July 20, 2007
O Segredo Terrível
Abaixo, consta o trecho de um texto muito curioso, que parece definir muito bem o que vem a ser a tolice. É de um erudito pouco conhecido do século XIX [pesquisa de livros], mas que escreve textos belíssimos. Aqui, permutei os dois últimos parágrafos.
O curioso a se notar é como esse escritor delimita a ignorância: ser ignorante (tolo) não é não saber, mas sustentar a ausência de conhecimento como saber. Enquanto o sábio reconhece a própria ignorância, o ‘tolo’ reconhece a si mesmo como sábio, não ignorante. Fórmula universal…
O Segredo Terrível
Há verdades que devem ser para sempre misteriosas para os fracos de espíritos e para os tolos. E estas verdades podem ser-lhes ditas sem temor. Pois certamente jamais as compreenderão.
Que é um tolo? Um tolo é uma coisa mais absurda que uma besta. É o homem que quer chegar antes de ter andado. É o homem que se julga senhor de tudo só porque chegou a alguma coisa. É um matemático que despreza a poesia. É um poeta que protesta contra os matemáticos. É um pintor que diz que a teologia e a cabala são inépcias, porque nada entende de cabala e teologia. É o ignorante que nega a ciência sem ter o trabalho de estudá-la. É o homem que fala sem saber e afirma sem certeza. São os tolos que matam os homens de gênio. Galileu foi condenado, não pela Igreja, mas por tolos que, infelizmente, pertenciam à Igreja. A tolice é um animal feroz que tem a calma da inocência; assassina sem remorso. O tolo é o urso da fábula de La Fontaine; esmaga a cabeça do seu amigo debaixo de uma pedra para caçar uma mosca; porém, diante da catástrofe, não procureis fazer-lhe confessar que errou. A tolice é inexorável e infalível como o inferno e a fatalidade, pois é sempre dirigida pelo magnetismo do mal.
O animal nunca é tolo enquanto age franca e naturalmente como animal, porém o homem ensina a tolice aos cães e aos burros sábios. O tolo é o animal que despreza o instinto e que aparenta inteligência.
O progresso existe para o animal; pode-se dominá-lo, prendê-lo, excitá-lo. Porém, não existe para o tolo. Porque o tolo julga que nada tem a aprender. É ele que quer reger e educar aos outros e com ele nunca tereis razão. Ele vos escarnece à vista, dizendo que o que não compreende é radicalmente incompreensível. De fato, por que não o compreenderei eu? Ele vos dirá com admirável aprumo. E nada mais tendes a lhe responder. Dizer-lhe que é um tolo seria apenas fazer-lhe um insulto. Todos vêem, porém ele jamais o saberá.
Sócrates bebe a cicuta, Aristides é proscrito, Jesus é crucificado, Aristófanes se ri de Sócrates e faz rirem os tolos de Atenas; um camponês se aborrece de ouvir dar a Aristides o nome de Justo e Renan escreve a vida de Jesus para o maior prazer dos tolos. É por causa do numero quase infinito dos tolos que a política é e será sempre a ciência da dissimulação e da mentira. Maquiavel ousou dizê-lo e foi ferido por uma reprovação bem legítima, pois, fingindo dar lições aos príncipes, ele traía a todos e os denunciava à desconfiança das multidões. Aqueles que somos obrigados a enganar não devemos prevenir.Eis, pois, um já formidável arcano inacessível à maioria dos homens. Eis aí um segredo que jamais adivinharão e que seria inútil dizer-lhes: o segredo da tolice deles.








jerônimo Says —
Faz muito tempo que não leio Levi, e não me lembro de ver blog nenhum (a não ser esotéricos) fazer referência, citar ou transcrever. Esse trecho é do Dogma e Ritual … certo?
Re: Não tenho certeza, Jerônimo. A referência de onde tirei sumiu (vi agora q o link está quebrado), mas parece que está em um texto chamado “O grande arcano”…
Made on October 16, 2006 @ 8:08 pm
_Maga Says —
Muito boa a discussão que trazes para nós hoje, Catatau.
Eu poderia contar umas historinhas, mas vou apenas deixar aqui duas frases. A primeira é a que aparece no meu profile no Orkut (ajuda a quebrar um pouco um lugar em que algumas pessoas me põe e que eu posso acabar reforçando mesmo sem querer pelo minha forma peculiar de agir…), a segunda é uma que achei há uns 4 anos e que fala muito do que penso:
“Devo explicar que não me levo muito a sério porque, mais do que ninguém, tenho uma consciência muito clara de minhas deficiências e de minha incomensurável ignorância.” Erico Verissimo
“Hoje entendendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o póprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simpelemente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. Não há como não admirar um homem — Costeau, ao comentar o sucesso do seu primeiro grande filme: “Não adianta, não serve para nada, é preciso ir ver”. Il faut aller voir. Pura verdade, o mundo na TV é lindo, mas serve para pouca coisa. É preciso ir tocá-lo.” Trecho do livro Mar Sem Fim do velejador Amyr Klink.
Acho que é por ai, né? rs
beijos
RE: Com certeza, Marcela. E essa frase do Klink, então…
Made on July 21, 2007 @ 12:55 pm
sacanagem Says —
ué!!! este post é de quando?
Re: É repostado. Já faz um tempo…
Made on July 22, 2007 @ 4:40 am