January 29, 2007

Trabalho, paraíso, e frigoríficos

Estava assistindo na rede Globo o jornal estadual do meio-dia. Lá, foi vinculada a notícia ‘maravilhosa’: empregos abundam num Frigorífico em Matelândia (PR) (Frigorífico no oeste do estado tem dificuldade para completar quadro de funcionários), mas ninguém procura tais vagas. As vantagens ’saltam aos olhos’: 450 reais por mês com carteira de trabalho assinada, vale transporte, plano de saúde, e cesta básica, dentre outros.

Conheço uma pessoa que foi atraída por tal tipo de proposta, algum tempo atrás. Estava desempregada há vários meses (talvez anos), e a alternativa mostrava-se viável. Não permaneceu 6 meses no trabalho, e por 2 motivos principais: a exposição constante ao clima refrigerado gerava doenças constantes, e o trabalho era mecânico demais.

Nisso, podemos imaginar as vantagens do trabalho: salário de 450 reais, exposição a clima frigorífico por várias horas diárias (44h semanais), o corpo mantido em posição (sem grandes variações), e atividade mecânica incessante. Baixo salário, rotina pesada, exposição constante a condições adversas, para além dos uniformes, ginásticas laborais, e planos de saúde.

É claro que a referida empresa deve estar cumprindo legalmente suas obrigações. É claro que as condições são, ao menos em termos, negociadas aos funcionários. Mas isso tudo não cheira mal? A começar pelo contexto de desemprego generalizado, e esse tipo de cobertura proporcionada pela Rede Globo: certas empresas teriam muitos empregos a oferecer, e muitos desempregados nem chegam a procurar, perdem a oportunidade. Os empregos são mostrados pelos repórteres como sendo de grande atratividade, quase imperdíveis; a situação da empresa oferecendo tantas vagas é mostrada quase como um disparate; o contexto difundido do desemprego torna-se quase um absurdo.

Duas coisas, nisso tudo, ficam visíveis: em primeiro lugar, a busca que um indivíduo faz pelo emprego estável e satisfatório é reduzida, meramente, à busca pelo emprego. Ter emprego, no Brasil, e tal como mostra diariamente a grande mídia, é como um fim em si mesmo: não interessam as circunstâncias, para o indivíduo ser realizado basta estar empregado. Em segundo lugar, toda a responsabilidade pelo desemprego é destituída do contexto social, e relegada exclusivamente à subjetividade, à individualidade do desempregado (veja, por exemplo, as reportagens diárias da Fabiana Scaranzi): se existem tantas empresas como esse frigorífico, não se trata apenas do contexto injusto de nosso Brasil; é você que não procurou bem o emprego, ou não se qualificou, ou não estudou, ou não foi atrás suficiente, ou pecou em alguma coisa que se deve exclusivamente a você mesmo.

Todo esse tom é deveras curioso, dentre várias outras tonalidades veiculadas diariamente pela mídia maior brasileira. Não deveríamos estar pensando sobre as condições de trabalho? Sobre a desigualdade nas relações econômicas e sociais, dentro do Brasil, e na competitividade do Brasil com outros países? Sobre os baixos salários, e a ausência de consumo da maioria? Sobre a questão da educação? Se a mídia maior tem por função a informação pública, não é novidade que já está há muito tempo fora de caminho. Reportagens sobre Amigos da Escola, projetos "sociais" assistencialistas, e afins, apenas se distanciam - e mascaram - o que deveria ser de fato discutido. Gostaria de ver, nisso tudo, um estudo que mostre todas essas tendenciosidades, o significado delas, a imagem de país e de ‘cidadão’ que elas trazem, e inclusive o quanto poderiam contrariar até mesmo certas nuances da Constituição… ou será que não poderiam?

Em tempo: Sobre o contexto de ‘trabalho’, não percam o curta CashBack, de Sean Ellis (dica do Sedentário). Tomo a liberdade de citar o resumo vinculado no link do Sedentário, por Marcos Cruz:

“Cashback, do inglês Sean Ellis, comete a proeza de integrar conceitos clássicos de beleza num dos espaços mais simbólicos do consumo o supermercado. É a história de um jovem empregado que, em vez de pôr os olhos nos produtos, fica parado a fitar as mulheres que os compram. O sonho de ser pintor e o desencanto com a profissão que exerce levam-no a parar mentalmente o tempo, para poder observar os seus modelos e exercitar a arte que o seduz". (Texto de Marcos Cruz)

Arquivo Georges Dumezil on-line

link: bibulus2.nexenservices.com/dumezil/ 

Textos, bibliografia, informações em geral sobre Georges Dumezil

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Filólogo e historiador das religiões, Georges Dumézll (1898-1980) é uma das maiores figuras das ciências humanas francesas. Dotado de uma cultura enciclopédica e de uma curiosidade que o levou, por causa de suas pesquisas, a aprender quarenta línguas, Georges Dumézil dedicou toda sua vida a trazer à luz o fundo cultural comum aos povos indo-europeus. Sua obra de síntese Mythe et Epopée (1)- vasta compilação de lendas, contos e mitos acompanhados de análises - leva-nos ao cerne das teses desse arqueólogo da civilização indo-européia. [pesquisa de edições brasileiras dos livros de Dumezil]

January 26, 2007

Sobre o atendimento on-line em psicologia

Sites como o orkut mostram, em suas comunidades, que há muita gente interessada em saber como é que os psicólogos realizam terapia on-line, ou atendimento via internet. Inclusive, algumas pessoas que claramente contrariam legislações em vigor se aproveitam dessa curiosidade, e se auto-declaram "psicoterapeutas on-line". É necessário, entretanto, ter muito cuidado, pois são pessoas que agem de má fé. 

Para início de conversa, a terapia on-line ou virtual é proibida no Brasil. Não importa o meio, se via MSN, ICQ, orkut, ou outra qualquer ferramenta. Psicólogos que realizam atendimentos on-line sem uma série de procedimentos prévios devem ser denunciados pela população a seus conselhos regionais. Entretanto, há uma pequena abertura, prevista pela Resolução 12/2005 do Conselho Federal de Psicologia, que permite atendimentos via internet ou computador em um caso especial: a pesquisa experimental.

No dia-a-dia, no cotidiano de sua atuação, um psicólogo não pode realizar psicoterapia on-line. Novamente, advertimos: psicólogos sem autorização prévia que atendem via computador devem ser informados ao Conselho Regional. Mas no caso da realização de psicoterapia em âmbito de pesquisa, uma série de condições devem ser cumpridas previamente, como a ligação do psicólogo a um grupo de pesquisa (pesquisas e atendimentos isolados não possuem efeito algum, já que o caráter do atendimento é eminentemente experimental, e a própria avaliação sobre se funciona ou não a terapia é descartada, quando o atendimento é isolado), a pré-aprovação de seu atendimento por um Comitê de Ética em pesquisa reconhecido pelo Conselho Nacional de Saúde, um documento assinado pelo paciente que atesta seu conhecimento do âmbito experimental da terapia, e, enfim, o requisito de que os atendimentos on-line não devem ser cobrados. Isso mesmo, se um psicólogo ou alguém que se pretende "psicoterapeuta" atende on-line, e ainda cobra pelo serviço, está em desacordo com uma resolução de sua própria categoria.

Para que um psicólogo receba a autorização do atendimento via computador, uma série de procedimentos devem ser satisfeitos. Cabe ao cliente, caso esteja interessado nesse tipo de abordagem, buscar informações a respeito tanto da validade desse tipo de terapia, quanto sobre a autorização do psicólogo, junto aos órgãos competentes, como o Conselho Federal, ou os Conselhos Regionais.

January 25, 2007

Instantes, de Jorge Luis Borges

img246/1450/jorge20luis20borges9mr.jpgDesde o início da internet, circulam milhares de textos apócrifos pretensamente assinados por autores famosos. Não é raro vermos textos mal escritos e cheios de ingredientes de auto-ajuda, assinados por um Shakeaspeare, um Machado de Assis, ou um Veríssimo. Um dos últimos desse tipo foi o texto de Arnaldo Jabor sobre Marcola, confundido por muita gente com uma entrevista real ao preso. 

Sobre Borges, circula há longo tempo seu difundido Instantes. Seria mesmo de Borges? Dois autores, Ivan Almeida e Betty Vidigal, escavam a procedência do texto (destaque para o de Ivan Almeida):

- Jorge Luis Borges, autor del poema "Instantes", por Ivan Almeida
- Textos Apócrifos na Internet, de Betty Vidigal
- Pesquisa de preços dos livros de Borges
- Imagem acima: Paradise according to Borges, de Gabriel Caprav

Abaixo, uma das redações de "Instantes"

 

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na proxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, comtemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida;
claro que tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não perca o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem ter um termometro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas;
se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria até o final do outono. Daria mais voltas na minha rua, comtemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças.
Se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…

 

January 24, 2007

Projeto “Universidade Nova”

Sei não… Isso aplicado no Brasil parece mais samba do crioulo doido. Mas seria muito bom, se funcionasse. Aliás, de certo modo também seria muito bom se funcionasse, do jeito que já está ;)
O anteprojeto de lei que estabelece as normas gerais da educação superior, a chamada Lei de Reforma da Educação Superior, está em discussão no Congresso Nacional.
 
Consiste essencialmente em regulamentações e medidas administrativas para o sistema, sem fazer menção à razão de ser das instituições de ensino superior: a formação de pessoal qualificado. (…)
 
Um projeto ambicioso vem sendo chamado de Universidade Nova pelo seu proponente, o reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Naomar de Almeida Filho, e já está em discussão em várias universidades federais.
 
Ele contém pelo menos parte da solução para o problema, formulando uma estrutura acadêmica revolucionária para o Brasil, apesar de muito próxima dos melhores sistemas de ensino superior do mundo.
 
Na Universidade Nova, os estudantes ingressam no que foi chamado de bacharelado interdisciplinar (BI). Com duração de três anos, a formação nos BIs contemplará grandes áreas do conhecimento. Nada de criar ciclos básicos, há muito superados, mas estruturar cursos-tronco que se estenderão ao longo dos três anos sobre assuntos fundamentais. (…)
 
Ao fim dos três anos, o bacharel interdisciplinar poderá continuar sua formação profissional específica por mais um a três anos, dependendo da graduação escolhida. (…) [artigo completo]

January 23, 2007

Biblioteca Nacional de Medicina / National Library of Medicine

link: principal, Online Exhibitions and Digital Projects, History of Medicine, The Visible Human Project

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Da gringolândia, mais um recurso imperdível. Muitos links com coisas interessantes, desde história da medicina até atlas de anatomia modernos. Acima, apenas alguns links.
 
PS:  Gostaria de fazer uma pergunta: as imagens estão carregando no navegador de vocês? Tenho utilizado o imageshack para as imagens, e o firefox como navegador, mas tenho a impressão de que em alguns navegadores não estão carregando…

January 22, 2007

Um cometa por essas paragens

Um certo cometa chamado "McNaught" passa pelo hemisfério sul. Pode ser visto a olho nu, é muito mais brilhante que o Halley, e será visível por mais alguns dias. Encontramos algo parecido com isso ou isso por aí. Para quem tiver um céu limpo por perto, vale muito a pena. 
 
Significados e gravuras relacionados a cometas no imaginário ocidental é o que não falta. Como na frase de Marco Aurélio (abaixo), são verdadeiros "encontros", que retiram o homem de seu cotidiano, e eventualmente o fazem ver que o próprio cotidiano é assaltado, fragmentado por inúmeros outros encontros. . . Abaixo, o documento de outros olhos maravilhados.
 
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"Illustration de Abbildung und Beschreibung dess neuen erschrectlichen Comet
den 26 Martii… anno 1665"
 
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"Cometographia…"/ Johannes Hevelius, Gedani, S. Reiniger, 1668. (Rés. 16). (1668). Réserve. Bibliothèque de l’Observatoire de Paris
 
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Theatri cometici pars posterior. Sive historia cometarum a’ diluvio ad A. C. 1665"/Stanislaw de Lubienietz, Amstelodami, Apud Franciscum Cuyperum, 1667
(Passage des comètes des années 68-69, 367, 457, 405, 399-400, 540 après Jésus-Christ. illustration de l’étoile de Bethlehem)
 
Afirmamos que tais fatos "se encontram" em nossa vida, como os operários dizem que as pedras quadradas dos muros e das pirâmides "se encontram" quando se adaptam umas às outras em determinada posição. Em resumo, porque há uma combinação única. (Marco Aurélio, Meditações, Livro V, VIII [edição virtual e pesquisa de edições impressas])
PS: O Marcelo Coelho escreveu 2 posts e mais um texto na Folha sobre o cometa, e sobre a ausência de cobertura da mídia (bem diversa da do cometa Halley, nos anos 80).
PS2: Muitas e muitas fotos do cometa por fotógrafos amadores e profissionais também aqui, no Flickr.

January 18, 2007

Tudo “pro santo”

img138/200/jesusdolargd8.jpgDois pastores-diretores da "Igreja Renascer em Cristo", um "apóstolo" e uma "bispa" (Estevam Hernandes Filho e Sônia Haddad Hernandes), foram presos nos EUA por falsidade ideológica e por contrabando de moeda: tentaram esconder +- 46 mil dólares das autoridades aduaneiras, declarando apenas 10 mil. No Brasil, respondem por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, e estelionato.

Faz lembrar o já quase antigo affair "mensalão", e a esquecida notícia de João Batista Ramos da Silva, presidente da IURD e então deputado federal pelo PFL, haver transportado 10 milhões de reais em aeroportos brasileiros. Segundo João Batista, dinheiro de doações de fiéis. Na época, trocamos a visibilidade dos 10 milhões pelo caso das 100 mil doletas na cueca. Dinheiro na cueca é engraçado, e é com alguém ligado ao PT; logo, não havia como os 10mi do PFL terem a mesma visibilidade ou barulho, não é mesmo?

Isso tudo faz atiçar a imaginação. Como naquele dia - não faz muito - em que o Bispo Edir Macedo estava explicando no programa de TV sobre o dízimo, a partir… da Bíblia? Não, simplesmente a partir de uma situação concreta. Imaginem o trabalhador, que vai ao bar no fim da tarde, e pede uns dedos de pinga. Qual é a primeira coisa que ele diz e faz quando recebe o copinho? Derrama um pouco, oferecendo "pro santo". O espírito do dízimo, segundo Macedo (em imagens que não são nem essas, nem essas), é mais ou menos o mesmo…

Em tempo:

- A imagem acima pertence à capa do disco "In God We Trust", dos Dead Kennedys (1982)
- Já criaram até em Portugal um blog com o título bem sugestivo: ‘anti-iurd
- Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal, por Ricardo Mariano
- Pesquisa de livros sobre neopentecostalismo e Igreja Universal
- Talvez, até domingo, o blog fique em "recesso". Mas por um ótimo motivo!

PS1: Então, gente, alguns comentários fizeram lembrar questões relativas a esse outro post. Que tal?

January 16, 2007

blogs políticos de 2006

O Observatório da Imprensa acabou de divulgar os principais blogs políticos de 2006, com base nos links do Technorati. 

O que mais chamou a atenção é a presença de blogs ‘profissionais’, ou de jornalistas que são pagos para manterem seus blogs em certos domínios. Em segundo lugar, a presença de políticos, como José Dirceu e Roberto Jefferson. Dentre eles, destaque para o blog do Alon, um dos finalistas do prêmio BoB´s 2006, e que cultiva honrosamente seu blog "à unha".

January 15, 2007

Norman Cohn

img354/1223/img00027ws6.gifComo já havíamos falado anteriormente de Peter Brown - historiador que trata do início do cristianismo e elaborou uma biografia de Santo Agostinho -, gostaria de puxar a brasa agora a outro historiador, Norman Cohn

Alguns anos atrás comprei um livro dele chamado "Cosmos, Caos, e o mundo que virá" (pesquisa de preços), em uma bela edição da Companhia das Letras. O livro trata do legado de uma série de tradições pré-cristãs (e até mesmo pré-judaicas) que se relacionam com a crença de que haveria um fim glorioso para a história, onde o homem seria salvo. Em suma, Cohn analisa as relações entre o mundo ordenado e seus perigos (Cosmos x Caos), para várias tradições, como surgiu a crença no apocalipse, e as tradições messiânicas.

Por um motivo imediato, o livro nunca havia me chamado a atenção. Na orelha, há a menção de que tais informações poderiam dar conta diretamente a crenças que nos são bem contemporâneas, como, por exemplo, o marxismo. Não gostei imediatamente do livro porque a busca de continuidades como essa é absurda (teria o marxismo algo a ver com alguma tribo palestina anterior a Cristo?), como se a crença na salvação há milhares de anos pudesse ser diretamente relacionada com movimentos contemporâneos.

Mas dias atrás, por outros tipos de interesse (relacionados à contestação que faz o Livro de Jó à doutrina da retribuição temporal; à definição bíblica do mau; ao estatuto da loucura na Bíblia; à continuidade do cristianismo frente à herança davídica; à descontinuidade existente entre o cristianismo e o judaísmo, por um lado, e entre as doutrinas greco-romanas dos séculos I-III e o cristianismo, por outro… alguma referência/idéia/ou interesse em comum? ;) ) retornei ao livro, e com outros olhos. A linguagem de Cohn não é rigorosa. Mas o texto é recheado de notas com inúmeras referências, e mesmo no corpo do texto, as indicações são bastante elucidativas. Cohn inicia descrevendo tradições que vão dos egípcios, mesopotâmicos, védicos e zoroastras. Perpassa temas sírio-palestinos, até chegar à formação do povo hebreu, e ao tema de Javé como Deus único. Até o nascimento do tema de Javé como Deus único, Cohn demonstra como o povo hebreu assimila outras tradições, inclusive politeístas. Ainda, menciona passagens mais antigas da própria Bíblia de difícil tradução, que seriam elas próprias de origem politeísta (!). Por exemplo, Deuteronômio 32:8 suporia a subordinação de Javé a outro Deus, chamado El, descrito por Cohn a partir da tradição ugarítico/cananéia:

Deuteronômio 32:8 conta como El Elyon - isto é, El, o Mais Exaltado - dividiu as nações entre os filhos, Yahweh recebendo Israel como sua parte. (p. 177)

Em outras palavras, haveria em redações mais antigas da Bíblia um Deus primordial, chamado El, que teria dividido as nações entre outros deuses menores, dentre eles, Yahweh. Posteriormente, em outras tradições, El seria identificado ao próprio Yahweh. Na Bíblia de Jerusalém, em nota exegética, consta: seria Yaweh que teria distribuído as nações entre seus anjos, encarregando-se pessoalmente do povo hebreu. Na Bíblia do Peregrino, Alonso Schokel também afirma: a passagem é pautada num horizonte de politeísmo, e portanto, a passagem trata de deuses menores, e não ‘anjos’.

Outros pontos interessantes da argumentação de Cohn são a formação do messianismo na esperança judaica, e, por fim, o messianismo cristão. Enfim, junto a outras referências (que estou procurando…) parece ser uma boa pedida.

Cohn escreveu também outros livros (link da Amazon), sobre a Arca de Noé, demônios na Idade Média européia, Protocolos dos Sábios de Sião, e outros assuntos (pesquisa de preços das edições em português).

Outros:

- Sobre Deuteronômio 32:8, um breve e interessante comentário, e outro sobre os escritos de Qumran, onde uma versão mais antiga desse escrito foi encontrada.

Reviews de Cohn, meio difíceis de acessar