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January 4, 2007

A morte e o silêncio de Saddam



Assisti agora ao vídeo da execução de Saddam Hussein. Condenado à morte por "crimes contra a humanidade", é bem outra coisa que deixa a todos um gigantesco ponto de interrogação: o silêncio do réu. 

Não há dúvidas sobre o caráter truculento da ditadura de Saddam. O ‘julgamento‘ (ou uma condenação sumária travestida em julgamento?) realçou vários desses pontos. Mas o que salta aos olhos é o complexo contexto no qual os crimes de Saddam aconteceram, envolvendo até mesmo a política do petróleo, o apoio e influência direta que os EUA exerceram no Iraque contra a influência russa no oriente médio, e mesmo o alardeado fornecimento norte-americano de armas biológicas. Tem-se não a mera invasão iraquiana do Kwait e as supostas armas de destruição em massa de um exército já sucateado: o que deveria ser elucidado são décadas de economia e política no oriente médio, que favoreceram a ascenção de Saddam, sua relação com os EUA, e por fim o isolamento de seu regime.

Com a morte de Saddam, nada disso é esclarecido. Até mesmo os antigos inimigos iranianos chamaram a atenção à cumplicidade dos EUA no regime de Saddam. Mas ao que tudo indica, para muitos nada disso importa: apenas morreu mais um bad guy.

4 Comments »

  1. junior Says

    Pois eh rapaz, aquele povo já bão bate bem das bolas, e ainda por cima são incitados a coisas “inexplicáveis”? Vai saber onde isso vai dar. Acaba que o saddam vira heroi, quer apostar?
    Abração procê amigão

    Made on January 4, 2007 @ 7:35 pm

  2. Rafael M. Says

    E daí primo. Se vc quisesse que sua morte, uma vez que inevitável, tivesse alguma serventia para a luta contra seus maiores inimigos (imagine-se rodeado deles, imagine-se uma pessoa que os vizualiza em todos os lugares… o tal Mr. Hussein…)… qual seria a melhor forma? Acho que ele foi maquiavélico até seu último momento… meticuloso… vendeu a imagem de um chefe enfrentando a morte com semblante calmo, firme e destemido, blasfemando contra os inimigos do islã… um mártir muito útil para os hinos e estórias de uma guerrilha anti-ocupação que agora pode vir a lutar com motivação renovadas (especialmente os sunitas e os comandos da antiga Guarda Republicana Especial). Lembre-se que antes desta execução o mais próximo disto que eles tinham eram comandantes mortos da Al-Qaeda, com os quais não se identificavam.

    Made on January 7, 2007 @ 8:38 pm

  3. Administrator Says

    Oi Junior e Rafa,

    De fato, creio que vocês descreveram bem qual será o estatuto do Saddam para muita gente: um bom argumento para os chamados ‘insurgentes’. Saddam conservou seu papel de estadista até o último momento, e isso terá consequências marcantes na sequência da guerra. Mas vocês não sentem também, dada a grande história de relações USA X Iraque, um certo gostinho de queima de arquivo?

    Rafa, legal ver teu primeiro comentário por aqui!

    Abração,

    Made on January 8, 2007 @ 1:47 am

  4. Rafael M. Says

    Verdade, não deixa de ser uma queima de arquivo. Em um tribunal internacional, como Haia, ele seria ouvido, por mais q houvesse parcialidade…

    Uma coisa importante q eu queria reforçar é a idéia equivocada que a imprensa faz dos “insurgentes”, propositadamente alimentada pelo governo americano.

    A Guarda Republicana Especial (força de elite do exército iraquiano) tinha mais de 20 mil homens… Uma das maiores tropas de elite do mundo… quase todos sunitas fiéis ao regime e a Saddan, nenhum curdo, quase nenhum xiita. Muitos trabalhando em segredo, algumas equipes nunca apareciam sem máscara, para não serem facilmente identificados por seus pares. Parece que adivinharam o que aconteceria… Havia pessoas nesta tropa capazes de fazer frente individualmente a qualquer soldado estrangeiro, seja da força Delta, SAS, etc…

    Como eles “não apareceram” nos primeiros dias da invasão anglo-americana, esperava-se que estivessem todos em Bagdá, preparando uma resistência fortíssima no conflito urbano… mas “sumiram” misteriosamente… Segundo os americanos, foram covardes ou esmagados… bom, eles sempre foram de acreditar em contos de fadas.

    Eu acredito que o que ocorreu, na verdade, é que a Guarda Republicana Especial optou por “sumir,” orientada por Saddam, que estava ciente da superioridade estrangeira num confronto direto. Escondeu equipamentos, especialmente morteiros pequenos, mísseis portáteis (anti-tanque e anti-aéreo), fuzis, munição, explosivos… e misturaram-se entre a população, alguns atualmente até entrando para a polícia do novo governo.

    Repare nos vídeos e notícias. Com exceção de alguns poucos atos insanos entre etnias e da Al-Qaeda, há muita destreza nos ataques. Diferente dos moujahedeens afegãos e outras guerrilhas, que levaram algum tempo para começar a “acertar” na forma de atacar (por exemplo insistindo em atacar tanques), no Iraque, desde o início da reação, os ataques são fatais. As armas anti-tanque só são usadas contra blindados leves e jipes, com vítimas certas. Destreza nas emboscadas, ataques de snipers, explosivos perfeitamente aplicados, etc. E o mais importante: com exceção dos atentados da Al-Qaeda e entre etnias, na grande maioria, especialmente no interior, não são suicidas, e os americanos raramente matam ou prendem algum agressor… é o modus operandi natural das forças especiais. Atacam e somem.

    Esses dias circulou um vídeo de um sniper que só naquele vídeo mata uns 20 americanos, vários deles oficiais e sargentos, alguns Delta´s. Bem posicionado, calmo…. O vídeo circula falando do “estrago que os homens de Bin Laden” fazem no Iraque.

    É tudo que o governo americano quer que seu povo e soldados pensem, um inimigo claro, pois no momento em que eles se derem conta de onde se meteram, o pânico vai tomar conta.

    Made on January 11, 2007 @ 11:46 pm

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