July 22, 2007

Edward Said, Recepção, e Resistência

Publicar um livro é muito fácil. Mas publicar um bom livro, é outro assunto. Que dirá ainda, publicar um livro escrito "com sangue".

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Artigo da Folha (por Luiz Costa Lima), a respeito do último livro de Edward Said, "Humanismo e Crítica Democrática" [pesquisa de preços] 

Recepção e Resistência 

O nosso se tornou um mundo de contrastes chocantes. Um dia, um investidor anuncia bilhões de dólares em um novo negócio. No outro, o mesmo locutor anuncia o massacre de centenas de pessoas, em algum recanto da África ou do Extremo Oriente.

No campo da linguagem, pôsteres e publicidades burilam o charme da redundância, os programas de cultura a reduzem a informações banais, enquanto os informes econômicos se esmeram em cifras e tecnicismos.

As alternativas "conviva ou safe-se" oferecem-se a todos. Só não valiam para uns poucos, como Edward Said [1935-2003]: já muito doente, no ano de sua morte, publicou um conjunto de quatro conferências e um ensaio sobre "Mimesis" [ed. Perspectiva] de [Erich] Auerbach ("Humanismo e Crítica Democrática").

Para os de sua linhagem, não há alternativa: só dispomos deste mundo e estarmos à véspera da morte não nos isenta de estarmos atentos a ele. Resistência é a palavra obsessiva.

A que Said resiste, em seu último livro? À deterioração do termo "humanismo", à fatuidade em que a palavra escrita se converteu: os livros duram nas vitrines por algumas semanas.

A dupla resistência é à mesma deterioração: como recorda Said, apesar de sua tradução para o inglês haver se dado há 50 anos, "Mimesis" permanece o que de melhor nos legou a tradição humanista.

Centro de si mesmo

Por que o termo "humanismo" perdeu força e sentido? Sua história recente o esclarece. A influência do "cogito" -embora não só- converteu o sujeito humano em centro de si mesmo e essencializou seu pensamento.

A produção do sujeito passou a ser vista como comandada pelo que ele quisera que ela dissesse.

Ora, sob a influência de Marx, Freud e Nietzsche, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, [Claude] Lévi-Strauss e [Michel] Foucault desmancharam a pretensa "soberania do sujeito".

Lembro-me do que então, entre nós, se escrevia a respeito.

Os conservadores e os poucos da esquerda que rompiam o cerco da ditadura e chegavam aos jornais uniam suas vozes contra a "morte do homem". Entendiam-na literalmente e protestavam em nome de um humanismo "de tendências totalizadoras e essencialistas".

Era um humanismo, acrescenta Said, que se confundia com a elite do homem branco e de visão eurocêntrica, com seu louvor do Estado-nação e das relações que legitimava.

Apesar do ataque feroz contra esse descentramento do sujeito, o humanismo exclusivista e imperial se tornou perempto. Mas por que não o humanismo enquanto tal? Por várias razões, diz Said. A principal delas a extrai de Vico: (a) há sempre algo radicalmente incompleto e contestável no conhecimento humano.

Se, portanto, ele se julga infalível, se converte em casamata protetora de uns poucos; (b) porque o humanismo "era raramente pensado de modo indagador" e "jamais (conduzia) ao exame radical da ideologia do próprio campo". Ao contrário, impunha-se como um modelo de identidade que deveria ser seguido.

A desestabilização dessa modalidade de humanismo atingiu em cheio suas grandes figuras: Matthew Arnold, T.S. Eliot, como ensaísta, Northrop Frye.

Seu rápido ofuscamento, contudo, não significou o desaparecimento de suas metas. "A política da identidade e o sistema de educação baseado em nacionalidades" permanecem geralmente praticadas, embora "as noções de autor, obra e nação" não tenham mais a confiabilidade de outrora.

Por que então não saudar o desaparecimento do termo? Porque aquela modalidade se confundia com o que pretendia definir. O humanismo "não consiste em retraimento e exclusão"; seu núcleo se baseia na "noção secular de que o mundo histórico é feito por homens e mulheres, e não por Deus".

Assim, o humanismo do sujeito autocentrado não se dissipou, senão que deu lugar ao tecnicismo. Em vez de "humanistas", passamos a ter "profissionais", técnicos que eliminam qualquer componente intelectual do que têm a dizer.

Incompletude

Embora Said só se refira aos Estados Unidos, sua experiência nos é conhecida. Sua proposta então precisa ser também por nós discutida.

Dado o caráter de incompletude de tudo que concerne ao humano, um humanismo livre do elitismo anterior terá de ter como lema "recepção e resistência". Recepção envolve leitura atenta, sensível e inteligente. Resistência ao que a própria leitura inteligente mostre necessário.

Daí sua proposta de um humanismo "cosmopolita e preso-ao-texto-e-linguagem". Pois, como diz o autor a quem o livro é dedicado, "a linguagem é o único meio de contornar a obstrução da linguagem".
Daí, concretizando a necessidade da resistência, encarná-la na figura do intelectual. Seu papel é, "num modo dialético, oposicionista, revelar (…) e desafiar e derrotar tanto um silêncio imposto como a quietude normalizada do poder invisível".

Com isso, pensaria Said, teríamos um mundo menos tenso, outra vez acessível a acordes harmônicos? Não, concordando com Adorno, afirma exatamente o contrário: "O lugar provisório do intelectual é o domínio de uma arte exigente, resistente, intransigente, na qual, lamentavelmente, ninguém pode se refugiar, nem buscar soluções".

Guardemos umas últimas palavras sobre o admirado Auerbach. Lembro-me de que anos passados, ao servir de mediador ao lado de seu filho, químico de formação, para que recolhesse e cedesse a um amigo alemão as cartas que o antigo assistente de seu pai, Werner Krauss, lhe dirigira, dele ouvi surpreender-se que, depois de tantos anos, a obra do pai continuasse a interessar seus colegas romanistas.

Cosmopolitismo

Said mostra em seu texto por que assim se dava.

Confirmando o cosmopolitismo que propunha, ele, que tivera uma formação também árabe e se empenhara pela luta dos palestinos, o demonstra pelo reconhecimento da obra do romanista judeu-alemão.

Se seu texto não apresenta novidade, é apenas porque sua declaração reiterava o que já se fizera. De todo modo, é importante assinalar que Said não reduzia Auerbach a sua obra-mestra, senão que estendia sua importância ao que são seus maiores ensaios individuais: o que dedicara a "Figura" [ed. Ática], não só fundamental para o entendimento da "Divina Comédia", o sobre "La Cour et la Ville" [A Corte e a Cidade], o sobre Baudelaire.

Em Said e Auerbach, a mesma linguagem simples e refinada nos estimula à resistência. Antes, porém, é preciso que saibamos lê-los.

***

Muito boa essa reação ao "humanismo", em Said, e a constatação dele de que o erro está em afirmar posições "humanistas" parciais, ao invés de um cosmopolitismo. Ser "cosmopolita" implica necessariamente um pluralismo.

Daí a reação de Said aos humanismos segregadores, em consonância com outros pensadores do século XX. Foucault, por exemplo, teria abandonado o humanismo por um motivo simples: como se pode sustentar que tanto o Partido Comunista Francês, como Stálin, ou mesmo os norte-americanos, apóiam-se na mesma noção?

Há algo errado com esse "humanismo", de forma que se tornou um termo obsoleto. Como sugere a resenha acima, Said parece seguir também por essa direção.

2 Comments »

  1. Marcio Pimenta Says

    Catatau, excelente referência você nos traz. Eu iria um pouco mais longe (no sentido de pluralismo apenas :D ) e afirmo que não apenas o “humanismo” foi se deteriorando, mas as demais convicções necessárias ao bem-estar como: solidariedade, compaixão e etc. Não apenas humanistas mas sócio-econômicas também.

    Abraços!

    Made on July 23, 2007 @ 5:30 am

  2. Nikol Says

    What do you think of Obadiah Shoher’s extensive reply to Ed Said at http://samsonblinded.org/titles/edward_said_end_peace_process.htm ?

    Made on September 22, 2007 @ 8:29 pm

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