August 31, 2007

Dia do Blog/Blogday e o Poder do Schmooze

31 de Agosto celebramos o 3º Dia do Blog. É o segundo do Catatau. E como já dissemos naquela outra situação, blogs são como listas de discussão: planificam as vozes, diluem hierarquias, e se empregados na plenitude de suas possibilidades, são um excelente agenciador de possibilidades bem "reais".
 
Segundo a "tradição" do Blogday, sugerimos alguns blogs amigos para os leitores visitarem. Dado que vejo um blog como possibilidade parcial de conferir voz ativa, indicarei esse ano alguns blogs de temáticas para nós não muito "convencionais". Mais abaixo, reproduzo os blogs indicados no ano passado (tão ou mais interessantes que então!). Mais abaixo ainda, o tal prêmio "Schmooze", e implicações sobre o que parece significar um "blog".
 
Blogs sugeridos:
  • Aunt Najma: uma estudante iraquiana que apenas tenta nada mais nada menos do que estudar
  • Indigo-Daisy: um belo blog iraquiano
  • Iraqblogcount: esboço de diretório de blogs iraquianos
  • Healing Iraq: um blog escrito sob o ponto de vista de um dentista
  • Kerblog: um desenhista libanês
Indicações do ano passado (sempre atuais, e com mais algumas):
 
*** 

Recebemos do Rafael e do Marcio o prêmio ‘The Power of Schmooze‘. Como conversei já com o Rafael, a definição desse prêmio é um pouco estranha. "Schmooze" me pareceu mais uma espécie de tirada de vantagem em uma conversa, do que uma verdadeira conversação. Mas, por aqui, adotarei a definição do Marcio: “um esforço em tomar parte de uma conversação e não apenas ficar falando sozinho com as paredes”.

Muito boa essa definição. Pois "conversação" não quer dizer (como fazem alguns blogueiros) que se deve tratar seu interlocutor como um produto, ou como uma espécie de meio para um fim distante (dinheiro ou linkback, por exemplo). O próprio leitor é o fim. Nisso, estabelecer conversações, sejam de que espécie for, para um blog que quer se relacionar de verdade com seus leitores, é obviamente fundamental.

Conforme essa definição, segue a bola adiante a blogs/blogueiros que são a meu ver grandes agenciadores de conversações:

- Marcela: Não conheço outra pessoa que cumpre melhor essa função de agenciar conversações como ela. Excelente leitora, participa de vários blogs. É sempre receptiva no seu, e disposta a conversar nos que lê. Tem boas contribuições, e considera sempre a conversação como fim.

- O Quintus: Gosto muito do seu blog, e vejo também uma atitude constante de buscar conversações com os leitores. Isso é bem visível nos seus Quizz, onde brotam conversas e muita cumplicidade com outros blogueiros.

- O Hermenauta: seu caráter papeador resulta da constância das inúmeras postagens e assuntos. Além das notícias atuais e inusitadas, o ‘Hermê’ nos brinda com considerações retiradas do arco da velha, para mostrar como certos personagens atuais bastante visíveis devem parte da visibilidade a boas doses de óleo de peroba ;)

- Rapadura do Eudes: Sem muito a dizer, além de que o cara criou um fórum para compartilhar o mesmo tipo de procedimento que utiliza no seu: a divulgação de mídias.

Uma observação adicional: agenciar conversa, segundo minha humilde opinião, não significa agenciar conversa fora. Não é aquela gigantesca rede de blogueiros que discorrem sobre o nada, ou sobre pouca coisa. ‘Conversar’ é acrescentar algo, como mostram os blogueiros acima. Não significa conversar por conversar.

Cada vez mais os blogs adquirem espaço no Brasil. O que não pode ocorrer agora é os blogueiros formarem novas "elites" e conchavinhos de círculos que repetem os círculos dos políticos e das socialites: vínculo por conveniência, por politicagem, ou enfim, por um excedente de mediocridade que, reunida, dá aparência de ser alguma coisa.

Consoante certas manifestações já bem antigas, os blogs situam-se hoje na encruzilhada dos dois caminhos: ou se banalizam em vários sentidos repetindo certos vícios "reais" no hipertexto, ou passam a agenciar verdadeiras relações, explorando os caracteres do hipertexto na "realidade". ;)

 ***

Não sei se é pira da minha cabeça, ou "coisa de velho". Mas 10 anos atrás, antes dos blogs, como era vívido o pensamento sobre o hipertexto! Pierre Levy, Guattari, e gente ainda pensando na relação entre duas pessoas citando até figuras como Artaud! Dentro desse caldo, escritores coletivos (ou supostamente coletivos) como Luther Blisset e Hakim Bey apareceram, coletivos foram criados… enfim, muito se pensou! Bela herança!

August 30, 2007

Educação superior privada, e novo informe sobre renda

A primeira é do blog do Paulo Ghiraldelli, que no mesmo movimento de várias outras manifestações, também chama a atenção ao "descalabro" do ensino superior particular de boa parte das faculdades brasileiras:
Na maioria das universidades particulares não há pesquisa – há um engodo. Não há professores bem pagos e a carga de aulas deles ou é exagerada ou é pequena a ponto de fazer com que eles tenham que se deslocar de faculdade em faculdade. As universidades que possuem lucro, não investem em si mesmas, enquanto instituições de ensino. Normalmente, a mantenedora tem lá alguém cujo patrimônio cresce de modo desproporcional.
 
O professor Renato Mezan, há alguns anos, na Folha de S. Paulo, denunciou o ensino particular universitário (e não todo o ensino particular superior, o que é diferente), dizendo que todo este tipo de ensino, com raras exceções, é uma grande mentira. Disse também, na época, como que ele via a atuação do governo e da CAPES. Todos nós sabemos que este governo do Lula é igual ao do FHC em relação ao ensino superior: não criou mecanismo para apertar as universidades, exigindo que elas cumpram o que lhes é obrigatório por lei para usufruírem o nome de universidade. [daqui]
Consoante ao artigo antigo (porém atual) de Renato Mezan, não é inútil lembrar a idéia trivial: quanto mais manifestações dos professores, maior a possibilidade do quadro se reverter.
 
A segunda notícia é do Zero Hora, e vincula a desigualdade brasileira à educação e renda:
As famílias brasileiras gastam em torno de 75% de seus rendimentos em apenas três itens: habitação, alimentação e transportes. Se somadas à educação e à assistência à saúde, as despesas chegam a cerca de 85%. Mas os gastos em educação, que poderiam melhorar o salário, representam só 4,08% do orçamento. Esse retrato surge da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados apurados nos anos de 2002 e 2003, divulgada ontem.

A fotografia também mostra o tamanho da desigualdade no país. Enquanto cada pessoa das famílias mais ricas gastou R$ 1.814,61, entre os mais pobres o desembolso individual foi de R$ 179,44. Ou seja, os ricos gastam 10 vezes mais que os pobres.

Investir em educação aumenta muito a renda futura e, conseqüentemente, a capacidade de gastar. Famílias que contam com um integrante com curso superior ganham R$ 3.817,96, em média, mais do que o triplo das famílias que não têm ninguém com esse nível de estudo. [completo]

Ainda, 10% das famílias teriam renda maior ou igual a 3800 reais, enquanto os 40% mais pobres receberiam em torno de 750 reais. Esses dados são um pouco estranhos, dado que as médias não refletem bem a grande estratificação da sociedade brasileira. Por exemplo, desses 10% mais ricos, a maior parte absoluta recebe em torno de 3800.
 
O que gera um panorama interessante, considerar que quase toda a população brasileira recebe faixa menor ou aproximada de 3800 reais. Renda baixíssima, considerando que a grande maioria que recebe em torno dessa quantia figuraria entre os "mais ricos"!

August 29, 2007

Pedágio: o melhor negócio do mundo

img162/8348/565780bc2d2ca3360bc8bd3xm1.jpgDentre as várias brigas de foice no escuro do governo paranaense com alguns setores da iniciativa privada, a mais recente é a lei que isenta moradores locais de pagar pedágio para transitar em suas próprias cidades.
 
A briga contra os pedágios, empreendida pelo governador Requião, é bem antiga, e remonta à oposição ao governo de Jaime Lerner.
 
Bufando diante do microfone, um representante dos pedágios não deixou de advertir: o governo pagará "por essa absurda lei que nos [concessionárias de pedágio] foi imposta". Ainda, expôs que o povo seria enganado por meros propósitos eleitorais (talvez ele esqueceu que o povo também não precisaria mais pagar pedágio).
 
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August 28, 2007

Edward Said, sobre o Orientalismo

Algum tempo atrás vinculamos uma série de referências preciosas de livros de Edward Said. Depois, um informe sobre seu último livro lançado, "Humanismo e Crítica Democrática" (pesquisa de preços). Lá, apareceu a interessante posição desse autor sobre o papel do intelectual, bem como sua crítica aos humanismos. Ao invés de humanismos em desuso (todo mundo que requer algo para si passa a se auto-intitular "humanista"), a atitude apropriada segundo Said poderia envolver um verdadeiro pluralismo. Ainda, mencionamos como essa atitude pluralista, junto a outros pensamentos do século XX, pode sugerir caminhos de um livre-pensar, que não projeta os próprios temas, mas abre-se para  uma verdadeira relação com o mundo.
 
Aqui, colocamos em pauta a questão de Said sobre o orientalismo. 
 
Em primeiro lugar, ultrapassando a esfera de Said, gostaria de chamar a atenção ao blog do Sr. André Bueno, sobre "orientalismo". Bueno tem vários projetos on-line sobre esse tema. Estudou filosofia e história antiga, e sua tese de doutorado foi sobre Aristóteles e Confúcio. Junto a questões relativas a Edward Said, surpreendeu-me também encontrar no blog dele o nome de François Julien (que comentamos aqui), bem como fartas referências de sinologia.
 
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August 24, 2007

De longe e de perto

Estava já há algum tempo com uma série de artistas que gostaria de apresentar aos leitores. Compilei tudo em um post (daqui por diante talvez fique assim). Vale muito a pena conferir cada um.

Mais abaixo, um texto sobre blogs. 

Sônia Barreto 

Sonia Barreto mistura com grande beleza elementos barrocos, renascentistas, e temas atuais.

Muito interessantes: as remissões a Brueghel; o modo como os personagens brincam com o espaço da pintura; a presença dos livros e mesas, com representações saltam de seu espaço, e interferem na "realidade" representada; e também elementos do Brasil. [recomendação da Marcela]

 

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Trompe-l’oeil é uma técnica artística que, com truques de perspectiva, cria uma ilusão óptica que mostre objetos ou formas que não existem realmente. Provém de uma expressão em língua francesa que significa engana o olho e é usada principalmente em pintura ou arquitetura.

Embora a expressão tivesse sua origem no período barroco, onde os artistas a usavam muito, a técnica em si era antiga, já conhecida dos gregos e romanos, e utilizada em murais, como por exemplo os de Pompéia, onde o típico mural trompe-l’oeil mostrava uma janela, porta ou corredor, com a finalidade de visualmente aumentar o aposento.

Com o superior entendimento das técnicas de desenho e perspectiva alcançados após o Renascimento, os artistas passaram a usar essas técnicas em seus trabalhos, explorando os limites entre imagem e realidade.

 

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August 22, 2007

Câmeras, vigilância, e camuflagem

Alguns dias atrás vi em um jornal como câmeras são e tendem a ser cada vez mais colocadas estrategicamente em locais de trabalho. Iniciativa considerada "louvável" por quase todos os entrevistados.
 
As câmeras são um passo a mais diante de outra novidade: a ausência de paredes ou biombos nos ambientes de trabalho. Atualmente, todo mundo é sistematicamente observado, a qualquer hora.
 
Diferente dos ambientes abertos, as câmeras conferem uma vantagem: o observador não é observado. Com ela, o indivíduo observado não precisa de um observador constante, pois não sabe quando haverá alguém do outro lado da câmera. A própria câmera serve de garantia: registra tudo, sem precisar necessariamente de observadores.
 
Estranho, nisso tudo, a nova prática ser elogiada também pelos observados. Como já vimos, pessoas tendem a ser mais altruístas quando estão sob o olhar de outrem. Mas no caso do trabalho, o liame entre a ‘qualidade’ e a liberdade individual, nesses casos, é bem tênue.
 
Ainda, isso implica em uma certa faceta curiosa das novas relações trabalhistas. Contra a antiga burocracia e rigidez do trabalho, o discurso atual prega sobre pessoas maleáveis, criativas, desenvoltas com a tarefa. Valorizam-se ambientes produtivos, que incentivam as características individuais e subjetivas. Diferente do que ocorria alguns anos atrás, sustenta-se que hoje o trabalho está diretamente ligado às características de uma pessoa. Quem você é está diretamente implicado com o que você faz, e se faz bem.
 
Daí encontrarmos, nessas câmeras, um outro lado do trabalho, inconfesso. Sustenta-se o discurso de que o trabalhador é agora um colaborador: dinâmico, maleável, criativo, e no limite, livre. Mas ao mesmo tempo, desenvolvem-se cada vez mais mecanismos para que ele seja observado, fiscalizado, enfim, que nenhum ato fuja a certas regras explícitas e implícitas. Curiosa é a liberdade que se desenvolve sob vigilância. Seria isso necessário ao trabalho? Não é à toa que se inventam novas noções todos os dias, como a recente "resiliência". Noções - diga-se de passagem - que não implicam nenhum conceito científico: apenas justificação de práticas de viés econômico.
 
Por sob esse tipo de contexto, uma artista holandesa chamada Desiree Palmen desenvolveu um tipo de fotografia muito curioso. Intituladas "Camouflage", ou mesmo "Surveillance camera project", suas exposições tematizam pessoas dissolvidas em ambientes abertos e fechados. As implicações de sua arte são bem sugestivas:
 
 
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August 20, 2007

Do “Medo” ao “Cansei”

Dizem que brasileiro tem memória curta. Mas todos ainda se lembram daquela interpretação melodramática da Regina Duarte durante o "grande medo" que assolou o Brasil - ou uma parte bem específica dele - na primeira eleição de Lula: "Eu tenho medo…".
 
O "medo" conviveu com uma série de índices um tanto confusos na época, tais como a subida do risco Brasil e do dólar. Lembramos quanto esses índices prejudicaram a imagem de Lula, na época, e quanto também devem ter beneficiado muitos especuladores. Sem contar os temas ingênuos de que Lula seria um Chavez, estatizaria tudo, comeria criancinhas, e coisas do gênero. Mas não é esse o assunto.
 
O assunto é a recente foto do movimento "Cansei", vinculada em algumas revistas de grande circulação brasileiras, e que acabei de ver no Marcio Pimenta (que viu no Gomes), e que tomo  a liberdade de reproduzir:
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Para contribuir com o Marcio e com o Gomes, reproduzo o texto que acompanha a foto: 
Se você já cansou de gente que só quer levar vantagem, do governo paralelo dos traficantes, de pagar tantos impostos pra nada, de tanta impunidade, de tanta burocracia, do caos aéreo, de CPI´s que não dão em nada, de ver crianças nas ruas e não nas escolas, de presidiários falando ao celular, de empresários corruptores, de bala perdida, de tanta corrupção, de medo de parar no sinal, de achar tudo isso normal.
Dia 17/8 1h. da tarde mostre sua indignação e faça um minuto de silêncio pelo Brasil.
Apenas continuando a roda de chimarrão, fico me perguntando se existe um brasileiro que não se cansou disso tudo. O curioso, como comentei no blog do Pimenta, é perguntarmos por QUEM hoje em dia cansou, e QUANDO cansou. 
 
Já não estaríamos "cansados" faz tempo? Para quem tem alguma memória, se existe algum "cansaço", pergunto se todos os movimentos sociais legítimos do Brasil não são por excelência a expressão dele. Hoje querem relativizar 500 anos de um Brasil que serviu para tudo, menos para o interesse dos brasileiros. Vários movimentos sociais legítimos foram criados durante o último século, e que estatuto a "opinião pública" confere a eles? O do silêncio, ou da discriminação. Movimento social, para os que nunca os viram e não os conhece, é coisa de vagabundo e desordeiro. Enfim, é o que viram por meios bem indiretos, como certas TV´s (de cumplicidade duvidosa) e revistas (também duvidosas).
 
Os movimentos sociais, portanto, configuram uma bela expressão do que seria um legítimo Cansei. Mas que nada, não lhes damos ouvidos… (e engraçada essa divisão: "nós", e "eles"). Agora que a coisa ficou bem passional e afetou confusamente aqueles 7% da população que vivem com mais de 2 mil reais por mês, querem conferir a verdadeira voz - aquela que não foi concedida a multidões em movimentos sociais - a poucos gatos pingados. Veja só, até nós, blogueiros, estamos comentando a respeito. A voz dos movimentos sociais permanecem lá onde sistematicamente insistem em deixá-las: cansadas, e caladas. Que tipo de reivindicação deles é levada a sério?
 
Pois se esse movimento "Cansei" é apolítico, o Gomes mostrou uma coisa bem engraçada:
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E os movimentos sociais lá, calados, e cansados.
 
***
 
E o movimento Cansei tem até comunidade no Orkut.
 
Interessante visitar os tópicos, e ver nos próprios integrantes uma certa atitude titubeante: para quê mesmo serve o Cansei? E após o acidente da TAM, agora que as investigações prosseguem, e a comoção cede lugar à razão, como é que fica? O movimento Cansei tentou nascer junto com o último acidente aéreo; mas passados os ânimos, não se desenvolve, não encontra "espírito" algum.
 
Outros participantes, ainda, vem com o velho argumento do povo como massa de manobra. O "povo" não participa do Cansei porque é alienado, contemplado com o Bolsa Família, e enfim, prefere "não pensar". Raciocínio complicado, e que de muitos modos compartilha de certas idéias um tanto ultrapassadas.
 
De tudo isso, o que continua realmente estranho é toda essa voz conferida ao Cansei. Quem cansou,  e para quem é a voz dos cansados? Como os "cansados" lidariam com os movimentos sociais, já efetivamente "cansados" há décadas?
 
***
 
Como não poderia deixar de ser, esse post também tem ressonâncias com esse texto do Marcio Pimenta, e esse outro do Rafael.
 
O texto do Marcio chama a atenção aos movimentos sociais, e como um movimento "cívico" tenta se destituir de seu próprio caráter político.
 
O do Rafael trata de um manifesto contra a ausência de sentido dos "cansados". Sem querer querendo, uma ressonância bem próxima nos 3 blogs ;)
 

August 18, 2007

Devem mesmo estar loucos?

Lembram-se daquele filme, Os Deuses devem estar Loucos? Foi produzido em 1980, e mostra uma tribo de bosquímanos africanos que encontram uma garrafa de coca-cola. A garrafa interfere nas relações da tribo, e um deles resolve devolvê-la aos "deuses".
 
Os bosquímanos (ou Khoisan) vivem no deserto do Kalahari, na África. Têm estatura menor do que os outros homens, são perfeitamente "adaptados" ao ambiente, e desenvolvem uma cultura complexa e própria. Diz-se que seu DNA é mais complexo do que o dos outros homens, indício de que os boxímanes seriam os seres humanos mais "antigos".
 
No século XIX, os invasores ingleses notaram uma diferença anatômica: bosquímanos têm glúteos e genitais (femininos) avantajados. Como nessa época os impérios misturavam um certo grau de ciência com fascinação (e uma gigantesca dose de preconceito), esse tipo de contexto rendeu a criação de uma figura: a Vênus Hottentote, uma mulher levada à Europa para "expor" seus traços anatômicos.
 
Para quem não viu o filme, vale muito a pena. Especialmente para prestar atenção sobre como outras culturas dizem muito a respeito da nossa. O Rapadura Açucarada disponibilizou para download (um achado!).
 
 

August 16, 2007

Livros

Soube do lançamento de alguns livros muito interessantes. A última referência, em especial, é para mudar toda a Realidade (;))

 

1) Lógica e Forma de Vida (pesquisa de preços): Trata-se da tese de doutorado de Alexandre Machado sobre Wittgenstein. Recebeu o prêmio de melhor tese de 2004, pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia. O livro é sobre o conjunto da filosofia de Wittgenstein. Mais informações podem ser encontradas no blog de Alexandre Machado, especialmente nesse post.

 

2) Arqueologia dos Prazeres (pesquisa de preços): Escrito por Fernando Santoro, o livro detém-se em várias noções antigas relacionadas ao prazer, às culturas de si, e à felicidade. É o resultado de um curso de extensão apresentado pelo autor. Pequeno review: "O livro expõe os princípios e argumentos das disputas pelo valor dos prazeres entre os filósofos gregos, sobretudo Sócrates e seus discípulos. Capítulos: Mitologia, Fisiologia, Erística, Erótica, Catártica, Dialética, Eudemonia e Terapêutica". Parece correlacionar algumas noções presentes no último Foucault, com pesquisa direta de filosofia antiga.

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3) História da Província de Santa Cruz, que vulgarmente chamamos Brasil (pesquisa de preços): Esse livro - um dos primeiros relatos sobre o Brasil - resultou em dois pequenos textos do Catatau, lembram? Um, sobre o "monstro marinho" que apareceu no Brasil em 1564; outro, sobre a "vulgaridade" de chamar esse lugar de "Brasil". Pois o livro - disponível on-line (vide posts) na Biblioteca Nacional - saiu pela Jorge Zahar. Parece que essa edição adapta o português para a atualidade. Conservaria também as figuras?

4)  Livros do Leandro: Dizem que outras pessoas detém a chave da existência, do universo e tudo o mais. Mas depois do lançamento dos livros do Leandro, não restará pedra sobre pedra. Pelo menos até o último livro de suas obras completas, o Ascendendo à Luz ;)

 ***

Mais duas observações:

Preços de Livro

Não é novidade que o mercado editorial brasileiro não corresponde à realidade dos brasileiros. Hoje fui a um lugar onde os livros (novos) estavam com 50% de desconto. Maravilha! Mas com apenas uma questão: alguns sebos cobram igual, e sempre!

Em vários casos, salta aos olhos como um livro estrangeiro é mais barato do que o nacional. Não me refiro ao importado, estratosfericamente sobretaxado.  Mas ao preço que o gringo paga, relativo ao preço dos livros brasileiros. Um exemplo recente é o ‘A Grande Guerra pela Civilização‘, de Robert Fisk, como mencionamos: enquanto a edição brasileira custa, em média, 120 reais, a edição original custa em alguns lugares 55 reais! 52 reais!

Outro exemplo são vários tipos de obras publicadas no exterior, como obras completas, ou títulos publicados em papel mais barato. O livro deixa de ser um objeto de ostentação, e se torna o que é: um livro. 

Moral da história: o gringo, que já ganha mais, paga relativamente menos.

 

Oportunidades de publicar um livro

Como todos sabemos, publicar um livro é relativamente fácil. Difícil é publicar um bom livro. Para publicar um livro, muitas vezes, basta ter os contatos certos, e jogar a qualidade no lixo. Mas para publicar um bom livro…

Nesse contexto, o  ‘Na minha Rolleiflex‘ divulgou um link muito interessante, sobre editoras que confeccionam e imprimem livros apenas sob demanda. Um excelente recurso para o mercado editorial, e oportunidades para novos autores. Os livros são impressos não sob tiragem, mas por encomenda. Isso favorece tanto a divulgação dos autores (pela internet, por exemplo), quanto barateia o processo editorial.

***

Ufa… Voltamos ao ar

O Catatau ficou fora do ar por mais de um dia. Estava viajando, e quando cheguei, cadê o blog?

Pesquisei para saber a respeito no fórum do blogsome, e nada. Apenas um tópico de outro blog, que foi deletado por ser ‘made for adsense’, e por copiar material. Teriam deletado o Catatau por isso também? Caso sim, só tenho a protestar por gesto tão arbitrário.

Depois, começaram tópicos de outros blogs deletados. Tentei explicar a situação, pois os administradores nem sequer advertiram, avisaram, sobre nada.  

Por fim, voltamos ao ar. Com uma boa dose de insegurança. Não foi a primeira vez que isso aconteceu, e imediatamente já procurei outro servidor. Gosto muito do blogsome, é uma plataforma quase perfeita, confere plasticidade quase total ao administrador. Além do mais, é gratuita. Um maravilhoso empreendimento, nesses tempos em que quase tudo tende a ser pago. Espero apenas que os administradores aperfeiçoem suas avaliações!

Sigamos! 

tags: livro livros bibliografia filosofia historia do brasil mercado editorial blog blogs blogsome

August 14, 2007

Melô do pós-graduando e do bolsista

http://www7.rio.rj.gov.br/cgm/comunicacao/publicacoes/prestandocontas/edicoes/65/img/3.gif

- E aí, o que você faz?
- Faço pós-graduação.
- Sim, mas no quê você trabalha?
- Faço minha pesquisa de pós-graduação.
- Ah, então você é apenas estudante, ainda não trabalha… (com ar de admiração)
- Sim, mas tenho bolsa, e a bolsa…
- A bolsa é para não pagar a mensalidade, né? Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que também ganhava bolsa, conseguiu 50% de desconto.
- Não, não é esse tipo de bo…
- Ele(a) está quase terminando a pós. Depois, vai fazer mestrado. Mas antes, a especialização
- Mas é que eu faço…
- Mas e a pós, é apenas nos finais de semana, não é mesmo? E o quê você faz durante todo o resto do tempo?
- …

***

Chega aquele parente que você não vê há tempos:

- E aí, como vão as coisas?
- Tudo bem. Ufa (ar de alívio), estou quase terminando a pós
- Mas então, você ainda não trabalha?
- Bem… estou fazendo minha pesquisa da pós, super-ocupado agora que estou no final e…
- Mas e o resto do tempo (referindo-se à semana, aos dias úteis), o que você faz?
- …

***

Um amigo liga:

- E aí cara, vamos sair?
- Cara, hoje não posso, estou super-atarefado com a pesquisa
- Ei, mas hoje é sábado
- Sim, mas estou apertado
- Duvido que você esteja apertado e não tenha 2 horas para sair (com ar de indignação)
- Pior é que estou, tenho que terminar uma tarefa para a semana que vem, e já estou há duas semanas fazendo isso, sem folga nem nos fins de…
- Ah, entendo (com ar de ceticismo e desaprovação). Também vivo ocupado.
- Então, que bom que compreende
- Mas todos nós temos os nossos problemas. Os seus não são justificativa para não vir, e (…)
- …

***

E tem aqueles que, pelo simples fato de para eles "não trabalhar" (com muitas aspas), o bolsista só poderia ser um vagabundo:

(…)
- Então você ainda não trabalha?
- É que faço pós, e…
- Tá, mas que pós você faz?
- Faço mestrado/ou/doutorado em…
- Ei, espera aí, você disse que fazia pós
- Sim, faço mestrado/ou/doutorado
- Não, primeiro vem a pós, depois a especialização, depois o mestrado e então o doutorado
- Sim, mas existe uma diferença, a pós stricto sensu, e a lato sensu. "Pós" é tudo isso junto, e faço mestrado/ou/doutorado
- Nunca ouvi falar disso, acho que não é bem assim. Mas então você faz mestrado/ou/doutorado…
- Sim.
- É, mas ainda tem que fazer MBA. É o último nome em negócios, bem melhor do que pós…
- …

Variação I

- Ah, entendi, você faz mestrado/ou/doutorado. Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que fez mais ainda: fez PHD.
- …

Variação II:

- É, tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinhoque também faz pós, e ainda trabalha
- …

 ***

- Ah, então você faz pós? Também fiz pós, mas já terminei
- O que você fez?
- Fiz ASDFPQPIURUIR na Uni-Esquina, e APDOFDUR, na Fa-Cil
- Hmmm
- Os professores de lá são super-renomados. São melhores que os da Federal. O curso é relâmpago, último nome em educação empresarial. E ainda os preços são super-baixos.
- O.o
- Você faz Federal, né? Mas vai nessa, continua se dedicando que um dia você chega lá
- Hum… Obrigado
- Mas e aí, você trabalha?