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April 23, 2007

Coisas de Curitiba vol. IV


0Sentado na praça, pessoas ao redor. Várias delas, solitárias, outras com cães, e outras ainda com filhos. Bruscamente, uma mulher começa a correr. Veste uma daquelas mochilas de deixar o bebê junto ao corpo. A mulher corre, a mochila vazia, as alças suspensas, balançando com as passadas. Aconteceu algo? O bebê caiu?  Ela vai até a lixeira, pega uma espécie de plástico, e faz meia volta, também em ritmo frenético. De repente, atrás de uma moita, sai um simpático cãozinho. Rapidamente, a mulher envolve a mão com o plástico, e pega um pequeno cocô. Na outra mão, o cão é levado à mochila, e os dois vão embora. 

Tem também aquele cãozinho com a fita na cabeça, balançando junto com os pêlos tratadíssimos. É levado por uma dona zeloza e conversadeira. Conversa com o cão. Aliás, raramente passa alguém ali que não conversa com seu cão. Ou aquele casal que levou o cachorrinho como pretexto para o primeiro encontro, acariciando o bichinho nos intervalos do flerte. Ou a feiosa que passa rebolando com o cachorro, toda a praça. Ou as crianças que brincam com os bichos de estimação. Aquele fenômeno estranho: quase todos os donos conversando - ora alegremente, ora fazendo alguma advertência - com seus animais. Mas entre aqueles vários indivíduos que se entrecruzam com seus bichinhos, quase não há conversa alguma. Mundos que confluem, ali, apenas os do novo casal que flertava.

Sem falar naquela história dos vizinhos. Curitiba tem uma certa fama de poucos amigos, e sempre quando esse pré-conceito se levanta, chovem opiniões polêmicas e conflituosas. Inegável é que tem casos de vizinhos que chegam a ser cômicos. Como meus vizinhos de cima. Nem imagino quem sejam. Mas já fazem alguns dias, ocorre uma grande guerra entre ‘nós’ e ‘eles’. Porquê? Ainda não descobri. O fato é que eles têm dois costumes, um que pode ser considerado ‘normal’, e outro estranhíssimo. Costume ‘normal’: ocasionalmente, escutam música alta na alta madrugada. Costume ‘estranhíssimo’: barulhos inesperados ecoam do apartamento, também de madrugada.

Quanto á música, não há o que fazer, além de reclamar. Quanto aos outros barulhos, não consegui mais do que formular algumas hipóteses: (1) a do pinico: tanto barulho de fluidos caindo só podem denotar a existência de um pinico, já que a planta do apartamento não admitiria (provavelmente) um banheiro por ali. E… se não for um pinico? A frequência das prováveis urinas é bem maior do que um homem normal costuma fazer, especialmente durante à noite. Certo, os vizinhos podem ter voltado da festa, e deixado o pinico logo ali, do ladinho. Mas a dúvida permanece, pois o barulho às vezes perdura entre conversas bem humoradas. (2) a dos gemidos estranhos: provavelmente algumas vezes os vizinhos fazem sexo, logo acima. O que talvez nem imaginem é que isso pode ser ouvido. Uma estranha ‘intimidade’ mostrada a vizinhos que nem ao menos se conhecem. (3) a do ’sapateado’: dia e noite um (ou vários?) dos indivíduos residentes acima anda com algo que pode ser um tamanco, uma sandalha de salto, ou algum desses calçados de sapatear. A frequência dos ‘toc-toc-toc’ aumenta exponencialmente a cada vez que reclamamos. Junto aos passos, coisas são derrubadas, algo como uma vassoura (ou quem sabe unhas friccionadas?) é ocasionalmente passado no chão (porém sem uma continuidade que indicaria alguém varrendo o quarto), e o barulho não tem hora para terminar. Já pensei na hipótese de colocar o som alto de manhazinha, como vingança. Mas sou eu quem ainda acorda com os sapateados.

Vamos então à forma da ‘guerra’. Após pelo menos duas noites com tais acontecimentos, iniciamos as clássicas ‘vassouradas’ no teto. O que aconteceu? Simplesmente, como mencionado, a frequência aumentou consideravelmente. Talvez, como uma queda de braço, vassouradas versus barulhos estranhos. Quem ganhará? Muitas vassouradas durante o dia são cansativas, há toda a gravidade a favor do adversário. Dado que tudo o que foi descrito acima é obviamente aversivo a qualquer pessoa exposta a tais ruídos, não há outra coisa a se considerar senão que é tudo de propósito. Ou poderia ser um fetiche? O fato é que, por incrível que pareça, da conversa com os cães, ao silêncio para com o vizinho, à fixação por usar salto quando se poderia calçar um chinelo, existem pessoas que empenham suas vidas em tal tipo de ofício… a pergunta envolve então o que deixamos para trás com tudo isso.

- Coisas de Curitiba vol. I , vol. II e vol. III
- Pesquisa de livros de autores curitibanos e sobre Curitiba (literatura, humanas, turismo e afins)
- Charge de Luis Eduardo Leon

5 Comments »

  1. leandro Says

    Ainda bem que a mulher ajuntou o cocô do cachorro.

    Já viu a parte de trás do museu do olho? Lá já é um lugar bastante tradicional para os donos levarem seus cães para cheirar um pouco de grama. Sempre tem muito dono falando com seus “bebês” e também paquerando entre si, quando é o caso.

    Já experimentou tocar a campainha e falar com seus vizinhos de cima? Ao menos a temperatura subiria e deixaria de ser uma guerra fria, hehehe

    Abração!

    Made on April 23, 2007 @ 10:31 pm

  2. João Varella Says

    Muito bem escrito o texto, mas tenho que concordar com o comentário acima.

    Como diria Anthony, dono da Pedra da Gazeta, os que criticam a forma curitiboca de ser acabam fomentando esse tipo de atitude.

    Made on April 23, 2007 @ 11:40 pm

  3. Caminhante Says

    Menino, eu tive o mesmíssimo problema com a minha vizinha do lado. Quer dizer, ainda tenho. Quando revidei, a mocinha ao invés de se tocar que me incomoda, revidou trazendo uma amiga pra me atormentar umas 2 noites seguindas. Isso sem dizer que quando ela está de mal humor (quase sempre?) ela gosta de revidar nas portas dos armários.

    A partir disso eu passei a sonhar com coberturas…

    Made on April 24, 2007 @ 12:10 am

  4. Caio Lemos Says

    Cada um no seu mundo; algumas vezes, acabamos incomodando; outras, nos vemos compartilhando as mesmas esquisitices.

    ainda se ve mais uma prova de que, quando lhe batem numa face, devemos oferecer a outra.

    boa analise. abraco

    Made on April 24, 2007 @ 12:29 pm

  5. _Maga Says

    Que barato esse texto!!!

    Mas posso dizer que tais fenomenos, infelizmente, não são exclusividade curitibana…

    beijos

    Made on April 28, 2007 @ 3:13 am

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