August 29, 2007
Pedágio: o melhor negócio do mundo
Dentre as várias brigas de foice no escuro do governo paranaense com alguns setores da iniciativa privada, a mais recente é a lei que isenta moradores locais de pagar pedágio para transitar em suas próprias cidades. - Primeiro, os diversos meios de opinião anunciam: Faltam investimentos em infra-estrutura no Brasil. Logo, o governo não pode ser "dono" das estradas. Elas devem ser geridas por via privada, pois assim os concessionários cuidariam efetivamente delas. Conclusão: tudo deve ser privatizado.
- Com o apoio (maior ou menor) da opinião pública, os contratos se efetuam. Cada fatia da rodovia para uma concessionária. Daqui por diante, ela cuidará do trecho.
- Tudo é previsto por contrato. Inicialmente, as concessionárias não desenvolverão melhorias nas estradas. Estas, caso ocorram, são todas pré-contratadas. Via de regra, as concessionárias apenas conservam.
- Mas as melhorias são abissalmente discrepantes, diante do tamanho do lucro. O governo tenta regular o preço dos pedágios. Mas o que regula realmente o lucro de uma concessionária é o acaso: o número de carros que por lá passa. Portanto, quanto mais carros, e maior o preço…
- Todos os investimentos antes da concessionária assumir o trecho são do governo. Lá no início todos nós acusávamos o governo de não cuidar das estradas. Mas quem é que reforma elas inteiramente, para entregar à iniciativa privada? Não são as concessionárias. Alguém adivinha?
- Finalmente, nós que apoiávamos as privatizações, pagamos o pedágio. E para quem vai o dinheiro? Absolutamente, não vai para aqueles moradores locais, que recebem salário mínimo e são contratados para ficar naqueles guichês 8 horas por dia. Nem para a equipe médica. Nem para o governo (não seria até melhor que fosse?). O dinheiro todo vai para indivíduos cujo nome não sabemos, mas que sem dúvida vivem muito bem, e muito "acima". São os verdadeiros "empreendedores". Não é à toa que o pedágio é o melhor negócio do mundo. Só falta conjecturar para quem.
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E todo esse negócio é muito curioso: será que o governo realmente deixa de lado a infra-estrutura? Que tipo de mecanismo é esse que faz tudo esburacar, para em um segundo momento recompor milagrosamente tudo com dinheiro público, entregando à iniciativa privada?
E aquele antigo argumento, de que o que deve ser privado "não dá lucro"?
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Sem contar como esse tipo de raciocínio se estende para outras áreas:
- Primeiro, denunciamos o descaso do governo;
- Depois, por um artifício, concluímos que a solução para o descaso do governo é passar tudo à iniciativa privada (não seria cobrar efetivamente do governo para que ele cumpra sua função?);
- Finalmente, nos surpreendemos: o governo, que antes não regulava aquilo que era de sua responsabilidade, agora não regula também a iniciativa privada.
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O mais interessante é como isso tudo foge ao debate esquerda x direita, ou modelos que privilegiam o Estado ou a iniciativa privada: de um lado, o Estado abandona a infra-estrutura; de outro, não ocorre regulação efetiva nem pelo Mercado, nem pela esfera pública.
Tudo fica ao Deus dará. E o Catatau que o diga: "natura desvairada por esses ares"





leandro Says —
Não sei o que ficou melhor: o texto ou a foto!
Made on August 29, 2007 @ 6:09 pm
Robson Says —
Concordo em gênero, número e grau.
A inconsistência entre não arrumar e arrumar para os outros não era conhecida por mim. Só coloca mais lenha na fogueira.
Valeu, Catatau.
Made on August 30, 2007 @ 12:26 pm
Vinicius Says —
Meu na boa…
pedágio implica no direito de ir e vir… rs
Made on August 30, 2007 @ 3:49 pm
Cássio Augusto Says —
E viva a nossa “opinião pública” que ñ é pública… mas sim construida pelos aparelhos privados de hegemonia a favor do capital!!! hehe
Made on August 30, 2007 @ 4:53 pm
_Maga Says —
Bem lembrado Vinicius! Direito de ir e vir…
É Catatau, mais uma vez você pegou no ponto!
Gostei demais dessa atitude do atual governo.
Beijos
RE: É verdade, Marcela… É óbvio que a ação tem propósitos políticos. Mas qual não tem? A própria ação de implementação dos pedágios era também política… embora é um pouco complicado mensurarmos o valor disso tudo, especialmente se os pontos acima estiverem um pouco corretos.
E dizer que a ação tem propósitos políticos não desvalida ela. Ora, não estamos tratando de milhares de pagantes de pedágio?
bjs,
Made on August 31, 2007 @ 1:11 am