August 6, 2007

Depressão e pressão no trabalho

Um estudo envolvendo 1.000 participantes com 32 anos de idade revelou que 45% dos casos novos de depressão ou ansiedade apresentados no grupo estavam associados à alta pressão no trabalho.

Os pesquisadores definiram um trabalho estressante como aquele onde o profissional não tem controle sobre sua rotina, trabalha longas horas, com prazos não negociáveis e grande volume de trabalho.

O estudo, publicado na revista Psychological Medicine, sugere que o empregador precisa fazer mais para proteger a saúde mental dos trabalhadores.

A equipe do King’s College, em Londres, trabalhando com pesquisadores da Dunedin Medical School da University of Otago, na Nova Zelândia, entrevistou homens e mulheres com 32 anos de idade que estão participando de um estudo de longo prazo, o Dunedin Study. [BBC]

O estudo intitula-se Feeling the pressure: work stress and mental health. E a reportagem continua com prescrições dos autores sobre melhores condições de trabalho:

Richie sugere que é importante aliviar o estresse neste grupo, e aponta caminhos:

"Estudos interventivos mostram que há pelo menos duas abordagens produtivas para se reduzir o estresse no trabalho", ele diz.

"É possível ensinar as pessoas a lidar com situações estressantes por meio de aconselhamento psicológico ou você pode mudar o trabalho de forma a diminuir as pressões."

(…) Comentando o estudo, o especialista em psicologia e saúde Cary Cooper, da University of Lancaster, na Inglaterra, disse que empregos estão se tornando cada vez mais estressantes.

"Temos de fazer as pessoas trabalharem com mais flexibilidade, tirando vantagem da tecnologia ao invés de deixá-las no escritório por longas horas".

"Também temos de fazer o gerente se comportar de um jeito diferente - gerenciar pelo elogio e recompensa ao invés da punição e entender que as pessoas precisam sentir que têm controle sobre seu trabalho".

Antes que seja divulgado por essas bandas, é importante notar como esse tipo de estudo é curioso. Ele se situa na cruzada dos dois caminhos.

De um lado, como vemos nas prescrições dos autores, são propostas intervenções no ambiente de trabalho, para redução do stress. O pensamento é o seguinte: trabalhadores sob pressão tendem a deprimir; pessoas deprimidas rendem menos no trabalho; logo, as relações de trabalho devem ser mais produtivas, e com menos pressão, para que os próprios funcionários rendam melhor, e não tenham (de seu lado) prejuízos subjetivos maiores.

Esse tipo de visão pertence a um contexto bem específico: locais onde o ser humano é (minimamente) respeitado, a justiça funciona, as relações trabalhistas legais são visivelmente aplicadas, e o contexto do desemprego não chega a níveis alarmantes.

Por outro lado, é interessante notar que, mudando o contexto, esse tipo de intervenção se desloca. Intervenções focadas no ambiente de trabalho tendem a perder seu valor quando há um excedente grande de desemprego, quando relações trabalhistas legais não são fiscalizadas, os salários são baixos pela competição no mercado, o próprio mercado não obedece propriamente à livre-iniciativa, e por fim, quando - por todos esses fatores - o emprego tende a ser instável.

Para isso, basta ver um grande número de profissões em que a alta pressão é diretamente relacionada à alta rotatividade, e ao grande número de profissionais ociosos no mercado: os salários diminuem, a rotatividade é alta, há sempre outros profissionais disponíveis… E podemos ver muito bem as consequências psicológicas disso.

Sem contar como o alto índice de desemprego e informalidade contribuem para bons estudos sobre depressão e pressão.

Resta esperar, e ver como tal tipo de estudo será divulgado por aqui. 

 

***

Em contexto semelhante, um dos últimos textos do Le Monde Diplomatique:

Em uma manhã de outubro de 2006, dentro do próprio edifício central, chamado de ‘‘Colméia’’, do Tecnocentro onde 12 mil empregados criam os novos modelos da Renault, um engenheiro atirou-se do quinto andar. Determinada, sua família obteve o reconhecimento do suicídio como acidente do trabalho e vai processar o empregador por ‘‘erro imperdoável’’. Dois outros suicídios, em dezembro de 2006 e em fevereiro de 2007, levam os sindicalistas a se expressar publicamente sobre as condições de trabalho às quais os empregados da empresa são submetidos. A transformação da obrigação normal do trabalho em uma obrigação de resultados (o ‘‘Contrato 2009’’) criou uma contradição impossível de resolver. O presidente-diretor-geral da Renault, Carlos Ghosn, comprometeu-se a aumentar o dividendo por ação em 250%.

Como converter tal aposta financeira em objetivos de produção? É simples! Basta dar nome aos bois: um crescimento de vendas de 800 mil veículos entre 2005 e 2009 e o lançamento de 26 novos modelos em três anos. Cada empregado fica pessoalmente comprometido. Quem se recusar a assinar o documento da entrevista na qual fixou, com seu superior hierárquico, seus objetivos pessoais, recebe uma carta com aviso de recebimento que notifica e adverte: deve prestar contas rapidamente. A avaliação contínua e individualizada exerce uma pressão constante sem possibilidade de discutir as contradições técnicas e temporais, individuais e coletivas desse desafio.



2 Comments »

  1. _Maga Says

    Muito interessante, Catatau!

    “Intervenções focadas no ambiente de trabalho tendem a perder seu valor quando há um excedente grande de desemprego” isso é bem verdade. Na clínica observamos que boa parte da demanda que chega o “fator” estresse é o mais evidente.

    E essa filosofia de não cuidar das pessoas, se estende além do ambiente de trabalho, como nas faculdades onde o ambiente é super estressante e a aprendizagem muitas vezes sai prejudicada por isso.

    Um abraço

    RE: Esse é o problema, Marcela. Tendemos a achar mais fácil intervir nos indivíduos, quando são apenas os “sintomas” de uma dinâmica que é exterior a eles…
    bjs,

    Made on August 10, 2007 @ 3:03 am

  2. _Maga Says

    Hehehe

    pode me excluir deste “entendemos” hahahahahaha

    Eu atuo na clínica por falta de opção (apesar de gostar muito do trabalho, e saber que em certos problemas a gente precisa focar no indivíduo em algum momento para ter uma mudança mais produtiva). Na verdade ao contrário de quase a totalidade dos meus colegas eu não entrei na faculdade pensando na clínica, mesmo antes de saber o que seria essa tal de psicologia (como podes imaginar continuo tendo apenas uma vaga ideia rs) eu já queria atuar mesmo era com grupos de pessoas e não pessoas isoladas. Hoje o meu ideal é estudar mais para poder ir nas escolas. E esta postura acaba refletindo na clínica.

    Beijos

    RE: Também acho superlegal a idéia de trabalhar com grupos. Especialmente gosto muito de psicologia comunitária, social, e institucional, aí grupos é uma constante. Pena que ainda não pude me encaminahr p essas áreas… Mas gostaria muito!
    No fim das contas, a questão do indivíduo não deve ser descartada. Mas é interessante notar que na prática cotidiana a balança pesa sempre p o indivíduo! É a unidade concreta que permite ‘ver’ o problema, mesmo quando ele não se situa aí!
    bjs,

    Made on August 11, 2007 @ 10:39 pm

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