May 26, 2007
Movimento pela geada nos dias de maio
E eu ainda estava escrevendo isso, torcendo para que desse um friozinho (o pessoal do sul me entenderá, rssss):
Tá bom, o título é meio estranho, talvez singular demais. Mas o Catatau tem dessas medidas, e conto com o perdão do leitor.
O negócio é que, alguns anos atrás, haviam geadas já em maio, no sul do Brasil. O outono do sul sempre teve boas geadas, daquelas em que de manhã se pisa quebrando o gelo. Virtuosas, nessas circunstâncias, as casas com fogões a lenha, chimarrão, polenta e pinhão na chapa. O céu permanece límpido, e andar ao sol é um grande prazer. À noite, o céu estrelado e o vapor que sai das narinas e boca combinam perfeitamente com um vinho ou um belo ‘paieiro’. E a natureza daqui impõe a regra clara: a mesma água que dá a vida, ameaça a planta desprotegida.
Há quem diga que o frio é ruim, melhor seria um calor constante por essas terras. Mas o frio é elemento essencial em todo o equilíbrio que resulta em todas as virtudes do lugar: sem frio, o ciclo não se cumpre. O próximo verão é infestado de insetos, o ciclo das chuvas muda de regime, e também há quem diga que farta geada traz paradoxalmente farta colheita, no futuro.
Contra a maré, há quem descreva a criação de Curitiba por Deus
E Deus criou Curitiba… Deus, na segunda-feira, criou Curitiba… Pelo menos assim pensam os curitibanos. Com parques, praças, muito topete e gente devagar no trânsito. E achou monótona e na terça-feira criou o inverno. Com sua brancura, cachecóis e um bom vinho. Para os curitibanos se acharem europeus. Mas achou o frio muito triste, e na quarta-feira criou a primavera, florida e colorida para enfeitar os parques e praças dos europeus.. ops, curitibanos. Mas Deus a achou bucólica demais e na quinta-feira criou o Verão. Alegre e saudável para fazer os curitibanos sorrirem. Mas o achou seco demais e na sexta-feira criou o outono. Farto e ameno para se confortarem. E Deus achou tudo muito distante, e no sábado misturou tudo. Fez o inverno, a primavera, o verão e o outono reinarem em Curitiba, para que tudo tivesse seu tempo e sua vida. E no domingo Deus descansou… na verdade caiu de cama, pois não sabia que tinha acabado de criar a GRIPE e o RESFRIADO.
Retornando ao assunto do Movimento, o relato de dois ativistas célebres pelas geadas de maio
:
Luiz Marenco, pelas manhãs frias e chuvosas:
Manhazita de maio e notícias do céu desabam nas casa
Um angico nas brasas, consome sem pressa seu cerno de lei
O meu cusco ovelheiro fareja o suor da xerca estendida
Que descansa da lida e do lombo do baio, meu trono de reiOutro ronco de mate quebrava o murmúrio das chuvas nas telhas
E o baeta vermelha, aberto em suas asas pingava no chão
Imitando um sol posto, largava de pouco luz a da janela
E empurrando a cancela um ventito minuano assobiava no oitãoPelo olhar da janela a vista perdia-se pelo campo vasto
Verdejando o pasto, coxilha e canhada até a beira do rio
Um mangueirão grande, guardando um silêncio dormido de pedras
E uma estrada de léguas são parte da estória de alguém que partiuPartiram pra longe, feito tantos do campo, feito cantos dos meus
Que por conta de Deus e a procura de mais encilharam cavalos
E rumaram pra sempre, deixando o galpão, saudade e um mate
Pra depois n’outro embate, pelear por sonho e talvez encontrá-loHoje abro a janela e pergunto pro tempo: por onde andarão?
Os que aqui no galpão, cevaram amargos por conta da lida
Que estenderam seus ponchos, baetas vermelhas de almas lavadas
Onde em léguas de estradas, na calma das tropas prosearam a vidaSó o silêncio das pedras e água da chuva que encharca a mangueira
E uma dor costumeira, saudosa do tempo, me fazem costado
Vejo o angico nas cinzas e o cusco ovelheiro, deitado num canto
E encho os olhos de campo de água e saudade, lembrando o passado
Manhãzita de maio, manhãzita de maio
E Leonel Gomez:
"Fumaceia a boca da estufa
E remolimos no angico
Pinga a graxa do granito
Pra churrasquear a peonada
La maula,que madrugada
Se plantou por esses campos
E um suavezito vento manso
Vem levantando uma geada"Um poncho de gola parda
Se descansa sobre os ombros
E os recaus se vão sentando
Nos lombos de pelo grosso
Manhã fria de céu osco
Nem o sol teve a coragem
De madrugar com esta aragem
Semblante jeito de agostoTem ganas de ser garoa
Essa manhã que chegou fria
A indiada ajeita a encilha
E pros arreios já alcança
Um laço de boa trança
De cinchar rês atolada
Pra aliviar duma coreada
Por vaqueano, um peão de estânciaManhazita fria de maio
Trouxe uma geada temporona
Com serviço pra cambona
Chogou o inverno mais cedo
E um pelego preto estaqueado
Amanheceu atobianado
Lá debaixo do arvoredoNeste garrão de Rio Grande
Passo um inverno atrás do outro
Sovando garras e potros
No largo das sesmarias
Nos galpões brasa e astilhas
Retovos de madrugada
E um mate de erva lavada
Pras manhãs de geada e encilha
Pesquisa de opções de livros sobre Curitiba, Sul do Brasil, e estudos sobre a questão da água e do clima.






6 Comments »
leandro Says —
Orra, Pitú!! Muito bom! Muito bom!
Os dois primeiros textos são seus?
Tava com saudades do friozinho de Curitiba, hein?
A Adriana tb gostou e está mandando os parabéns.
Tal qual o Vitor Ramil, a estética do frio!
Made on May 26, 2007 @ 1:01 am
_Maga Says —
Opa, já aderi a esta deliciosa campanha!!!
Adorei suas colocações (tem certas coisas que me doem de saudades), e deixou aqui a minha coloboração:
“Após muito pensar, tentar entender qual é essa magia do inverno, o que faz ele tão diferente das outras estações, pensei no passado e observei o presente.
No inverno o ar é diferente. Tu que agora ri de mim e pensas “que tolice! O que faz o inverno diferente é o frio!”. Pois pra ti, caro leitor, pergunto: e onde é que o frio se esconde? Onde ele se materializa?
O ar do inverno é diferente. É límpido, transparente. O ar paira sobre tudo com mais delicadeza, e parece que estamos dentro de um quadro… o ar do inverno é a própria sensibilidade do artista, que em tudo imprime sua aura.
A neblina branca das manhãs, a fumaça saindo das chaminés das casas… como o inverno, simples fenômeno meteorológico, consegue ser tão humanamente inexplicável?
Penso nas crianças voltando das aulas com suas brincadeiras, envoltas em quilos de roupas, os narizinhos vermelhos - uma das poucas coisas que escapam aos panos! Penso nos finais de tarde, com a temperatura caindo na mesma proporção em que o Sol se esconde atrás da linha do horizonte. Penso nas noites embaixo do cobertor, e das conversas sinceras, tão transparentes quanto o ar do inverno que inspiramos…
Penso neste meu esforço inútil pra tentar fazê-los sentir o que sinto quando olho pela janela, quando saio as ruas… quando tenho a vida invadida pelo ar invernal.
Agora me dêem licença que o inverno é curto e eu quero respirá-lo mais um pouco… ”
Publicado no metamorfosepensante.blogger.com.br no dia 06 de Agosto de 2006.
(bah, será que hoje gea? aqui estranhamente choveu a noite…)
beijos
Re: Aqui também choveu à noite, de um modo bem estranho!
Quanto ao frio, parece que nos dias de inverno os poentes são ainda mais bonitos, não é mesmo? Sem contar como à noite também a lua e as estrelas…
bjs,
Made on May 27, 2007 @ 3:29 am
_Maga Says —
Ah, esqueci!
Adorei a descrição de Curitiba! Ficou muito criativa e foi uma bela homenagem a cidade!
Viu, mais uma coisa: eu gosto do frio porque nos obriga a mudar de perspectiva…
agora sim, beijos
Made on May 27, 2007 @ 3:33 am
Ricardo Says —
Nada a acrescentar ao que já foi dito, só passei pra lembrar que, segundo a previsão do tempo anunciada hoje (Sábado, dia 27), Curitiba terá dias de muito frio (0ºC) nesta semana que se inicia. Viva!
RE: Ueba!!! Espero poder curtir o friozinho, antes de uma viagem marcada para já já…
abração,
Made on May 27, 2007 @ 8:02 am
nereujr Says —
Excelente post!
Mais uma vez me faz ter vontade de voltar as origens…
Me permita o aparte:
“…Bebi leite na mangueira
Numa guampa remanchada
E à cavalo num tição
Me aquentei de madrugada
Enquanto o vento assobiava
Nos campos brancos de geada.”
Meu Rancho
Luiz Marenco
O inverno chegou guasqueando
Rebencaços de Minuano
Sapecando o couro paisano
E o tapete das sesmarias
Veio arrepiar o pêlo
Do “egüêdo” no socado
Assoviando no arramado
O dueto das invernias
Esta aragem sulina
que se agranda a “encaranga”
Esbarra num bichará
E no meu cabungo tapeado
Faz talarear compassado
As rosetas das “espuelas”
Rebojando a “pontesuela”
Na franja do meu gateado
Um velo branco descamba
Pelo lombo das canhadas
Com apojos de alvoradas
Desaguachada em sereno
Num trotezito tranqueado
O vento tosta a macega
Calando a geada sem trégua
No repechar do terreno
Com meia braça de sol
A tarde bolca mermando
E a noite se arranchando
Sombreia várzea e coxilha
O sopro que vêm dos “Andes”
Vara a quincha do galpão
Mas se trompa com os tição
Fogoneando coronilhas
Então encosto o porongo
Ao pé da guacha cambona
Sobre as abas da carona
Dou de mão na botoneira
No templo de picumãs
Aqueço sonhos e segredos
Desentanguindo meus dedos
No braseiro das ilheiras
É assim que um fronteiro
“Aquebranta” as invernias
“Aclimatando” as sinfonias
De rangir “paysandu” em potros
Há uma pai-de-fogo que guarda
A alma bugra no templo
Ou vem por diante dos tentos
Num rancho marca piloto
Dueto das Invernias
César Oliveira
RE - Digamos que tudo isso faz “encher os olhos de campo”, não é mesmo?
Abração,
Made on May 28, 2007 @ 4:00 pm
LOUISETTE Says —
Excelente capture fotos.
Best regard from Belgium.
blog Rawlinson Jack Louisette
Made on June 2, 2007 @ 12:05 pm
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