras (re)ações. Penso tb se a apatia e o silêncio, ou as lamentações despotencializantes de um povo, muitas vezes acuado nas esquinas, não seria tb uma espécie de desequilíbrio, o fato é que a democracia representativa há muito dá sinais de falência múltipla de órgãos. Porém, dentre os males…. este é muito mais possível do que uma ditadura militar…(e como vem sendo anunciado na Carta Capital, há um certo saudosismo com o tempo dos milicos, inclusive entre civis… ai, ai, isso me deixa com muito, mas muito medo)
Espero não estar polemizando demais este espaço.
Abç’z.
Made on December 21, 2006 @ 2:16 am
Administrator Says —
Olá, pessoal,
Estou sem net nos próximos dias, então as respostas seguem em outros posts. Já os posts, permanecem programados, ok?
Ola, Bernardo,
De fato, foi a mesma coisa que percebi na noticia: e alias, há um desequilíbrio nela, se ela é ‘desequilibrada mental’, como vai então para a penitenciaria, e não para o manicômio? Parece haver uma reação automática de desvalidação da conotação política do ato. Obviamente, não se trata de incentivar que todos saiam por aí dando facadas nas costas do político (mesmo que levemos deles facadas simbólicas todos os dias), mas essa reação enérgica de silenciamento e´ muito importante de se perceber…
Junior,
Também gostaria de estudar mais a respeito. Acho tão mais interessante quanto é alternativa esse tipo de análise. Daí ser importante vermos em que ela se articula, para além das disputas que já conhecemos, não é mesmo?
Felipe,
Em primeiro lugar, welcome back! Estava sumido por aqui, e estava com saudade das suas ‘polêmicas’ - tão construtivas que deixam de ser meramente polêmica, para tornarem-se conversações…
Mas de fato, essa individualização dos motivos, como disse também o Bernardo, essa delimitação da notícia apenas à sua individualização, é algo que temos que nos atentar. Lembra do velhinho que deu bengaladas no José Dirceu? Aquilo era taxado como ‘indignação popular’, e foi cercado de significados políticos. E a facada pelas costas do ACM Neto, como estamos encarando? Os dois atos foram desmedidos, mas…
abração a todos!
Made on December 21, 2006 @ 5:45 pm
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