March 24, 2007
Do monstro marinho que se matou na capitania de São Vicente no ano de 1564
Nos idos de 1564, uma coisa "nova, e tão desusada aos olhos humanos", apareceu na Capitania de São Vicente, para medo da população local. Durante à noite, uma índia, escrava do Capitão, avistou um monstro na orla do mar. Os urros e "passos desusados" do monstrengo fizeram a índia, "quase fora de si", recorrer ao filho do Capitão para resolver tal intempérie. Diante da descrição da "visão diabólica", o rapaz desacreditou a índia. Com a insistência de que se tratava do próprio "demonio", pegou a espada, vestiu uma camisa, e foi atrás da fera.
Resultado: o "esforçado" "mancebo" matou o monstro com várias estocadas; o sangramento foi tão forte que atingiu sua vista, quase cegando; e o jovem ficou por longo tempo perturbado, com ar de assombrado, e sem pronunciar palavra alguma:
E com esse mancebo se haver mostrado nesse caso tão animoso como se mostrou e ser tido na terra como muito esforçado, saiu todavia dessa batalha tão sem alento, e com a visão desse medonho animal ficou tão perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai (…), não pôde responder. E assim esteve como que assombrado sem falar coisa alguma por um grande espaço. O retrato do monstro (…) era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas duas sedas mui grandes como bigodes. Os índios da terra lhe chamam em sua língua Hipupiára, que quer dizer "demônio d´água". Alguns como este se viram já nestas partes; mas acham-se raramente.
O trecho e o relato acima são de um livro já mencionado por aqui: História da Província de Santa Cruz, que vulgarmente chamamos Brasil, publicado em 1575 por Pero de Magalhães [o link acima traz mais informações sobre onde encontrar o livro]. Por entre as descrições de Santa Cruz, chamada impropriamente pelo nome daquele pau que se parece com a brasa, abundam pequenos fragmentos do conhecimento da época: o sangue que quase cega, o caráter dúbio do "monstro" (entre criatura d´água e ‘demônio’), os estados de ânimo de quem com ele se depara… Na caracterização de Magalhães, aspectos de um Brasil nascente: já nos idos de 1500 pensava-se sobre o destino dessas terras, entre o projeto sacro (terra de Santa Cruz), e a mera extração (apenas "Brasil", lugar de extração da árvore); terra de escravos e de possibilidades; e, enfim, lugar de maravilhas. Como brinca Leminski no Catatau, "natura desvairada" por esses ares…
E assim também devem haver muitos outros monstros de diversos pareceres, que no abismo desse largo e espantoso mar se escondem, de não menor estranheza e admiração. E tudo se pode crer, por difícil que pareça: porque os segredos da natureza não foram revelados todos ao homem, para que com razão possa negar, e ter por impossível coisas que não viu, nem de que não teve notícia.











leandro Says —
Percebe-se que o descaso com a biodiversidade brasileira já não é de hoje, heheh
Abraço!
Made on March 24, 2007 @ 11:32 am
Cássio Augusto Says —
Grande Catatau… sempre com posts muito interessantes e fora do “comum”…
Made on March 24, 2007 @ 2:23 pm
Diabo Says —
Coitado do bicho!
Made on March 25, 2007 @ 3:37 pm
_Maga Says —
Não tem nada a ver com o texto, mas ele lembrou uma frase que ouvi outro dia e foi atribuida ao Darcy Ribeiro: “o que é estrangeiro não nos assusta porque sempre foi nosso”. Se referindo a esta “colonização” mista que tivemos (e ainda temos) por aqui.
É interessante como o novo faz com que criemos hipoteses das mais absurdas para explica-lo.
Que tipo de monstros nós temos que matar hoje? rs
beijos
Re: Leandro e Maga,
Olha que, quando criei o post, estava pensando bem no que vocês - especialmente a Maga - formularam. Acertaram na mosca, rssss E que frase do Darcy Ribeiro, heim?!
Talvez tenhamos muitos ‘monstros’ a matar ainda hoje, o que vocês pensam? Os índices de desemprego, o baixo valor dado a profissionais bem qualificados, os recentes e futuros problemas de energia, mostram uma série de monstros que por aqui ainda existem, e que - por incrivel que pareça - estão à espera de ‘estrangeiros’ para dizimá-los! Incrível mesmo.
abração,
Made on March 26, 2007 @ 3:57 am
Chawca Says —
Eu hein, mas o que era o “bixo” afinal?
Ninguém descobriu?
Re: Boa pergunta, rssss. Para eles, era o ‘Hipupiára’. Para nós, seria… um leão marinho?
Made on March 26, 2007 @ 7:37 pm