May 19, 2007

Terapia reparativa e sofrimento psíquico (ou como ‘curar’ homossexuais e negros)

Em um post que perdura já há algum tempo no Catatau, mencionamos uma "psicóloga evangélica" que tenta argumentar que a homossexualidade pode ser "deixada". A homossexualidade, segundo essa psicóloga, seria um transtorno, de ordem egodistônica, e traria duas consequências:
 
(1) por seu caráter egodistônico, traria sofrimento psíquico ao "homossexual", diferente do que o DSM caracteriza por transtornos de personalidade, por exemplo,
(2) precisamente pelo caráter egodistônico, a homossexualidade poderia ser "deixada".
 
Para "deixar" o transtorno homossexual, a psicóloga recomenda - a partir de citações da Bíblia e um leitmotiv evangélico - um Grupo ou Movimento de Apoio, frequentado em grande parte por evangélicos que buscam "deixar" sua condição.
 
No texto mencionado acima, buscamos argumentar como essa psicóloga evangélica parte de pressupostos profundamente equivocados, sem base teórica alguma, e buscando submeter a prática psicológica a práticas pastorais evangélicas. Como também já argumentamos por aqui, outras são as relações entre religião e ciência.
 
Mas gostaria aqui de chamar a atenção a outro aspecto: o do sofrimento psíquico dos homossexuais. É a partir do sofrimento psíquico que essa psicóloga busca definir o caráter egodistônico da homossexualidade. Dado que um homossexual sofre por sua condição, seu sofrimento é pelo menos de duas ordens: (1) o da valorização social negativa conferida à homossexualidade (o preconceito, as chacotas, etc.), e também (2) o da valorização moral negativa (diversas religiões não aceitariam a presença de homossexuais, e considerariam isso pecaminoso). Em outras palavras, um indivíduo homossexual sofre por problemas de pertença social e moral junto às outras pessoas, a ele próximas ou distantes.
 

Salta aos olhos, entretanto, como o problema não é "egodistônico", simplesmente porque um transtorno psíquico é diametralmente diferente de um problema que acarreta sofrimento psíquico. Um deficiente ou um desempregado podem encontrar dificuldades sociais das mais diversas ordens; essas dificuldades podem acarretar diversos tipos de sofrimento (episódios depressivos, por exemplo). Mas com isso não se diz que a deficiência ou o desemprego são transtornos. O mesmo ocorre com a homossexualidade. Não está em questão aqui o fato de se pode ser deixada ou não; simplesmente não faz sentido a discussão de "deixá-la" segundo o preconceito a ela direcionado. O fundo do sofrimento psíquico do homossexual não é um transtorno, mas a internalização da desvalorização social e moral que enfrenta. Vale repetir: é pelo preconceito (internalizado ou apenas recebido), e não por um transtorno ou disfunção, que um indivíduo homossexual sofre. Em si mesma, essa condição não traz sofrimento algum.
 
Daí cabe muito bem o comentário de um leitor do blog (o JC), que ilustrou o caráter do preconceito. Cito:

Aparentemente, aqueles que se sentem ofendidos pelo texto não percebem algo que é básico, em ciência: alegações exigem provas. Onde estão as provas de que a homossexualidade é um estado patológico? Sofrimento por preconceito tem correlação com a homossexualidade assim como o preconceito racial tem correlação com afro-brasileiros, p.ex. Daí sugerir que esse sofrimento é inerente à sua condição, seria também uma (descabida) justificativa para um “terapia de conversão dos afro-brasileiros”.

Então, onde se encontram provas de que a homossexualidade é uma condição patológica (falo de ciência e não religião)? Hmmm….acho que ninguém vai responder a isso…

Em outras palavras, não basta evocar uma terapia (conceito científico) com base numa valorização moral negativa (religião); ou, em outra ordem, nem toda situação que implica sofrimento psíquico é necessariamente um transtorno. Nesse sentido, se a raiz do sofrimento psíquico está no preconceito (internalizado ou não), não haveria muita diferença entre propor terapia reparativa para qualquer tipo social alguma vez discriminado…
 
Aqui reside outro equívoco relacionado aos que creem numa homossexualidade como transtorno egodistônico: o preconceito infundado de que psicólogos não "tratariam" homossexuais. Ocorre que um psicólogo não "trata" um homossexual - ou qualquer outra pessoa - com base em um preconceito prévio sobre determinada condição, seja qual for. Psicólogos não "tratam" homossexuais para que estes "deixem" sua condição (nem para que não deixem, isso, de saída não importa, tal como já há 100 anos todo psicólogo sabe, grosso modo, que um padrão estrutural é bem diverso de um padrão sintomático); "tratam", sim, de indivíduos com diversas ordens de sofrimento psíquico que buscam uma relação mais autônoma com o mundo.
 
Os textos aqui mencionados, junto a esse, impõem uma conclusão: não há terapia reparativa que não passe, em uma ou outra instância, de mito. Muito mais proveitoso seria, para certas correntes evangélicas, admitir a prática "reparativa" como prática exclusivamente evangélica. Seria maior honestidade, inclusive, para com os fiéis. Não há ciência alguma que a suporte (apenas um possível emprego equivocado de uma ciência chamada psicologia); apenas valores (e preconceitos) morais. Mas, se um dos principais elementos do sofrimento psíquico de um homossexual é o preconceito moral, a prática evangélica deveria perguntar para si mesma o que está fazendo quando busca "reparar" um homossexual. Algumas das calmas descrições de Thomas Merton - um monte cristão - sobre o mundo, e várias palavras do próprio Evangelho sobre o julgamento de nós homens às decisões de nosso próximo, impõem uma boa resposta.
 

10 Comments »

  1. Caminhante Says

    Olha, o tal leitor que procura provas até poderia encontrar - quanto mais se recua no tempo, mais fácil é encontrar textos científicos que “provam” a patologia da homossexualidade, a inferiodade feminina e de negros.

    A ciência também acompanha preconceitos. O que a psicóloga evangélica faz é estar de acordo com esses mais antigos…

    Re: Com toda certeza, Nanda. Inclusive não se pode dizer que hoje a ciência é destituída de preconceitos. Mas esse assunto se dá em outro nível: o da ciência deliberadamente submetida a preconceitos. O que você acha a respeito?

    Made on May 20, 2007 @ 12:16 am

  2. leandro Says

    So uma leve correção: Thomas Merton é um monge e não “um monte cristão”, hehehe

    Abraço!

    Re: Em que vc quer pautar a diferença, Leandro?
    abração,

    Made on May 20, 2007 @ 3:48 pm

  3. Johnnie Says

    Lendo o texto “com os olhos” dos seguidores desta psicóloga (com “p” minúsculo), e talvez com os dela própria (este é um exercício mental doloroso), o contra- argumento seria “uma pessoa negra não escolhe ser negra, assim como também um deficiente físico e um desempregado”, não envolve “livre arbítrio”, eles adoram utilizar este conceito. Argumentariam que a origem genética da homossexualidade não está comprovada, e de fato não está, e se estivesse interpretariam a causalidade genética sob o prisma da patologia genética e não de uma determinação genética pura/ não patológica , estaria mais associada à síndrome de down, Klinefelter, ou síndrome de Patau, e não à cor dos olhos, com da cútis, estatura, etc. – enfim, por mais que a ciência avance, sempre haverá uma tendência a uma interpretação errônea por parte de gente que se recusa terminantemente a ver a homossexualidade como uma orientação sexual sadia e natural, tal como a heterossexual.

    Mesmo caso fosse conclusiva a interpretação psicosocial da homossexualidade, ou composta, genética + psicosocial, passaria longe destas pessoas a noção de não intencionalidade, inconsciente, etc.

    A “Terapia de reversão” é um absurdo porque distorce, intencionalmente, conseqüência de causalidade. O preconceito e a egodistonia são conseqüência e não causa, portanto, não são aspectos válidos para se determinar uma patologia. O DSM vai neste caminho, tanto é que outras patologias que também vitimam as pessoas de preconceito e de não aceitação, possuem outros critérios norteadores e que as qualifica enquanto patologia.

    Caso seguíssemos a “lógica” desta psicóloga para se determinar uma patologia, haveríamos que incluir aí vários comportamentos. Que tal pessoas “tatuadas”, “metaleiros” e punks??? E porque ela só utiliza esta sua lógica canhesta com relação aos homossexuais? A resposta é mais simples do que poderíamos imaginar! Simples, porque sua religião diz que é pecado e já que o pecado não está legitimado pela ciência, ela inverte intencionalmente para “doença”, sem nada que suporte esta decisão!

    Vejamos o caso da TOC:

    “Segundo o DSM-IV, o transtorno obsessivo compulsivo tem, como características essenciais, obsessões e compulsões recorrentes suficientemente severas para causarem grande sofrimento para a pessoa. As obsessões e compulsões consomem tempo (mais do que 1 hora por dia), e interferem significativamente na rotina normal da pessoa, com seu funcionamento ocupacional, atividades sociais ou relacionamentos habituais.”

    Enfim, são as obsessões, bem resumidamente, que qualificam a patologia!

    Um homossexual,quando supera as barreiras impostas pela sociedade preconceituosa, seja através de informação ou de psicoterapia, não possui distúrbio algum/ prejuízos decorrentes de sua orientação sexual.

    Brilhante o texto!!!

    Re: Oi Johnnie,
    Valeu por ter postado suas considerações também por aqui. Em relação a “negros”, por exemplo, a questão não é a genética, e sim o preconceito. Nisso, tentei me deter à sacada muito boa do JC a respeito de que, se o fundo do sofrimento é o preconceito, então - revertendo o argumento de gente como Justino - qualquer pessoa que sofre preconceito deveria fazer uma “terapia” para deixar de ser alvo de preconceitos. No fundo, seria o mesmo fundo dos ‘tatuados’, por exemplo. Isso não ficou claro no texto?
    um abraço,

    Made on May 20, 2007 @ 5:17 pm

  4. Anonymous Says

    Interessante como um texto que teve como intuito reparar os males causados por uma psicóloga homofóbica também atrai racistas e misóginos!!!

    Re: Caro amigo, você leu o texto, não é mesmo? Se a leitura do título - e só do título - pode fazer isso, é para mostrar o fundo comum de um conjunto de preconceitos. Nisso, o título foi proposital, para chamar a atenção ao absurdo desse tipo de preconceito. Mas não vejo esse tom no corpo do texto, concorda? Caso não, poderíamos conversar a respeito, e posso alterar o texto, ok?
    Mas penso que um racista que lesse o texto ficaria profundamente desapontado com seu próprio racismo

    Made on May 20, 2007 @ 5:43 pm

  5. Lara Says

    Pessoas, dos mais diversos tipos, procuram na religião respostas milagorasas para os seus problemas…que na maioria das vezes nem são problemas (fora da religião)….Isso é o que alimenta essas teorias malucas, eu acho! A demanda é grande! :(

    Adorei o post!
    Bjus

    Made on May 20, 2007 @ 7:02 pm

  6. JC Says

    Bom, eu não vou procurar provas científicas da homossexualidade em tratados do século passado ou de antes pelo mesmo motivo que não procuro explicações de transtornos mentais nesses tratados, ou, para ser direto, pelo mesmo motivo por que não procuro explicar fenômenos físicos através da física de Ptolomeu: a ciência não é perfeita, mas aperfeiçoável.

    Made on May 21, 2007 @ 3:56 am

  7. JC Says

    Correção: acima, quando digo “provas científicas da homossexualidade” quero dizer “provas científicas da homossexualidade como patologia”.

    Made on May 21, 2007 @ 3:33 pm

  8. _Maga Says

    Adorei o texto Catatau. Tuas colocações foram precisas, acredito inclusive que este texto deveria ser enviado ao Rede Psi (tanto este quanto o outro). Acredito que mais psicologos precisam descobrir o absurdo de causas que andam apoiando, o quanto estas podem ser ilógicas, anti-éticas e até mesmo anti-psicologicas.
    Sério mesmo, gostei muito do texto, muito, muito.
    Olha, parece bobagem, mas abordaste o assunto de uma forma tão boa que fiquei até sem ter o que comentar sobre o assunto.
    Ah, na verdade tem uma coisa interessante sim: a Aline Beckmann Menezes lá na UFPA

    http://www.ufpa.br/bc/portal/DTC/Teo_Pesq_Comp/Teo_Pesq_Comp_2005/MENEZES.htm

    Beijos

    Re: Parece ser uma boa dissertação mesmo, Marcela. Para esse assunto, cai como uma luva. Seria muito interessante vermos estudos antropológicos sobre a relação religião x ciência no Brasil… já que tantas práticas são pretensamente justificadas assim, desse jeito… Obrigado pela referência!
    bjs,

    Made on May 22, 2007 @ 2:24 am

  9. claudio Says

    É fácil argumentar contra uma teoria… na verdade é bem fácil. Entretanto, EU sou prova de que a homossexualidade pode ser vencida, digo, deixada. Não faço NENHUM juízo de valor… não digo se é “certo” ou “errado”, muito menos “patológico”. De todo modo, a ciência não pode se recusar a encarar os FATOS! Os fenômenos estão aí para serem estudados e, a partir desses estudos, criarem-se novas teorias. Vejo no mundo moderno uma inversão: a teoria está ACIMA do fenômeno. Pessoa me dizem “não existe ‘ex-gay’” ou “você ainda é gay” ou “você nunca foi gay”. Todas essas afirmações são contraditórias e infundadas, ainda assim (pasmem) mundialmente aceitas. O que se vê é um “medo de errar” e, por isso, não se pesquisa seriamente. O momento é político e financeiro: pesquisas só têm vez se atenderem aos reclames de ONG’s e Governos ou se promoverem um novo mercado consumidor: o GLS!

    Pura bobagem. Pura pobreza intelectual. Que lástima!

    Será que não tem ninguém realmente interessado em ENTENDER se ( e como) é possível essa alteração no modo de pensar, sentir e agir sexualmente?

    Pode apostar que “fui” absoltumente homossexual: até me casar (aos 26) meu “drive” sexual havia sido apenas por indivíduos do mesmo sexo! Tive casos. Moramos juntos. Namorei, me apaixonei. Me decepcionei. Amei novamente e MUDEI!

    Qual é a contradição em tudo isso?

    Quais são as “amarras” que “provam” a inviabilidade de uma mudança?

    Quem é capaz de apresentar FATOS que sustentem essa inviabilidade?

    Não quero argumentos… não estou interessado em teorias. Quero fatos! Fatos!

    Mas, para aqueles que temem o novo… o conhecimento emancipador… fiquem com as “masturbações teóricas” de homossexuais e terapêutas míopes e medrosos… fiquem com o pior do pensamento humano: o medo!

    Sou claudiomultifocal@yahoo.com.br. Há mais de dez anos estou livre da atração pelo mesmo sexo. Pesquiso o assunto há mais de uma década e SEI ( e conheço - vejo, ouço, toco) de homens que mudaram, estão mudandando e vão mudar.

    Estou aí.

    Obrigado pela atenção!

    Re: Oi Cláudio,
    Achei muito interessante seu comentário, e por você ter comentado, acredito que esteja aberto à discussão. É isso?
    Em primeiro lugar, talvez se você está “livre” e “venceu” a homossexualidade, e ao mesmo tempo diz que essa condição não está nem “certa”, nem “errada”, há uma contradição nisso, concorda? Você lança um juízo de valor, e depois o nega.
    Em relação a fatos, (gostaria de ver a opinião dos outros leitores) compreendo o que você quis dizer. Mas com uma ressalva decisiva: a ciência explica, sim, casos como o seu, e muito bem explicados. Como você disse, pouco importa se no fundo você ‘era’ ou ‘não era’ HS, a questão não é buscar uma ‘essência’ do sexo, no homem. Aliás, quem busca esse tipo de essencialismo é que é totalmente desinformado, e suspeito que uma ala dos mais desinformados são os evangélicos, que vão para o outro extremo e tratam a HS como acidente. Ora, se é um acidente, é porque não corresponde a uma essência que seria do próprio homem, a essência da heterossexualidade. Aí tanto evangélicos, quanto os homossexuais que adotam um essencialismo, estão completamente errados.
    Mas, o que sobretudo se ignora, e o teu relato mostra muito bem essa ignorância, é uma distinção muito básica em várias correntes psicológicas: a distinção entre SINTOMA e ESTRUTURA. Você poderia muito bem investigar a respeito disso, talvez se surpreendesse em constatar o que você já sabe: padrões de comportamento, seja quais forem (homossexuais, heterossexuais, panssexuais, comportamento de arrancar unhas, de gostar de dinheiro ou qualquer outro) não refletem necessariamente estruturas de comportamento. Ou ainda, para tomar a linguagem de psicologia social: comportamentos sexuais não necessariamente definem identidades sexuais, e vice-versa. Em termos práticos, significa: ter um comportamento homossexual não reflete necessariamente que a pessoa é homossexual; e comportamentos heterossexuais, também não refletem necessariamente heterossexualismo. Identidade ou estrutura é uma coisa; comportamento é outro. Aí reside o maior erro das terapias evangélicas: pressupõem um essencialismo da heterossexualidade; e ignoram completamente um princípio básico de várias e várias psicologias.
    Essa é toda questão, Claudio: pessoas que aceitam essa “teoria” (não é uma teoria, é um preconceito, e podemos discutir isso com base em qualquer conceito de “teoria” que você queira) estão sendo enganadas por pessoas que misturam moral religiosa com ciência.
    É isso…

    Made on May 25, 2007 @ 12:59 pm

  10. claudio Says

    Como faço para obter uma cópia da dissertação citada por Comment by _Maga — May 22, 2007 @ 2:24 am

    “MENEZES, Aline Beckmann. Análise da investigação dos determinantes do comportamento homossexual humano. 2005. 340 f . Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém.
    Orientador: Marcus Bentes de Carvalho Neto”

    Made on May 25, 2007 @ 1:05 pm

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