March 21, 2007

Nós, aqui e acolá

O Marcio Pimenta foi ao Chile cursar seu doutorado em estudos latino-americanos. Boa viagem a esse companheiro "de blog", e que tudo dê certo em sua pesquisa. Já conservo - pelos posts do Marcio - a espectativa de ver uma grande pesquisa sobre as potencialidades que a AL nunca perdeu. Ficamos ‘no aguardo’.

Chamou-me a atenção o contexto no qual o Marcio colocou um link do Catatau, em seu post de "despedida". O link é sobre outro post do Catatau, a respeito do crescente desprivilégio concedido aos doutores, no Brasil. De fato, o post do Marcio e a menção dele me tocaram bastante, já que manifesta a preocupação de alguém que vai para fora fazer doutorado, porém com receio do que está sendo feito com os doutores por aqui.

Já passei por duas experiências diretamente relacionadas a todo o contexto desse ‘desprivilégio’ mencionado (alguns leitores do blog acompanharam de perto). Isso se reflete bastante nos textos escritos aqui, como se pode perceber. No momento, estou cursando disciplinas de minha pós num lugar distante (isso explica alguns momentos de ausência), gastando dinheiro que ainda não tenho, e seguindo caminho. Nisso, o que teria a dizer ao Marcio, é que compartilho de seu sentimento, duplamente: primeiro, a situação está um tanto difícil, com desafios a mais do que apenas a - difícil - confecção de uma boa tese; mas em segundo lugar, poder fazer a nossa pesquisa é por demais gratificante para que a abandonemos!

No mais, sigamos, como nos versos de Luiz Marenco:

"Firmei a mala do poncho
compus de novo os arreios
cruzei as rédeas do mouro
que vem atirando o freio
sigo cantando milongas
com assovios pelo meio"

 e

"Deixar rastros e milongas
sinais de cascos e esporas
é como semear "rio grande"
vida adentro, campo afora…"

;) 

March 19, 2007

Os doutores na mira das faculdades particulares

Tomo a liberdade de reproduzir o artigo de Anna Gicelle Garcia Alaniz, na Caros Amigos, que cai como uma luva em dois assuntos já comentados por aqui: a banalização do ensino superior, e o descrédito aos professores universitários, especialmente os de carga horista em faculdades privadas. É urgente aos professores uma reação coletiva. Artigos como o de Anna Gicelle multiplicados em milhares dariam uma boa visibilidade da população sobre tal questão. Ouso dizer: em termos de ensino superior particular, muita gente tem sido literalmente enganada, no Brasil. Não recebem formação adequada, por medidas meramente financeiras, que restringem a qualidade do ensino, e a contratação de profissionais qualificados.
 
Ensino superior signinifica isso: ENSINO, e SUPERIOR. Não é técnico, nem secundário, nem restringe-se meramente a ‘ensino’. Dizer SUPERIOR, envolve não meramente a reprodução de conhecimentos de apostila por professores mal pagos, ou contratados apenas por não terem ainda mestrado e doutorado. Trata-se, absolutamente, de outra coisa…
 
Também, é com urgência que o MEC deve tomar as medidas necessárias…
 
ps: Imperdível também o texto do Fazendo Média: "Professor ou Mercadoria?
ps2: há quem diga ainda que a desvalorização do professor no Brasil é um mito. Dá para acreditar?  
 

Tiro ao Doutor - A mira no professor universitário, por Anna Gicelle Garcia Alaniz

Nos últimos dois anos, a cada fim de semestre, surtos de pânico acometem o corpo docente das instituições particulares de ensino superior. É que esse é o período de “tiro ao doutor”. É o momento em que as instituições demitem o ”excedente” de mão-de-obra em nome da “eficiência” e da redução de custos.

Sabemos que o MEC exige um número determinado de mestres e doutores para aprovar e reconhecer a abertura de cursos superiores nas instituições privadas. A nota que as comissões de reconhecimento atribuem aos novos cursos está diretamente relacionada com o nível de qualificação do corpo docente. O que não sabemos é por que o MEC se omite em relação ao destino desses profissionais após o reconhecimento desses cursos.

Estamos assistindo impotentes ao aviltamento da condição dos professores universitários devido ao excesso de profissionais no mercado e devido à mercantilização do ensino superior. Houve nos últimos anos uma proliferação inconsistente de instituições privadas de grandes redes, cujo único objetivo é o lucro e que se destinam a absorver estudantes de média e baixa renda, sem acesso à universidade pública. Os donos e administradores dessas instituições “desconhecem” os mais básicos princípios da pedagogia e oferecem um tipo de ensino que acreditam “até bom demais para seus alunos de segunda e terceira classe”.

Nesse contexto, os docentes têm seus direitos trabalhistas flagrantemente desrespeitados e sua liberdade de ação tolhida por estúpidas normas internas, que rebaixam a qualidade das aulas e humilham profissionais de primeira linha. E, normalmente, após o reconhecimento do curso por parte do MEC, começa uma ação sistemática de descarte dos docentes com titulação de doutor, para baratear os custos da folha de pagamento. Em seu lugar, mestres e especialistas assumem e se prestam a todo tipo de humilhações para não perder seus empregos.

Uma dessas conhecidas redes de ensino, que recentemente se espalhou pela região metropolitana de Campinas e cobriu várias cidades com seus outdoors – que são uma pequena amostra de seu marketing agressivo –, é um exemplo vívido do que estamos enfrentando. Entrando no mercado com pretensões megalômanas, essa instituição mantém um preço competitivo, penalizando seu corpo docente e a qualidade de seus cursos. O período de quatro horas/aula encerra-se às 22 horas para diminuir o adicional noturno dos docentes; a extensão letiva dos cursos diminui a cada ano, e atividades totalmente estapafúrdias são consideradas como horas/atividade para atender aos critérios elásticos do MEC; normas de “qualidade” são desculpas esfarrapadas para a padronização das aulas, retirando toda a capacidade de iniciativa dos docentes e preparando o caminho para a implantação dos sistemas de ensino a distância, que visam a total eliminação dos docentes da folha de pagamento.

Por essas e outras e devido ao seu marketing absolutamente agressivo, essa rede de ensino semeou o pânico em instituições particulares mais tradicionais, com décadas de serviços prestados à comunidade. Para se conservar no mercado, essas instituições mais antigas passaram a diminuir sistematicamente seus custos e têm procedido demissões coletivas de doutores que chegam a números assustadores, que ultrapassam a centena de profissionais por instituição. Essas demissões atingem docentes com muitos anos de serviço e conhecida reputação pedagógica, que estão sendo jogados em um mercado de trabalho quase inexistente, uma vez que os anúncios de jornais solicitando mestres e doutores visam apenas a montagem de cursos para reconhecimento pelo MEC e não uma relação empregatícia honesta e duradoura.

Uma das áreas de ensino que mais prolifera no momento é a da, assim denominada, gestão de negócios. Cursos como administração e ciências contábeis, que no passado eram apenas encontrados em escolas de comércio, adquiriram status de ensino superior apenas ao incorporar conteúdos humanísticos em suas grades curriculares. Hoje, para baratear seus custos, enganam o MEC eliminando essas matérias humanísticas e “ajustando” seu conteúdo de maneira pífia em outras matérias que deveriam ser correlatas. É o caso dos cursos de ciências contábeis que eliminam a disciplina de cultura brasileira, incorporando-a à de economia em nome desses ajustes curriculares.

O aluno oriundo da rede pública de ensino, aqui em São Paulo, já vem prejudicado por ter sido vítima da famigerada “progressão continuada”, que a mídia insiste em ignorar. Os estudantes chegam ao ensino superior com deficiências atrozes de conteúdo básico, quando não completos analfabetos funcionais. Nós, que ministramos as matérias de conteúdo humanístico, fazemos esforços sobre-humanos para suprir suas carências e conseguir que desenvolvam suas potencialidades para poder acompanhar as matérias mais técnicas.

Agora, que estamos sendo demitidos em massa, o que acontecerá com esses alunos? O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley já chegou e não foi necessário o uso da genética. Bastaram algumas gestões do PSDB para que uma geração inteira de jovens se transforme em profissionais-gama com diplomas de terceira categoria. Assim, os ricos continuarão cada vez mais ricos e os pobres agora têm sua ignorância reconhecida e sustentada por diplomas universitários assinados e reconhecidos pelo MEC.

A prova cabal do descalabro desse sistema é o exame realizado pela OAB para admitir em sua categoria os bacharéis recém-formados. O exame da Ordem reprova a maior parte dos alunos oriundos dessas novas redes de ensino, devido à baixa qualidade dos cursos. Índices de 10 a 17 por cento de aprovação contra os mais de 60 por cento das instituições mais tradicionais falam por si sós. Se houvesse exames isentos para todas as outras categorias profissionais, o quadro grotesco que se desenharia talvez acordasse nossas autoridades.

O que já aconteceu aqui em São Paulo é irreversível. Mas e o futuro? Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?

Anna Gicelle Garcia Alaniz é doutora em história social pela USP.

 

March 17, 2007

Filosofia

Ontem, no ônibus, dois calouros conversando
 
- Poisé, fiquei sabendo que o fulando entrou em filosofia
- Filosofia? E o que o cara diz a respeito?
- Ah, disse que tem uns caras com cabelo estranho, e que 90% de quem está ali é revoltado.
 
Nisso, lembrei-me de alguns quadrinhos sobre filosofia. ;)
 
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- O que o seu irmão faz para viver?
- Ele é um filósofo
- Ah… Meu irmão também não faz nada
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March 15, 2007

“as intrigas pessoais impedem que se veja o verdadeiro problema”, diria Guattari

Há algum tempo li uma frase semelhante à enunciada acima, em Felix Guattari. Não consigo recordar em que passagem, em que texto está a referência, mas de qualquer forma, a idéia parece - a meu ver - bastante familiar ao ‘projeto’ ético ‘esquizoanalítico’. E, nesse sentido, para além dos (merecidos) louros a quem disse, o que importa são as potencialidades do quê se disse.

Dizer que um enunciado é fruto de um autor, de um indivíduo produtor, ativo, sujeitodescobridor ou efetuador, ou mesmo dizer que a produção do enunciado perde-se em estruturas hierárquicas fadadas à interioridade, notadamente as estruturas familiares, é, nesse sentido, abandonar-se a um jogo onde o indivíduo permanece separado do horizonte de sua própria ação, que permanece limitada ao plano individual. Ou seja, nessa perspectiva do indivíduo produtor de enunciados, a ação é restrita a um plano que não excede a vida imediata e as relações subjetivas. Por outro lado, relegar a produção dos enunciados a máquinas que de todo ultrapassam os indivíduos, e que pertenceriam a interesses ligados a certos setores dominantes da sociedade, seria ignorar que a própria manutenção do status quo é fruto não desses interesses individuais dos governantes, mas de um verdadeiro desejo coletivo, reacionário, conformista e conivente. Numa fórmula de Deleuze, encontrada num com Foucault em Os Intelectuais e o Poder que relembra Reich, não são as massas que são enganadas; em algum momento, são elas mesmas que desejam a instauração dos (micro)fascismos.

Os enunciados seriam assim, para Guattari - a ‘meu’ ver -, agenciamentos, enunciados agenciados a uma coletividade de outros enunciados, e também de outros elementos, relacionados ao mundo, ao desejo, à mídia, à linguagem, e assim por diante. Não há uma hierarquia dentro do que foi dito que vai do indivíduo e se limita às suas relações pessoais; tampouco, não há uma hierarquia que vai dos interesses conscientes dos dominadores, à situação de exploração inconsciente dos dominados. O que parece haver, para Guattari, é um engendramento, um entrecruzamento de fatores sem hierarquia, que permitem a produção de um campo de enunciados possíveis. Enunciáveis em modos de vida, em ações contestadoras, em hábitos morais, ou mesmo, na preocupação pelos big brothers, pelas querelas individuais e, enfim, pelas intrigas pessoais.

Nesse contexto, da mesma forma em que não se poderia separar o enunciado de alguma produção desejante - o que se enuncia está engendrado no desejo, há um campo desejante que mantém um regime de modos de existência e de produção de enunciados -, a própria valorização que relega a produção de enunciados a indivíduos ativos ou a jogos pessoais, faz, por sua vez, parte de um agenciamento desejante. Em outras palavras, modos de existência que se restringem aos jogos (e às intrigas) pessoais, e que limitam a própria existência unicamente aos caprichos pessoais, às concorrências individuais, às valorizações sobre posições pré-tomadas (a do chefe, a do ‘colega’, a das pessoas próximas, a de nossas relações afetivas), são modos de existência engendrados com um desejo que não se abre às possibilidades coletivas que a própria produção desejante pode desencadear. O desejo, para Guattari, não parece imerso apenas em relações pessoais, mas sim aparece engendrado em múltiplas instâncias: individuais, econômicas, artísticas, midiáticas, naturais, e assim por diante.

Se as intrigas pessoais impedem que se veja o "verdadeiro problema", o verdadeiro problema, este, é o de nossos modos de existência, de nossas psicopatologias, de nossas produções éticas, de nossas intrigas passionais, enfim, o de como nosso desejo se engendra com os múltiplos devires que o atravessam (e é também por esses devires engendrado). A produção de novos modos de existência, de novas relações com o mundo, ou a repetição de modos e relações dadas, implica-se diretamente com um fator ativo, e singular: Singular, por implicar-se em novos direcionamentos à existência, talvez mais ‘felizes’ (porque mais potentes, mais abertos por sua singularidade), e que superem o jogo medíocre que se limita às ‘intrigas pessoais’, ou às ‘concorrências regionais’, repetição que gera o fechamento da vida à passividade frente ao mundo que nos circunda, e a toda carga ressentida que daí decorre; e ativo, no sentido da própria abertura propiciada por modos singulares de existência. Modos que permitem uma maior mobilidade, a mobilidade de transitar, e criar, e continuar agenciando, os próprios agenciamentos que nos agenciam.

March 13, 2007

Decreto desfavorece professores de nível superior

Em outro post, mostramos a referência ao decreto n. 5786, assinado pelo presidente Lula, que reduz o número exigido de professores mestres e doutores em centros universitários. O decreto 5786 substitui o de número 4914. Vejamos as diferenças:

- No decreto 4914, havia uma previsão para que até 2007 33% dos professores deveriam ser contratados em regime de tempo integral; no decreto 5786, é requerido esse regime a apenas 20% (1/5) dos professores. Em termos práticos, isso significa, por exemplo, que em cursos pequenos, apenas um professor precisa estar integralmente comprometido com a faculdade; todos os outros podem ser contratados em regime horista, e portanto, ser pagos apenas pelo tempo em que a presença é exigida em aula. Isso significa que, via de regra, apenas o coordenador do curso precisa ser contratado (em regime integral), sem que hajam vínculos maiores necessários aos outros professores.

- Na carteira de trabalho do regime horista, é deduzido um pequeno valor sobre o valor total da hora, para atividades "complementares" do professor, como preparação de aula, adicional noturno, etc.. Admitindo que um professor mestre e horista pode receber no total de 18 a 25 reais por hora-aula, o incentivo real, efetivo, que favoreça tanto a produtividade científica (confecção de artigos, apresentação de cursos, e assim por diante), quanto a preparação das aulas, é irrisório, caso comparado com uma contratação em tempo integral. 

- O decreto 4914 exigia que os centros universitários deveriam "comprovar, até 31 de dezembro de 2007, que satisfazem o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão" (consoante ao art. 52 da lei 9394, que rege tais decretos); o n. 5786 apenas enuncia: "excelência do ensino oferecido, pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar". Não consta nada explícito, portanto, sobre a indissociabilidade entre ensino, pesquisa, e extensão. Cria-se, ainda, um problema de definição: o que seria um "centro universitário", em detrimento a uma "universidade" (consoante à lei 9394)?

- No decreto 5786, consta: 33% dos professores devem ser mestres ou doutores. Desses 33%, não há ligação alguma com a obrigatoriedade da contratação em tempo integral (ou seja, os 20% contratados em tempo integral não precisam ser mestres ou doutores); e o critério de "mestres ou doutores" retira a pertinência dada à contratação a doutores. Instituições que visam a minimização dos gastos, e não necessariamente a qualidade do ensino, tenderão a contratar mais mestres do que doutores (dentro desse índice de 33%); outra opção, cada vez mais encontrada, é a instituição oferecer o mesmo salário para mestres e doutores. Assim, não há diferenciação alguma entre um mestre (que escreve uma dissertação mostrando domínio num determinado assunto) e um doutor (que confecciona uma Tese inédita, num prazo maior de tempo, e recebe formalmente o estatuto de pesquisador). O estatuto de doutor é, portanto, desvalorizado, e relegado a 2º plano por questões orçamentárias.

-  É digno de atenção o artigo de Renato Mezan, intitulado "O Escândalo dos Doutores", que trata da desvalorização de profissionais qualificados no ensino superior brasileiro. Mezan acerta na mosca: para além dos decretos e leis, na prática o tratamento de professores qualificados tem sido cada  vez pior. Abundam os cursos que - na melhor das hipóteses - contratam (quando contratam) professores mestres e doutores apenas até a aprovação do curso, pelo MEC; ou mesmo os cursos que estão buscando homogeneizar o salário de especialistas, mestres, e doutores (não importa quanto você estudou; o que importa é que todos receberão o mesmo pagamento); ou ainda, as contratações estratégicas, de mestres e doutores com regime horista, contratados porém com regime de poucas horas, apenas para fazer número nas estatísticas.

- Não se trata, aqui, de dizer que apenas os professores titulados dão boas aulas. Mas a titulação não pode se tornar um problema que impede a própria qualidade do ensino, e isso, por argumentos orçamentários, e não acadêmicos. O ensino superior por excelência é chamado de "superior" por envolver esferas maiores de ‘qualificação’ (digamos assim), para além do ensino técnico, e desenvolvendo questões relativas a pesquisa e extensão. Para isso, a presença de professores pós-graduados, com mestrado e doutorado, tem importância evidente.

Com isso tudo, o aluno que se depara com essas questões deveria se perguntar: quantos professores mestres e doutores atuam no seu curso? Quantos deles possuem formação superior na própria área em que ministram suas aulas? Quantos são contratados em regime integral, e devem dedicar-se exclusivamente ao curso? E nesses termos, que tipo de produção acadêmica é desenvolvida por esses docentes? Pois, se a grande maioria de professores do seu curso são especialistas ou graduados, ou contratados em regime horista, desconfie.

March 11, 2007

Consumo, energia, Etanol, e Bautista Vidal

ethanol power
(foto de Tatiana Cardeal)

Duas coisas movem o mundo tal como o conhecemos. Poderíamos dizer que é a economia. Mas o que move a economia, dentre outros fatores, são as questões da energia e do consumo. O consumo atrela modos de vida a modos de produção de um modo que hoje em dia é difícil distinguir o que é valor, do que é obsoleto; o que é subjetivo, do que é objetivo; enfim, os modos de produção de subjetividade estão tão atrelados com o mundo que é difícil evocar uma relação - e não uma confusão - entre o que somos, e o que consumimos.

O mesmo se dá com a energia. Para isso, basta ver tanto os níveis de consumo de energia de determinados países ricos, quanto a ausência ou desperdício nos países pobres. Ou mesmo poderíamos ver como é que o Dólar surge como moeda forte mais ou menos em sincronia com a valorização do petróleo no mundo. Ou ainda, poderíamos acompanhar as guerras das últimas décadas, e o que presenciamos ainda com nossos próprios olhos.

Mas o mapa da energia está mudando, e salta aos olhos o repentino ressurgimento da discussão sobre o álcool. Sobre isso, vi no programa Brasil Nação um debate acalorado entre o Prof. Bautista Vidal com outras figuras, do governo e da economia. Bautista foi um dos criadores do programa Pró-Álcool, nos anos 70. Desde lá, com a crise do petróleo de 1973, a questão do álcool se apresentava como alternativa viável para o desenvolvimento do país sem dependências energéticas  - e por conseguinte, econômicas. O projeto permaneceu estagnado, e agora é revificado não mais por interesses públicos desenvolvimentistas, mas pela iniciativa privada, diante da instabilidade do Oriente Médio e da perspectiva do fim do petróleo. A recente visita de George Bush, e a recorrência do debate sobre o Etanol, podem ser bons motivos para visitarmos o pensamento de Vidal.

O interessante nos textos abaixo é um movimento de pensamento que segue do otimismo à dúvida: as energias alternativas podem garantir a soberania e bem estar do país para o futuro; honrará o Brasil tais possibilidades?

- Site "Instituto do Sol", com vários artigos, textos, e referências. Instituto do Sol: não seria o sol a mais perfeita usina de energia? Não seria o Brasil privilegiado, reunindo sol, água, e ‘biomassa’, para que energia fosse produzida?

- Entrevista de 7/3/2007, sobre a vinda de George W. Bush e a "parceria" Brasil - EUA no Etanol

- Entrevista da coletânea "Grandes Entervistas", da Caros Amigos (dezembro de 1997). Bem representativa do pensamento de Vidal (muito boa! emoticon). Muito interessante a maneira como ele descreve a desvinculação do dólar do lastro-ouro, relacionada à conquista militar do oriente médio. Conclui Vidal que o "lastro" dos EUA é simplesmente seu poderio militar…

- Entrevista de 7/3/2005 - Baudista Vidal reprova a Lei de Biossegurança

- Entrevista à Agência Brasil, de 22/9/2005. 

- Desafios Internacionais para o Século XXI

- Pesquisa de livros de Bautista Vidal

March 10, 2007

Aniversário do Catatau

Hoje o Catatau faz 1 aninho de idade. Gostaria de agradecer a todos os leitores e interlocutores que passam e passaram por aqui. Tenho aprendido muito, conhecido novas pessoas, e deslumbrado essas novas paragens que o ‘blog’ pode proporcionar. A todos, meus mais sinceros agradecimentos ;)
 
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March 8, 2007

Morre Jean Baudrillard, aos 77

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O filósofo francês Jean Baudrillard faleceu dia 6/3 (terça-feira), em Paris, após uma "longa doença". Baudrillard foi quem escreveu "Simulacros e Simulação", livro popularizado pelo filme Matrix, onde Neo retirou um disquete. O autor considerava os filmes Show de Truman e Cidade dos Sonhos mais representativos de suas idéias, por não separarem o mundo entre ‘real’ e ‘virtual’.
 
Baudrillard é considerado pelos meios acadêmicos norte-americanos como um "filósofo pós-moderno". Com essa denominação, recebeu ataques do livro Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont, e foi um dos alvos de um interessante debate da Folha de São Paulo, envolvendo várias figuras nacionais e do exterior. Escreveu mais de 40 livros, e foi um grande leitor de Georges Bataille e Alfred Jarry.
 
- Link para uma entrevista concedida à revista brasileira Cult: "Num dado momento [próximo ao maio de 68], me lembro que no Brasil e na Argentina ocorriam coisas bem mais interessantes do que aqui, mas todo mundo lá tinha os olhos virados para Paris."
- Bibliografia, trabalhos e resumos (em inglês);"A violência da globalização", artigo de 2002; "Two Essays"; "O espírito do terrorismo" (2/11/2001); Compilação de vários artigos; Revista Internacional "Baudrillard Studies"; (algo mais?)
- Pesquisa de livros de Baudrillard, e de DVD´s dos filmes Matrix, Show de Truman, e Cidade dos Sonhos.  

300 segundos de 300

Está quase saindo o novo filme "300", inspirado na história de Frank Miller (post aqui, pesquisa de preços do gibi). Alguns traillers para tira-gosto antes do filme, e ainda, esse pequeno trecho, com 5 minutos do longa, dão uma boa dimensão do que nos espera.
 
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Mundo afora, perguntam: Bush se parece com Leônidas (o protagonista, um rei espartano que luta com 300 soldados pela liberdade, contra 10.000 inimigos) ou Xerxes (um rei tirano com estatuto de semi-deus que busca conquistar as terras mais longínquas)?

Atualização: Já estão aparecendo os novos links para download do filme, em "CAM". Como se vê pela qualidade da gravação, ainda vale a pena esperar pelo filme no cinema.

March 6, 2007

A mão que segura a pena e a pena de morte

"Ninguém pode ser condenado à pena de morte": o artigo 66-1 da Constituição da República francesa é assim formulado desde segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007.
Conforme o link acima, a França aboliu qualquer possibilidade de instauração da pena de morte. 
 
Na contra-mão, ainda discutimos assuntos como esse, e o da maioridade penal. Ou melhor, voltamos a discutir sempre quando um novo caso abala o país. Até mesmo intelectuais influentes, às vezes, esboçam reações exageradas.
 
Estou sem meus livros de Camus, mas encontrei algumas citações sobre a questão da pena de morte [pesquisa de preços dos livros de Camus]. A primeira, do personagem Tarrou, de A Peste. A segunda, não consegui ainda a fonte. Nessas frases, um aspecto salta aos olhos: que tipo de sociedade queremos, quando cogitamos adotar a pena máxima? O que é que a expressão dessa pena vem "apaziguar", esconder, abafar, sem entratanto, solucionar? (não vale o mesmo para o assunto da maioridade penal?)
“Nunca viu  fuzilar um homem? Não, com certeza,  isso se vê, em geral, mediante convite, com público escolhido antecipadamente. O resultado é que  só fica  com a noção haurida em estampas de livros. Uma   venda, um poste e, ao longe, alguns soldados. No entanto, não é assim! Sabe que o pelotão de fuzilamento se coloca, ao contrário, a um metro e cinqüenta do condenado? Sabe que se o condenado desse dois passos à frente, bateria nos fuzis com seu  peito? Sabe que,  a tão curta  distância, os  soldados concentram seus tiros na altura  do coração e que, com suas balas de  grosso calibre, fazem  um buraco, aí no  qual se poderia colocar o punho? Não, você não o sabe, estes são detalhes que não se comentam. O sono dos homens é mais sagrado  que a  vida para os  pestíferos. Não se deve  impedir  as  pessoas de bem, de dormir. Seria preciso mau gosto para tanto, e o gosto consiste em não insistir, todo o  mundo o sabe. Mas, eu não dormi bem desde  então. O mau gosto me ficou na boca e não cessei de insistir, isto é de pensar a respeito”
 
"O que é a pena capital senão o mais premeditado dos assassinatos, ao qual não pode comparar-se nenhum ato criminoso, por mais calculado que seja? Pois, para que houvesse uma equivalência, a pena de morte teria de castigar um delinqüente que tivesse avisado sua vítima da data na qual lhe infligiria uma morte horrível, e que a partir desse momento a mantivesse sob sua guarda durante meses. Tal monstro não é encontrável na vida real."
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- A Renata teceu algumas considerações a respeito da banalização da violência no Brasil nesse link. Sobre seu comentário, é interessante chamar a atenção a que todas as discussões sobre mudança da idade penal e pena de morte no Brasil padecem de um erro de princípio deveras ingênuo:
  • uma lei deve ser executada em um Estado Civil
  • no Brasil as leis não são executadas
  • logo, devem haver outras leis
Vê-se o engano: discussões sobre mudanças na legislação penal brasileira não são eficazes enquanto a própria legislação não é aplicada…
 
- Sobre a mesma questão Camus x pena de morte, vale ler esse post do Eduardo Graça no Absorto