September 10, 2007
O que pode um cérebro?
(Essa vai para certos tipos de programas que vemos por aí.
) O que pode um cérebro? Essa pergunta é feita hoje em dia pelos mais diversos meios de divulgação da ciência, especialmente pela mídia de massa. Diz-se muito sobre o ‘poder do cérebro’, dos ‘cuidados’ para com ele, do que pode fazer, e dos grandes ’segredos’ da verdade sobre esse órgão. Mas, enfim, o que pode um cérebro?
Em primeiro lugar, um cérebro pode, quando obviamente ‘ligado’ (estar ligado já é redundante) ao corpo vivo qual faz parte, emitir uma série de sinais elétricos. Junto a esses sinais, é um complexo órgão que envolve toda uma cadeia de células e substâncias que, com os impulsos elétricos - e o corpo vivo a ele ‘ligado’ - auxiliam a auto-regulação de um organismo. Enfim, um cérebro - como os outros órgãos - preserva um corpo vivo, e faz parte das relações sistemáticas e funcionais inerentes ao organismo.
Há cérebros das mais diversas formas e valores: por exemplo, existe um estatuto quase sacro relativo a cérebros de determinados cientistas. Já se ousou inclusive, na moda da frenologia, buscar estudar o cérebro de ‘gênios’ como Descartes. Por outro lado, certos cérebros valem menos do que sujeira. As fotos não mostradas pela ‘mídia maior’, dos cérebros estourados e estraçalhados de muitos "insurgentes" afegãos e iraquianos - quase uma papa grotesca no asfalto -, definitivamente valem menos do que comida de urubu. E muitos menos do que os cérebros que puxaram os gatilhos. Estes, estavam apenas "cumprindo ordens", antes de ordenar (não é o cérebro que ordena?) que os dedos e braços e corpo movessem a arma.
Mas aí chegamos a um resultado curioso: um cérebro, como um órgão, não faz mais do que intercambiar substâncias e ativar suas relações funcionais com os outros órgãos. Nesse nível de análise, um cérebro não puxa um gatilho, ou cumpre ordens, ou mesmo passa a valer algo ou nada. O que pode um cérebro, quando fazemos essa pergunta, limita-se a buscar compreender como é que um órgão se relaciona funcionalmente com outros, e interfere funcionalmente nas relações do próprio organismo. Ainda nesse nível, um cérebro não possui peso, culpa, ou valor algum. Grosso modo, é uma massa mole repleta de ativações. Não pode nada que não seja apreendido sob uma relação com as funções vitais do organismo.
As perguntas sobre o que pode um cérebro são o carro-chefe de uma série de modismos, especialmente apresentados pela mídia, e resultantes de uma série de livros oportunistas de auto-ajuda. Apresenta-se o homem em programas de TV como num programa da National Geographic: um animal - ou melhor, um cérebro - na savana, se comportando diante de olhos estupefatos, nossos próprios olhos. Poderíamos ser nós mesmos aqueles animais filmados, fazendo coisas a partir de seus cérebros. A filmagem se apresenta com a seriedade de um segredo - a ‘verdade do homem’ - prestes a ser revelado. E aí aparece uma nova mistura: aqueles homens do dia-a-dia, que somos nós, aparecem como uma peça de dissecação em laboratório, como animais de savana, experimentos etológicos, enfim, como cérebros. Como se não houvesse valor algum que não fosse o de instrumento.
Mas se o homem aparece como um cérebro no meio de uma savana, sem nada mais que possa explicá-lo, surge uma pergunta crucial: não seriam aqueles mesmos que mostram os cérebros se comportando por trás das câmeras e dos pareceres, enfim os próprios analisadores, também "animais de savana"? Se o homem é uma espécie de instrumento delimitado por uma análise biológica em espaço aberto, esse outro homem que analisa a nós mesmos, o que é? Fatidicamente, também um instrumento. E a pergunta se torna mais interessante, e mais perigosa: o homem que encara os outros homens como instrumentos, é ele mesmo instrumento de quê?
A análise da "literatura" sobre o que podemos e devemos fazer com nossos cérebros abunda nas respostas: desde o uso do cérebro nas organizações, nas entrevistas de emprego, no flerte, e em qualquer outra esfera da nossa vida, impõe um tipo curioso de análise. Aquela mesma análise descompromissada de um órgão se mistura com o compromisso de nós mesmos com nossa própria vida. Com uma função muito bem delimitada: a de criar receitas, padrões, modos de comportamento para o "bom cérebro". E a resposta sobre o "bom cérebro" dá-se de antemão: é o cérebro do bom empregado (também do bom desempregado), do conquistador, empreendedor, "criativo" (será que Van Gogh tinha, nesses padrões, um cérebro "bom"?), dinâmico… Como os "bons cérebros", sadios e cumpridores de ordens mencionados acima.
Quando se fala em "cérebro", o órgão se relaciona com a noção geral de "vida", ou em outras palavras, de uma análise biológica dos seres vivos. A "vida" em geral é a vida enquanto organismo, nível de análise que compartilhamos com os outros animais. Quando, porém, a "vida" é a própria vida concreta, cotidiana, o dia-a-dia carregado de valores dos seres humanos, o nível de análise não se reduz ao de um cérebro na savana. Salta portanto aos olhos como toda uma série de campanhas informativas busca misturar os dois níveis: a pergunta pelo que pode um cérebro mistura-se ao que podemos ou devemos fazer com nossas próprias vidas. A ‘vida’ humana, criadora de valores, achatada na ‘vida’ biológica em geral, da normatividade. O problema é quando essa normatividade, noção essencialmente ligada à noção de ‘vida’ (biológica), busca sair de seu domínio, e ditar os padrões da nossa própria vida concreta. A normatividade deixa de ser a da ‘vida’ em geral, para ser a do homem-instrumento, ou a de cérebros que puxam gatilhos sem ao menos se perguntarem sobre o que estão fazendo. Um pouco menos do que homens, um pouco mais do que animais, estão apenas "cumprindo ordens".
- Sobre essa relação cérebro x pensamento x vida, é muito interessante um texto linkado acima, chamado "Cérebro e Pensamento", da autoria de Georges Canguilhem. Vale muito a pena ler.
- tags:cerebro dicas vida auto ajuda viver bem mente organismo biologia


_Maga Says —
Aodrei o texto, Catatau!
Em especial esta frase: “O que pode um cérebro, quando fazemos essa pergunta, limita-se a buscar compreender como é que um órgão se relaciona funcionalmente com outros, e interfere funcionalmente nas relações do próprio organismo.” linda! linda! (rs)
É um problema sério quando profissionais - em especial da area da psicologia - ao se deparar com uma questão para a qual ainda não tem uma explicação satisfatória coloquem toda a responsabilidade no cérebro. Ao fazer isso explicação está ignorando o organismo “como um todo” (filogenetica), a história de vida (ontogenetica e cultural)e ainda o ambiente atual do organismo (as contingências que estão atuando sobre organismo naquele momento. (sim sim… estou fazendo uma análise funcional… sou uma chata assumida, mesmo rs). Uma explicação “cerebral” provavelmente não ajudará muito na resolução do problema (talvez até torne o problema, assim explicado, como insolúvel…).
Estava discutindo esse assunto com o Robson outro dia, espero que tanto ele quanto o Leandro comentem o tópico… rs
beijos
RE: É verdade, Marcela. Como já vimos no post do Robson, é aquela história: em vários contextos, tanto faz dizer que é ou não o cérebro que realiza uma operação; isso é inteiramente redundante! O que não quer dizer que, nas neurociências, não haja importância. Aí é que por excelência o cérebro é “célebre” (como diz o Leandro), heheh
bjs,
Made on September 10, 2007 @ 2:40 am
Peterson Colares Says —
Sobre esta pergunta, remete-me à outra, da dupla Deleuze/Spinoza: O que pode um corpo? Ninguém sabe do que um corpo é capaz, em termos de afetos e de sua potência de agir. Já o cérebro, enquanto matéria, passa pelo que vc diz no texto, uma série de conexões bioquímicas, mas o cérebro está no mundo. A ordem que é dada para que o soldado puxe o gatilho passa pelo estímulo sináptico, mas ela se inicia fora, no mundo, onde é possível existirem pessoas que matam apenas porque outras mandam. E mesmo que cheguemos a controlar comportamentos através de estímulos ou drogas (como já se faz), continuará sendo de “fora”. O cérebro está no mundo!
Abraços, companheiro!
Made on September 10, 2007 @ 7:24 pm
leandro Says —
É isso aí, “o que pode um corpo”.
A coisificação da pessoa, agora em partes. Como desenhar com o lado direto do cérebro. Aliás, nada mais simples: basta desenhar com a mão esquerda.
Vc vai escrever o prefácio (ou o pré-difícil) do “Célebre Cérebro”, hein?
Abraço!
Made on September 11, 2007 @ 11:30 am
Rafael Says —
Ainda estou um pouco aquém de participar das discussões nos comentários sobre este estilo de posts.
=)
Made on September 11, 2007 @ 10:25 pm
Peterson Colares Says —
Leandro, não querendo me meter - na verdade nem entendi se vc se referia ao texto do catatau ou ao meu comentário - mas se a segunda opção bate, é… Vc não o leu, não é? Não tem coisificação em nada ali, pelo contrário… Trata-se do corpo como potência do ser, e não como objeto físico nomeado, “coisificado”… E quando digo, copiando descadaramente o Deleuze, que o cérebro tá no mundo, é justamente porque este mundo através dos códigos que procura a clivagem do corpo, que é mais complexa que mera “coisificação”, e que o cérebro não se resume aos seus movimentos sinápticos, mas enfim…
Made on September 11, 2007 @ 10:56 pm
leandro Says —
Peterson, eu li o seu comentário e gostei. Por isso disse “é isso aí”.
O outro parágrafo é outro assunto, uma breve crítica a como estão tratando o cérebro por aí (não é o seu comentário e nem o texto do catatau).
Perdoe-me se me expressei mal.
Made on September 12, 2007 @ 4:32 pm