February 16, 2007
Kavafis: a atenção às palavras
Estava bolando um post sobre a questão de como a comunicação se relaciona com ausência de ação, hoje em dia, e me deparei com essa pequena anotação feita por Kavafis em 1902. Ela toca também de passagem em outro assunto agora em voga: a pena de morte num país que a permite.
Tenho observado com frequencia a pouca atenção que as pessoas dão às palavras. Explico-me. Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma. Trata-se de um erro grave. Eu ajo de outro modo. Por exemplo, sou contra a pena de morte. Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias. Pouco me importa que ninguém concorde comigo. O que eu disse não foi em pura perda. Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem. Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário. - O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir. Por isso limito-me a falar. Não acho, porém, que mihas palavras sejam em vão. Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, - terão facilitado a ação e limpado o terreno.KAVAFIS, K. Reflexões sobre Poesia e Ética. SP: Ática, 1998 [pesquisa de preços]





4 Comments »
Cássio Augusto Says —
Linda citação… é por isso que mantenho o Blog!!!
Made on February 16, 2007 @ 12:18 pm
Fernanda Says —
Eu tenho agido como o homem simples, por pura preguiça.
Made on February 16, 2007 @ 3:45 pm
Renata Says —
Esse post me deu uma ideia, ou melhor, me fez lembrar de um assunto que renderia um bom post. Não sei se você já teve essa impressão, ou se isso que vou falar tem algo a ver com a questão da comunicação que vc pretende abordar, mas eu fico impressionada com a dificuldade de comunicação (verbal e escrita) das pessoas, especialmente os jovens, hoje. Vou além, as pessoas tem dificuldades grandes de compreensão. Sabe compreensão de texto, objeto de exercícios de escola e cursos de línguas? As pessoas não conseguem mais entender o que as outras dizem ou escrevem!
Sou advogada, trabalhei durante 8 anos com consultoria. Embora não trabalhasse com contencioso, lidava com leis e atendia clientes, escrevia pareceres. Dessa forma, interpretar o que os clientes queriam e leis, regulamentações etc. era parte do meu dia a dia. Além disso liderava uma equipe, formada de forma geral por pessoas mais jovens que eu, muitos ainda na faculdade. O que eu percebia era que as pessoas não só tinham dificuldade de colocar as ideias no papel, mas tb de entender as leis, o que os clientes queriam e também criar um encadeamento lógico de ideias para construir um parecer legal. Isso me assusta muito.
Meu irmão, que dá aula de matemática, tb percebeu isso. Ele já comentou comigo que a grande dificuldade da garotada não é a matemática em si, mas sim interpretação de texto.
O que há de errado com a humanidade???
Deveria ter escrito um post sobre isso, mas me desculpe, acabei desabafando aqui nos comentando no seu blog mesmo…
Re: Olha Renata, que isso dá um bom post mesmo! Gostaria de ler algo a respeito no teu blog (mas por enquanto, levamos então a discussão por aqui).
Muito interessante você ter falado do seu irmão que é professor de matemática. Sabe o que penso? Que, mesmo (e de modo assombroso) nas faculdades, grande parte dos alunos são analfabetos funcionais. A ausência de noções lógicas básicas para interpretação de textos acompanha - arrisco dizer, por conhecer vários professores de matemática - também uma espécie de carência lógica de matemática básica. Resumindo, estamos formando pessoas que não sabem ler e escrever textos (nas áreas, digamos, mais ‘humanísticas’), e que não conhecem matemática básica (nas mais ‘exatas’, ou mais notadamente nas ‘aplicadas’). Isso faz com que o nível do ensino superior caia muito, às vezes de modo que o ensino nem mais possa ser considerado ’superior’. Pressiona também os professores a não manterem avaliações rigorosas, especialmente nas particulares.
Mas há ainda um agravante: especialmente em exatas, ou o aluno aprende matemática básica, ou não termina o curso. Não há meio de disfarçar as coisas. Já em humanas, o nível dos textos, o uso de apostilas com idéias básicas, textos de poucas páginas, etc., ajudam a mascarar algo que não poderia ser admitido…
de fato, questão seríssima, essa que você elencou! E, como vimos no Kavafis, é uma dessas que não podem deixar de ser ditas e repetidas…
Made on February 16, 2007 @ 5:41 pm
André Burgos Says —
opa te achei na comu do orkut ;]
sempre que comentar no meu eu comento
de volta.
http://www.chaverde.wordpress.com
Re: Oi André,
Valeu pela dica. Mas, que tal fazermos diferente? Sempre quando eu encontrar algo que me toque no teu blog, eu comento, ok? Gostaria que a regra fosse a mesma para você. É isso que acho interessante nos blogs: o que o outro diz pode afetar você, ou não; você pode, com base nesse afeto, comentar, ou não. Mas deve haver alguma relação que não a da mera devolutiva, não é mesmo ? A reciprocidade não se faz no número de comentários devolvidos, mas na importância das conversações que mantemos!
um abraço,
Made on February 17, 2007 @ 9:14 pm
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