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March 15, 2007

“as intrigas pessoais impedem que se veja o verdadeiro problema”, diria Guattari


Há algum tempo li uma frase semelhante à enunciada acima, em Felix Guattari. Não consigo recordar em que passagem, em que texto está a referência, mas de qualquer forma, a idéia parece - a meu ver - bastante familiar ao ‘projeto’ ético ‘esquizoanalítico’. E, nesse sentido, para além dos (merecidos) louros a quem disse, o que importa são as potencialidades do quê se disse.

Dizer que um enunciado é fruto de um autor, de um indivíduo produtor, ativo, sujeitodescobridor ou efetuador, ou mesmo dizer que a produção do enunciado perde-se em estruturas hierárquicas fadadas à interioridade, notadamente as estruturas familiares, é, nesse sentido, abandonar-se a um jogo onde o indivíduo permanece separado do horizonte de sua própria ação, que permanece limitada ao plano individual. Ou seja, nessa perspectiva do indivíduo produtor de enunciados, a ação é restrita a um plano que não excede a vida imediata e as relações subjetivas. Por outro lado, relegar a produção dos enunciados a máquinas que de todo ultrapassam os indivíduos, e que pertenceriam a interesses ligados a certos setores dominantes da sociedade, seria ignorar que a própria manutenção do status quo é fruto não desses interesses individuais dos governantes, mas de um verdadeiro desejo coletivo, reacionário, conformista e conivente. Numa fórmula de Deleuze, encontrada num com Foucault em Os Intelectuais e o Poder que relembra Reich, não são as massas que são enganadas; em algum momento, são elas mesmas que desejam a instauração dos (micro)fascismos.

Os enunciados seriam assim, para Guattari - a ‘meu’ ver -, agenciamentos, enunciados agenciados a uma coletividade de outros enunciados, e também de outros elementos, relacionados ao mundo, ao desejo, à mídia, à linguagem, e assim por diante. Não há uma hierarquia dentro do que foi dito que vai do indivíduo e se limita às suas relações pessoais; tampouco, não há uma hierarquia que vai dos interesses conscientes dos dominadores, à situação de exploração inconsciente dos dominados. O que parece haver, para Guattari, é um engendramento, um entrecruzamento de fatores sem hierarquia, que permitem a produção de um campo de enunciados possíveis. Enunciáveis em modos de vida, em ações contestadoras, em hábitos morais, ou mesmo, na preocupação pelos big brothers, pelas querelas individuais e, enfim, pelas intrigas pessoais.

Nesse contexto, da mesma forma em que não se poderia separar o enunciado de alguma produção desejante - o que se enuncia está engendrado no desejo, há um campo desejante que mantém um regime de modos de existência e de produção de enunciados -, a própria valorização que relega a produção de enunciados a indivíduos ativos ou a jogos pessoais, faz, por sua vez, parte de um agenciamento desejante. Em outras palavras, modos de existência que se restringem aos jogos (e às intrigas) pessoais, e que limitam a própria existência unicamente aos caprichos pessoais, às concorrências individuais, às valorizações sobre posições pré-tomadas (a do chefe, a do ‘colega’, a das pessoas próximas, a de nossas relações afetivas), são modos de existência engendrados com um desejo que não se abre às possibilidades coletivas que a própria produção desejante pode desencadear. O desejo, para Guattari, não parece imerso apenas em relações pessoais, mas sim aparece engendrado em múltiplas instâncias: individuais, econômicas, artísticas, midiáticas, naturais, e assim por diante.

Se as intrigas pessoais impedem que se veja o "verdadeiro problema", o verdadeiro problema, este, é o de nossos modos de existência, de nossas psicopatologias, de nossas produções éticas, de nossas intrigas passionais, enfim, o de como nosso desejo se engendra com os múltiplos devires que o atravessam (e é também por esses devires engendrado). A produção de novos modos de existência, de novas relações com o mundo, ou a repetição de modos e relações dadas, implica-se diretamente com um fator ativo, e singular: Singular, por implicar-se em novos direcionamentos à existência, talvez mais ‘felizes’ (porque mais potentes, mais abertos por sua singularidade), e que superem o jogo medíocre que se limita às ‘intrigas pessoais’, ou às ‘concorrências regionais’, repetição que gera o fechamento da vida à passividade frente ao mundo que nos circunda, e a toda carga ressentida que daí decorre; e ativo, no sentido da própria abertura propiciada por modos singulares de existência. Modos que permitem uma maior mobilidade, a mobilidade de transitar, e criar, e continuar agenciando, os próprios agenciamentos que nos agenciam.

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