January 4, 2007
Don McCullin, Kavafis, e a arte
Tentei já escrever uns 3 posts abrindo o ano de 2007, com balanço de 2006, e expectativas para esse ano. Depois do Firefox ter dado pau algumas vezes, desisti. Mas o assunto que quero tratar já apareceu algumas vezes no Catatau, e se refere às relações entre a vida do artista sua arte. A arte do artista pode ser reduzida à sua vida de artista, à sua individualidade, história pessoal ou características psicológicas? Ou haveria algo mais em jogo, na arte do artista? Seria ela fuga da realidade, ou afirmação da vida?
Há alguns dias tive acesso a um pequeno e belo livro de Konstantinus Kavafis, intitulado Reflexões sobre poesia e ética (pesquisa de preços). O livro, apresentado por José Paulo Paes, reune notas e pensamentos relacionados a vários dos poemas de Kavafis, e mesmo algumas reflexões sobre sua própria arte. O interessante, nesse tema, é quando ele se refere à arte como ‘memória’ de experiências do artista. A poesia de Kavafis contém uma série de elementos que poderiam ser considerados autobiográficos. Mas a própria abertura de Paes acerta na mosca: há algo mais do que meramente a redução da arte à vida, mesmo que seja na vida que a arte se origine. Nas palavras de Paes,
"Só quando purificada pela memória de sua circunstancialidade egocêntrica e investida de forma artística é que a emoção adquire permanência e significatividade, fazendo juz ao ars longa, vita brevis".
Ou em outras palavras, é quando a experiência se destitui da vida do autor enquanto indivíduo e se transfigura ora enquanto singularidade, ora enquanto aspecto universal (escolham os artistas e críticos, dentro de suas querelas), que pode ser chamada de arte. Conforme Kavafis, a "memória" se transforma em "emoção artística.
A quadra do ano de que mais gosto é o verão. Os verdadeiros verões, do Egito e da Grécia - com seu sol causticante, seus triunfais pinos do dia, suas extenuantes noites de agosto. não posso no entanto dizer que trabalhe mais - artisticamente - durante o verão. As imagens e sensações estivais me infundem numerosas impressões; todavia, não sei de as ter representado ou traduzido de pronto numa composição literária. Digo "de pronto" porque as impressões artísticas demoram a ser usadas, a gerar outros pensamentos, a transformar-se sob a ação de novas influências, e quando enfim se cristalizam em palavras escritas, é difícil lembrar a ocasião primeira onde nasceram e de onde se originam as palavras escritas. (nota 23, 1909)
Ou ainda,
Mas, do artista, como a vida se enriquece!
Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos
os versos fortes que aqui têm a sua origem. (Tradução de Paes)
Sobre esse jogo entre acontecimentos concretos, da vida e da subjetividade, que se convertem em arte, vi também há alguns dias, uma entrevista com o fotógrafo Don McCullin. Se não me engano, o programa chama-se Conexão Roberto D´Ávila. Não conhecia suas fotografias, nem esse nome de autor, mas muito interessantes suas considerações a respeito desse tema. Segundo McCullin, suas fotografias não podem ser consideradas arte, mas fotografias. Haveria um jogo entre 3 elementos: aqueles acontecimentos concretos a serem fotografados, a própria fotografia, e a arte. Esses elementos orbitariam a própria vida do autor, daquele que fotografa. Elementos interessantes sairiam desse jogo: em primeiro lugar, a "criação" não seria do autor, mas envolveria a própria vida do autor. Para si mesmo, McCullin não é um artista que cria e que transforma o mundo ao redor por meio de sua arte; por outro lado, é o artista que se transformaria registrando os acontecimentos que registra, nunca impassível aos acontecimentos.
Por outro lado, a própria fotografia, ao invés de ser arte, seria um instrumento que retira elementos artísticos de composição. Tudo isso, para resguardar os acontecimentos, não retirá-los de seu caráter "real" para transformá-los em obra artística.
Muito legal todo esse jogo, que deixa os elementos em suspenso: o artista torna-se ao mesmo tempo criador e criatura, é afetado, modificado por aquilo que vive e o impressiona; a fotografia não se torna mero registro, nem obra artística (o que seria então?); mas a própria fotografia não poderia deixar de ser vista, considerada, como obra artística. Entre a vida, a obra, e o artista, um jogo de fugas e transmutações. Talvez esse jogo de "fugas" aponte, para McCullin, algo engendrado à arte que nunca deveria deixar de ser considerado: sua esfera política.
Tanto em McCullin quanto em Kavafis, parece haver um jogo entre arte e vida, que não meramente se reduz a uma análise da vida do autor, mas que conserva um papel criador (não de criatura) à própria arte.









3 Comments »
azzuma Says —
Assisti essa entrevista. Gostei muito, também não conhecia o seu trabalho, exceto a foto do mendigo.
O que mais me chamou a antenção na entrvista foi a sobriedade de suas declaraões, de como as violências vistas e vividas lhe marcaram a vida e também que ele não se auto-promove, não tem aquele esnobismo vazio.
Foi uma das entrevistas que mais gostei.
Falou, Catatau
Made on January 7, 2007 @ 1:34 am
Administrator Says —
Oi Azzuma,
Que legal q vc viu também! De fato, foi notável a sobriedade dele, na entrevista, bem como a própria relutância de declarar-se “artista”. Espero postar mais sobre ele, adiante!
abração,
Made on January 7, 2007 @ 12:34 pm
Monique Says —
Eu também assisti essa entrevista… Confesso que a cada palavra, a cada frase eu me conatgiava mais com o ritmo sóbrio e humanitário nas palavras do Fotógrafo. Uma das tomadas mais marcantes para mim foi a comparação de suas experiências com as do escritor-sobrevivente italiano Primo Levi… Sem dúvida, um resgate do humano … Um resgate de mim!
Made on January 16, 2007 @ 2:49 pm
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