September 26, 2007

Carros, “egoísmo”, e bicicletas

Da ocasião do falecimento do filósofo André Gorz, o O Estrangeiro publicou um texto intitulado A ideologia social do carro a motor. Vários trechos interessantes, como o que segue:
A massificação do automóvel efetua um triunfo absoluto do ideologia burguesa no nível da vida diária. Dá e sustenta em todos a ilusão de que cada indivíduo pode procurar o seu próprio benefício às custas de todos os demais. Leva ao egoísmo cruel e agressivo do motorista que em todos os momentos está figurativamente matando os "outros", que aparecem meramente como obstáculos físicos à sua velocidade. Este egoísmo competidor e agressivo marca a chegada do comportamento universal burguês, e tem existido desde que dirigir tornou-se lugar comum. ("você nunca terá o socialismo com aquele tipo de pessoas", um amigo alemão ocidental me disse, triste ao ver o espetáculo do tráfego de Paris).
O leitor "direitista" pode ter a interpretação que quiser, especialmente sobre o termo "burguês". Aliás, o próprio Gorz se sente bem à vontade utilizando esse termo e assumindo uma posição alheia tanto à "direita" quanto à "esquerda". Uma coisa, contudo, não se pode negar: a convivência pública, o ir e vir, pautando-se pela individualidade e pelo egoísmo. "Egoísmo" não se refere ao sentido passional, mas a projetar privilégios privados na esfera pública. Daí basta sairmos de casa para vermos "egoísmos" para todo lado. Andar de bicicleta, nisso tudo, é por vezes uma aventura bem interessante. 

12 Comments »

  1. Brancaleone Says

    Péra aí!!!!
    Comuna é contra carros tambem? Celulares? Computadores? Casa própria? Todas estas coisas que qualquer humano normal que trabalha quer ter?
    Receber um salário e com ele comprar um carros é “direitismo capitalistóide”?
    É crime a propriedade de um carro?
    E se for um carro cooperativado ou coletivizado?

    Fala sério. Coisa de intelectual comunista que não tem o que falar ou não sabe dirigir ou não trabalhou o suficiente para comprar um carro.
    Ele que ande a pé e deixa a gente em paz…

    Made on September 26, 2007 @ 12:34 am

  2. leandro Says

    O Brancaleone aí de cima deve ter ficado irritado depois de tanto tempo no congestionamento.

    Made on September 26, 2007 @ 3:56 am

  3. A. Says

    Hm… andar de bicicleta? Isso não é… um idealismo juvenil meio alegrinho, não?

    E, Brancaleone, nenhum comuna no sentido maiúsculo do termo jamais defenderia uma coisa dessas. Estivesse a Unisovi aí, provavelmente ela seria a maior poluidora do mundo…

    Ah, belos tempos de Guerra Fria… d:

    Made on September 26, 2007 @ 4:06 am

  4. Robson Says

    Andar de bicicleta é a solução ideal. Para quem mora perto do trabalho. Para quem mora longe, a solução do transporte coletivo seria o ideal. Mas o Brasil ainda deixa a desejar nessa categoria.

    Uma possível solução é um sistema de caronas…
    O que não pode continuar é esse monte de carros por aí.

    Abraço.

    Made on September 26, 2007 @ 10:31 am

  5. Catatau Says

    Ae gente,

    Não tem jeito de tentarmos desenvolver alguma interpretação que não perpasse as picuinhas estereotipadas entre esquerdistas e direitistas? Foi essa a intenção do link na palavra “direitistas”, embora foi meio discreto.

    Poxa, dizer que o comunismo ocorreu na Rússia é a mesma coisa que dizer que vivemos verdadeiramente numa livre sociedade de mercado, que preserva igualdade de oportunidades e de condições: no mínimo, inexato! No caso dos liberais, aceitando esse princípio teríamos que dizer que os pobres são assim pq são vagabundos. As inutilidades abundariam, mas não entramos na questão de um modo satisfatório…

    Ainda, a questão do carro e da bicicleta não veio para dizer necessariamente “abandonemos o carro”. A questão está mais embaixo, no que se colocou na noção de “egoísmo”.

    Escrevi esse post porque ontem estava andando de bicicleta e vi um ciclista atropelar uma senhora, cair por cima dela, não a socorrer direito, e ainda sair logo após o atropelamento, descaso total. Ora, o cara estava de bicicleta…

    Made on September 26, 2007 @ 1:20 pm

  6. A. Says

    Opa, Catatau, aí depende da definição de capitalismo e de comunismo. Se v. pegar as definições materialistas históricas, vivemos sob o capitalismo sim; no mesmo sentido, nunca houve o tal modo de produção comunista. Por outro lado, se v. usar as definições austríacas de liberalismo, não haverá país liberal no mundo. Acho que é isso. (:

    Então depende do plano conceitual e tal.

    Agora, o que eu quis dizer ao falar dos comunistas originais é o seguinte: da mesma maneira em que eles idolatravam a energia nuclear, não se importariam em poluir adoidados as vias moscovitas. Mesmo porque o ambientalismo seria apenas uma nova forma da ideologia burguesa. (:

    Made on September 26, 2007 @ 4:00 pm

  7. A. Says

    Putz. Perdi meu comentário anterior inteiro… acho que vou aproveitar e escrever um texto no Palatando. Rá. Pode ser útil.

    RE: Tá ali, Adriano, não sei pq o comentário foi para a aprovação.
    Aí é que está, um capitalista pode não concordar que a definição do comunista de que vivemos em um capitalismo seja correta. Isso porque nosso “capitalismo” (em sentido bem amplo) não realizaria todas as regras prescrita por vários de seus formuladores (liberdade e iniciativa individuais, propriedade privada, laissez faire, igualdade de condições e oportunidades, livre empreendedorismo…). O mesmo em relação aos capitalistas julgando o “comunismo” russo: podem não corresponder aos próprios ideais “marxistas”.
    Mas a questão talvez seja mais embaixo, perguntando sobre o tipo de sociedade que vivemos de fato, e não sobre qual deveríamos viver de direito. Talvez seja um bom caminho a seguir
    abração,

    Made on September 26, 2007 @ 4:02 pm

  8. arq Says

    Sugiro conhecer o trabalho do arquiteto que é objeto da seguinte matéria:

    http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=205

    RE: Um texto muito interessante, já estou lendo!
    um abraço,

    Made on September 26, 2007 @ 6:49 pm

  9. Carlos Maia Says

    Gosto de andar de bicicleta. A cidade com outro ângulo e outros olhos. A solidão do carro tira perspectivas. Caminhar e correr também é muito bom. A exceção do RJ, tem poucas ciclovias no Brasil. Uma pequena correção, o filósofo André Gorz é austríaco. saudações plurais.

    RE: Obrigado pela correção, Maia. Mas permaneço com a dúvida se não é francês mesmo, mas de todo modo retirei a nacionalidade (rssss)
    O sistema de ciclovias do Rio é bom mesmo? Reclamamos bte de Curitiba, embora parece que até tenham várias ciclovias comparadando com outras cidades…
    um abraço,

    Acabei de ver que é austríaco mesmo, heheh
    abração,

    Made on September 27, 2007 @ 12:32 am

  10. carlos maia Says

    Catatau, na Folha hoje deu que ele Gorz era francês e matou a mulher doente e se suicidou (deu uma de Althusser) e no wikipédia a informação é de que ele nasceu na Austria. Confesso que pouco sei sobre esse filósofo, além de ter sido amigo de Sartre e de Marcuse. A dúvida permanece no ar.

    Made on September 27, 2007 @ 6:25 pm

  11. Renato Says

    O brancaleone confunde muito as coisas. Trabalhar para ter! Que tristeza, lentamente as pessoas vão absorvendo a propaganda e a mente de consumo vai anulando o que existe de bom nos seres humanos. O egoísmo do ter apaga qualquer distinção entre o justo, o correto, o moral. A questão não é mais sobre ser comunista, socialista ou capitalista, mas combater este estado de egoísmo, onde o eu prevalece sobre o nós. Apesar da bicicleta ser um meio de transporte individual, ela pouco interfere no ambiente onde nós vivemos. É śo isto, para parecer mais simplista.

    RE: Acho que vc toca em um ponto muito bom, Renato, que uma democracia não se faz pela possibilidade de trabalhar para “ter” as coisas, mas pelo ponto de partida de tê-las. Isso foge ao ponto de como uma sociedade se faz. Mas, de todo modo, o aspecto privado numa sociedade democrática deve ser garantido. Sobra a convivência pública, e aí não há como não se dirigir aos outros.
    A bicicleta nada mais é do que um instrumento, como o carro e outros. Mas ela oferece discussão, ao meu ver, precisamente nesse aspecto ‘democrático’.
    abração,

    Made on September 29, 2007 @ 1:08 pm

  12. _Maga Says

    Vou deixar uma citação apenas:

    “O problema com a maioria das formas de transporte, pensou, é que basicamente não valem a pena. Na Terra — quando havia a Terra, antes de ser demolida para dar lugar a uma via expressa hiperespacial — o problema tinha sido com os carros. As desvantagens envolvidas em arrancar montes de lodo preto viscoso do subsolo onde tinha estado escondido em segurança longe de todo mal, transformá-lo em piche para cobrir o chão, fumaça para infestar o ar e espalhar o resto pelo mar, tudo isso parecia descompensar as vantangens aparentes de se poder chegar mais rápido a um outro lugar — especialmente quando o lugar a que se chegava tinha ficado, como resultado, muito parecido com o lugar de que se tinha saído, ou seja, coberto de piche, cheio de fumaça e sem peixe.” Douglas Adams - O Restaurante do Fim do Universo

    Beijos

    RE: Òtima citação, simplesmente disse tudo, heheheh
    bjs,

    Made on September 30, 2007 @ 4:13 am

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