September 28, 2007
Personal Friend
Agora inventaram o Personal Friend:
Seus amigos não te ouvem? Está se sentindo só? Não tem companhia para dar uma volta no shopping? Seus problemas acabaram! Depois do personal trainer e do personal stylist, um novo profissional batizado com o modismo do prefixo em inglês chega ao mercado para atender aos solitários de plantão: o amigo de aluguel.
O personal friend (ou amigo pessoal), criação do empresário carioca Silvério Veloso, de 42 anos, surgiu em novembro do ano passado. A um preço que restringe a clientela a membros das classes média e média alta - R$ 300 por sessão, com duração de 50 minutos - ele já conta com cerca de 20 "amigos" fiéis.
- É como se eles estivessem comprando mesmo um amigo. A gente conversa sobre tudo. A pessoa fala o que quiser, é um amigo de confiança que ela tem ali, mas é tudo profissional - explica Silvério, graduado em educação física, com mestrado em gestão de negócios e especialização em empreendedorismo comportamental.
Escritório itinerante: O personal friend faz questão de enfatizar que não entra no ramo da psicologia. Seu diferencial seria o fato de ir aonde o cliente está. Sem escritório fixo, Silvério realiza as sessões em shoppings, restaurantes ou numa caminhada no calçadão
Espera aí: psicólogo é amigo em consultório? Uma relação amistosa entre cliente e serviço, na qual o serviço é a própria amizade, é uma relação de amizade?
Sempre houveram vínculos de amizade entre clientes e prestadores. Mas que estatuto damos à amizade, agora que ela é o próprio conteúdo da prestação de serviços?
O que torna uma atividade interessante imaginar como será no futuro o "mercado" de amigos: currículos nas agências de emprego, entrevistas, consultorias, amigos coletivos para motivação nas empresas, organizações terceirizadas…
Como o que vai para a entrevista com o currículo de "personal friend". Senta-se na cadeira, e para dar tom de credibilidade, menciona: "Fui indicado pelo Sr. Fulano". O entrevistador dá-se conta, e pensa: espere aí, se Fulano me indicou um personal friend, não deve ser meu amigo. Quem indicaria um personal friend? 
***
Uma descrição da função (no título, "Homem- hetero, personal friend"):
Ser Amigo Profissional, de forma Ética e Moral, acompanhando pessoas individuais, família, ou grupos de negócios, nas mais variadas situações, desde uma simples caminhada nos shoppings ou parques, a passeios por outras cidades ou eventos comerciais, de forma descontraída, ouvinte e motivadora, através de uma postura séria, para que a pessoa possa sentir-se segura e confortável com privacidade e sigilo preservados.
Outra descrição ("homem hetero - personal friend (mulheres)" ):
Você anda sem companhia para se divertir? Precisa de alguém para conversar? Sente-se sozinha? Personal Friend. Atencioso, simpático e inteligente. Qualquer dia ou horário. Roteiros personalizados. Sigilo absoluto.
Ainda, um anúncio de jornal. A coisa começa a se alastrar. Interessante também é elucidar o que significa esse "empreendedorismo comportamental".





12 Comments »
leandro Says —
Impossível não rir de uma situação dessa. Nada mais “Organizações Tabajara” do que isso…
Made on September 28, 2007 @ 1:33 am
Robson Says —
Que medo! Muito medo!
Acho que vou entrar na profissão. Psicólogos raramente cobram 300 a sessão.
Medo!
Made on September 28, 2007 @ 9:54 am
Alba Says —
Eu li sobre isso no Estadão e achei bem curioso. Parece, inclusive, que há mercado, já que existe um paulista também oferecendo o serviço, ainda que a taxas menores
Há pano pra manga, imagino, para discutir o narcisismo, a solidão, essas coisas. Seria legal que alguém da área comentasse, acho.
RE: Ali estão dois ótimos comentários e indicações, Alba: do Artur e da Neuzi
abração,
Made on September 28, 2007 @ 1:25 pm
Artur Says —
Grande Catatau, estamos numa cultura onde existe o sentimento de uma inconcebível solitude interior, para utilizar a belíssima fórmula de Weber.
Peço licença para especular: é o preço da nossa liberdade, a solidão? A individualidade moderna não precisa de guia e referências externas. O indivíduo julga o mundo por si e de si mesmo. São indivíduos, avant la lettre, que não têm destino, fazem o seu destino; que não percebem sentido no mundo, projetam seu sentido. Sua forma de estar-no-mundo passa pela exteriorização da sua interioridade.
Talvez, o “personal friend” signifique o fracasso do indivíduo-soberano. O indivíduo está só, mas está “livre”. Fabrica projetos, procura motivações, pede comunicação. Não vai ter mais medo da culpa, pois ficará apavorado com o fracasso. Pois é… passamos da culpa para a responsabilidade. O indivíduo começa a sentir o peso da liberdade e da soberania da individualidade.
Não causa surpresa que a doença do espírito nesse início de milênio não seja uma baseada no conflito. Através do conflito, o indivíduo era/é capaz de manter uma separação entre o que é possível e o que é permitido. Separando-se de si, era/é possível encontrar uma unidade. Não a encontrando, o indivíduo podia incorporar a doença-paradigma do excesso de disciplina: a histeria, a neurose do conflito.
Agora, não, a doença do espírito é outra: entregue a si mesmo, o indivíduo sofrerá, caso fracasse, a doença do começo do milênio: a depressão, a doença da responsabilidade individual. A busca compulsiva pela felicidade e/ou a busca solitária pela realização pessoal podem ser sintomas de liberdade, mas têm um preço alto a pagar: o fracasso. A depressão, nesse sentido, é sintoma de fracasso, de déficit, de ausência, de perda da iniciativa, do malogro da responsabilidade, da tragédia da insuficiência, da história de uma individuação impossível…
Solitários. Até a amizade escafedeu-se nesse mundo velho e enfadado. Somos um poço de frescuras (hehe…), por isso precisamos de “personal friend”!
RE: Oi Artur,
Excelente comentário! Especialmente na questão da exteriorização da individualidade, e da depressão como mal dessa época. Interessante a constatar que essa ‘individualidade’ exteriorizada é a privada, a dos desejos, da personalidade e da história individual. Ora, basta citar Freud para vermos como projetos de tal espécie “egoísta” são destinados ao fracasso. As pessoas deixam de lado uma relação de pessoa a pessoa, para subsumir o mundo ao desejo privado… aí todo projeto só pode dar errado, pois de saída é um projeto ilusório.
Quanto à depressão, vem a reforçar esse aspecto, da individualidade privada projetada no mundo. Mas tem outras coisas aí, precisamente a de como o homem não se separa mais do que faz…
abração,
Made on September 28, 2007 @ 2:09 pm
Cássio Augusto Says —
É cada coisa que esta sociedade individualista inventa!!!
Made on September 28, 2007 @ 4:22 pm
Neuzi Says —
No volume 6 daqueles cadernos Saúdeloucura (maravilhosos), tem um artigo chamado Cidades da Falta (não lembro quem é o autor e estou sem ele aqui no momento), que já fala da existência desses serviços em Tóquio. Não só amigos, mas filhos netos, avós, pais, enfim, para que pensar sobre o vazio dos lares se é bem mais prático preenchê-los com afetos artificiais, eficazes e lucrativos… e aceita devolução, você nem precisa conviver mais com a alteridade, basta saber olhar os catálogos e encomendar um parente o mais próximo possível do seu ideal familiar.
Made on September 28, 2007 @ 6:13 pm
Catatau via Rec6 Says —
Personal Friend
Depois do Personal Trainer e do Personal Stylist, inventaram agora o “Personal Friend”
Made on September 28, 2007 @ 9:20 pm
_Maga Says —
A descrição no primeiro anuncio parece mais o de um “guia turistico” ou de “promotor de passeios” ou algo que o valha. Longe de um amigo.
O segundo… bem, tem certeza que ele não estava na sessão de “massagistas”? rs
Estou com o Robson: vou entrar para o ramo. O que eles estão chamando de amizade, ou seja, contatos sociais superficiais, são a minha especialidade. Eu quero é ver um desses conseguir fazer com que a pessoa se sinta realmente acolhida, segura, intima.
Algo assim:
“… começou a falar sobre amizade. De como a amizade poderia atravessar as décadas e como ele poderia encontrar um amigo que fazia trinta anos que não encontrava e mesmo assim começar uma conversa como se ela tivesse sido interrompida ontem. Pois esse é o princípio básico da amizade. Amigos não fazem cobranças. Amigos não se perdem com o tempo. Amigos que se conquistam não são derrubados pela insegurança do tempo, pela maledicência alheia, pela mesquinhez do dinheiro e a estupidez dos escravos do trabalho. A amizade é um sentimento puro. A amizade, essa bendita palavra derivada de amor, mas muito mais importante que o amor, pois este pode ser egoísta ou possessivo, é o sentimento que nos torna livres para sermos nós mesmos. E quanto mais uma pessoa exerce a sua própria individualidade, a sua personalidade se expandindo nas almas alheias, a sua vivência e sua dedicação, não ao convívio besta da sociedade babaca, mas sim, ao que ela realmente acredita e que é a essência do seu ser, mais essa pessoa conquista o bem maior que levamos da vida. Os amigos.” Marcelo Benvenutti - trecho do conto O Funeral
E sobre terapeuta ser amigo em consultório dois pontos:
1. Terapeuta não é amigo. Apesar de a terapia compartilhar de características da amizade, ela é uma relação onde um profissional capacitado busca formas de trabalhar certos aspectos da vida do cliente com os quais ele não está conseguindo lidar sozinho. (eu sei que você sabe disse, mas nunca é tarde lembrar… e lógico que está é uma “definição” bem tortinha… rs).
2. Não necessariamente o trabalho do terateuta tem de acontecer no consultório ou em outro espaço institucionalizado. Foi lançado a pouco um livro sobre o trabalho do Acompanhante Terapeutico (AT), não tive acesso a ele ainda, mas conheço o sistema de trabalho e é interessante.
Sobre o livro:
http://www3.ufpa.br/scphubfs/images/sum%C1rio.pdf
Beijos
RE: Questo. No fim das contas, vc mostra que uma amizade profissional onde o conteúdo da ‘profissão’ é a própria amizade só pode ser uma contradição.
E outra, boas chamadas de atenção quanto às diferenças, e ainda mais mencionando o AT!
bjs,
Made on September 30, 2007 @ 4:09 am
Eduardo Says —
E tem idiota que contrata isso?
Que merda hein!
R$300,00 dá pra pegar uma puta muito gata, esse personal friend transa?
RE: Pior que, pelo que parece…
Made on September 30, 2007 @ 9:16 pm
rose Says —
gostaria de saber onde tem cursos para formar o Persinal Friends em São Paulo, envie-me informações de escolas e pessoas Idôneas e Dentro da Lei.
Made on April 5, 2008 @ 3:21 pm
rose Says —
envie-me informações sobre cursos de Personal Friends em São Paulo.
Made on April 5, 2008 @ 3:23 pm
Catatau Says —
Rose,
Recomendo para você antes um curso de alfabetização. Você LEU o que está escrito acima?
Made on April 5, 2008 @ 3:39 pm
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