June 15, 2007
Raça: entre o argumento biológico e o sócio-histórico
Nada disso faz sentido. O racismo sempre é de pessoas sobre pessoas, e ele existe aqui como em todas as partes do mundo. Mas não é um traço dominante de nossa identidade nacional. Por outro lado, nossas instituições são completamente abertas a pessoas de todas as cores, nosso arcabouço jurídico-institucional é todo ele a-racial. Toda forma de discriminação racial é combatida em lei.
Os mecanismos sociais de exclusão têm como vítimas os pobres, sejam brancos, pretos, pardos, amarelos ou índios. E o principal mecanismo de reprodução da pobreza é a educação pública de baixa qualidade. E é isso o que mostram os números do IBGE. Uma leitura apressada, porém, leva sempre aos mesmos erros.
Diz-se que os brancos ganham o dobro do que os pretos e pardos, mas nada nos permite dizer que o motivo seja o racismo; o motivo é sempre a menor escolaridade de pretos e pardos, porque são pobres. Diz-se que os brancos ganham sempre mais que os pretos e pardos mesmo quando têm o mesmo número de anos na escola, e atribuem isso ao racismo. Mas não se dão conta de que pretos e pardos, por serem pobres, estudaram em piores escolas e que, portanto, mesmo tendo o mesmo número de anos na escola, receberam um ensino de pior qualidade. E, em conseqüência, têm empregos com menor remuneração.
Diz-se que o número de analfabetos entre brancos é menor do que entre pretos e pardos, mas a razão não é o racismo; é sempre a falta de escola determinada pela pobreza. Já mostrei aqui que os indicadores sociais de brancos pobres e pretos e pardos pobres se equivalem. Com base nos dados do IBGE, dizer que a desigualdade entre brancos, pretos e pardos é fruto do racismo é avançar um sinal. Nada permite que se veja no racismo a razão para as diferenças. Os pretos e pardos, na média, têm indicadores sociais piores do que os brancos, na média, porque pretos e pardos são maioria entre os pobres. Mas seus indicadores são iguais aos dos brancos pobres.
A segunda vertente pode ser encontrada na reportagem de capa da Veja de 6/6/07:
Biologicamente as raças são chamadas de subespécies e definidas como grupos de pessoas - ou animais - que são fisiológica e geneticamente distintos de outros grupos.
São da mesma raça os indivíduos que podem cruzar entre si e produzir descendentes férteis. Esse é o conceito científico assentado há décadas. Recentemente, porém, esse conceito foi refinado. Pode haver mais variação genética entre pessoas de uma mesma raça do que entre indivíduos de raças diferentes. Isso significa que um sueco loiro pode ser, no íntimo de seus cromossomos, mais distinto de outro sueco loiro do que de um negro africano.
Em resumo, a genética descobriu que raça não existe abaixo da superfície cosmética que define a cor da pele, a textura do cabelo, o formato do crânio, do nariz e dos olhos. Como os seres humanos e a maioria dos animais baseiam suas escolhas sexuais na aparência, a raça firmou-se ao longo da evolução e da história cultural do homem como um poderoso conceito. Em termos cosméticos sempre será assim, mas tentar explicar as diferenças intelectuais, de temperamento ou de reações emocionais pelas diferenças raciais é não apenas estúpido como perigoso.
Vê-se o ponto onde os dois lados não se comunicam, e partem de pressupostos incompatíveis: de um lado, advoga-se o raciocínio de que a discriminação racial no Brasil está intimamente ligada à social, e por isso devem haver cotas que atinjam, em via contrária, a raça pelo socius (a cota é para negros, índios, etc.). De outro lado, nega-se o racismo, num momento mostrando vínculos não necessários em estatísticas, e em outro buscando sobrepor a noção histórico-sociológica de raça por noções biológicas.
É bom lembrar aqui de algo trivial: discussões que partem de princípios exógenos, e ainda conflitantes, deixam de ser discussões, e se tornam meras disputas. Em suma, é algo que não uma discussão racional que se põe em jogo.
Não bastassem as irredutibilidades, essas três visões parecem conter, nelas mesmas, certas incompatibilidades internas:
- Primeiramente, salta aos olhos como a pregação das noções biológicas, sobrepostas às historico-sociais, redunda no vazio. Dizer que "raça não existe" por um argumento biológico, e de quebra concluir que por isso o racismo (uma prática social discriminatória) também não existe, é um duplo engano. Desconsidera aquilo mesmo que gerou a existência da discussão sobre cotas.
- Em segundo lugar, dizer que índices de negros pobres são semelhantes aos dos brancos pobres é esquecer de outro índice (que o próprio Kamel apresenta), o da população de negros e brancos pobres. Novamente, o dado cru do senso respinga na história do Brasil. É ela que dá conta daquilo que tornou possível tais estatísticas. Ainda, dizer que não há diferenças raciais porque não há diferenças de índices entre pessoas de "raças" diferentes, mas mesmas condições, é pressupor novamente uma espécie de biologicismo sobreposto ao social. Para Kamel, diferenças de raça não apresentam diferenças de índices. Mas novamente se destaca o critério racial do social, no mesmo movimento em que se julga o segundo pelo primeiro (negros e brancos possuem os mesmos índices; logo não é a segregação racial que condiciona o desprivilégio; portanto, o desprivilégio dos negros não é algo verdadeiro; é algo advogado apenas pelos segregacionistas, criando um Brasil "maniqueísta").
- Finalmente, afirmar que pela associação histórica entre desprivilégio social x preconceito racial as políticas de cotas raciais seriam legitimadas, é realizar uma operação que, ao se efetivar, separa num momento a questão social da racial, para depois deslocar o privilégio à questão da raça. É como dizer: há no Brasil um desprivilégio simultaneamente social e racial; pela raça ser socialmente desprivilegiada, deve-se socialmente sanar esse desprivilégio. Associa-se, por exemplo, o negro ao pobre, sem considerar que a política de cotas retorna ao negro pobre, e não ao pobre em geral. O movimento que conduz da raça ao desprivilégio não é simétrico ao que retorna, na política das cotas, do desprivilégio à raça. Em suma, conservando o exemplo, nem todos os pobres são negros, mas apenas os negros pobres podem pleitear vagas de cotas.
Tanto na visão de Kamel, quanto na dos partidários das cotas, há um movimento em que a associação entre raça e socius é em um momento admitida, e em outro, separada. Kamel explora isso por via da negação (não há racismo no Brasil porque não há dados que confirmem os argumentos dos segregacionistas); já os partidários das cotas, exploram por generalização equivocada (raça e desprivilégio são associadas; logo, as políticas do desprivilégio devem concentrar-se na raça).
Indivíduo e Estrutura
Um outro critério no qual as posições são discordantes é o polo entre o indivíduo e a estrutura.
Do lado de Kamel, afirma-se que só há racismo quando há discriminação de pessoas em relação a pessoas. Nisso, as instituições não seriam racistas, e é meramente a população maior de negros pobres que não garante a entrada maior de negros em universidades.
- Pesquisa de livros sobre racismo, cotas, intérpretes do Brasil, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, e outros.
- tags: raça racismo brasil veja unb ali kamel





5 Comments »
Omar Says —
Eu sou totalmente contrário à implementação desta política de cotas, principalmente quando se fala em “cotas raciais”, até falei sobre isso algum tempo atrás. E concordo com você, Catatau, quando diz que debates que partem de premissas distintas se tornam meras disputas.
Made on June 14, 2007 @ 6:50 pm
_Maga Says —
Olá Catatau, tudo certo?
Primeiro vou responder a sua pergunta sobre o festival. Sim, está acontecendo na cidade o FILO - Festival Internacional de Londrina, o festival de teatro mais antigo da américa latina sendo inclusive o inpirador do festival de Curitiba
. Eu gosto muito dos festivais que são promovidos na cidade e o FILO é especial. Essa ano as apresentações começaram no dia 6 e vão até o dia 23 de junho. Até agora já fui a 13 peças que estão no festival. É uma delicia estar na cidade esta época do ano, em que tudo respira arte. Londrina é uma modesta cidade perdida no interior do estado, mas que tem me dado alegrias incomensuráveis desde que mudei para cá. (Desculpe, é que me empolgo falando do festival… rs)
Preciso sair agora, depois comento o artigo (interesso-me muito pelo tema).
beijos
Made on June 15, 2007 @ 4:41 pm
luiz Says —
Medidas ‘anti-racismo” acabam muitas vezes promovendo um racismo inverso. Sempre me preocupei em procurar não ter nenhum tipo de preconceito racial, algo que as vezes vem da sua propia criação, e por vezes inevitavel mas ao mesmo tempo abominavel. Porem, quando prestei vestibular para engenharia na federal, preocupei-me em contar a quantidade de pessoas possivelmente aplicaveis ao processo de cotas naquela concentração pré prova, onde muitos estudantes aflitos rapidamente dão uma olhada nos seus milagrosos resumos e sentem desespero. Para minha surpresa, não consegui contar mais que 5 em uma multidão de pessoas que tranquilamente passava de 500. Na minha sala onde haviam mais de 40 pessoas, não existia nenhuma pessoa com a pele parda ou negra. Eu questionei se a procentagem aplicada eh valida, que me gerou um grande desconforto e confesso uma certa irritação sobre essa politica. O problema eh que nessa hora pode se confundir politicas universitarias com pessoas, e a aversão cair sobre quem não as merece, aumentando assim o racismo em si.
não que isso vah acrescentar em alguma coisa o seu otimo texto, mas eh soh a minha opinão sobre o assunto e a falta de um blog para posta-lo. eheheh
abraço
Made on June 15, 2007 @ 9:07 pm
Marden Says —
Ótimo! Gostei muito mesmo.
Postei uma citação e um comentário lá em casa. Pretendo continuar a conversa, provavelmente em minha próxima postagem; primeiro, mediante uma autocrítica (sobre o texto da postagem “Cotas raciais: pró, contra, e a questão de fundo”) e, daí em diante, mediante uma crítica deste teu texto. Não preciso nem dizer que apreciaria demais tua contribuição por lá, até mesmo para apontar eventuais minhas obscuridades e equívocos.
Legal, então. Até.
Marden.
Made on June 21, 2007 @ 6:14 am
instante Says —
O grande problema começou quando a eleite colonial declarou a independência do Brasil e não os próprios brasileiros. Os mestiços e os negros ficaram (continuaram) logo para trás. Este é o GRANDE problema.
Os negros necessitam que o ideal da “negritude” lhes entre no dia a dia - black is beautifull!!
RE: Essa que é a boa questão, a ambivalência do estatuto da “raça” enquanto sócio-econômico… Em outras palavras, não haver um conteúdo sociológico “essencialista” negro no Brasil, como ocorre por exemplo nos EUA. O negro está associado ao pobre, e o preconceito racial não se separa do social. Daí a questão ser difícil de deslindar…
Made on September 4, 2007 @ 7:07 pm
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