August 14, 2007

Melô do pós-graduando e do bolsista

http://www7.rio.rj.gov.br/cgm/comunicacao/publicacoes/prestandocontas/edicoes/65/img/3.gif

- E aí, o que você faz?
- Faço pós-graduação.
- Sim, mas no quê você trabalha?
- Faço minha pesquisa de pós-graduação.
- Ah, então você é apenas estudante, ainda não trabalha… (com ar de admiração)
- Sim, mas tenho bolsa, e a bolsa…
- A bolsa é para não pagar a mensalidade, né? Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que também ganhava bolsa, conseguiu 50% de desconto.
- Não, não é esse tipo de bo…
- Ele(a) está quase terminando a pós. Depois, vai fazer mestrado. Mas antes, a especialização
- Mas é que eu faço…
- Mas e a pós, é apenas nos finais de semana, não é mesmo? E o quê você faz durante todo o resto do tempo?
- …

***

Chega aquele parente que você não vê há tempos:

- E aí, como vão as coisas?
- Tudo bem. Ufa (ar de alívio), estou quase terminando a pós
- Mas então, você ainda não trabalha?
- Bem… estou fazendo minha pesquisa da pós, super-ocupado agora que estou no final e…
- Mas e o resto do tempo (referindo-se à semana, aos dias úteis), o que você faz?
- …

***

Um amigo liga:

- E aí cara, vamos sair?
- Cara, hoje não posso, estou super-atarefado com a pesquisa
- Ei, mas hoje é sábado
- Sim, mas estou apertado
- Duvido que você esteja apertado e não tenha 2 horas para sair (com ar de indignação)
- Pior é que estou, tenho que terminar uma tarefa para a semana que vem, e já estou há duas semanas fazendo isso, sem folga nem nos fins de…
- Ah, entendo (com ar de ceticismo e desaprovação). Também vivo ocupado.
- Então, que bom que compreende
- Mas todos nós temos os nossos problemas. Os seus não são justificativa para não vir, e (…)
- …

***

E tem aqueles que, pelo simples fato de para eles "não trabalhar" (com muitas aspas), o bolsista só poderia ser um vagabundo:

(…)
- Então você ainda não trabalha?
- É que faço pós, e…
- Tá, mas que pós você faz?
- Faço mestrado/ou/doutorado em…
- Ei, espera aí, você disse que fazia pós
- Sim, faço mestrado/ou/doutorado
- Não, primeiro vem a pós, depois a especialização, depois o mestrado e então o doutorado
- Sim, mas existe uma diferença, a pós stricto sensu, e a lato sensu. "Pós" é tudo isso junto, e faço mestrado/ou/doutorado
- Nunca ouvi falar disso, acho que não é bem assim. Mas então você faz mestrado/ou/doutorado…
- Sim.
- É, mas ainda tem que fazer MBA. É o último nome em negócios, bem melhor do que pós…
- …

Variação I

- Ah, entendi, você faz mestrado/ou/doutorado. Tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinho que fez mais ainda: fez PHD.
- …

Variação II:

- É, tenho um amigo/tio/irmão-do-primo-do-vizinhoque também faz pós, e ainda trabalha
- …

 ***

- Ah, então você faz pós? Também fiz pós, mas já terminei
- O que você fez?
- Fiz ASDFPQPIURUIR na Uni-Esquina, e APDOFDUR, na Fa-Cil
- Hmmm
- Os professores de lá são super-renomados. São melhores que os da Federal. O curso é relâmpago, último nome em educação empresarial. E ainda os preços são super-baixos.
- O.o
- Você faz Federal, né? Mas vai nessa, continua se dedicando que um dia você chega lá
- Hum… Obrigado
- Mas e aí, você trabalha?

15 Comments »

  1. leandro Says

    Boa!!

    E após a pós:

    - E aí, o que está fazendo?
    - Eu sou professor de ASDFGA na LKASJDLKJ.
    - Só dá aula, não trabalha?

    Abraço!

    RE: Pior que ouvi esses dias de um professor:
    - Bom, eu trabalho E dou aula
    - Ué, como assim, dar aula não é uma profissão?
    - É, mas para mim é mais um hobbie, uma coisa a mais
    - …

    Made on August 14, 2007 @ 1:44 am

  2. Fernanda Says

    Adorei!!!!! É assim mesmo !!! rs

    Made on August 14, 2007 @ 2:08 am

  3. Robson Says

    hahahaha
    Catatau, você não idéia de como esse texto descreve a minha vida! Aliás, muitas vidas, né?
    Comigo acontece exatamente isso. A minha família, acho, já entendeu que eu faço mestrado. O resto do mundo que pergunta o que eu faço, eu digo: trabalho como pesquisador. Pronto, problema resolvido, e ao invés da reprovação, ainda olham admirados!
    Abraço.

    RE: Taí uma boa resposta, Robson! Acho que contenta a todos, quem pergunta, e quem responde!
    abração,

    Made on August 14, 2007 @ 12:15 pm

  4. _Maga Says

    Eu sei que é duro…

    mas pense pelo lado positivo: enquanto alguns desdenham, outros, como eu, morrem de inveja… ai ai… (eu sei, é feio, mas é verdade… rs)

    Então: parabéns, Catatau, você está fazendo um trabalho muito legal, fazendo algo que é importante não apenas para ti, mas para toda uma comunidade acadêmica e espero que mais tarde, como professor, para toda uma geração de grandes pesquisadores, cientistas, psicólogos, filósofos e afins. O mundo precisa de mais cabeças pensantes!

    beijos

    Made on August 14, 2007 @ 3:53 pm

  5. Renato Says

    Hoje você acordou inspirado! Esta praga disseminada de cursos caça-níqueis tornou o prefixo pós sinônimo de vagabundice. Sem falar nos MBA da vida, que se cursa em finais de semanas alternados.

    Dura esta vida de estudante graduado.

    Made on August 15, 2007 @ 1:28 am

  6. Renato Says

    Leandro, os anúncios Google estão te sacaneando! Zé Moleza é demais.

    RE: Vixe, apareceu Zé Moleza no anúncio? Q coisa, heheh
    Opa, eu não sou o Leandro não!
    abração,

    Made on August 15, 2007 @ 1:30 am

  7. Marcio Pimenta Says

    Hahhahahahhaah!!!! Muito bacana Catatau! Lembra aquela crônica que fiz.

    Mas então, a solução apontada pelo Robson faz muito sentido. Tenho feito o mesmo, inclusive no meu cartão de visitas. :D

    Abraços!

    RE: É verdade, Marcio!
    Também adotarei a mesma prática, daqui por diante, hehehe
    abração,

    Made on August 15, 2007 @ 3:37 pm

  8. Neuzi Says

    Meu amigo, acho que os pós-graduandos não precisam ficar nesse chororô de adolescentes incompreendidos que precisam provar que o que fazem é importante, por isso não gostei desse post. Parece que vc quis dizer que todos os que não entendem a “missão nobre” de um doutorando são idiotaa, achei meio arrogante sua crônica. Se as pessoas não o compreendem, parte pra outra, vai conversar com quem compreende, desencana, afinal, não precisamos ser aprovados por todo mundo… ou precisamos????

    RE: Oi Neuzi!
    Não tive intenção de escrever nos termos em que você comentou. Pelo contrário, quis é mostrar como o estatuto do pós-graduando, do acadêmico, da pesquisa, é desvalorizado no Brasil, a ponto de pesquisa não ser considerada trabalho, e confundirem mercado com trabalho e com pesquisa (daí, se a pesquisa não estiver ligada ao “mercado”, não serve. Mas, e a pesquisa pura, por exemplo?). Daí, a banalização que encontramos por aí…
    Melhor dizendo, o post não se refere à “ignorância” dos que acham essas coisas dos pós-graduandos; mas ao próprio contexto que faz com que hoje em dia achemos (nós todos, não é uma imputação individual, mas um tema coletivo) estranho como um pós graduando “não trabalha”! Poxa, somos todos nós que nos deparamos com isso, gente próxima, nós mesmos… daí não ser um “ataque” ou arrogância a papéis individuais, mas apenas quis chamar a atenção a esse tipo de contexto…
    bjs,

    Made on August 15, 2007 @ 11:15 pm

  9. caminhante Says

    Só quem passou/passa por isso sabe que as coisas acontecem igualzinho você escreveu! Nem vejo você tentando provar alguma coisa com isso, eu li teu post como uma crônica do cotidiano. A reação dos amigos, o papel da bolsa (que nem é tanto assim e a maioria nem ganha), a diferença entre as diversas pós, enfim, todo o imaginário em torno disso. É uma fase muito gostosa, mas tbm muito solitária, com leituras tão específicas que não dá pra dividir com quase ninguém…

    Eu, como ex-estudante de mestrado sem bolsa (e hoje mestre) agradeço pelo que você escreveu.

    RE: Oi Fernanda!
    Obrigado pela tua contribuição. Foi bem por aí mesmo, uma crônica do cotidiano, que quis explorar! O que é legal é ver as reações que o post teve: como tem gente que já passou por isso!!!
    bjs,

    Made on August 15, 2007 @ 11:47 pm

  10. Rodrigo Urubatan Says

    Desculpem me intrometer, mas para um professor conseguir dar aulas decentemente, ele precisa ter experiência de mercado …
    Se ele fizer o que parece que o post incentiva, que é apenas ficar enfiado dentro da universidade, sem tentar ter vivencia de mercado, as aulas dele serão no minimo pobres, e normalmente uma porcaria …
    O ideal é o cara tentar no minimo fazer algumas consultorias durante o tempo da pós, e torcer para um maluco destes ter pelo menos feito um estágio durante a faculdade, por que se não fez estágio antes, pouco provavel que consiga ser um consultor melhor que mediocre, e vai ter sérios problemas no futuro …

    n”ao estou dizendo que estudar não é importante, só quero dizer que não substitui a experiência de mercado.

    RE: Mas aí é que está, Rodrigo,
    A questão não é dizer que academia é uma coisa, e mercado outra. Essa é a raiz do preconceito que pretendi chamar a atenção no post. Não há mercado de um lado, e pesquisa de outro; ainda mais: reduzir tudo ao mercado é incoerente, simplesmente porque não existe apenas pesquisa aplicada. Onde fica, se os professores “fora do mercado” são “ruins”, a pesquisa pura? É jogada para o espaço, simplesmente porque se antecipa que, se não serve para o mercado, não é ‘trabalho’. Mas temos que nos lembrar, por exemplo, que um país avançado só é avançado quando tem pesquisa pura.
    Outra coisa: será que onde se prega que pesquisa e mercado são algo que não se aproximam, será que nesses lugares o ensino é bom? Ora, dado que alguém é pesquisador, deve ser bom na área, certo?
    Ainda: pode-se dizer que um pesquisador precise do mercado para ter “contatos”. Concordo com isso, para as áreas aplicadas. Concordo, também, com a ressalva: precisa-se ter contatos, porque no Brasil não é apenas networking que funciona. Precisamos sempre de um jeitinho, de algo mais. Isso, meu caro, é um dos elementos que fazem nascer precisamente o tema desse post! Pesquisador fica ali, “não trabalha”.
    abração,

    Made on August 16, 2007 @ 12:55 pm

  11. Cássio Augusto Says

    Haha… muito bom… e pior que é assim mesmo!!!

    Made on August 16, 2007 @ 2:35 pm

  12. Rafael Says

    Tentei comentar por dois dias, mas o blog estava fora do ar.
    ¬¬

    O post ficou ótimo!
    Ri muito lendo isto!
    =D

    RE: Poisé, Rafael!
    Espero que agora o Catatau fique sempre no ar.
    abração,

    Made on August 17, 2007 @ 10:53 am

  13. Neuzi Says

    Continuando os comentários desse post e das réplicas e tréplicas acima, fico contente que não tenha sido intenção, mas chamo a atenção para o cuidado que temos que ter com palavras (Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! - Cecília Meireles - Romanceiro da Inconfidência), pois tive o cuidado de reler tudo novamente e a percepção anterior de arrogância permaneceu. Deu a impressão de que quem “trabalha” é ignorante.
    Aproveito para comentar tbém o comentário do Rodrigo logo acima. Ele usou o termo “mercado”, palavra complicada nos nossos tempos, pois tem conotação divina (no sentido religioso mesmo) para os adoradores e conotação diabólica para os contestadores, ao falar dessas coisas eu prefiro usar a expressão “vida real” (que também tem uma boa dose de ironia e parcialidade, portanto aceito os tomates que me couberem nessa querela hehe).
    Pois bem, esse desvio é para dizer que também tenho muito medo do que possam fazer os professores e pesquisadores que nunca viveram na “vida real” (ou seja, no “trabalho” ligado ao “mercado”), falo como alguém que teve que cair nela muito cedo (13 anos) e que se tornou pesquisadora e professora bem mais tarde (+ ou - aos 35). Se por um lado tem coisas que são irrecuperáveis na minha formação, tem coisas que aprendi na tal “vida real” que não troco por nada que aprendi na vida acadêmica. Acho que o Guattari fala de algumas coisas nesse sentido no “Micropolíticas”, que acho bem legal mas não consigo achar agora, e foi aí que seu post “pegou”, pois, intencionalmente ou não, ele denuncia aqueles que desprezam o acadêmico num “tom” que despreza o não-acadêmico, e isso eu achei arrogante. Mas o pior nisso tudo é que geralmente os que desprezam o acadêmico o fazem por desconhecimento, já os que desprezam o não acadêmico sequer tem esta justificativa.
    Também achei estranho o resgate da discussão entre “ciências puras” e “ciências aplicadas”, coisa velha isso. Como nasce o objeto de pesquisa das tais “ciências puras”? Por geração espontânea? Se for isso, sinto muito, os pesquisadores merecem os preconceitos que recebem, pois se desligaram da realidade, se colocam mesmo na condição de “deuses” e merecem os tomates por isso.
    Como pensadores que somos (acho que, apesar do défit citado acima, posso me colocar também neste lugar), temos que provocar debates e não afirmar verdades.

    RE: Oi Neuzi!

    Compreendo seu ponto de vista, e concordo com a atenção que deve ser dada às palavras! Mas não sei, tentei ler e reler o texto sob outros pontos de vista, e não achei fácil a interpretação sob o ponto de vista da arrogância. Mas, para que não seja mera questão de gosto, penso que devemos encontrar um ponto em comum:

    - Compreendo em que sentido você chamou a atenção à arrogância: você pode aceitar que o pós-graduando seja de certo modo ‘desvalorizado’, mas que isso não é importante; o importante é que ele pensa que sua tarefa seria mais “importante” que as outras; deparando-se com as outras pessoas, que não compreendem o estatuto supostamente ‘privilegiado’ de um pós-graduando, ele encararia essa falta de compreensão com desdém, e arrogância.

    - Pelos exemplos, as reticências no final da frase denotariam isso, conforme tua interpretação. Mas penso que, pelos próprios exemplos, outras interpretaçoes bem mais fáceis ocorrem:

    1 - No TOM da conversa, geralmente os interlocutores adiantam os próprios juízos; o pós-graduando tenta explicar o que realmente faz, como é uma pós, como está difícil, e coisas do gênero; o interlocutor continua a insistir nos juízos prévios; aí, as reticências indicam que mesmo com a tentativa, continuaram os juízos prévios, e aí a compreensão fica difícil… a situação fica com um certo impasse, e se pensarmos a respeito, até como professores - como você e o Leandro disseram - enfrentamos esse tipo de impasse. Daí o texto ficar nesse tom do impasse… quem nessa situação não teve um impasse desses? (acho difícil arrogância!)

    2 - Os próprios interlocutores do suposto pg são PESSOAS PRÓXIMAS: parentes, amigos, ou situações do cotidiano. Isso denota muito mais um tema cotidiano, do que uma atitude do pg. Não se trata de preservar uma suposta função, mas as reticências mostram que mesmo numa conversa um pouco mais demorada há um certo estatuto confuso do pg que permanece…

    3 - Mais do que arrogância, fica no diálogo a tentativa do pg de deixar claro sobre o que faz. Se isso não é claro, não se trata nem do papel do pg, nem do interlocutor, e nem de uma suposta arrogância. Trata-se, pelo contrário, do próprio estatuto confuso de um pós-graduando, que gera esse tipo de conversa.

    4 - No diálogo do pg com o outro pg da Fa-Cil, ocorre uma espécie de pasmo ou desdém. Mas aí não é difícil adivinhar pq, né?

    Minha intenção foi mais ou menos fazer o que a Fernanda disse: uma crônica do cotidiano, muito comum e facilmente identificável. Coisa de imaginário. Isso mostraria muito mais um certo estatuto confuso do pós-graduando, fruto de várias situações inusitadas como essas, do que essa interpretação da arrogância. Penso que a maior questão do texto foi essa iniciada pelo Rodrigo, e que vc também comentou. Caso digamos que isso é arrogância, o assunto está encerrado, não evocamos essas outras questões, e fica feio para quem escreveu, né? Mas aí tudo vira novamente uma questão de gosto!

    VIDA REAL

    Aí, vc evoca outras questões: por exemplo, o próprio estatuto de um pós-graduando, e de como certos modos da vida acadêmica contrariam a própria “vida real”.

    Mas com Guattari mesmo penso que poderíamos nos perguntar sobre a relação academia x vida real. Academia não é vida real? Pouco provável. A própria academia é posta na vida real de fato, mesmo que não o seja (para alguns) de direito. E aí poderíamos nos perguntar o que acontece com a academia, para que ela não seja vista como vida real, mesmo estando nela. Primeiramente, temos certas dinâmicas bem dinossáuricas, que são fruto desde um projeto desenvolvimentista, até com certas nuances herdadas do regime militar. Vc sabe mto melhor disso q eu: faculdades com estrutura burocrática, sem fiscalização quanto a boa parte das atividades, professores e funcionários encostados, e bolsistas ganhando muito bem enquanto mamam nas tetas do governo (e não generalizemos!). Esse tipo de dinâmica foi um pouco (não inteiramente) cortado nos últimos anos, com esse recente valor a um tema bem geral chamado “mercado”, o desprivilégio de instituições públicas, e a desvinculação do ensino com um projeto de nação (seja qual for). Hoje se aprende para o mercado, o ensino adquire ares muito mais privados do que públicos.

    E se o aprendizado não serve para a esfera pública, serviria então para quê? Mais ou menos nesse tipo de questionamento o papel dos PG´s fica confuso. Não são mais marajás temporários encostados, nem são considerados “trabalhadores”. Estão em uma certa posição confusa, entre uma pesquisa que não necessariamente serviria para propósitos de mercado, e uma prática de mercado que julga a pesquisa. Daí esse tipo de situação do texto aparecer aos montes, e daí também uma nova questão sobre as relações sobre pesquisa pura e aplicada.

    Penso que você interpretou mal, nesse sentido, a relação pura/aplicada. Não se trata de um debate epistemológico do estatuto de uma ciência pura, mas de como os interesses, nos últimos anos e no Brasil, penderam quase integralmente para pesquisa aplicada. É só vermos na TV. “Pura” e “aplicada”, nesse sentido, são relegadas também à questão do mercado. Um pesquisador em tecnologia informática tem maior probabilidade, por financiamentos públicos e também privados, de receber verbas do que um pesquisador da Ilíada, por exemplo. Nesse sentido chamei a atenção a ‘puro’ e ‘aplicado’. Pesquisa de aramaico tem funções sociais e “mercadológicas” bem diversas de uma pesquisa com implementação de tecnologias. E, nesse sentido, é claro para que lado pendem os financiamentos, nos últimos anos…

    Não se trata de dizer que uma das duas pesquisas seja a mais importante. Não é essa a questão. O que se deve chamar a atenção, por exemplo, é como tecnologias são importadas no Brasil, e aí a pesquisa pura cede lugar à aplicada, deixando o desenvolvimento dos recursos para outros países, e a aplicação para cá… Não se tratou, portanto, de chamar a atenção a temas “antigos”, mas ao que implicava o próprio comentário do Rodrigo: o valor do “mercado”.

    Voltando à questão do papel da academia, fica difícil para um pesquisador de literatura medieval ter experiência na “vida real”. Mas agora, diremos que sua pesquisa não vale nada? Diremos que ele “não trabalha”? Fica fácil ver aí como fica confuso seu lugar na sociedade. Está espremido, entre um mercado que não tem iniciativas culturais maiores, e um governo que não se decide sobre que projeto de sociedade almeja… (muito embora, essa falta de decisão também tenha um valor bem positivo) Vejo muito mais alguém de estatuto dúbio, do que um arrogante. E situações que mostram esse estatuto são mais ou menos o que tentei mostrar no post.

    Enfim, o comentário mais longo do blog, rssss

    bjs,

    Made on August 19, 2007 @ 5:52 pm

  14. yu Says

    Rindo ai…que situaçao a nossa! Ja DRA., passei por tudo que vc disse e ainda acrescentaria: segue o que o orientador diz? É puxa-saco (nem bajulador é! rsrs é algo mais…..chulo! rs). Nao segue? è folgado, relapso, pensa que é o dono do mundo, o dono do conhecimento! rsrs Nao ha acordo, nunca agradamos… Ainda bem, pois como dizia Nelson Rodrigues: ” toda unanimidade é burra”. Abraços
    Yu
    PS: nada de arrogancia, mas sim bom humor, brincadeira!

    Made on August 20, 2007 @ 1:56 am

  15. Renato Says

    Não querendo colocar mais lenha na fogueira, mas já colocando, este dilema pura x aplicada não leva a nada. Ou melhor, indica um certo preconceito com os desbravadores, que não pensando no mercado, desenvolvem conceitos que só futuramente serão aplicados. Pelo menos é assim na minha área, a engenharia. Usamos, hoje, ferramentas matemáticas que, quando descobertas, aparentemente não serviam para nada (pesquisa pura). Evidentemente que a pesquisa aplicada tem um retorno imediato e um marketing francamente favorável. Mas a ciência só se desenvolve com ambas.

    RE: E o que você diz para a engenharia certamente é o modelo para as outras áreas, Renato. O interessante é como, atualmente, os interesses estão deslocados para a aplicação, e não p o desenvolvimento. Pelo menos isso ocorre no Brasil, e penso que por motivos bem estratégicos (como não ter tecnologias próprias, e sim importar tecnologias e manter dependência econômica). E esse tipo de coisa gera os preconceitos de dizer que pesquisa ‘pura’, ou em termos gerais, o “desenvolvimento” (opondo-se à aplicação) não serve para nada.

    Made on August 22, 2007 @ 1:35 am

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