January 15, 2007

Norman Cohn

img354/1223/img00027ws6.gifComo já havíamos falado anteriormente de Peter Brown - historiador que trata do início do cristianismo e elaborou uma biografia de Santo Agostinho -, gostaria de puxar a brasa agora a outro historiador, Norman Cohn

Alguns anos atrás comprei um livro dele chamado "Cosmos, Caos, e o mundo que virá" (pesquisa de preços), em uma bela edição da Companhia das Letras. O livro trata do legado de uma série de tradições pré-cristãs (e até mesmo pré-judaicas) que se relacionam com a crença de que haveria um fim glorioso para a história, onde o homem seria salvo. Em suma, Cohn analisa as relações entre o mundo ordenado e seus perigos (Cosmos x Caos), para várias tradições, como surgiu a crença no apocalipse, e as tradições messiânicas.

Por um motivo imediato, o livro nunca havia me chamado a atenção. Na orelha, há a menção de que tais informações poderiam dar conta diretamente a crenças que nos são bem contemporâneas, como, por exemplo, o marxismo. Não gostei imediatamente do livro porque a busca de continuidades como essa é absurda (teria o marxismo algo a ver com alguma tribo palestina anterior a Cristo?), como se a crença na salvação há milhares de anos pudesse ser diretamente relacionada com movimentos contemporâneos.

Mas dias atrás, por outros tipos de interesse (relacionados à contestação que faz o Livro de Jó à doutrina da retribuição temporal; à definição bíblica do mau; ao estatuto da loucura na Bíblia; à continuidade do cristianismo frente à herança davídica; à descontinuidade existente entre o cristianismo e o judaísmo, por um lado, e entre as doutrinas greco-romanas dos séculos I-III e o cristianismo, por outro… alguma referência/idéia/ou interesse em comum? ;) ) retornei ao livro, e com outros olhos. A linguagem de Cohn não é rigorosa. Mas o texto é recheado de notas com inúmeras referências, e mesmo no corpo do texto, as indicações são bastante elucidativas. Cohn inicia descrevendo tradições que vão dos egípcios, mesopotâmicos, védicos e zoroastras. Perpassa temas sírio-palestinos, até chegar à formação do povo hebreu, e ao tema de Javé como Deus único. Até o nascimento do tema de Javé como Deus único, Cohn demonstra como o povo hebreu assimila outras tradições, inclusive politeístas. Ainda, menciona passagens mais antigas da própria Bíblia de difícil tradução, que seriam elas próprias de origem politeísta (!). Por exemplo, Deuteronômio 32:8 suporia a subordinação de Javé a outro Deus, chamado El, descrito por Cohn a partir da tradição ugarítico/cananéia:

Deuteronômio 32:8 conta como El Elyon - isto é, El, o Mais Exaltado - dividiu as nações entre os filhos, Yahweh recebendo Israel como sua parte. (p. 177)

Em outras palavras, haveria em redações mais antigas da Bíblia um Deus primordial, chamado El, que teria dividido as nações entre outros deuses menores, dentre eles, Yahweh. Posteriormente, em outras tradições, El seria identificado ao próprio Yahweh. Na Bíblia de Jerusalém, em nota exegética, consta: seria Yaweh que teria distribuído as nações entre seus anjos, encarregando-se pessoalmente do povo hebreu. Na Bíblia do Peregrino, Alonso Schokel também afirma: a passagem é pautada num horizonte de politeísmo, e portanto, a passagem trata de deuses menores, e não ‘anjos’.

Outros pontos interessantes da argumentação de Cohn são a formação do messianismo na esperança judaica, e, por fim, o messianismo cristão. Enfim, junto a outras referências (que estou procurando…) parece ser uma boa pedida.

Cohn escreveu também outros livros (link da Amazon), sobre a Arca de Noé, demônios na Idade Média européia, Protocolos dos Sábios de Sião, e outros assuntos (pesquisa de preços das edições em português).

Outros:

- Sobre Deuteronômio 32:8, um breve e interessante comentário, e outro sobre os escritos de Qumran, onde uma versão mais antiga desse escrito foi encontrada.

Reviews de Cohn, meio difíceis de acessar

2 Comments »

  1. leandro Says

    Ih… O Antigo Testamento é recheado de referências e influências pagãs…

    Para explicar os inúmeros deuses que povoavam o imaginário do povo de Israel a tradição posterior resolveu chamar todos os deuses (daimones) de demônios… Os deuses pequenos. Esse grandão aí maior que Javé não sei com que nome ficou… hehehhe

    RE: Poisé, Leandro, tem uma confusão também na denominação dos deuses… Daimones vem do grego, o que dizer também do Theós? Mas não seriam essas definições tardias, também, e muito próximas das próprias concepções de quem as enunciava?
    E quanto a esses deuses antigos, como fazer a passagem do panteão aos anjos? Boas questões…

    Made on January 15, 2007 @ 10:25 pm

  2. Jeferson Jess Says

    Valeu catatau! Já tinha passado por aqui antes. O objetivo do projeto é justamente incentivar a carona como um transporte alternativo, por isso não desista da idéia. Não deixe de contar a experiência depois. Abraços

    Made on January 16, 2007 @ 3:38 pm

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