September 29, 2007

Terra, escravidão e blogs

Escravidão existe no Brasil? Em um país como esse, em que a informalidade reina em maior ou menor nível até sobre as instituições, aí está um lugar onde a escravidão continua possível, e provável. 

O blogueiro Leonardo Sakamoto foi ameaçado de ser processado pela senadora Katia Abreu (PFL DEM-TO) a respeito de algumas insinuações de que ela apoiaria grandes proprietários de terra, e de quebra, indiretamente algumas práticas de escravidão.

Em uma entrevista com a senadora Abreu, destaco a passagem:

Nunca vi trabalho escravo no Brasil. Tem de diferenciar o que é irregularidade trabalhista e trabalho degradante, coisas erradas, da escravidão.”

Ora, o que isso quer dizer? Para além da opinião da senadora, há a evidência discursiva:  existe sim uma grande confusão entre irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Isso para não falar da escravidão. Se a confusão já provém do nível formal "irregularidade trabalhista", o que não dizer dos trabalhos informais?

Deixando a questão acima provisoriamente em suspenso, a discussão atual é: a bancada ruralista do senado afirma ter encontrado "irregularidades" na fiscalização do trabalho escravo. A Comissão Pastoral da Terra, em contrapartida, acusa que tal procedimento do senado busca obstruir a atuação da fiscalização móvel, precisamente pelas ligações de senadores a grandes "empreendimentos" de agronegócio. O affair Sakamoto encontra seu sentido nesse contexto atual, como se vê em sua resposta.

Retornando à questão, as definições devem ser feitas: trabalhar de modo que cada vez mais o "funcionário" seja mais dependente do trabalho, recebendo menos do que gasta, e devendo cada vez mais aos "empregadores", isso é irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Mas não deixa de ser trabalho escravo

Para quem quer tirar a dúvida, a CPT publica todo ano um relatório sobre escravidão e violência no campo, no Brasil. Obstruir a fiscalização móvel pelo argumento de que estaria cometendo excessos precisamente por denunciar, isso soa bem estranho.

September 28, 2007

Personal Friend

Agora inventaram o Personal Friend:

Seus amigos não te ouvem? Está se sentindo só? Não tem companhia para dar uma volta no shopping? Seus problemas acabaram! Depois do personal trainer e do personal stylist, um novo profissional batizado com o modismo do prefixo em inglês chega ao mercado para atender aos solitários de plantão: o amigo de aluguel.

O personal friend (ou amigo pessoal), criação do empresário carioca Silvério Veloso, de 42 anos, surgiu em novembro do ano passado. A um preço que restringe a clientela a membros das classes média e média alta - R$ 300 por sessão, com duração de 50 minutos - ele já conta com cerca de 20 "amigos" fiéis.

- É como se eles estivessem comprando mesmo um amigo. A gente conversa sobre tudo. A pessoa fala o que quiser, é um amigo de confiança que ela tem ali, mas é tudo profissional - explica Silvério, graduado em educação física, com mestrado em gestão de negócios e especialização em empreendedorismo comportamental.

Escritório itinerante: O personal friend faz questão de enfatizar que não entra no ramo da psicologia. Seu diferencial seria o fato de ir aonde o cliente está. Sem escritório fixo, Silvério realiza as sessões em shoppings, restaurantes ou numa caminhada no calçadão

Espera aí: psicólogo é amigo em consultório? Uma relação amistosa entre cliente e serviço, na qual o serviço é a própria amizade, é uma relação de amizade?

Sempre houveram vínculos de amizade entre clientes e prestadores. Mas que estatuto damos à amizade, agora que ela é o próprio conteúdo da prestação de serviços?

O que torna uma atividade interessante imaginar como será no futuro o "mercado" de amigos: currículos nas agências de emprego, entrevistas, consultorias, amigos coletivos para motivação nas empresas, organizações terceirizadas…

Como o que vai para a entrevista com o currículo de "personal friend". Senta-se na cadeira, e para dar tom de credibilidade, menciona: "Fui indicado pelo Sr. Fulano". O entrevistador dá-se conta, e pensa: espere aí, se Fulano me indicou um personal friend, não deve ser meu amigo. Quem indicaria um personal friend? emoticon

***

Uma descrição da função (no título, "Homem- hetero, personal friend"):

Ser Amigo Profissional, de forma Ética e Moral, acompanhando pessoas individuais, família, ou grupos de negócios, nas mais variadas situações, desde uma simples caminhada nos shoppings ou parques, a passeios por outras cidades ou eventos comerciais, de forma descontraída, ouvinte e motivadora, através de uma postura séria, para que a pessoa possa sentir-se segura e confortável com privacidade e sigilo preservados.

Outra descrição ("homem hetero - personal friend (mulheres)" ):

 Você anda sem companhia para se divertir? Precisa de alguém para conversar? Sente-se sozinha? Personal Friend. Atencioso, simpático e inteligente. Qualquer dia ou horário. Roteiros personalizados. Sigilo absoluto.

Ainda, um anúncio de jornal. A coisa começa a se alastrar. Interessante também é elucidar o que significa esse "empreendedorismo comportamental".  

September 26, 2007

Ahmadinejad nos EUA

 Como sabemos, o presidente iraniano Ahmed Ahmadinejad visita os EUA, para a Assembléia Geral da ONU. Ele foi inclusive convidado para falar na Universidade de Columbia.
 
Obviamente, Ahmadinejad foi para os EUA por motivos políticos. Entretanto,  pouco da cobertura se referia a isso. Em sua maioria, as notícias foram uma espécie de protesto contra a presença do presidente iraniano por lá. Inclusive sua ida a Columbia rendeu algumas ofensas diretas vindas de dirigentes, do tipo "você exibe todas as características de um ditador cruel e mesquinho".
 
Os temas gerais da cobertura sobre sua presença foram colocados em sentido moral: como dar voz a um líder que não admitiria a existência do Holocausto, seria contra homossexuais, financiaria o terrorismo, discriminaria as mulheres, e ainda gostaria de visitar o marco zero do WTC? Só poderia ser uma "farsa" deixá-lo fazer isso, como disse Condoleeza Rice.
 
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Carros, “egoísmo”, e bicicletas

Da ocasião do falecimento do filósofo André Gorz, o O Estrangeiro publicou um texto intitulado A ideologia social do carro a motor. Vários trechos interessantes, como o que segue:
A massificação do automóvel efetua um triunfo absoluto do ideologia burguesa no nível da vida diária. Dá e sustenta em todos a ilusão de que cada indivíduo pode procurar o seu próprio benefício às custas de todos os demais. Leva ao egoísmo cruel e agressivo do motorista que em todos os momentos está figurativamente matando os "outros", que aparecem meramente como obstáculos físicos à sua velocidade. Este egoísmo competidor e agressivo marca a chegada do comportamento universal burguês, e tem existido desde que dirigir tornou-se lugar comum. ("você nunca terá o socialismo com aquele tipo de pessoas", um amigo alemão ocidental me disse, triste ao ver o espetáculo do tráfego de Paris).
O leitor "direitista" pode ter a interpretação que quiser, especialmente sobre o termo "burguês". Aliás, o próprio Gorz se sente bem à vontade utilizando esse termo e assumindo uma posição alheia tanto à "direita" quanto à "esquerda". Uma coisa, contudo, não se pode negar: a convivência pública, o ir e vir, pautando-se pela individualidade e pelo egoísmo. "Egoísmo" não se refere ao sentido passional, mas a projetar privilégios privados na esfera pública. Daí basta sairmos de casa para vermos "egoísmos" para todo lado. Andar de bicicleta, nisso tudo, é por vezes uma aventura bem interessante. 

September 24, 2007

Tropa de Elite, osso duro de roer

img146/4218/posterod6.jpgO atual affair dos supostos livros didáticos "bolcheviques" brasileiros (que "manipulariam" a "alma" de "nossas crianças"), deixou mais uma vez escancarada uma idéia um tanto trivial: de que certas figuras do jornalismo brasileiro são no mínimo precipitadas para julgar o que julgam; que o rigor do julgamento não corresponde ao rigor da apuração dos dados; e que enfim, nada mais fazem do que apoiar sua suposta competência nas posições que ocupam. Escrever com mínimo rigor, que é bom…
 
Tropa de Elite não passou desapercebido por alguns desses pseudo jornalistas, intelectuais, blogueiros e "filósofos" (muitas aspas!). Não passou desapercebido, mas segundo o princípio exposto acima: muitos foram enfáticos em criticar negativamente aquilo que nem chegaram a ver.
 
Afora a violência exacerbada, e toda a montagem que se assemelha muito a filmes "da moda", Tropa de Elite tem uma série de boas idéias desenvolvidas. Se o crítico não conceder que o enredo é bom, não há como negar que o filme é bom nas entrelinhas. Por mais que o espectador possa em alguns momentos recair nos velhos hábitos de enxergar mocinhos e bandidos, o filme escancara aquilo mesmo que ocorre: uma guerra de fato, numa sociedade civil de direito; a "merda com chip´s" (a melhor expressão de Arnaldo Jabor, em toda uma carreira de duvidosas expressões) convivendo em um mesmo regime de relações com "nós, da classe média e média alta" (portanto, "nossos" modos de vida são flagrantemente comprometidos com esses outros, desprivilegiados); a corrupção generalizada e sua tênue fronteira com o "jeitinho brasileiro"; e a crônica confusão entre as esferas pública e privada.
 
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September 22, 2007

Reflexão e experiência

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"Reflexão sem experiência e experiência sem reflexão são ambos sem poder algum".
(Wundt, W. Lectures on human and animal psychology(1894-1907, p. 8)

September 20, 2007

Dicas para impressão de livros raros em pdf

Quem aprecia livros, sabe que atualmente mais e mais edições clássicas são escaneadas, e disponibilizadas na internet. Entretanto, imprimir tudo fica muito caro, e ler no computador não é muito agradável.
 
As edições originais são geralmente escaneadas em formato .pdf . Mas, via de regra, o trabalho não se faz de modo que se economizem páginas na hora da impressão. O Acrobat Reader não tem boas opções de impressão, e geralmente o leitor ou imprime duas páginas por folha, deixando a letra pequena demais, ou imprime apenas uma página, e sobra espaço em A-4.  
 
Nesse contexto, dois programas muito úteis ajudam a resolver o problema: um deles chama-se Fineprint, e o outro PDFFactory.
 
O Fineprint funciona como uma espécie de impressora, que cria uma impressão virtual ou simulada. Nela, aparecem várias novas instruções para a impressão "real", como redimensionamento de página (uma opção muito útil, porém ausente no Acrobat Reader), aplicação de marcas d´água, opções para deletar e acrescentar novas páginas, e várias outras.
 
Quanto ao  PDFFactory, além de reunir também várias outras opções, permite exportar novos arquivos em .pdf
 
Por exemplo: livros originais com letras grandes podem ser impressos em 4 páginas por folha; já livros com letra muito pequena, em 2 páginas por folha, ampliando o tamanho da letra. Os outros editores de impressão permitem imprimir em 2 ou 4 páginas por folha. A diferença é a possibilidade de editar o tamanho da letra, das margens, a ordem das páginas, e deletar páginas eventuais.
 
Além dos links acima, várias versões são disponíveis no 4shared.

September 18, 2007

Sobre os tesouros arqueológicos do Iraque atual

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As sociedades rurais iraquianas são bem diferentes das nossas. Seu conceito de "civilizações antigas" e "herança" não coincidem com os estabelecidos por nossos próprios estudiosos. História é limitada às estórias e glórias de seus ancestrais diretos, e sua tribo. Então, para eles, o "berço da civilização" é nada mais que deserto com "regiões" de cerâmica, que eles tem o direito de explorar, sobretudo, por serem senhores de sua terra e donos de suas posses. Do mesmo modo, caso fossem capazes, essas pessoas não hesitariam em tomar o controle dos campos de petróleo, poque essa é "sua terra". Pela vida no deserto ser dura e por terem sido "esquecidos" por todos os governos, sua "vingança" nessa realidade é monitorar e aproveitar toda pequena oportunidade de ganhar dinheiro. Um selo, uma escultura ou uma tábua cuneiforme vale $50 (25 libras) e é metade do salário médio de alguém empregado pelo governo, no Iraque. Os saqueadores são notificados pelos compradores que para um objeto ter validade, deve conter alguma inscrição. No iraque, os fazendeiros consideram suas atividades de "saque" como parte de um dia normal de trabalho.
Esse relato pertence a um dos últimos artigos de Robert Fisk, a respeito dos cuidados para com o patrimônio histórico iraquiano.
 
Desde a ocupação, esse tipo de informação permaneceu uma incógnita: como são tratados os tesouros históricos e arqueológicos de lá? Quase nada se disse. A despeito de dados arqueológicos, o mais próximo que encontrei foi o de um soldado evangélico norte-americano, muito surpreso por se deparar com uma suposta moradia de Abraão. Um blog muito interessante é o IW&A, especificamente sobre arqueologia, mas cujas atualizações foram suspensas. Mas vale muito a pena explorar. A foto acima é um achado do blog, retirada de um site do Departamento de Defesa norte-americano. Esse outro blog comenta a respeito de um "baralho" chamado Archaeology Awareness cards (aludindo aquele outro, de alvos iraquianos), precisamente sobre tesouros arqueológicos.
 
Uma coisa, em todo caso, é certa: outros "tesouros" por lá não padecem de ausência de cuidado algum ;)
 
*** 
 
Falando em islã, uma antropóloga brasileira terminou uma pesquisa de doutorado com muçulmanos brasileiros:
A partir de uma análise antropológica do universo islâmico em comunidades muçulmanas de São Paulo e de São Bernardo do Campo, a antropóloga Francirosy Campos Barbosa Ferreira constatou que o ser muçulmano, além de significar uma entrega total a Deus por meio das orações — e das palavras, gestos e ações que a acompanham —, representa uma entrega corporal que envolve os cinco sentidos.
 
(…) Em sua pesquisa, a antropóloga observou a presença de um “comportamento restaurado” no mundo muçulmano. Esse conceito, criado pelo diretor de teatro americano Richard Schechner inspirado pelos trabalhos dos antropólogos Clifford Geertz e Victor Turner, propõe que a performance teatral é adquirida por meio da experiência, ou seja, da repetição e do constante aprimoramento das ações e do comportamento.
 
(…)São esses comportamentos, ou performances, que irão modelar os cinco sentidos. De acordo com a antropóloga, o paladar é diferenciado porque há uma série de alimentos que não podem ser consumidos. A visão é treinada para um comportamento mais recatado: um homem não deve olhar nos olhos de uma mulher que não seja da mesma família que a dele e vice-versa. O olfato está ligado aos rituais de limpeza (ablução) antes das orações.

Já o tato — o sentido menos valorizado na constatação da pesquisadora — está relacionado ao fato de homens e mulheres não se tocarem da mesma maneira como ocorre na cultura ocidental. A audição é o sentido mais valorizado. “O profeta Mohammad [fundador do islamismo] ouviu as revelações do arcanjo Gabriel e passou o conhecimento adiante. É uma cultura que valoriza o ouvir e o falar”, explica.

Obviamente a antropóloga tomou os devidos cuidados. Mas é estranho o informe notificar que lá, no Islã, os 5 sentidos "são modelados". Para serem modelados, temos que apontar a referência: modelados diante da nossa cultura? Nisso, qual cultura não é "modelada"?
 
De todo modo, o fato de apontar para os 5 sentidos denota um traço muito interessante nessa pesquisa. No limite, demonstra que dentro de nossa sociedade existem modos de vida alheios, de uma religião que não se resume a rituais, e avança na prática concreta e no cotidiano (e o Ramadã é um exemplo).
 
***
 
E o ministro francês Bernard Kouchner diz que é inevitável uma guerra contra o Irã: "Temos que nos preparar para o pior, e o pior é a guerra". Isso tudo diante das declarações recorrentes de que o Irã não utiliza energia nuclear para a Bomba.
 
Diante de tanta convicção, no dia em que a guerra chegar poderíamos sugerir um plebiscito na França: o sr. Bernard poderia muito bem servir na linha de frente, defendendo com o mesmo ardor essa idéia, não é mesmo?
 
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E por "motivos de segurança" impedirão a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao "marco zero" do WTC em NY:
As autoridades de Nova York rejeitaram um pedido do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, para visitar o Marco Zero, local onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center, derrubadas nos ataques de 11 de Setembro de 2001.

Segundo um porta-voz do Departamento de Polícia de Nova York, Paul Browne, o local está fechado para visitantes devido a obras no terreno.

Browne disse que o pedido de visita do presidente iraniano seria negado "por motivos de segurança".

Browne afirmou que Ahmadinejad pediu permissão para a visita ao Departamento de Polícia de Nova York, ao Serviço Secreto americano e à Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey.

Espere aí: o presidente do Irã - supostamente ligado a insurgentes no Iraque, que por sua vez é supostamente detentor de armas de destruição em massa e parceiro da Al Qaeda, que por sua vez supostamente legitimou a invasão do Afeganistão - não poderá acessar o marco zero por motivos "de segurança", é isso?

September 17, 2007

Controle suas emoções (1950)


O vídeo acima é uma espécie de programa de instrução sobre como controlar as emoções. Como vários vídeos e livros difundidos até o nascimento da literatura de auto-ajuda (lembremos que esse termo é bem recente), esse tipo de instrução sempre trouxe uma espécie de fascínio: eram os “cientistas”, “psicólogos”, “especialistas”, e afins, que entendiam de comportamento, e traziam o entendimento do comportamento correto para a prática cotidiana.

Nesse vídeo em questão, é curioso notar: o “especialista”, sério e equilibrado, explica o comportamento emocional com base em um esquema estímulo-resposta. Atualmente - e já era assim nos anos 50 - sabe-se que tal tipo de modelo explicativo não consegue dar conta de comportamentos complexos, e nisso constam também os comportamentos emocionais.

Mas o que se mostra mais interessante, nisso tudo, é que no fundo parece não haver necessidade de um princípio explicativo que dê conta da prescrição. Basta ela mesma. O especialista poderia adotar tanto esse esquema S-R, como qualquer outro, e a prescrição permaneceria em pé.

O que tudo isso diz? Que, em diversos momentos, certos tipos de relação são dadas como legítimas sem uma discussão prévia que as legitime. Em outras palavras, certas práticas sociais são dadas como evidentes e corretas simplesmente pelo pressuposto de partirem dos especialistas. Como na velha falácia do argumento de autoridade, com a diferença de que há algo mais do que o mero convencimento em jogo. Especialmente quando tal prescrição atinge o estatuto de comunicação de massa.

September 16, 2007

Gustav Fechner em dois livros

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Para quem não conhece, Gustav Fechner é considerado um dos "criadores" da psicologia moderna, ao elaborar a famosa Lei de Fechner.

Também tinha inclinações místicas. É o que mostram duas raridades, sobre a questão da vida após a morte. Um dos livros abaixo é do punho do próprio Fechner (com um prefácio de William James). Outro, um comentário, de Hugo Wernekke. Duas edições originais, e preciosíssimas:

O "Pequeno Livro da Vida após a Morte" adquire curiosas nuances, sabendo que em jogo, na Lei de Fechner, figura precisamente as relações entre o psiquismo e o corpo, ou entre a física e o mundo psíquico.