September 18, 2007

Sobre os tesouros arqueológicos do Iraque atual

 img48/324/20050615adf8239682029loaq3.jpg
As sociedades rurais iraquianas são bem diferentes das nossas. Seu conceito de "civilizações antigas" e "herança" não coincidem com os estabelecidos por nossos próprios estudiosos. História é limitada às estórias e glórias de seus ancestrais diretos, e sua tribo. Então, para eles, o "berço da civilização" é nada mais que deserto com "regiões" de cerâmica, que eles tem o direito de explorar, sobretudo, por serem senhores de sua terra e donos de suas posses. Do mesmo modo, caso fossem capazes, essas pessoas não hesitariam em tomar o controle dos campos de petróleo, poque essa é "sua terra". Pela vida no deserto ser dura e por terem sido "esquecidos" por todos os governos, sua "vingança" nessa realidade é monitorar e aproveitar toda pequena oportunidade de ganhar dinheiro. Um selo, uma escultura ou uma tábua cuneiforme vale $50 (25 libras) e é metade do salário médio de alguém empregado pelo governo, no Iraque. Os saqueadores são notificados pelos compradores que para um objeto ter validade, deve conter alguma inscrição. No iraque, os fazendeiros consideram suas atividades de "saque" como parte de um dia normal de trabalho.
Esse relato pertence a um dos últimos artigos de Robert Fisk, a respeito dos cuidados para com o patrimônio histórico iraquiano.
 
Desde a ocupação, esse tipo de informação permaneceu uma incógnita: como são tratados os tesouros históricos e arqueológicos de lá? Quase nada se disse. A despeito de dados arqueológicos, o mais próximo que encontrei foi o de um soldado evangélico norte-americano, muito surpreso por se deparar com uma suposta moradia de Abraão. Um blog muito interessante é o IW&A, especificamente sobre arqueologia, mas cujas atualizações foram suspensas. Mas vale muito a pena explorar. A foto acima é um achado do blog, retirada de um site do Departamento de Defesa norte-americano. Esse outro blog comenta a respeito de um "baralho" chamado Archaeology Awareness cards (aludindo aquele outro, de alvos iraquianos), precisamente sobre tesouros arqueológicos.
 
Uma coisa, em todo caso, é certa: outros "tesouros" por lá não padecem de ausência de cuidado algum ;)
 
*** 
 
Falando em islã, uma antropóloga brasileira terminou uma pesquisa de doutorado com muçulmanos brasileiros:
A partir de uma análise antropológica do universo islâmico em comunidades muçulmanas de São Paulo e de São Bernardo do Campo, a antropóloga Francirosy Campos Barbosa Ferreira constatou que o ser muçulmano, além de significar uma entrega total a Deus por meio das orações — e das palavras, gestos e ações que a acompanham —, representa uma entrega corporal que envolve os cinco sentidos.
 
(…) Em sua pesquisa, a antropóloga observou a presença de um “comportamento restaurado” no mundo muçulmano. Esse conceito, criado pelo diretor de teatro americano Richard Schechner inspirado pelos trabalhos dos antropólogos Clifford Geertz e Victor Turner, propõe que a performance teatral é adquirida por meio da experiência, ou seja, da repetição e do constante aprimoramento das ações e do comportamento.
 
(…)São esses comportamentos, ou performances, que irão modelar os cinco sentidos. De acordo com a antropóloga, o paladar é diferenciado porque há uma série de alimentos que não podem ser consumidos. A visão é treinada para um comportamento mais recatado: um homem não deve olhar nos olhos de uma mulher que não seja da mesma família que a dele e vice-versa. O olfato está ligado aos rituais de limpeza (ablução) antes das orações.

Já o tato — o sentido menos valorizado na constatação da pesquisadora — está relacionado ao fato de homens e mulheres não se tocarem da mesma maneira como ocorre na cultura ocidental. A audição é o sentido mais valorizado. “O profeta Mohammad [fundador do islamismo] ouviu as revelações do arcanjo Gabriel e passou o conhecimento adiante. É uma cultura que valoriza o ouvir e o falar”, explica.

Obviamente a antropóloga tomou os devidos cuidados. Mas é estranho o informe notificar que lá, no Islã, os 5 sentidos "são modelados". Para serem modelados, temos que apontar a referência: modelados diante da nossa cultura? Nisso, qual cultura não é "modelada"?
 
De todo modo, o fato de apontar para os 5 sentidos denota um traço muito interessante nessa pesquisa. No limite, demonstra que dentro de nossa sociedade existem modos de vida alheios, de uma religião que não se resume a rituais, e avança na prática concreta e no cotidiano (e o Ramadã é um exemplo).
 
***
 
E o ministro francês Bernard Kouchner diz que é inevitável uma guerra contra o Irã: "Temos que nos preparar para o pior, e o pior é a guerra". Isso tudo diante das declarações recorrentes de que o Irã não utiliza energia nuclear para a Bomba.
 
Diante de tanta convicção, no dia em que a guerra chegar poderíamos sugerir um plebiscito na França: o sr. Bernard poderia muito bem servir na linha de frente, defendendo com o mesmo ardor essa idéia, não é mesmo?
 
*** 
E por "motivos de segurança" impedirão a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao "marco zero" do WTC em NY:
As autoridades de Nova York rejeitaram um pedido do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, para visitar o Marco Zero, local onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center, derrubadas nos ataques de 11 de Setembro de 2001.

Segundo um porta-voz do Departamento de Polícia de Nova York, Paul Browne, o local está fechado para visitantes devido a obras no terreno.

Browne disse que o pedido de visita do presidente iraniano seria negado "por motivos de segurança".

Browne afirmou que Ahmadinejad pediu permissão para a visita ao Departamento de Polícia de Nova York, ao Serviço Secreto americano e à Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey.

Espere aí: o presidente do Irã - supostamente ligado a insurgentes no Iraque, que por sua vez é supostamente detentor de armas de destruição em massa e parceiro da Al Qaeda, que por sua vez supostamente legitimou a invasão do Afeganistão - não poderá acessar o marco zero por motivos "de segurança", é isso?



2 Comments »

  1. Alba Says

    Maravilha de post! Extremamente rico de possibilidades de interpretação.

    Acho apenas engraçada essa fúria gaulesa contra o Irã.

    De toda forma, desculpe, estou numa fase de me desintoxicar do vício de escrever em blogs, embora o seu seja ótimo! :)

    RE: É verdade, acho muito legal isso no Robert Fisk, ao contrário do que dizem alguns dos seus críticos. Veja só, no mínimo temos dois ‘lados’, e Fisk não está considerando de saída nenhum dos dois como o absolutamente correto (embora seja declaradamente contra a invasão): o dos invasores, e o dos camponeses.
    Essa fúria repentina francesa, seria um sintoma da gripe Sarkozy?
    E quanto a blogs, esse troço de intoxicação é fogo mesmo, heheh
    abração,

    Made on September 19, 2007 @ 3:38 am

  2. Inagaki Says

    Logo mais alguém “descobre” armas de destruição em massa no Irã. Em tempo: obrigado pela ótima dica do IW&A!

    RE: Às ordi!
    E ainda tem esse gancho da energia nuclear… Mas para invadir o Irã (bem melhor estruturado que o Iraque e o Afeganistão), aí quero ver como será. Especialmente porque os EUA dividem forças no Iraque e no Afeganistão. Veremos alianças com mais países, e ainda mais uso de armas de destruição em massa, contra as supostas iranianas? Que futuro!
    abração,

    Made on September 19, 2007 @ 11:51 am

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.