April 19, 2007
Exclusão e projetos sociais
imagem daqui (vale a pena conferir)
Passando por São Paulo não há como não perceber enormes, gigantescas favelas. Numa delas, vi um projeto social que alia escola e circo. Outros, ainda, envolvem ‘inclusão digital’. Mas é curioso perguntar-se, nisso tudo, o que é - e o que deve ser - um trabalho dito ’social’.
Em primeiro lugar, vejamos a favela: o que é uma favela (ou mesmo uma comunidade carente)? É um aglomerado de pessoas desprivilegiadas, que não possuem condição de cidadania (ser cidadão implica ter suas necessidades básicas supridas), e formam comunidades em lugares - via de regra - também desprivilegiados.
Nisso, podemos ter uma provável definição do que seria um trabalho dito ’social’: se ele incide sobre uma comunidade carente, todo objetivo direto desse trabalho é montar um plano de ação que permita à comunidade não ser mais carente. Num trabalho ’social’ ‘ideal’, uma favela deixa de ser favela, uma comunidade carente deixa de ser carente, e valores tais como a auto-gestão e a auto-regulação das comunidades são metas a atingir. Todo um universo de questões está envolvido: desde a geografia do lugar (moradias precárias tornadas habitáveis, saneamento básico, etc.), até os modos de vida dos moradores (educação, emprego, etc.).
Fico me perguntando se é efetivamente isso que a maioria dos projetos sociais fazem. Há muitos projetos sem visibilidade alguma que, entretanto, atingem o ponto: constituem-se em projetos de médio/longo prazo, que se fixam numa comunidade, estabelecem um trabalho direto com os moradores, visando a própria autonomia e mobilização comunitária para seu bem comum; por meio de um ou vários planos de trabalho, podem avaliar o próprio andamento do projeto. Em suma, possuem objetivos precisos com vista à autonomização da comunidade, um plano de trabalho, e meios bem rigorosos para avaliar se o próprio trabalho está funcionando.
Porém, outros projetos sociais, com maior visibilidade (e mesmo envolvendo termos como ‘responsabilidade social’ de grandes empresas, e os maiores financiamentos), implicam atuações e objetivos que não deixam de ser confusos: projetos que visam "melhorar a auto-estima" dos moradores, por exemplo. Para que servem? Ou mesmo os que visam exclusivamente aspectos fragmentários, como apenas a prática esportiva, a arte, ou outras práticas; tais metodologias servem para que propósitos definidos? Ou mesmo aqueles projetos que aparecem na televisão com aquela entrevista clássica, em que as crianças dizem: "Ah, quando estou aqui, não estou nas ruas, fazendo coisas erradas".
Ora, não há algo errado nesse tipo de entrevista, que faz o próprio indivíduo dizer que é algo parecido com um coitado, e se não fosse o projeto, tudo estaria perdido? Um projeto dito ’social’ serve, sobretudo e em primeiro lugar, para que o próprio indivíduo da comunidade-alvo diga tudo, menos que sua condição é exclusivamente culpa sua. Um projeto social não é uma receita santificada de cidadãos "bondosos" vindos de suas vidas ideais às comunidades carentes para salvá-las de si mesmas, retornando depois para casa pensando que fizeram boas ações; um projeto é uma intervenção coletiva de ordem pública, visando resultados práticos para que o próprio aspecto público seja atingido. Em suma, um projeto social é uma ação pública, e não uma "boa ação" privada.
Certos projetos sociais, nesse sentido, parecem se confundir com prestação de serviços. Chega-se numa comunidade, presta-se um serviço em tese essencial, e magicamente tudo se realiza. Obviamente, há vários projetos sérios que envolvem, também, a prestação de serviços. Mas o mero serviço não faz com que uma favela deixe de ser favela. No máximo, torna-se o atendimento sazonal de um privilégio que a favela nunca possui. O serviço deve então se articular com algo mais.
O que está em jogo, quando se propõe a realizar um projeto social definitivamente sério, é encarar a própria seriedade que ele envolve: deixar de fazer com que uma favela seja uma favela não envolve apenas aquela comunidade. Um projeto afeta todo o resto da sociedade em seus próprios modos de vida. Fazer com que um projeto social se realize não é unir ricos e pobres em harmonia (como mostra a TV em várias reportagens, em manchetes do tipo "Ricos e pobres convivem democraticamente na praia"). Significa eliminar a pobreza, afetando assim todo o restante da sociedade. Inclusive os ricos.
Pesquisa de livros sobre favelas, projetos sociais, mídia, ONG´s, economia solidária.





Renata Says —
Qdo vc fala em afetar tb os ricos, tem a ver com a necessidade de uma melhor distribuição de renda? Fiquei pensando que os ricos, nesse caso, seriam afetados de forma muito positiva, se pensarmosna redução a violência que os cerca, não é verdade? Isso, no entanto, não parece passar pela cabeça da classe média alta e classe alta, digamos assim, pois as soluções propostas e opiniões nao parecem contemplar isso…infelizmente…
Re: Boa pergunta, Renata. Mas não sei não, precisamente pelo que o termo ‘distribuição’ pode significar. Significaria ricos ainda ricos, e pobres mais ricos? Ou será que a desigualdade econômica que gera ricos e pobres não estaria ela mesma implicada no desprivilégio de uns, e na abundância de outros?
Made on April 19, 2007 @ 3:54 pm
_Maga Says —
Bah, adorei este post. Muito bom!
O que você apontou é muitissimo pertinente. É interessante observar que uma ação desse tipo implicam em atividades bastante amplas, desde politicas de educação sexual e planejamento familiar até a remoção destas familias para areas mais adequadas à moradia (sem risco perene de desabamento e, se possivel, com saneamento sanitário, por ex.).
Mas você sabe.. isso não dá voto…
E as ONGs e afins fazem um trabalho bacana em certa medida. Contudo, como você bem apontou, faltam objetivos realistas e que visem mudar a realidade palpavel destas crianças.
beijos
(Ano passado vi a peça Hygiene que falava sobre o desmanche dos cortiços em São Paulo pela vigilancia sanitária… foi bem interessante…)
)
(Economia solidária! Que legal! Já trabalhei com isso
Made on April 20, 2007 @ 1:39 am