May 28, 2007
Qual é o problema do Brasil?
Encontrei em um post - que defendia o voto distrital no Brasil - a idéia de que a estrutura constitucional do país não funciona, e que portanto deveria ser aprimorada, colocando outra em seu lugar. Os debates sobre redução da maioridade penal, pena de morte, criminalidade, ilegalidade, corrupção e afins, tambem seguem sempre a mesma premissa: a maneira pela qual o Brasil se estrutura não funciona; a própria "estrutura" desse país não funciona; devem ser criadas então outras estruturas que, por sua vez, funcionem.
Nisso, formula-se a recorrente pergunta: porquê há uma constatação tão generalizada de que as "formas" no Brasil não funcionam? Que problema haveria com todas essas formas?
Formulando de outra maneira: Será que o problema das formas, no Brasil, ocorre com as formas mesmas, numa espécie de modelo que é sempre inexequível? Por exemplo, é a constituição, ou a legislação penal, ou o modelo de representação que são em si mesmos inexequíveis? Ou haveria algo mais, na aplicação mesma dos modelos, que impedisse que os próprios modelos se concretizassem?
Dessas, a última pergunta parece mais atraente. Alguém acredita que, com a redução de menoridade penal, por exemplo, toda a dinâmica do crime no Brasil irá diminuir? É pouco crível que alterações na legislação causem inevitavelmente mudanças nas relações concretas. E um absurdo pensar que isso não tenha qualquer razão.
O motivo, ou a razão, são bem claros, e basta nos atermos ao próprio significado da palavra "lei". A "lei" jurídica foi criada - esse é o beabá da tese histórica - em âmbito positivo, para que fosse executada em analogia com as próprias leis da natureza. A convivência do homem com seus semelhantes deve ser regida por regras, criadas por ele mesmo (a convivência sem regras é fadada à animalidade); tais regras deveriam visar a autonomia, a liberdade, e a igualdade das relações entre os homens; para que as regras fossem efetivas, deveriam ser sempre aplicadas, sem jogos exteriores às próprias regras que impedissem sua aplicação. Em suma, as leis deveriam prescrever a igualdade e liberdade entre os homens, e para que esses dois elementos sejam efetivos, a lei deve ser permanente, constante, e universal.
No Brasil, não é novidade afirmar que definitivamente não é isso que ocorre. Há uma grande diferença entre o fato e o direito, o socius e o jurídico. Um abismo entre o que é prescrito pela lei, e as relações sociais. A própria aplicação da lei é submetida, em muitas formas, a regras exteriores, pertencentes a jogos de forças e vantagens privadas. Liberdade e igualdade aparecem, nesse ínterim, sempre relativizadas. A lei é aplicada quando convém. E o critério de "conveniência" não é o da lei, mas de jogos a ela exteriores.
Encontra-se aí o "problema" do Brasil, aquilo mesmo que faz com que a "estrutura" jurídica por aqui não funcione. Não são criados - ou não se tornam vigentes - os mecanismos que permitem à própria legislação brasileira ser colocada em prática, concretizada. Ou, pior, a legislação é concretizada apenas episodicamente. Caso se admita que uma sociedade se auto-regula criando suas próprias leis, é como dizer que a sociedade brasileira não tem auto-regulação alguma, ou que a regulação é submetida a outros interesses que não os de uma sociedade democrática. Se a lei existe de direito, não é aplicada de fato. Em outras palavras, e resumindo, pouco importa mudar traços da estrutura legislativa brasileira, ou blocos inteiros, ou ela toda. Se o princípio básico da aplicabilidade das leis por aqui não funciona, aí está a raiz de todas as grandes discussões que aparecem várias vezes ao ano. Pretende-se mudar a lei para que as coisas melhorem. Mas quem pretende isso muitas vezes não considera, por exemplo, que colocar roupas novas em um mendigo não o faz deixar de ser mendigo. Há todo um conjunto de outros elementos que permanecem…






2 Comments »
Marcio Pimenta Says —
Catatau, você anda mesmo inspirado. Enquanto leio Raízes do Brasil, minhas esperanças se renovam e ao mesmo tempo me fazem pensar que não há jeito, não há estrutura que funcione no Brasil. Mas sou um eterno otimista. As estruturas necessárias de certa forma já existem. Não acredito que seja a sua forma, mas quem a forma. Digo, se o brasileira não é capaz de questionar a sua própria estrutura (e você ao escrever este post me mostra que isto não é uma verdade universal), como poderá querer modificar algo que ele não compreende?
Abraços e parabéns!
Made on May 29, 2007 @ 5:44 am
Martins Says —
A redução da maioridade penal com certeza já estar descartada no nosso país. Que pena, nosso sistema é uma merda mesmo!!!
Alias porque que jovem com menos de 18 anos pode escolher o presidente de um país, e não pode responder pelos seus próprios atos?
Um abraço e feliz natal.
Made on December 23, 2007 @ 4:31 am
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