March 13, 2007

Decreto desfavorece professores de nível superior

Em outro post, mostramos a referência ao decreto n. 5786, assinado pelo presidente Lula, que reduz o número exigido de professores mestres e doutores em centros universitários. O decreto 5786 substitui o de número 4914. Vejamos as diferenças:

- No decreto 4914, havia uma previsão para que até 2007 33% dos professores deveriam ser contratados em regime de tempo integral; no decreto 5786, é requerido esse regime a apenas 20% (1/5) dos professores. Em termos práticos, isso significa, por exemplo, que em cursos pequenos, apenas um professor precisa estar integralmente comprometido com a faculdade; todos os outros podem ser contratados em regime horista, e portanto, ser pagos apenas pelo tempo em que a presença é exigida em aula. Isso significa que, via de regra, apenas o coordenador do curso precisa ser contratado (em regime integral), sem que hajam vínculos maiores necessários aos outros professores.

- Na carteira de trabalho do regime horista, é deduzido um pequeno valor sobre o valor total da hora, para atividades "complementares" do professor, como preparação de aula, adicional noturno, etc.. Admitindo que um professor mestre e horista pode receber no total de 18 a 25 reais por hora-aula, o incentivo real, efetivo, que favoreça tanto a produtividade científica (confecção de artigos, apresentação de cursos, e assim por diante), quanto a preparação das aulas, é irrisório, caso comparado com uma contratação em tempo integral. 

- O decreto 4914 exigia que os centros universitários deveriam "comprovar, até 31 de dezembro de 2007, que satisfazem o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão" (consoante ao art. 52 da lei 9394, que rege tais decretos); o n. 5786 apenas enuncia: "excelência do ensino oferecido, pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar". Não consta nada explícito, portanto, sobre a indissociabilidade entre ensino, pesquisa, e extensão. Cria-se, ainda, um problema de definição: o que seria um "centro universitário", em detrimento a uma "universidade" (consoante à lei 9394)?

- No decreto 5786, consta: 33% dos professores devem ser mestres ou doutores. Desses 33%, não há ligação alguma com a obrigatoriedade da contratação em tempo integral (ou seja, os 20% contratados em tempo integral não precisam ser mestres ou doutores); e o critério de "mestres ou doutores" retira a pertinência dada à contratação a doutores. Instituições que visam a minimização dos gastos, e não necessariamente a qualidade do ensino, tenderão a contratar mais mestres do que doutores (dentro desse índice de 33%); outra opção, cada vez mais encontrada, é a instituição oferecer o mesmo salário para mestres e doutores. Assim, não há diferenciação alguma entre um mestre (que escreve uma dissertação mostrando domínio num determinado assunto) e um doutor (que confecciona uma Tese inédita, num prazo maior de tempo, e recebe formalmente o estatuto de pesquisador). O estatuto de doutor é, portanto, desvalorizado, e relegado a 2º plano por questões orçamentárias.

-  É digno de atenção o artigo de Renato Mezan, intitulado "O Escândalo dos Doutores", que trata da desvalorização de profissionais qualificados no ensino superior brasileiro. Mezan acerta na mosca: para além dos decretos e leis, na prática o tratamento de professores qualificados tem sido cada  vez pior. Abundam os cursos que - na melhor das hipóteses - contratam (quando contratam) professores mestres e doutores apenas até a aprovação do curso, pelo MEC; ou mesmo os cursos que estão buscando homogeneizar o salário de especialistas, mestres, e doutores (não importa quanto você estudou; o que importa é que todos receberão o mesmo pagamento); ou ainda, as contratações estratégicas, de mestres e doutores com regime horista, contratados porém com regime de poucas horas, apenas para fazer número nas estatísticas.

- Não se trata, aqui, de dizer que apenas os professores titulados dão boas aulas. Mas a titulação não pode se tornar um problema que impede a própria qualidade do ensino, e isso, por argumentos orçamentários, e não acadêmicos. O ensino superior por excelência é chamado de "superior" por envolver esferas maiores de ‘qualificação’ (digamos assim), para além do ensino técnico, e desenvolvendo questões relativas a pesquisa e extensão. Para isso, a presença de professores pós-graduados, com mestrado e doutorado, tem importância evidente.

Com isso tudo, o aluno que se depara com essas questões deveria se perguntar: quantos professores mestres e doutores atuam no seu curso? Quantos deles possuem formação superior na própria área em que ministram suas aulas? Quantos são contratados em regime integral, e devem dedicar-se exclusivamente ao curso? E nesses termos, que tipo de produção acadêmica é desenvolvida por esses docentes? Pois, se a grande maioria de professores do seu curso são especialistas ou graduados, ou contratados em regime horista, desconfie.

8 Comments »

  1. _Maga Says

    E ainda falam em investir em educação… Cara em que mundo vive esse povo?

    O pior é que o professor horista não tem tempo nem de preparar aula. Nem de preparar aula!!!!!!!! Nem o minimo para o que é contratado! É o cumulo…

    beijos

    Made on March 13, 2007 @ 3:46 am

  2. Marcio Pimenta Says

    Este post caiu como uma luva sobre um assunto que irei abordar na terça-feira da próxima semana. É a data da minha viagem. Quero deixar um post sobre tudo isso que você falou. A desvalorização do profissional é algo que o Brasil parece ter como traço típico em seu povo. Lamentável.

    Made on March 13, 2007 @ 4:18 am

  3. Viviane Says

    infelizmente isso é recorrente mesmo. no nível universitário e em outros tb. sou
    formada em pedagogia e o pessoal do meu curso sofre muito por não conseguir
    colocação. isso ocorre porque muitas das instituições privadas preferem um
    ‘profissional’ com o ensino médio em magistério (o qual teria um enfoque mais
    ‘prático’). isso mostra bem o tipo de formação que pretendem dar aos seus alunos.
    crítica/questionamento/produção do pensar… parecem palavras sem vez. e esse decreto é, realmente, um grande retrocesso. uma pena.
    abs

    Re: Sem contar os baixos salários, frente ao que um pedagogo deveria ganhar, não é mesmo?

    Made on March 13, 2007 @ 5:10 am

  4. Rui Martins Says

    por cá andamos mais embrenhados na aplicação do Tratado de Bolonha… e com a flagrante falta de professores catedráticos que temos para o número (extensíssimo de universidades em actividade)…

    Re: Do que trata esse termo, Rui? Aqui no Brasil o cenário é curioso. A banalização das profissões e do ensino apenas diminui a questão do emprego, e a pertinência da própria educação, como agente de mudança de uma sociedade… o q vcs pensam a respeito?

    Made on March 13, 2007 @ 10:51 am

  5. leandro Says

    Muito bom seu post! Bastante pertinente.

    A universidade torna-se um grande colégio, ignorando a pesquisa e a extensão. Parece que a pesquisa virou papel da pós-graduação (stricto-senso, entenda-se).

    Em contrapartida, a CAPES exige cada vez mais produção em menor quantidade de tempo (entenda-se publicação, não importa muito do quê) dos pós-graduandos e de seus professores. Tenta-se fazer muita pesquisa (em quantidade) para que depois não se faça pesquisa nenhuma em lugar nenhum já que o objetivo é apenas dar aula.

    Parece-me que o único lugar onde os doutores são valorizados são nas universidades públicas, devido ao concurso que exige a titulação maior possível. E parece que são os únicos lugares onde (infelizmente ainda) se faz pesquisa de verdade.

    Re: É mto curiosa essa ditadura dos papers, né? Cobra-se para produzir muito (não importa o q), sem critério algum, sem relevância alguma, enfim, sem as contribuições que o saber deveria nos proporcionar…

    Made on March 13, 2007 @ 2:11 pm

  6. Caminhante Says

    Isso sem falar que muitas universidades particulares abriram seus cursos com mestres e doutores só no papel. Esses profissionais assinam os papéis, mas nunca dão aula.

    Made on March 15, 2007 @ 2:03 am

  7. Juscelino Mendes Says

    Os professores, em geral, por questão de sobrevivência, ou mesmo “status”, são também culpados por esse estado de coisas. Aceitam o que lhes são oferecidos pelas faculdades, universidades etc., sem questionamentos e são, sobretudo, desunidos em sua causa e busca de solução para os seus problemas.

    Made on October 3, 2007 @ 7:00 pm

  8. Pedro Cesar Says

    Nem sempre o currículo é compatível com a “habilidade” de ensinar bem.
    Muitos “Doutores” são péssimos Professores (não possuem vocação para o magistério…só possuem o “canudo”.

    RE: Disse bem, Pedro Cesar, “nem sempre”. Como “nem sempre” mestres, especialistas e graduados não possuem compatibilidade com ensino, e “muitos” mestres, especialistas e graduados também não.
    Mas como você bem sabe, “nem sempre” não é regra; é exceção.

    Made on February 28, 2008 @ 10:23 pm

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