March 30, 2007
Clima, sol, e feriados

O apresentador de televisão pergunta à moça do tempo onde choverá, para certificar-se que não ‘perderá’ os dias de folga. Via de regra, com ar de pesar são anunciados os dias chuvosos; com alegria, os dias ensolarados.
Estamos em abril, e o sol permanece a pino, com o calorão. No sul do Brasil, era de se esperar que o outono ganhasse força: permanecem dias ensolarados, mas gradativamente as chuvas sempre anunciaram o clima cada vez mais frio. Como se houvessem platôs climáticos, mudando de regime a cada chuva. Já na Páscoa, de costume sempre teve o primeiro friozão. Mas dia após dia, permanece um calor sufocante.
Quase todo mundo elogia o calor em alto e bom tom. Quem gosta, enfim, de frio? E de chuva? De que vale chegar o fim de semana e não poder curtir um solzão? Fico me perguntando que tipo de vida, e que tipo de experiência é a que leva a querer só o sol com calorão. É precisamente aquele tipo de vida do empregado que passa a semana inteira penando (via de regra, no mesmo calorão), e quer da sexta ao domingo extravasar. Separação, portanto, entre o que se faz, e o que se é, irredutível a qualquer campanha de ‘gestão de pessoas’ (que segue em direção oposta, buscando capturar o que se é em tudo que fazemos). O que importa, no fim das contas, é cortar a rotina massacrante com alguns bons dias ‘ensolarados’ de festa. As melhores testemunhas disso são as bem sucedidas propagandas de cerveja.
Nesses tempos em que está na moda a expressão "aquecimento global", é bem desses dias que teremos cada vez mais: solzão de rachar, por longos períodos; chuvas torrenciais; e clima fora de qualquer padrão medido até hoje. As reservas d´água diminuem, a níveis cada vez mais alarmantes, como já vimos na seca da Amazônia, e no Sul do Brasil no último ano.
E enfim, chego ao ponto: a mesma experiência que temos com o clima e com nós mesmos faz com que várias regiões específicas percam suas características climáticas. Abaixo de São Paulo, as estações sempre foram muito bem divididas. Aí sempre residiu toda a beleza do sul, com o friozão de inverno, o calorzão do verão, chuva o ano inteiro, a geografia recortada por vários rios… Características que aparentam gradativamente se perder.
Mas não precisamos nos deter apenas nas regiões sub-tropicais para delimitar que tipo de experiências os índios, e também os colonos, sempre tiveram com seu clima: a chuva, o frio, e as intempéries costumeiras (não falo de catástrofes ambientais) sempre tiveram um papel positivo, tanto no calendário cultural, quanto no ritmo do plantio, da produção, da vida. Em suma, as próprias identidades regionais se constituiram numa certa relação com o clima. Singularidades regionais, culturais, produtivas, econômicas, e afins, nunca estiveram destituídas do ritmo das estações. Curioso notar como, talvez, essa ‘uniformização’ do clima para fora das características regionais possa dizer respeito a nós mesmos, e por conseguinte, nossa relação conosco e com o mundo ao redor.
Pesquisa de livros sobre a questão da água, do clima, e mais especificamente, os dos Tundisi, autores interessantes sobre a questão.





1 Comment »
junior Says —
Gosto bastante do tema, gostei bastante da parte sobre “ser o que se faz”, o granda paradigma do momento.
Abração
Re: Curioso notar que é o paradigma discursivo do momento. Mas será que os fatos correspondem ao paradigma, ou há um problema nisso?
abração!
Made on April 5, 2007 @ 11:13 am
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