Até agora tento compreender o estatuto das
vaias ao presidente Lula, na abertura do Pan. Várias "hipóteses" já foram colocadas. Nenhuma, entretanto, satisfatória.
Para os "direitistas", trata-se de uma manifestação espontânea, popular. É o pasmo de certos jornalistas contra interpretações contrárias: como César Maia teria levado 90 mil pessoas ao Maracanã? Se isso é impossível, a conclusão implícita é a da manifestação espontânea.
Para os "esquerdistas", as hipóteses provém desde a desaprovação dos cariocas pelo presidente, à manipulação dos ingressos pela prefeitura do Rio. No dia anterior, as vaias já estavam lá,
no ensaio geral. Porque não dizer que foram também ensaiadas?
Já
comentamos sobre a ausência de discussão, e a posição estereotipada que adota a maioria dos partidários desses "lados". De um lado, chega a ser cômica a ousadia de afirmar que, nos gritos do estádio, estava representado o povo brasileiro. De outro, sem investigação alguma, tratam-se apenas de hipóteses.
Dos dois lados, pode-se dizer que a formulação de hipóteses tem vantagem sobre a interpretação generalista. Se concluímos que nas vaias estão todos os anseios do Brasil, o assunto termina por aí, como questão de gosto, e não de constatação. Mas, se a manifestação foi anômala - como o foi -, não seria inútil buscar saber mais a respeito. Esquecemos disso, mas não seria a curiosidade o ofício real do jornalista?
Pelo andar da carruagem, tudo indica que tanto pelo lado da imprensa, quanto
do presidente, o assunto parece encerrado.
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Os "dois lados"
Um leitor tentou argumentar que, meramente enunciando e descrevendo os "dois lados" do affair, mata-se a discussão, e as motivações de cada "lado". Mas esse leitor, em especial, esquece - pois ocupa um desses dois lados, e motivações - de algumas coisas:
A primeira é a ausência de discussão efetiva entre esses lados. Há disputa, não discussão.
A segunda é a maneira
estereotipada, e pouco convincente, que cada "lado" da discussão adota para si mesmo como postura. E isso nós vemos no gigantesco abismo brasileiro entre as idéias e a prática, ou na gravíssima confusão entre as esferas pública e privada: boa parte dos ideais políticos, no Brasil, nunca tenderam a funcionar. O que sempre ocorreu foi um amálgama de
projeto, com disposições
efetivas. Teorias de um lado, prática de outro. Mas se a idéia é oportuna demais para motivações que nunca pertenceram à própria idéia, dá-se um
jeitinho. Basta analisar
as ideologias partidárias, e depois as coligações dos últimos anos, para se ter uma noção. As "idéias" são colocadas em prática quando convém. O problema todo é: para
quem convém?
O terceiro aspecto, finalmente, é a grosseria, ou a tosquice, com que idéias são adotadas no Brasil. Adotam-se grandes temas, em sua generalidade, sem considerar efetivamente as consequências, maquinações, implicações. E ainda mais, sem considerar os detalhes. Essa tosquice é responsável: pelo debate não seguir adiante; pelo "debatentes" não conseguirem produzir efeito algum na realidade; e por suas "motivações" serem totalmente equivocadas. Equivocadas, porque os programas da ação, no Brasil, não seguem o das idéias. Mesmo para quem as defende.
É esse sentido de interrogação que se explorou no
outro texto. Não se trata de neutralizar motivações, mas essas outras motivações que não servem para nada.