August 22, 2007
Câmeras, vigilância, e camuflagem
Alguns dias atrás vi em um jornal como câmeras são e tendem a ser cada vez mais colocadas estrategicamente em locais de trabalho. Iniciativa considerada "louvável" por quase todos os entrevistados.
As câmeras são um passo a mais diante de outra novidade: a ausência de paredes ou biombos nos ambientes de trabalho. Atualmente, todo mundo é sistematicamente observado, a qualquer hora.
Diferente dos ambientes abertos, as câmeras conferem uma vantagem: o observador não é observado. Com ela, o indivíduo observado não precisa de um observador constante, pois não sabe quando haverá alguém do outro lado da câmera. A própria câmera serve de garantia: registra tudo, sem precisar necessariamente de observadores.
Estranho, nisso tudo, a nova prática ser elogiada também pelos observados. Como já vimos, pessoas tendem a ser mais altruístas quando estão sob o olhar de outrem. Mas no caso do trabalho, o liame entre a ‘qualidade’ e a liberdade individual, nesses casos, é bem tênue.
Ainda, isso implica em uma certa faceta curiosa das novas relações trabalhistas. Contra a antiga burocracia e rigidez do trabalho, o discurso atual prega sobre pessoas maleáveis, criativas, desenvoltas com a tarefa. Valorizam-se ambientes produtivos, que incentivam as características individuais e subjetivas. Diferente do que ocorria alguns anos atrás, sustenta-se que hoje o trabalho está diretamente ligado às características de uma pessoa. Quem você é está diretamente implicado com o que você faz, e se faz bem.
Daí encontrarmos, nessas câmeras, um outro lado do trabalho, inconfesso. Sustenta-se o discurso de que o trabalhador é agora um colaborador: dinâmico, maleável, criativo, e no limite, livre. Mas ao mesmo tempo, desenvolvem-se cada vez mais mecanismos para que ele seja observado, fiscalizado, enfim, que nenhum ato fuja a certas regras explícitas e implícitas. Curiosa é a liberdade que se desenvolve sob vigilância. Seria isso necessário ao trabalho? Não é à toa que se inventam novas noções todos os dias, como a recente "resiliência". Noções - diga-se de passagem - que não implicam nenhum conceito científico: apenas justificação de práticas de viés econômico.
Por sob esse tipo de contexto, uma artista holandesa chamada Desiree Palmen desenvolveu um tipo de fotografia muito curioso. Intituladas "Camouflage", ou mesmo "Surveillance camera project", suas exposições tematizam pessoas dissolvidas em ambientes abertos e fechados. As implicações de sua arte são bem sugestivas:











leandro Says —
Eu diria que isto está relacionado com o “vigiar e punir” do Foucalt. Mas como Foucalt não é bem simples assim e tals, eu deixo pra lá, hehehe
RE: Olha que tem a ver p caramba, heim?!
))
abração,
Made on August 22, 2007 @ 4:44 pm
Rafael Says —
Depois do comentário do Leandro, eu me reservo ao direito de dizer:
belas imagens!
^^
RE: Que nada guri, solta o verbo!
abração,
Made on August 22, 2007 @ 7:21 pm
Robson Says —
A idéia é bizarra. Aposto que os “vigiados” que aprovaram a idéia estavam sendo vigiados quando questionados.
Você está certo, Catatau. Não existe liberdade sob vigia. Existe seguimento de ordens, apenas.
Abraço.
RE: Tem esse elemento mesmo, Robson: quem, sob observação, não se comportará de modo a receber consequências positivas? Entramos no mesmo papo que tínhamos com a Marcela, no outro post : pessoas tendem a ser mais altruístas sob que circunstâncias? Parece que, nesse caso da câmera, sob o prenúncio de prováveis consequências aversivas… O que lhe parece?
abração,
Made on August 22, 2007 @ 10:58 pm
Epsiloncrux Says —
E a idéia do “profissional reflexivo”(Donald Schön, The Reflective Practitioner, 1983)?
Lendo seu post, comecei a conectar com as coisas que venho estudando para a minha pesquisa.
Esta idéia de manter o trabalhador sobre a mira de uma câmera coloca o trabalhador como responsável por qualquer coisa…
Vigilância no sentido de responsabilizar, como punição.
Hum… interessante.
Abçs Mister!
RE: Grande Mister!
Bom revê-lo por aqui. E muito interessantes também tuas observações. Não tinha pensado nisso: além do olhar, é imputada ao observado também uma grande dose de responsabilidade. Duas faces de uma mesma moeda: ameaça de punição (digamos assim, mas n é bem preciso), e ao mesmo tempo, delegação de responsabilidade. Curioso que essa responsabilidade delegada também não é produtiva, positiva; fica como um fardo a mais na atuação do observado. Em contexto de emprego, deixa de ser uma iniciativa “livre” para ser uma delegação a mais…
Sobre esse livro, não conheço. Do que se trata?
abração!
Made on August 23, 2007 @ 12:46 am
Robson Says —
Concordo, Catatau.
As pessoas tenderão a produzir mais, ainda que se sintam esgotadas, para evitar conseqüências aversivas do patrão. Ninguém pode ser feliz sob esse regime.
Você conhece o livro “Coerção e suas implicações”? É um clássico da área de análise do comportamento, sendo admirado, inclusive, por quem não é da área. O autor é Murray Sidman.
RE: Não conheço não… Tentarei dar uma olhada. Ultimamente estou surpreso com as indicações de livros dos leitores. Parece ser coisa fina mesmo!
abração,
Made on August 23, 2007 @ 4:52 pm
Epsiloncrux Says —
Tudo certo?
Bom, sobre o livro, parece não haver edição nacional. Do mesmo autor, em nossa língua, tem o “Educando o Profissional Reflexivo” (Artmed).
Penso que os dois ratam da formação de profissionais que reflitam na e sobre a ação. No entanto, pouquíssimo é comentado a respeito das condições nas quais se dão tal reflexão. O que interessa é a reflexão, e nesse sentido aparece o problema da responsabilização.
Manja? O profissional não executa sua atividade de modo eficaz por falta de reflexão na e sobre sua prática… e bla, bla, bla.
A origem da “reflexividade na ação” remonta ao filósofo americano John Dewey, autor do livro “Como pensamos”. Schön se utiliza das idéias deste filósofo para propor uma nova “epistemologia da prática”, pautada na reflexão.
Estou estudando-o para minha pesquisa.
Mas é isso, conversamos mais futuramente.
Parabéns pelos textos, são ótimos!
Abraço!
RE: Fiquei pensando numa coisa:
Isso não carrega uma certa ambiguidade, a de que, se por um lado o profissional ‘reflexivo’ pode fazer melhor sua tarefa, por outro ele pode contestar a própria tarefa que faz? Ou esse papo se dá em outro contexto?
abração,
Made on August 25, 2007 @ 5:00 pm
Epsiloncrux Says —
Pois é, não havia pensado nisso. Boa1 Vou começar a tomar isso em conta nas análises futuras. É algo que merece uma melhor reflexão…
Valeu!
Abração!
Made on September 5, 2007 @ 8:00 pm