July 24, 2007

Ação humana e regime das chuvas

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fotografia de Arthur Leipzig

É como diz um amigo geólogo: Modificações no clima e regime global são inevitáveis; mas nada (em termos geológicos) explica essa rapidez.

*** 

Cientistas de quatro países anunciaram ter descoberto os primeiros indícios concretos de que a ação humana causou mudanças nos padrões pluviométricos do mundo durante o século 20.

Na pesquisa, os especialistas compararam as precipitações mensais registradas de 1925 a 1999 com modelos criados por computador para determinar se a atividade humana poderia estar mudando o regime de chuvas.

A conclusão foi de que apenas a influência do homem poderia explicar o aumento anual das precipitações anuais em latitudes médias no hemisfério norte, e a diminuição das chuvas na Índia e em partes da África.

"Nós mostramos que a influência humana tem tido uma influência detectável em mudanças observadas na precipitação média em faixas de latitude", diz o estudo.

"Essas mudanças não podem ser explicadas pela variação climáticas interna ou por influência natural."

Vulcões

Eles acrescentaram que fatores naturais, como erupções vulcânicas, contribuíram para mudanças no padrão pluviométrico global, mas muito menos que a influência humana.

Há vários anos, estudos sugerem que atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, levaram a mudanças na distribuição das chuvas e da neve no planeta.

No entanto, modelos feitos por computador nunca foram capazes de determinar a extensão da influência do homem nessas mudanças, em parte porque, na média, a estiagem mais prolongada em algumas áreas é compensada pelo aumento das chuvas em outras.

O estudo será divulgado na próxima edição da revista Nature, que será publicada na quinta-feira.

(fonte: BBC

Brasileiro, e não desiste nunca

Tenho um amigo, qualificadíssimo, que concorreu a uma vaga de emprego, alguns dias atrás. Correspondia perfeitamente à função, tem qualificações e referências admiráveis (até superiores às dos concorrentes), e se submeteu à seleção. Ficou em… último lugar.

De pronto vem aquela pergunta: o que deu errado? Os outros candidatos eram melhores? Ou faltou alguma competência - subjetiva ou mesmo "objetiva" - ao azarado colega?

Espera aí: "azarado" não é palavra que se utilize em ranking de seleção. Se existe uma seleção, não existe ninguém azarado. Apenas candidatos melhores e piores. É para isso que a seleção serve, certo? 

Mas se uma seleção não pressupõe sortudos e azarados, deve haver um critério que permita delimitar os "bem" e "mal" sucedidos. Inclusive, explicar como alguém mais competente obtém resultados piores que todos os outros. Uma seleção deve ter critérios objetivos, que permitam aos próprios candidatos visualizarem os motivos de eventualmente não serem aprovados.  

Não foi o que ocorreu com o meu colega. O "último lugar" não foi explicado, de forma alguma. Apenas apareceu o resultado, como se os avaliadores não tivessem mais nada a declarar.

Curioso notar que a função "avaliada" era a mesma que exercem os próprios avaliadores. Estavam selecionando candidatos para serem novos colegas de trabalho, sem mediação alguma. E, nesse meio, meu amigo é até melhor gabaritado que alguns dos avaliadores.

Ficou em último. E, por incrível que pareça, ficou em último segundo critérios obscuros, não revelados, não públicos. Critérios que envolveram elementos alheios ao conjunto de competências que realmente interessavam. Outras coisas estavam em jogo, não apenas a competência - e isso explica a última colocação. Mas espera aí, se é uma avaliação de emprego, não é de competências?

O Brasil, definitivamente, tem dessas coisas. Seleções de competências que… não selecionam apenas competências. Mas, como brasileiro, meu colega aprendeu a lição. É, enfim, "brasileiro", e "não desiste nunca" - ou, em outras palavras, descobriu que por aqui são necessárias coisas adicionais para se conseguir qualquer coisa.

Dominic Bonucelli: Carnevale Veneziano

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July 23, 2007

Nos ouvidos do Catatau

Recebi do Marcio Pimenta o convite de listar as músicas que hoje mais rodeiam os ouvidos do Mr. Catatau. Lá vão (sem ordem de preferência, não representam as minhas preferidas, e alguns links são para comparação dos CD´s em lojas):
 
1) Jayme Caetano Braun: Tenho apreciado muito, ultimamente, esse poeta gaúcho. Poemas formidáveis, tocam muito esse que vos escreve. Especialmente "Do Tempo", e "O Bochincho".
 
2) Luiz Marenco: Outro músico gaúcho, da chamada "música nativista". A partir de Marenco, fiquei conhecendo outras figurinhas carimbadas, como Alfredo Zitarrosa e Pepe Guerra. "Rastros e Milongas", e "Quando o Verso vem pras Casa" fazem tremer a espinha, dentre várias outras.
 
3) Almir Sater: gosto muito desse cantor, bem como de Renato Teixeira. O negócio, como diz Luiz Marenco, é "deixar rastros e milongas, sinais de cascos e esporas", para "semear vida adentro, campo afora". Esses dois cantores misturam "rastros" e "milongas" muito bem, nos temas das músicas.
 
4) Tom Jobim: Passarim e Stone Flower. Tom Jobim é sem comentários ;)
 
5) Dream Theater: Mudando de ares, tenho ouvido muito "Images and Words", e Six Degrees of Inner Turbulence. Gosto muito! Quanto a metal em geral, coisas sortidas, de menor importância.
 
6) "Kundun" (de Philip Glass): Gosto da trilha sonora de alguns filmes, especialmente desse.
 
Bom, creio que o "meme" esperava delimitar 6 elementos, e ficaram muito mais. E você, caro leitor, o que tem ouvido?  

O fabuloso gerador de textos pós-modernos

link: elsewhere.org/pomo

Como já mostrou o blog do Idelber, as primeiras anulações de mestrados por plágio no Brasil já começaram a aparecer. Aliás, qualquer professor universitário (especialmente os de algumas faculdades particulares caça-níquel, ou de alunos inexcrupulosos) atualmente deve se deparar com o cotidiano dos plágios. Aos alunos mais descuidados (que recorrem aos plágios, e ainda fazem isso de um jeito tão ruim que chega a ser engraçado), fica a advertência: atualmente já inventaram até mesmo um Farejador de Plágios.

No outro extremo desse mesmo universo fantástico dos plágios e imposturas, existem os plagiadores (que até recebem uma grana), os enroladores de plantão, e os geradores mecânicos de lero-lero. Dentro dessas possibilidades humanas e mecânicas, o apreciador de uma boa verborragia inútil pode contar com um novo instrumento: o "Gerador de Pós-Modernismo" (link acima). Basta recarregar a página para encontrar, a cada vez, um texto extremamente "douto", mas recheado de referências que não levam a lugar algum.

July 22, 2007

Edward Said, Recepção, e Resistência

Publicar um livro é muito fácil. Mas publicar um bom livro, é outro assunto. Que dirá ainda, publicar um livro escrito "com sangue".

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Artigo da Folha (por Luiz Costa Lima), a respeito do último livro de Edward Said, "Humanismo e Crítica Democrática" [pesquisa de preços] 

Recepção e Resistência 

O nosso se tornou um mundo de contrastes chocantes. Um dia, um investidor anuncia bilhões de dólares em um novo negócio. No outro, o mesmo locutor anuncia o massacre de centenas de pessoas, em algum recanto da África ou do Extremo Oriente.

No campo da linguagem, pôsteres e publicidades burilam o charme da redundância, os programas de cultura a reduzem a informações banais, enquanto os informes econômicos se esmeram em cifras e tecnicismos.

As alternativas "conviva ou safe-se" oferecem-se a todos. Só não valiam para uns poucos, como Edward Said [1935-2003]: já muito doente, no ano de sua morte, publicou um conjunto de quatro conferências e um ensaio sobre "Mimesis" [ed. Perspectiva] de [Erich] Auerbach ("Humanismo e Crítica Democrática").

Para os de sua linhagem, não há alternativa: só dispomos deste mundo e estarmos à véspera da morte não nos isenta de estarmos atentos a ele. Resistência é a palavra obsessiva.

A que Said resiste, em seu último livro? À deterioração do termo "humanismo", à fatuidade em que a palavra escrita se converteu: os livros duram nas vitrines por algumas semanas.

A dupla resistência é à mesma deterioração: como recorda Said, apesar de sua tradução para o inglês haver se dado há 50 anos, "Mimesis" permanece o que de melhor nos legou a tradição humanista.

Centro de si mesmo

Por que o termo "humanismo" perdeu força e sentido? Sua história recente o esclarece. A influência do "cogito" -embora não só- converteu o sujeito humano em centro de si mesmo e essencializou seu pensamento.

A produção do sujeito passou a ser vista como comandada pelo que ele quisera que ela dissesse.

Ora, sob a influência de Marx, Freud e Nietzsche, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, [Claude] Lévi-Strauss e [Michel] Foucault desmancharam a pretensa "soberania do sujeito".

Lembro-me do que então, entre nós, se escrevia a respeito.

Os conservadores e os poucos da esquerda que rompiam o cerco da ditadura e chegavam aos jornais uniam suas vozes contra a "morte do homem". Entendiam-na literalmente e protestavam em nome de um humanismo "de tendências totalizadoras e essencialistas".

Era um humanismo, acrescenta Said, que se confundia com a elite do homem branco e de visão eurocêntrica, com seu louvor do Estado-nação e das relações que legitimava.

Apesar do ataque feroz contra esse descentramento do sujeito, o humanismo exclusivista e imperial se tornou perempto. Mas por que não o humanismo enquanto tal? Por várias razões, diz Said. A principal delas a extrai de Vico: (a) há sempre algo radicalmente incompleto e contestável no conhecimento humano.

Se, portanto, ele se julga infalível, se converte em casamata protetora de uns poucos; (b) porque o humanismo "era raramente pensado de modo indagador" e "jamais (conduzia) ao exame radical da ideologia do próprio campo". Ao contrário, impunha-se como um modelo de identidade que deveria ser seguido.

A desestabilização dessa modalidade de humanismo atingiu em cheio suas grandes figuras: Matthew Arnold, T.S. Eliot, como ensaísta, Northrop Frye.

Seu rápido ofuscamento, contudo, não significou o desaparecimento de suas metas. "A política da identidade e o sistema de educação baseado em nacionalidades" permanecem geralmente praticadas, embora "as noções de autor, obra e nação" não tenham mais a confiabilidade de outrora.

Por que então não saudar o desaparecimento do termo? Porque aquela modalidade se confundia com o que pretendia definir. O humanismo "não consiste em retraimento e exclusão"; seu núcleo se baseia na "noção secular de que o mundo histórico é feito por homens e mulheres, e não por Deus".

Assim, o humanismo do sujeito autocentrado não se dissipou, senão que deu lugar ao tecnicismo. Em vez de "humanistas", passamos a ter "profissionais", técnicos que eliminam qualquer componente intelectual do que têm a dizer.

Incompletude

Embora Said só se refira aos Estados Unidos, sua experiência nos é conhecida. Sua proposta então precisa ser também por nós discutida.

Dado o caráter de incompletude de tudo que concerne ao humano, um humanismo livre do elitismo anterior terá de ter como lema "recepção e resistência". Recepção envolve leitura atenta, sensível e inteligente. Resistência ao que a própria leitura inteligente mostre necessário.

Daí sua proposta de um humanismo "cosmopolita e preso-ao-texto-e-linguagem". Pois, como diz o autor a quem o livro é dedicado, "a linguagem é o único meio de contornar a obstrução da linguagem".
Daí, concretizando a necessidade da resistência, encarná-la na figura do intelectual. Seu papel é, "num modo dialético, oposicionista, revelar (…) e desafiar e derrotar tanto um silêncio imposto como a quietude normalizada do poder invisível".

Com isso, pensaria Said, teríamos um mundo menos tenso, outra vez acessível a acordes harmônicos? Não, concordando com Adorno, afirma exatamente o contrário: "O lugar provisório do intelectual é o domínio de uma arte exigente, resistente, intransigente, na qual, lamentavelmente, ninguém pode se refugiar, nem buscar soluções".

Guardemos umas últimas palavras sobre o admirado Auerbach. Lembro-me de que anos passados, ao servir de mediador ao lado de seu filho, químico de formação, para que recolhesse e cedesse a um amigo alemão as cartas que o antigo assistente de seu pai, Werner Krauss, lhe dirigira, dele ouvi surpreender-se que, depois de tantos anos, a obra do pai continuasse a interessar seus colegas romanistas.

Cosmopolitismo

Said mostra em seu texto por que assim se dava.

Confirmando o cosmopolitismo que propunha, ele, que tivera uma formação também árabe e se empenhara pela luta dos palestinos, o demonstra pelo reconhecimento da obra do romanista judeu-alemão.

Se seu texto não apresenta novidade, é apenas porque sua declaração reiterava o que já se fizera. De todo modo, é importante assinalar que Said não reduzia Auerbach a sua obra-mestra, senão que estendia sua importância ao que são seus maiores ensaios individuais: o que dedicara a "Figura" [ed. Ática], não só fundamental para o entendimento da "Divina Comédia", o sobre "La Cour et la Ville" [A Corte e a Cidade], o sobre Baudelaire.

Em Said e Auerbach, a mesma linguagem simples e refinada nos estimula à resistência. Antes, porém, é preciso que saibamos lê-los.

***

Muito boa essa reação ao "humanismo", em Said, e a constatação dele de que o erro está em afirmar posições "humanistas" parciais, ao invés de um cosmopolitismo. Ser "cosmopolita" implica necessariamente um pluralismo.

Daí a reação de Said aos humanismos segregadores, em consonância com outros pensadores do século XX. Foucault, por exemplo, teria abandonado o humanismo por um motivo simples: como se pode sustentar que tanto o Partido Comunista Francês, como Stálin, ou mesmo os norte-americanos, apóiam-se na mesma noção?

Há algo errado com esse "humanismo", de forma que se tornou um termo obsoleto. Como sugere a resenha acima, Said parece seguir também por essa direção.

Cuanto Puedas (Konstantinus Kavafis)

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Y si no puedes hacer tu vida como la quieres,
en esto esfuérzate al menos
cuanto puedas: no la envilezcas
en el contacto excesivo con la gente,
en demasiados trajines y conversaciones.

No la envilezcas llevándola,
trayéndola a menudo y exponiéndola
a la torpeza cotidiana
de las compañías y las relaciones,
hasta que llegue a ser pesada como una extraña.

- Konstantinus Kavafis -

Retirado de "Cien Poemas", de Kavafis. Tradução castelhana de Miguel Castillo Didier [pesquisa de preços]
(Atenção a como a tradução conserva as rimas) 

July 21, 2007

Karl Louis - Fotografia

Karl Louis é um fabuloso fotógrafo, que vive no limiar entre sensualidade e erotismo. Sobre para qual dos lados pende mais o estilo de suas fotos, isso é uma boa questão. ;)
 

July 20, 2007

O Segredo Terrível

Abaixo, consta o trecho de um texto muito curioso, que parece definir muito bem o que vem a ser a tolice. É de um erudito pouco conhecido do século XIX [pesquisa de livros], mas que escreve textos belíssimos. Aqui, permutei os dois últimos parágrafos.

O curioso a se notar é como esse escritor delimita a ignorância: ser ignorante (tolo) não é não saber, mas sustentar a ausência de conhecimento como saber. Enquanto o sábio reconhece a própria ignorância, o ‘tolo’ reconhece a si mesmo como sábio, não ignorante. Fórmula universal…

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A morte de ACM e o lugar do Rei

O Wikipedia talvez tenha sido mais rápido que a mídia: já registrou a morte de Antonio Carlos Magalhães na presente data.
 
ACM era o principal político da Bahia, e um dos principais do Brasil. Mas antes que se "co-memore" a morte dessa figura de peso, talvez não seja inútil formular a pergunta: ACM era uma figura sozinha na política, ou apenas um lugar ocupado em uma rede de relações?
 
Caso acreditemos em figuras que possuem "O Poder", talvez cogitemos que toda a política brasileira muda a partir de hoje. Mas será que o "painho" ACM era painho sozinho, ou se é sempre "painho" para alguém? Nessa segunda hipótese, o quadro não muda. E o lugar do rei - quer dizer, do painho - continua de pé.
 
Pesquisa de livros sobre o PFL e Antonio Carlos Magalhães