July 11, 2007
Sobre certos “intelectuais” do Brasil
O Brasil está em maus lençois. Não apenas nas práticas públicas, mas também no debate de idéias. Não é necessário observar muito algumas das discussões de "intelectuais" (muitas aspas) desse país para notar que podem ser tudo, menos discussões. Tem aquela metáfora da "briga de foice no escuro". Ou aquela outra da discussão acalorada entre surdos. O resultado é o mesmo: muito barulho para nada.
Mas é curioso notar como, nos últimos anos, o Brasil tem "formado" "intelectuais", independente da posição política adotada. Hoje, ser "intelectual" é como "ser" skatista: basta criar para si alguns trejeitos, comprar certas roupas, falar de certos modos, e frequentar locais específicos. E, como no mundo dos skatistas, o intelectual não precisa nem "subir no skate". Basta ter os trejeitos certos, que diante de todos - e de si mesmo - conseguirá manter as aparências.
Com o engajamento político, ocorre mais ou menos como na escolha das roupas. Não é preciso estudar rigorosamente teorias e posições políticas. Nem mesmo vivê-las, como se fez muito no século XX. Basta ter simpatia por uma ou outra posição. Se na realidade brasileira não existe posição política alguma (no sentido preciso de que, para existir, seriam necessários projetos de nação e fidelidade partidária), pelo menos na esfera intelectual elas são oferecidas com notável estereotipia: o direitista "acredita" na liberdade de escolha, na igualdade de condições, e no mito de um capitalismo de laissez-faire; o intelectual "de esquerda" "crê" na revolução e liberatação do povo alienado.
Os dois tipos têm em comum um mesmo tema: o povo inteiro é deficitário de consciência. Ou porque não percebe que o sistema brasileiro "não é um capitalismo", ou por não tomar consciência de que poderia tomar o poder pelas armas. A imagem do intelectual, a partir desses que se auto-declaram "intelectuais" com tanta facilidade, é a daquele que conduz o rebanho. Pois, diante do déficit geral, certamente devem considerar a si mesmos como seres transbordantes de esclarecimento.
O quadro ainda se complica, caso consideremos que até no Domingão do Faustão abunda consciência. Nas ruas, nas escolas, nas faculdades, são todos conscientes demais (e o descrédito pela figura do professor é uma das provas mais visíveis). O ponto de ônibus é um ótimo lugar para ouvir como, para além dos intelectuais, todo mundo é esclarecido.
Há tanto esclarecimento, tanta consciência, que não seria inútil perguntar: é a falta de consciência o verdadeiro problema?
***
Para nós, o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles. Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja na pessoa que fala ou age. Nós somos todos pequenos grupos. Não existe mais representação, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede.
(…) o intelectual era rejeitado, perseguido, no momento mesmo em que as "coisas" apareciam em sua "verdade", no momento em que não se devia dizer que o rei estava nu. O intelectual dizia a verdade àqueles que ainda não a viam e em nome daqueles que não podiam dizê-la: consciência e eloquência. Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da "consciência" e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência", do discurso. (…) Luta contra o poder, luta para fazê-lo aparecer e feri-lo onde ele é mais invisível e mais insidioso. Luta não para uma "tomada de consciência" (há muito tempo que a consciência como saber está adquirida pelas massas e que a consciência como sujeito está adquirida, está ocupada pela burguesia), mas para a destruição progressiva e a tomada do poder ao lado de todos aqueles que lutam por ela, e não na retaguarda, para esclarecê-los. (Michel Foucault e Gilles Deleuze, Os Intelectuais e o Poder)




4 Comments »
Buscator Says —
Huhuhuhum…desconfio desse tipo de artigo que só quer fazer virtuosismo estilístico em torno de certas “questões”. O título bem que prometia algo mais concreto, dando referências e dados sociológicos…mas enfim, só ejaculação de ressentimentos genéricos mesmo!
Re: Caro,
Penso que o assunto em questão é muito interessante a ser discutido. Por isso escrevi o texto, sem maiores pretensões senão a de formular um problema.
Mas e aí, o assunto para por aqui? Foi só “ejaculação” mesmo, e o leitor terá a nítida impressão de que você vestiu a carapuça?
Made on July 11, 2007 @ 1:31 pm
Caminhante Says —
Eu concordo com o que você falou, mas não acho que isso seja um problema brasileiro. Sou mais pessimista: eu acho que é assim que funciona a intelectualidade. Citando o próprio Foucault e indo um pouco em Bourdieu… o intelectual não é mais combativo porque não precisa mais ser, o saber já está estabelecido. Agora, o que vemos é sempre a prevalência de algum grupo dentro do campo, que está sempre em disputa. O saber é apenas mais uma moeda e os intelectuais são atores sociais como em qualquer outra ocupação…
Made on July 11, 2007 @ 11:38 pm
Marcio Pimenta Says —
Caro Catatau,
Bela questão essa que você nos traz. Fiquei chateado de estar enfermo e não poder ter contribuído antes. Mas como você respondeu ao leitor acima, o assunto continua. E a minha contribuição será de duas formas: vou linkar este post lá no blog e disponibilizar para você um artigo que estou trabalhando sobre o pensamento único e a formação de economistas contemporâneos. Este ultimo ainda devo levar umas duas semanas para te enviar, mas já está prometido.
Abraços e parabéns pelo post.
Made on July 12, 2007 @ 3:48 pm
Ricardo Says —
Catatau,
bom tema esse. Creio que consciência não é o problema (pelo menos principal) hoje. Com o grau de massificação da televisão (leia-se globo), deve haver algum grau de consciência e valores por parte dos espectadores. Sendo que 98% do território nacional é atingido pela mesma TV, é significativo do Brasil.
No meu ver, o problema é o uso dessa consciência. A questão de valores… Isso o fenômeno de massa é um complicante, no sentido de que não gera uma real compreensão dos temas abordados…
Pessoalmente, a formação das pessoas é cada vez mais pobre no sentido de capacidade de analisar… “Ler” o cada vez mais sofisticado mundo em que vivemos. Vejo a solução somente no ensino… Mas um ensino dedicado, personalizado… Para trabalhar a linguagem de cada cidadão.
Um abraço e também parabéns pelo esmero da página.
RE: Olá Ricardo!
Com certeza, penso que você toca numa questão importante que é a de comunicação de massa. Nela também é perigoso o postulado da consciência, ainda na dualidade manipuladores conscientes x manipulados inconscientes. E como saída, talvez um ensino que vise a esfera pública seja mesmo uma boa solução… Ao invés de meramente formarmos indivíduos para o ‘mercado’ considerado como esfera privada (’competências’, e outros traços individuais)!
Abração, e obrigado pela visita,
Made on August 6, 2007 @ 5:08 am
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